Ingenuidade

Enquanto os membros daquilo a que chamam Comissão Parlamentar de Inquérito digladiam adornados pelo sarcasmo do bicheiro, tentando encobrir os esqueletos mostrados de dentro de seus armários, ela cede seu CPF para um bando de estelionatários que rouba dinheiro de pessoas que acreditam no que parece ser verdade. Ela atende pelo nome de Evelyn Lima Pereira e é conhecida como Oficial de Justiça de um suposto “Departamento Administrativo de Previdencia Privada”. Assim mesmo, sem o acento. O papel tem marca d’água. A redação é correta, a não ser pela ausência do nome do “MM Juiz” que define data e valor do reembolso… Tem gente que se presta… Enquanto isso, espalhados pelo rincão nacional, pessoas se reúnem e debatem sobre o desprezo e a leviandade com que o “governo” trata os educadores do país. Alguma novidade? Durante esse prélio diário, a ex-catadora de lixo, que posa agora de madame de subúrbio carioca – com direito a trejeitos e ademanes de senhora religiosa – tem sua vida devassada pela soberba do “paizinho” que, para preservar a boa vida de comer, beber e dormir – deixando de lado qualquer comentário sobre seu péssimo gosto no vestir… mas tudo não passa de ficção – abre o bico e revela um dos muitos segredos que ainda insistem em prometer para os próximos meses. O que se há de fazer? O endereço do bando de ladrões sem escrúpulos existe: Rua Jandiro Joaquim Pereira, 359, em São Paulo (com CEP e telefone). Os dois comparsas são o signatário do ofício, Dr. Paulo Eduardo Sancler (alguém conhece?), que assina “Diretor do Departamento Financeiro” e sua mandalete: Dra. Ana Laura. Ah… ainda existe um tal Dr. Bitencur (ou será Bittencourt ou ainda Bitencurte…? Vai saber…). Cambada de ladrões…

 

“A confiança do ingénuo é a arma mais útil do mentiroso.”

Stephen King

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Primeira

 

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A bandeira do arcoíris era feita de papel e as faixas de cores coladas com fita adesiva e grampeadas. A percussão, formada de latas de tinta. Os bastões eram pedaços de cabo de vassoura. Os cartazes ream pedaços de caixa de papelão desmanchadas, escritas com tinta de aquarela e/ou com pincel atômico. As palavras de ordem eram criativas e montadas ao sabor do momento: “E daí, eu também sou travesti”, “Cidadão, pensa direito, com educação não existe preconceito”, “Eu amo homem, amo mulher, tenho direito de amar quem eu quiser”. Cada uma delas acompanhada por um ritmo diferente do “som” que as latas, um tanto amassadas depois do pequeno trecho percorrido, produziam, chamando a atenção dos passantes, de quem chegava e de quem estava às janelas dos/nos sobradões. Alguns motoristas acompanavam a latomia com a buzina. Uma algazarra organizada. E eu estava lá, segurando meu guarda-chuva colorido (também com as cores do arcoíris)! Uma forma participativa de dar apoio à marcha contra homofobia que, infelizmente, tem grassado pelos campi de Mariana e Ouro Preto. Muita coisa triste e ruim e agressiva tem se passado e, aos poucos, a gente vai tomando conhecimento e vai se indignando. De quebra, os estudantes faziam reinvindicações a favor da educação brasileira. A marcha fou uma das manifestações de apoio à greve dos docentes… É ter fé e esperança de que alguma coisa aconteça “de fato”.

Cadê o filme?

Foi no dia seis, na virada do dia. A notícia (já esperada) chegou… de repente. Contradição? Sim, por que a vida é contaditória, assim como a morte. Inexplicável, apesar de esperada. Como disse o poeta, “a indesejada das gentes”. Foram 55 anos, nove meses e seis dias de convivência. Aas turbulências e as concordâncias, inumeráveis. Os divertimentos e as tristezas, da mesma forma. Muitas lições e contradições. Nos momentos finais, a expressão, cândida e sincera, às vezes pomposa e retórica, davam notícia de sua performance como ser humano. Aquela dúvida crucial que sempre me acompanhou desde uma noite perdida no tempo, enquanto procurávamos, um amigo e eu, pelo local onde estaria sendo velado o pai dele, num sábado à noite que foi encoberto pela notícia inesperada, eu fiquei olhando para aquele homem sozinho. Literalmente abandonado numa sala obscura de um velório público, sem nem uma vela, sem ninguém. E eu perguntei: para onde foi o sorriso e a dor, a esperança e os equívocos, a respiração? Aquele sopro que o bebê solta e que foge do corpo assim, sem “explicação”. Essa dúvida me assalta, de novo, desde a manhã do domingo, seis de maio. Constato agora, estupefato, que foi no mesmo dia que Maria Luíza, com quem pouco convivi, mas cheguei a conhecer um pouco, também se foi. Meu pai morreu. A vida parece suspensa. Até quando, não sei dizer… penso que não será precisoo saber. Cadê o filme?

Parábola triste

 

Não sei quem é o autor. Recebi numa mensagem de um amigo. A contundência é inquestionável e me vi na situação descrita pelo velho da história. É triste, mas inegável…

O ano é 2020 D.C., ou seja, daqui a nove anos, e uma conversa entre
avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:
– Vovô, por que o mundo está acabando?
A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom
vem a resposta:
– Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.
– Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?
O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres
elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito
culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam
as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo
e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam
as pessoas a pensar.
– Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?
– Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes
professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos
alunos.
– E como foi que eles desapareceram, vovô?
– Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial,
que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô
não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os
políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de
avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação.
Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados.
Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais
interessados conseguiam aprender alguma coisa. Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer “eu estou pagando e você tem que me ensinar”, ou “para que estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você” ou ainda “meu pai me dá mais de mesada do que você ganha”. Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na
qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”. O professores eram vítimas da violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo. Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. “Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular”, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de idéias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério. Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se
tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos,
jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão – enfim, pessoas sem nenhuma formação ou contribuição real para a sociedade.

ATENÇÃO: Qualquer semelhança com a situação deste País ultrajado e
saqueado por políticos quadrilheiros e mafiosos, não é mera
coincidência.

Retorno

 

Reproduzo aqui um texto do colega Flávio Rezende, com meus pitacos em vermelho, como já fiz outras vezes. O texto dele (mantido aqui na íntegra, sem nenhuma “intervenção” de minha parte) me deu coceira no cérebro e eu decidir coçar-me, intrometendo-me em seara alheia, por solidariedade e concordância. O texto dele foi-me enviado por e-mail, por ele mesmo!

 

A mediocridade ainda é necessária

Flávio Rezende
escritorflaviorezende@gmail.com
     Para que possamos viver cada vez melhor em nossa amada casa, o planeta Terra, precisamos estar sempre em processo evolutivo. Diante desta necessidade, surgem muitas discussões no entorno do assunto, com uns achando que a materialidade exagerada não se constitui em evolução, uma vez que leva o ser a escravidão em torno de objetos e de posses, afastando o mais importante, sua essência espiritual da divindade. (A dúvida persiste e é marca da inteligência humana. Se bem que, às vezes, isso a que denominamos “inteligência” não seja dessa forma percebido tão claramente.)
     Tem ainda aqueles que não estão interessados em espiritualidade e querem mesmo é que mais e mais objetos sejam inventados, facilitando cada vez mais a vida do homem, ao ponto dele não precisar mais fazer quase nada a não ser apertar botões e ter acesso a um mundo de informações, entretenimento virtual, comidas em casa e, já uma realidade, sexo com bonecos e afeto com aparelhinhos diversos. (Eis um exemplo disso que pode ser confundido com “inteligência”. Os índices e ícones do que se convencionou chamar de conforto, felicidade, comodidade e quejandos não podem, simplesmente, ser tomados em grau absoluto, fazendo tábula rasa da diversidade!)
     Como devemos sempre respeitar a vontade de cada um, vamos indo cada qual com sua posição. (Não é isso respeito à liberdade indivisual e à diversidade, como dito acima?) Diante desta questão e de muitas outras, temos pessoas em vários níveis. Umas que só reproduzem comportamentos e repetem opiniões alheias (Infelizmente esse “padrão” tem grassado na face do planeta…) e, outros, com discernimento próprio e pesquisas pessoais em várias direções. A vida na Terra sempre foi assim, com pessoas de nível elevado vivendo junto com outros que são chamadas por uns de boi de presépio ou de Maria vai com as outras. (Feliz ou infelizmente, cada um tem direito à sua opinião!)
     Recentemente, ao ler um estiloso e bem escrito artigo sobre Baudelaire, o realmente inspirado escritor chamou outros escritores aqui da cidade de medíocres. (Atenção, etimologicamente, como bem sabe o Flávio, tem o sentido de mediano, comum, que está na média… A pejoração vem – ou pode vir – depois, só depois!!! Afinal, linguagem e discurso são universos concorrentes, em todos os sentidos!) A palavra é pesada, mas, seu julgamento pode ser verdadeiro. Entre outros companheiros de escritos, citou meu nome, provocando reflexões em meu ser. Depois de pensar um pouco, cheguei à conclusão de que nós, os medíocres, também temos nossa importância e merecemos ocupar espaços literários e jornalísticos. (O que seria da realidade se não fossem suas duas faces? Moedas não têm face única, dia e noite, branco e preto, a duplicidade é condição mínima de existência da ideia de equilíbrio…)
     Levando em conta que a grande maioria da população não é tão avançada em termos de letramento e de aprofundamento em textos mais bem escritos, (Como “medir” isso? Parâmetros não são convencionados? O que é, no fundo, no fundo, mais bem escrito ou menos bem escrito? Evoé, subjetividade!)  tendo certa dificuldade de compreender o pensamento daqueles mais inteligentes, cabe aos ditos medíocres exercerem seus tributos de escrevinhadores de uma maneira mais próxima da média, contribuindo assim para que muitos possam ter acesso e entendimento a reflexões diversas. (Tenho preguiça e quase nenhuma paciência com quem “se julga” mais “inteligente”. Mais uma vez, parece-me absurdo elevar o “relativo” à categoria axiomática de “absoluto”!)
     Pode ser um consolo ou a simples aplicação do “jogo do contente”, aquele em que Pollyanna Whittier, uma jovem órfã utilizava como filosofia de vida, tendo sempre uma atitude otimista, encontrando algo para se estar contente, em qualquer situação. (Síndrome de Pollyanna pode, sim – e é disso sintoma –, ser arma de fracos e covardes, presunçosos que não acreditam que um dia também vão ser esquecidos e virar pó!) Fraco para uns e entendível e claro para outros, não devemos, nós – os medíocres – nos intimidar diante de colocações públicas de nossas fragilidades literárias, afinal, acredito que nós também somos necessários. (Amigo, medíocres são os que conseguem ver bem “além do jardim”, para blaguear certo filme instigante de tempos outros…!)

Flávio Rezende, escritor, jornalista e ativista social em Natal/RN