Cartas…

Alguma coisa acontece… Fico, às vezes, sem  escrever aqui. Às vezes, como das últimas vezes, escrevo aleatoriamente. À parte os amigos fieis, quase mais ninguém se manifesta. Isso não é assim tão ruim. Quando coloco alguma coisa que diz respeito às incongruências da vida – para usar expressão genérica e abrangente – recebo muitos comentários alheios: daqueles a quem ainda não conheço. Isso se deu quando postei comunicado sobre uma quadrilha da ladrões que andam roubando as pessoas usando cpf emprestado e muita educação no tratamento telefônico para roubar. Simplesmente isso: roubar. Recebi uns tantos comentários… Quando coloco algum texto mais alentado ou alguma coisa que faz pensar – adoro repassar mensagens e textos recebidos por e-mail que me dizem alguma coisa – Nada…!

Hoje vai mais um texto recebido pelo Facebook de uma amiga mais que querida – perdão pelo cacófato… Trata-se de uma carta, indignada. É uma dessas cartas que protestam, com inteligência e elegância, sobre alguns dos muitos descalabros que, infelizmente, se abateram sobre a terra brasilis, faz um tempinho… Eu assinaria embaixo, se me fosse pedido. Partilho aqui como forma de fazer ecoar esta mesma indignaçao.

Será que vou receber comentários?

Carta de uma ex-professora, ex-vereadora, fazendeira, mineira, de 74 anos, para a presidente Dilma.
Muito bem escrita. Vale a pena ler.

BRASIL CARINHOSO
Bom dia, dona Dilma!
Eu também assisti ao seu pronunciamento risonho e maternal na véspera do Dia das Mães. Como cidadã da classe média, mãe, avó e bisavó, pagadora de impostos escorchantes descontados na fonte no meu contracheque de professora aposentada da rede pública mineira e em cada Nota Fiscal Avulsa de Produtora Rural, fiquei preocupada com o anúncio do BRASIL CARINHOSO.
Brincando de mamãe Noel, dona Dilma? Em ano de eleição municipalista? Faça-me o favor, senhora presidentA! É preciso que o Brasil crie um mecanismo bastante severo de controle dos impulsos eleitoreiros dos seus executivos (presidente da república, governador e prefeito) para que as matracas de fazer voto sejam banidas da História do Brasil.
Setenta reais per capita para as famílias miseráveis que têm filhos entre 0 a 06 anos foi um gesto bastante generoso que vai estimular o convívio familiar destas pessoas, porque elas irão, com certeza, reunir sob o mesmo teto o maior número de dependentes para “engordar” sua renda. Por outro lado, mulheres e homens miseráveis irão correndo para a cama fazer filhos de cinco em cinco anos. Este é, sem dúvida, um plano quinquenal engenhoso de estímulo à vagabundagem, claramente expresso nas diversas bolsas-esmola do governo do PT.
É muito fácil dar bom dia com chapéu alheio. É muito fácil fazer gracinha, jogar para a plateia. É fácil e é um sintoma evidente de que se trabalha (que se governa, no seu caso) irresponsavelmente. Não falo pelos outros, dona Dilma. Falo por mim. Não votei na senhora. Sou bastante madura, bastante politizada, marxista, sobrevivente da ditadura militar e radicalmente nacionalista. Eu jamais votei nem votarei num petista, simplesmente porque a cartilha doutrinária do PT é raivosa e burra. E o governo é paternalista, provedor, pragmático no mau sentido, e delirante. Vocês são adeptos do “quanto pior, melhor”. São discricionários, praticantes do “bullying” mais indecente da História do Brasil.
Em 1988, a Assembleia Nacional Constituinte, numa queda-de-braço espetacular, legou ao Brasil uma Carta Magna bastante democrática e moderna. No seu Art. 5º está escrito que todos são iguais perante a lei*. Aí, quando o PT foi ao paraíso, ele completou esta disposição, enfiando goela abaixo das camadas sociais pagadoras de imposto seu modus governandi a partir do qual todos são iguais perante a lei, menos os que são diferentes: os beneficiários das cotas e das bolsas-esmola. A partir de vocês. Sr. Luís Inácio e dona Dilma, negro é negro, pobre é pobre e miserável é miserável. E a Constituição que vá para a pqp. Vocês selecionaram estes brasileiros e brasileiras, colocaram-nos no tronco, como eu faço com o meu gado, e os marcaram com ferro quente, para não deixar dúvida de que são mal-nascidos. Não fizeram propriamente uma exclusão, mas fizeram, com certeza, publicamente, uma apartação étnica e social. E o PROUNI se transformou num balcão de empréstimo pró escolas superiores particulares de qualidade bem duvidosa, convalidadas pelo Ministério de Educação. Faculdades capengas, que estavam na UTI financeira e deveriam ter sido fechadas a bem da moralidade, da ética e da saúde intelectual, empresarial, cultural e política do País. A Câmara Federal endoidou? O Senado endoidou? O STJ endoidou? O ex-presidente e a atual presidentA endoidaram? Na década de 60 e 70 a gente lutou por uma escola de qualidade, laica, gratuita e democrática. A senhora disse que estava lá, nesta trincheira, se esqueceu disto, dona Dilma?

Oi, por favor, alguém pare o trem que eu quero descer! Uma escola pública decente, realista, sintonizada com um País empreendedor, com uma grade curricular objetiva, com professores bem remunerados, bem preparados, orgulhosos da carreira, felizes, é disto que o Brasil precisa. Para ontem. De ensino técnico, profissionalizante. Para ontem. Nossa grade curricular é tão superficial e supérflua, que o aluno chega ao final do ensino médio incapaz de conjugar um verbo, incapaz de localizar a oração principal de um período composto por coordenação. Não sabe tabuada. Não sabe regra de 3. Não sabe calcular juros. Não sabe o nome dos Estados nem de suas capitais. Em casa não sabe consertar o ferro de passar roupa. Não é capaz de fritar um ovo. O estudante e a estudantA brasileiros só servem para prestar vestibular, para mais nada. E tomar bomba, o que é mais triste. Nossos meninos e jovens leem (quando leem), mas não compreendem o que leram. Estamos na rabeira do mundo, dona Dilma. Acorde! Digo isto com conhecimento de causa porque domino o assunto. Fui a vida toda professora regente da escola pública mineira, por opção política e ideológica, apesar da humilhação a que Minas submete seus professores. A educação de Minas é uma vergonha, a senhora é mineira (é?), sabe disto tanto quanto eu. Meu contracheque confirma o que estou informando. Seu presente para as mães miseráveis seria muito mais aplaudido se anunciasse apenas duas decisões: um programa nacional de planejamento familiar a partir do seu exemplo, como mãe de uma única filha, e uma escola de um turno só, de doze horas. Não sabe como fazer isto? Eu ajudo. Releia Josué de Castro, A GEOGRAFIA DA FOME. Releia Anísio Teixeira. Releia tudo de Darcy Ribeiro. Revisite os governos gaúcho e fluminense de seu meio-conterrâneo e companheiro de PDT, Leonel Brizola. Convide o senador Cristovam Buarque para um café-amigo, mesmo que a Casa Civil torça o nariz. Ele tem o mapa da mina. A senhora se lembra dos CIEPs? É disto que o Brasil precisa. De escola em tempo integral, igual para as crianças e adolescentes de todas as camadas, miseráveis ou milionárias. Escola com quatro refeições diárias, escova de dente e banho. E aulas objetivas, evidentemente. Com biblioteca, auditório e natação. Com um jardim bem cuidado, sombreado, prazeroso. Com uma baita horta, para aprendizado dos alunos e abastecimento da cantina. Escola adequada para os de zero a seis, para estudantes de ensino fundamental e para os de ensino médio, em instalações individuais para um máximo de quinhentos alunos por prédio. Escola no bairro, virando a esquina de casa. De zero a dezessete anos. Dê um pulinho na Finlândia, dona Dilma. No aerolula dá pra chegar num piscar de olhos. Vá até lá ver como se gerencia a educação pública com responsabilidade e resultado. Enquanto os finlandeses amam a escola, os brasileiros a depredam. Lá eles permanecem. Aqui a evasão é exorbitante. Educação custa caro? Depende do ponto de vista de quem analisa. Só que educação não é despesa. É investimento. E tem que ser feita por qualquer gestor minimamente sério e minimamente inteligente. Povo educado ganha mais, consome mais, come mais corretamente, adoece menos e recolhe mais imposto para as burras dos governos. Vale a pena investir mais em educação do que em caridade, pelo menos assim penso eu, materialista convicta.
Antes que eu me esqueça e para ser bem clara: planejamento familiar não tem nada a ver com controle de natalidade. Aliás, é a única medida capaz de evitar a legalização do controle de natalidade, que é uma medida indesejável, apesar de alguns países precisarem recorrer a ela. Uberlândia, inspirada na lei de Cascavel, Paraná, aprovou, em novembro de 1992, a lei do planejamento familiar. Nossa cidade foi a segunda do Brasil a tomar esta iniciativa, antecipando-se ao SUS. Eu, vereadora à época, fui a autora da mesma e declaro isto sem nenhuma vaidade, apenas para a senhora saber com quem está falando.
Sra. PresidentA, mesmo não tendo votado na senhora, torço pelo sucesso do seu governo como mulher e como cidadã. Mas a maior torcida é para que não lhe falte discernimento, saúde nem coragem para empunhar o chicote e bater forte, se for preciso. A primeira chibatada é o seu veto a este Código Florestal, que ainda está muito ruim, precisado de muito amadurecimento e aprendizado. O planeta terra é muito mais importante do que o lucro do agronegócio e a histeria da reforma agrária fajuta que vocês estão promovendo. Sou fazendeira e ao mesmo tempo educadora ambiental. Exatamente por isto não perco a sensatez. Deixe o Congresso pensar um pouco mais, afinal, pensar não dói e eles estão em Brasília, bem instalados e bem remunerados, para isto mesmo. E acautele-se durante o processo eleitoral que se aproxima. Pega mal quando um político usa a máquina para beneficiar seu partido e sua base aliada. Outros usaram? E daí? A senhora não é “os outros”. A senhora á a senhora, eleita pelo povo brasileiro para ser a presidentA do Brasil, e não a presidentA de um partidinho de aluguel, qualquer. Se conselho fosse bom a gente não dava, vendia. Sei disto, é claro. Assim mesmo vou aconselhá-la a pedir desculpas às outras mães excluídas do seu presente: as mães da classe média baixa, da classe média média, da classe média alta, e da classe dominante, sabe por quê? Porque somos nós, com marido ou sem marido, que, junto com os homens produtivos, geradores de empregos, pagadores de impostos, sustentamos a carruagem milionária e a corte perdulária do seu governo tendencioso, refém do PT e da base aliada oportunista e voraz.
A senhora, confinada no seu palácio, conhece ao vivo os beneficiários do Bolsa-família? Os muitos que eu conheço se recusam a aceitar qualquer trabalho de carteira assinada, por medo de perder o benefício. Estou firmemente convencida de que este novo programa, BRASIL CARINHOSO, além de não solucionar o problema de ninguém, ainda tem o condão de produzir uma casta inoperante, parasita social, sem qualificação profissional, que não levará nosso País a lugar nenhum. E, o que é mais grave, com o excesso de propaganda institucional feita incessantemente pelo governo petista na última década, o Brasil está na mira dos desempregados do mundo inteiro, a maioria qualificada, que entrarão por todas as portas e ocuparão todos os empregos disponíveis, se contentando até mesmo com a informalidade. E aí os brasileiros e brasileiras vão ficar chupando prego, entregues ao deus-dará, na ociosidade que os levará à delinquência e às drogas.
Quem cala, consente. Eu não me calo. Aos setenta e quatro anos, o que eu mais queria era poder envelhecer despreocupada, apesar da pancadaria de 1964. Isto não está sendo possível. Apesar de ter lutado a vida toda para criar meus cinco filhos, de ter educado milhares de alunos na rede pública, o País que eu vou legar aos meus descendentes ainda está na estaca zero, com uma legislação que deu a todos a obrigação de votar e o direito de votar e ser votado, mas gostou da sacanagem de manter a maioria silenciosa no ostracismo social, desprecisada e desinteressada de enfrentar o desafio de lutar por um lugar ao sol, de ganhar o pão com o suor do seu rosto. Sem dignidade mas com um título de eleitor na mão, pronto para depositar um voto na urna, a favor do político paizão/mãezona que lhe dá alguma coisa. Dar o peixe, ao invés de ensinar a pescar, esta foi a escolha de vocês.
A senhora não pediu minha opinião, mas vai mandar a fatura para eu pagar. Vai. Tomou esta decisão sem me consultar. Num país com taxa de crescimento industrial abaixo de zero, eu, agropecuarista, burro-de-carga brasileiro, me dou o direito de pensar em voz alta e o dever de me colocar publicamente contra este cafuné na cabeça dos miseráveis. Vocês não chegaram ao poder agora. Já faz nove anos, pense bem! Torraram uma grana preta com o FOME ZERO, o bolsa-escola, o bolsa-família, o vale-gás, as ONGs fajutas e outras esmolas que tais. Esta sangria nos cofres públicos não salvou ninguém? Não refrescou “niente”? Gostaria que a senhora me mandasse o mapeamento do Brasil miserável e uma cópia dos estudos feitos para avaliar o quantitativo de miseráveis apurado pelo Palácio do Planalto antes do anúncio do BRASIL CARINHOSO. Quero fazer uma continha de multiplicar e outra de dividir, só para saber qual a parte que me toca nesta chamada de capital. Democracia é isto, minha cara. Transparência. Não ofende. Não dói.
Ah, antes que eu me esqueça, a palavra certa é PRESIDENTE. Não sou impertinente nem desrespeitosa, sou apenas professora de latim, francês e português. Por favor, corrija esta informação. Se eu mandar esta correspondência pelo correio, talvez ela pare na Casa Civil ou nas mãos de algum assessor censor e a senhora nunca saberá que desagradou alguém em algum lugar. Então vai pela internet. Com pessoas públicas a gente fala publicamente para que alguém, ciente, discorde ou concorde. O contraditório é muito saudável.
Não gostei e desaprovo o BRASIL CARINHOSO. Até o nome me incomoda. R$2,00 (dois reais) por dia para cada familiar de quem tem em casa uma criança de zero a seis anos, é uma esmolinha bem insignificante, bem insultuosa, não é não, dona Dilma? Carinho de presidentA da república do Brasil neste momento, no meu conceito, é uma campanha institucional a favor da vasectomia e da laqueadura em quem já produziu dois filhos. É mais creche institucional e laica. Mais escola pública e laica em tempo integral com quatro refeições diárias. É professor dentro da sala de aula, do laboratório, competente e bem remunerado. É ensino profissionalizante e gente capacitada para o mercado de trabalho. Eu podia vociferar contra os descalabros do poder público, fazer da corrupção escandalosa o meu assunto para esta catilinária. Mas não. Prefiro me ocupar de algo mais grave, muitíssimo mais grave, que é um desvio de conduta de líderes políticos desonestos, chamado populismo, utilizado para destruir a dignidade da massa ignara. Aliciar as classes sociais menos favorecidas é indecente e profundamente desonesto. Eles são ingênuos, pobres de espírito, analfabetos, excluídos? Os miseráveis são. Mas votam, como qualquer cidadão produtivo, pagador de impostos. Esta é a jogada. Suja. A televisão mostra ininterruptamente imagens de desespero social. Neste momento em todos os países, pobres, emergentes ou ricos, a população luta, grita, protesta, mata, morre, reivindicando oportunidade de trabalho. Enquanto isto, aqui no País das Maravilhas, a presidente risonha e ricamente produzida anuncia um programa de estímulo à vagabundagem. Estamos na contramão da História, dona Dilma!
Pode ter certeza de que a senhora conseguiu agredir a inteligência da minoria de brasileiros e brasileiras que mourejam dia após dia para sustentar a máquina extraviada do governo petista.
Último lembrete: a pobreza é uma consequência da esmola. Corta a esmola que a pobreza acaba, como dois mais dois são quatro. Não me leve a mal por este protesto público. Tenho obrigação de protestar, sabe por quê? Porque, de cada delírio seu, quem paga a conta sou eu.
Atenciosamente,
Martha de Freitas Azevedo Pannunzio
Fazenda Água Limpa, Uberlândia, em 16-05-2012
marthapannunzio@hotmail.com CPF nº 394172806-78
*CONSTITUIÇÃO FEDERAL
TÍTULO II
Dos Direitos e Garantias Fundamentais
CAPÍTULO I
DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição.

Anúncios

Pensar…

Muitas vezes, agente não presta atenção a coisas que passam diante dos olhos. Às vezes, perde-se muito. Às vezes, é um alívio. Guardadas as devidas proporções, o texto que recebi numa mensagem enviada por um amigo muito querido (tenho a  impressão de já ter lido este texto alhures), fala de coisas plausíveis, reais, consequentes e plenas de sentido. Foi escrito por uma mulher, mas guardando as mesmas proporções, servem para os homens também… Ainda que, em algumas passagens, eu pressinta olores sexistas… mas não o li com olhar crítico e, sim, curioso! Trsnponho aqui, literalmente, o referido texto…

 

 

Regina de Castro Pompeu, terceira colocada no concurso “Prêmios Longevidade Bradesco de Jornalismo, Histórias de Vida”, com o texto “De repente, 60”

 

De forma despretensiosa, inscrevi um texto no concurso Prêmios Longevidade Bradesco Histórias de Vida. Estou chegando de São Paulo, onde fui participar da premiação. Mandaram um motorista me buscar e me trazer e fiquei num super-hotel nos Jardins, acompanhada de meu príncipe consorte rsrsrssr.
Entre quase 200 concorrentes, conquistei o 3o lugar, com direito a troféu e diploma. Mas, sinto como se tivesse recebido o Oscar, pois os primeiros colocados foram jovens Que trabalharam por alguns anos para escrever histórias que mereciam ser contadas. Meu texto foi o único produzido pela própria protagonista. O tema central era o relacionamento inter-geracional. Quase caí da cadeira quando Nicete Bruno, jurada especial me perguntou: “Você é a Regina? Queria muito conhecê-la. Adorei seu texto!!” Tive, ainda, o privilégio de ser fotografada ao lado da convidada especial, Shirley MacLaine. É muita emoção, que gostaria de compartilhar com vocês. Abaixo, o texto premiado.

DE REPENTE 60 (ou 2×30)
Ao completar sessenta anos, lembrei do filme “De repente 30”, em que a adolescente, em seu aniversário, ansiosa por chegar logo à idade adulta, formula um desejo e se vê repentinamente com trinta anos, sem saber o que aconteceu nesse intervalo. Meu sentimento é semelhante ao dela: perplexidade.
Pergunto a mim mesma: onde foram parar todos esses anos?
Ainda sou aquela menina assustada que entrou pela primeira vez na escola, aquela filha desesperada pela perda precoce da mãe; ainda sou aquela professorinha ingênua que enfrentou sua primeira turma, aquela virgem sonhadora que entrou na igreja, vestida de branco, para um casamento que durou tão pouco!Ainda sou aquela mãe aflita com a primeira febre do filho que hoje tem mais de trinta anos.
Acho que é por isso que engordei, para caber tanta gente, é preciso espaço!
Passei batido pela tal crise dos trinta, pois estava ocupada demais lutando pela sobrevivência.
Os quarenta foram festejados com um baile, enquanto eu ansiava pela aposentadoria na carreira do magistério, que aconteceu quatro anos depois.
Os cinquenta me encontraram construindo uma nova vida, numa nova cidade, num novo posto de trabalho.
Agora, aos sessenta, me pergunto onde está a velhinha que eu esperava ser nesta idade e onde se escondeu a jovem que me olhava do espelho todas as manhãs.
Tive o privilégio de viver uma época de profundas e rápidas transformações em todas as áreas: de Elvis Presley e Sinatra a Michael Jackson, de Beatles e Rolling Stones a Madonna, de Chico e Caetano a Cazuza e Ana Carolina; dos anos de chumbo da ditadura militar às passeatas pelas diretas e impeachment do presidente a um novo país misto de decepções e esperanças; da invenção da pílula e liberação sexual ao bebê de proveta e o pesadelo da AIDS. Testemunhei a conquista dos cinco títulos mundiais do futebol brasileiro (e alguns vexames históricos).
Nasci no ano em que a televisão chegou ao Brasil, mas minha família só conseguiu comprar um aparelho usado dez anos depois e, por meio de suas transmissões,vi a chegada do homem à lua, a queda do muro de Berlim e algumas guerras modernas.
Passei por três reformas ortográficas e tive de aprender a nova linguagem do computador e da internet. Aprendi tanto que foi por meio desta que conheci, aos cinquenta e dois anos, meu companheiro, com quem tenho, desde então, compartilhado as aventuras do viver.
Não me sinto diferente do que era há alguns anos, continuo tendo sonhos, projetos, faço minhas caminhadas matinais com meu cachorro Kaká, pratico ioga, me alimento e durmo bem (apesar das constantes visitas noturnas ao banheiro), gosto de cinema, música, leio muito, viajo para os lugares que um dia sonhei conhecer.
Por dois anos não exerci qualquer atividade profissional, mas voltei a orientar trabalhos acadêmicos e a ministrar algumas disciplinas em turmas de pós-graduação, o que me fez rejuvenescer em contato com os alunos, que têm se beneficiado de minha experiência e com quem tenho aprendido muito mais que ensinado.
Só agora comecei a precisar de óculos para perto (para longe eu uso há muitos anos) e não tinjo os cabelos, pois os brancos são tão poucos que nem se percebe (privilégio que herdei de meu pai, que só começou a ficar grisalho após os setenta anos).
Há marcas do tempo, claro, e não somente rugas e os quilos a mais, mas também cicatrizes, testemunhas de algumas aprendizagens: a do apêndice me traz recordações do aniversário de nove anos passado no hospital; a da cesárea marca minha iniciação como mãe e a mais recente, do câncer de mama (felizmente curado), me lembra diariamente que a vida nos traz surpresas nem sempre agradáveis e que não tenho tempo a perder.
A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo diminuiu, lembro de coisas que aconteceram há mais de cinquenta anos e esqueço as panelas no fogo.
Aliás, a memória (ou sua falta) merece um capítulo à parte: constantemente procuro determinada palavra ou quero lembrar o nome de alguém e começa a brincadeira de esconde-esconde. Tento fórmulas mnemônicas, recito o alfabeto mentalmente e nada! De repente, quando a conversa já mudou de rumo ou o interlocutor já se foi, eis que surge o nome ou palavra, como que zombando de mim…
Mas, do que é que eu estava falando mesmo?
Ah, sim, dos meus sessenta.
Claro que existem vantagens: pagar meia-entrada (idosos, crianças e estudantes têm essa prerrogativa, talvez porque não são considerados pessoas inteiras), atendimento prioritário em filas exclusivas, sentar sem culpa nos bancos reservados do metrô e a TPM passou a significar “Tranquilidade Pós-Menopausa”.
Certamente o saldo é positivo, com muitas dúvidas e apenas uma certeza: tenho mais passado que futuro e vivo o presente intensamente, em minha nova condição de mulher muito sex…agenária!

 

Imaginação

 

Um pouco de graça não faz mal a ninguém… Dizem que o homem é o único animal capaz de rir de si próprio. Também dizem que rir de suas próprias limitações é sinal de sabedoria… Dizem… Pelo sim, pelo não, quando encontro alguma coisa engraçada, gosto de partilhar. Recebi a listinha abaixo de um amigo. Desconheço a autoria, fica o registro, sem o temor de estar me apropriando deo alheio… Se alguém souber quem “criou” a peça, favor fazer sinal de fumaça…

CONSEQUÊNCIAS DA CRISE NA GRÉCIA

1. Zeus vende o trono para uma multinacional chinesa.
2. Aquiles vai tratar o calcanhar na saúde pública.
3. Eros e Pan inauguram prostíbulo.
4. Hércules suspende os 12 trabalhos por falta de pagamento.
5. Narciso vende espelhos para pagar a dívida do cheque especial.
6. O Minotauro puxa carroça para ganhar a vida.
7. Acrópole é vendida e aí é inaugurada uma Igreja Universal do Reino de Zeus.
8. Eurozona rejeita Medusa como negociadora grega: “Ela tem minhocas na cabeça”.
9. Sócrates inaugura Cicuta’s Bar para ganhar uns trocados.
10. Dionisio vende vinhos à beira da estrada de Marathonas.
11. Hermes entrega currículo para trabalhar nos correios. Especialidade: entrega rápida.
12. Afrodite aceita posar nua para a Playboy.
13. Sem dinheiro para pagar os salários, Zeus liberta as ninfas para trabalharem na Eurozona.
14. Ilha de Lesbos abre um resort hétero.
15. Para economizar energia, Diógenes apaga a lanterna.
16. Oráculo de Delfos vaza números do orçamento e provoca pânico nas Bolsas.
17. Áries, deus da guerra, é pegado em flagrante desviando armamento para a guerrilha síria.
18. A caverna de Platão abriga milhares de sem-teto.
19. Descoberto o porquê da crise: os economistas estão falando grego!

5 de Maio

Foi exatamente a um mês… No final de tarde, por volta das cinco, minha mãe e eu falamos com papai pela última vez. Ele não disse nada. A encefalopatia comandava o zigue-zague dos olhos (muito amarelos àquela altura)… nenhuma palavra. Sinais vitais estáveis. O corpo magro e a agitação para se livrar das amarras nos pés e nas mãos. Um quadro triste. Uma experiência para a qual as palavras não encontram ressonância. Um turbilhão de sentimentos que, misturados, deixaram a sensação de vazio. Só sei dizer que ainda sinto minha vida em suspenso. Deve ser isso o que chamam “dor da perda”. Uma dor que não dói. Um sentimento que não tem nome, pobremente traduzido por saudade… vazio…

Remexendo nos papeis, para colocar a vida civil em dia com a nova situação, encontrei uma carta que escrevi para ele, ainda em Zagreb. Foi a forma possível, então, de eu dizer para ele o que diria pessoalmente se aqui estivesse, quando ele recebeu o título de cidadão honorário de Contagem. Segue a carta, sem mais comentários!

 

Papai,

Eu queria ter escrito para você ainda em julho, para e carta chegar antes do dia da entrega do título de cidadão honorário a você. Mas eu não sabia, então, o dia certo. E o final de semestre aqui foi um pouco conturbado por conta da paralisação que tivemos… Resolvi então digitar estas “mal traçadas”… Não gosto de cartas digitadas… Penso que cartas são textos muito pessoais e que devem ser manuscritos, mas as circunstâncias, às vezes, exigem mais flexibilidade da gente!

Bom…, dizer do orgulho que estou sentido por você receber este mais que merecido tí­tulo, é chover no molhado, uma redundância! Dizer que estou um tanto chateado por não ter condições de estar presente, pessoalmente, também é chover no molhado, outra redundância. Por isso não deixo de dizer que estou muito orgulhoso. Este é um senti­mento difícil de definir, ou de colocar em palavras, porque são tantos os aspectos que fazem a gente chegar ao “orgulho” que nem sei…

Uma das coisas que esta minha experiência em Zagreb tem me ensinado é valorizar pequenos gestos, pequenos detalhes, momentos que escapam à visão do panorâmico e que definem a importância de uma cena. Às vezes, abaixar-me para pegar uma moeda que encontro no chão, ou mesmo uma pedra (que eu gosto de colecionar) tem uma im­portância que eu ainda não tinha experimentado antes de vir para cá. O ritmo é outro, as circunstâncias, diferentes, e a percepção que tenho hoje é bem mais tranquila e equilibrada (eu acredito!) que a de antes! Isso quer dizer você gerou, criou e educou um homem que é capaz de perceber os variados matizes que um detalhe do cotidiano pode apresentar. Não existe muita gente no planeta que seja capaz de vivenciar esta situa­ção. O mérito é seu. Seu, até o momento em que eu resolvi tomar as rédeas do direcio­namento de minha própria existência. Este ciclo de vida não é fácil para ninguém, mas eu penso que nós soubemos abordá-lo, vivenciá-lo e “resolvê-lo da melhor maneira que a nossa potencialidade assim o permitiu”! Claro é que nenhum de nós está livre de co­meter erros. O fato é que nós estamos conseguindo sobreviver às dificuldades que o próprio fato de estar vivo impõe a cada um de nós.

Está próximo o “dia dos pais”. O real conteúdo desta data se perdeu por força do esfor­ço mercadológico de transformar certas datas em períodos de tempo em que a “venda” pudesse ser incrementada. A parte este “fato” eu me sinto muito feliz de poder estar escrevendo para você, usando recursos tecnológicos que o mercado propicia para, in­clusive, cumprimentá-lo pelo “seu dia”. Pai e mãe têm um “dia” só para o mercado. To­dos os dias são dias de pais e mães, pelo simples fato de que pais e mães geraram e criaram outros seres que vão dar continuidade a este processo “mágico” que é a vida. Pode ser que esta continuidade não acompanhe os “padrões” que a própria sociedade designou como “normais”. Eu acredito, entretanto, que o simples fato de ter responsa­bilidade pelos meus atos e saber reconhecer o valor da educação que eu recebi são duas “atitudes” que atestam a consistência e a relevância dos valores que você, à sua maneira, me ensinou a respeitar e alimentar. É isso o que importa. Nós todos cometemos erros: pequenos ou grandes, propositais ou involuntários, calculados ou inesperados. As variantes são muitas, porque a existência humana não é uma linha de produção que vai criando objetos iguais. Graças a Deus.

O que eu quero com isso tudo é dizer que eu gostaria imensamente de poder abraçá-lo nesse dia especial, para você, para nós. Do ponto de vista prático, pragmático ou ma­terial, isso não vai ser possível. No entanto, do ponto de vista espiritual é mais que possível, é real, porque a gente acredita que existe uma dimensão outra, uma dimen­são “além” da compreensão “humana” que nos faz crer que o que sentimos pode ser expresso por palavras. E exatamente isso o que eu desejei fazer aqui escrever o que eu sinto nesse momento tão especial para você, meu pai… e para nós, que fazemos parte de sua história!

Que Deus continue abençoando você e que ele me conceda a graça de poder continuar a ser abençoado por você que me gerou, me educou e me orientou para eu ser o que eu sou hoje: um filho orgulhoso.

Um beijo,

Seu filho, Júnior.

Posse

No dia 31 de março, próximo passado, tomei posse na Academia de Letras do Brasil – Mariana, ocupando a cadeira de número 25, cujo patrono é Caio Fernando Abreu. Na ocasião, fiz um discurso sobre o patrono da cadeira que agora ocupo. Abaixo segue o texto e duas fotos do evento.

Foureaux, Cláudia Gomes e Donadon-Leal

Ler Caio Fernando Abreu é como abrir um diário que nunca escrevemos, mas que revela tudo que sentimos e pensamos, tudo que queremos esconder dos outros e de nós mesmos. Esta é a marca registrada de Caio: seus contos jogam na cara da gente coisas que não sabemos sobre nós mesmos, obrigam-nos a fazer uma limpeza interna, pensar sobre o que realmente somos e o que representamos ser. Terrivelmente crua e ao mesmo tempo lírica e delicada, a obra de Caio Fernando nos captura justamente por essas contradições:

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

(ABREU, Caio Fernando. Aqueles dois. In: Morangos mofados. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 132-142.)

Um dos primeiros textos de Caio que li foi o conto “Aqueles dois”, publicado num livro emblemático Morangos mofados. O título desse livro é muito sugestivo e lírico, apesar de, aparentemente e apenas aparentemente, causar sensação de nojo. Mas não, todos os textos constantes do volume são exemplo acabado do mais puro lirismo trágico, marca registrada do autor. O trecho que acabo de ler é a conclusão do conto. O processo de conhecimento, que se desenvolve durante a narrativa, é por demais contundente para deixar dúvidas sobre a profundidade do pensamento de Caio. A humanidade salta aos olhos através dos passos incertos e cambiantes dos dois protagonistas.

Caio Fernando Abreu é considerado um dos mais importantes contistas do Brasil, nome basilar da expressão homoerótica na/da Literatura Brasileira. Referência para jovens escritores, por seu niilismo poético e por sua visão de mundo sem tantos compromissos formais, o autor gaúcho comove e incomoda, questiona e delata, faz poesia e imagem com a palavra. É, da mesma forma, considerado autor pesado e afeito à melancolia, com uma escrita passional e intertextual. Isso se deve ao fato de o escritor ter dado um grande espaço, em sua obra, a temas considerados “pesados” e/ou “não-literários”. Temas que podem ser identificados como sua marca registrada: explicam, em parte, certo silêncio da crítica universitária, hoje mais alerta e interessada. Sua ficção se desenvolve acima de convencionalismos de qualquer ordem, com linguagem fora dos padrões convencionais, em seu tempo. Em seus contos, percebe-se certa velocidade na/da escrita, associada tanto à construção de imagens rápidas, instantâneas, substantivadas, quanto à forma com que estas imagens interagem, se complementam ou se chocam. Há quem diga que sua narrativa é cinematográfica, como é bem o caso de “Sargento Garcia”, conto publicado no mesmo volume, Morangos mofados:

Queria dançar sobre os canteiros, cheio de uma alegria tão maldita que os passantes jamais compreenderiam. Mas não sentia nada. Era assim, então. E ninguém me conhecia.

Subi correndo no primeiro bonde, sem esperar que parasse, sem saber para onde ia. Meu caminho, pensei confuso, meu caminho não cabe nos trilhos de um bonde. Pedi passagem, sentei, estiquei as pernas. Porque ninguém esquece uma mulher como Isadora, repeti sem entender, debruçado na janela aberta, olhando as casas e os verdes do Bonfim. Eu não o conhecia. Eu nunca o tinha visto em toda a minha vida. Uma vez desperta não voltará a dormir. O bonde guinchou na curva. Amanhã, decidi, amanhã sem falta começo a fumar.

(ABREU, Caio Fernando. Sargento Garcia In: Morangos mofados. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 74-90.)

Há que destacar a preferência do autor por certos tipos humanos, inseridos no rol dos socialmente excluídos: prostitutas, travestis, michês, entre outros. O autor procura integrá-los à “realidade”, através de sua ficção. “Sargento Garcia” foi escrito e dedicado à memória de Luiza Felpuda, travesti conhecido em Porto Alegre que, no período militar, era responsável por um bordel que soldados frequentavam para se prostituírem. O autor insere, em sua narrativa, a personagem de Isadora Duncan, outro travesti. A criação dela é uma homenagem à Luiza Felpuda. Embora Isadora seja um travesti, em nenhum momento da narrativa de Caio percebemos a intenção de ridicularizar a imagem do homossexual; não o reduz à caricatura, mas o integra à narrativa, sem intenção de ridicularizá-la.

Nascido em 12 de setembro de 1948, em Santiago do Boqueirão onde quem não rouba é ladrão (hoje apenas Santiago), Caio Fernando Loureiro de Abreu começou precocemente sua carreira. Segundo ele, o primeiro conto de ficção foi escrito aos seis anos, logo que aprendeu a ler e escrever. Alto, magro, de voz fina e com olhos enormes e expressivos, o menino Caio teve muita dificuldade em fazer amizades em sua cidade natal. Aos 15 anos, mudou-se para Porto Alegre, como faziam todos os jovens do interior em busca de melhor qualificação. Sozinho na cidade grande, leu com fervor as obras de Guimarães Rosa, Fiódor Dostoiévski, Marcel Proust, Katherine Mansfield, Graciliano Ramos, Friedrich Nietzsche, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, J.D. Salinger, Herman Hesse, Virginia Woolf e Clarice Lispector, sendo que as duas últimas seriam sua grande inspiração durante toda a vida.

Em 1967, entra para o Instituto de Letras da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Logo começa também um curso de direção teatral, passando a estudar literatura pela manhã e artes dramáticas à noite. Nessa época conhece o futuro escritor João Gilberto Noll, o jornalista Valdir Zwetsch, a pintora Maria Lídia Magliani, parceira de toda vida, e Lya Luft, que foi sua professora e amiga.

Em março de 1968 é selecionado em um concurso para integrar a equipe de jornalistas de uma nova revista da Editora Abril, no qual havia inscrito o conto O príncipe sapo. Abandona a faculdade em Porto alegre e vai para São Paulo ocupar sua vaga no 1º Curso Abril de Jornalismo. Em setembro é lançada a revista, que se chamou Veja (e leia), e da qual acaba demitido meses depois. Procurado pelo DOPS (Departamento de ordem política e social, órgão de repressão do governo) por participar de algumas passeatas de esquerda, vai pela primeira vez para o sítio da escritora Hilda Hilst, em Campinas. Os dois tornam-se amigos e parceiros em seu amor pela literatura. Hilda teve grande influência na vida de Caio. Convivendo com ela e lendo Rainer Maria Rilke, Thomas Mann e Léon Tolstói, o escritor refinou cada vez mais sua sensibilidade na escrita.

Durante a estada de um ano com Hilda, organiza material para editar seu primeiro livro, Inventário do irremediável. Em 1969, vai para o Rio se hospedar na casa da amiga Maria Helena Cardoso e tem muito contato com a cultura hippie. Recebe, então, a notícia de que seu livro ganhara o Prêmio Fernando Chinaglia e mil cruzeiros, mas que o autor teria que arcar com a edição. O livro é publicado em 1970 pela Editora Movimento. Enquanto isso, Caio escreve para o Correio do Povo, O Estado de São Paulo, O Jornal e no Suplemento Literário de Minas Gerais. Dois contos seus saem na coletânea Roda de fogo, uma antologia de contistas gaúchos, ao lado de, dentre outros, Moacyr Scliar. Novamente morando em Porto Alegre, participa como ator do grupo de teatro Província, do amigo Luiz Arthur Nunes.

Em 1971 o romance Limite branco é lançado pela Editora Expressão e Cultura. Nesse ano muda-se novamente para o Rio de Janeiro, indo morar em uma comunidade hippie. Lá escreve grande parte de seu terceiro livro, O ovo apunhalado, publicado anos depois por não passar pela censura da época. Nessa passagem pelo Rio de Janeiro conhece Henrique e Vera Antoun, de cuja família vira amigo e hóspede. É preso por porte de maconha e volta então para a casa dos pais em Porto Alegre.

Trabalha todo o ano de 1972 no jornal Zero Hora e continua colaborando com o Suplemento Literário de Minas Gerais, no qual publica A visita, um dos contos de O ovo apunhalado. O livro ganha o prêmio do Instituto Nacional do Livro, e Caio manda então a obra para concorrer ao Prêmio Nacional de Ficção. Com o dinheiro do primeiro prêmio, parte para a Europa, em abril de 1973, tentando achar um lugar onde houvesse menos repressão e mais liberdade. Passa por Madri, Barcelona, Paris e para em Estocolmo, onde encontra a amiga gaúcha Sandra Laporta. Visita rapidamente a Holanda e a Bélgica. Indo sempre atrás do sonho de virar um grande escritor, completa seus 25 anos morando em Londres, a cidade em que sempre quis estar. Com dificuldade de subsistência no frio britânico, junto com alguns amigos começa a invadir e morar em casas abandonadas, de onde logo eram expulsos.

Em 1974 volta ao Brasil. Seu livro O ovo apunhalado ganha menção honrosa no Prêmio Nacional de Ficção. Caio decide cuidar da edição do livro, que é publicado em 1975 numa co-edição do Instituto Estadual do Livro e Globo. O ovo apunhalado sofre cortes da censura, mas tem boa crítica. Caio sai da casa dos pais e vai morar com o Luiz Arthur Nunes, dramaturgo e diretor teatral. Juntos criam o espetáculo Sarau das 9 às 11. Transfere-se logo para uma comunidade no Jardim Botânico, em Porto Alegre, onde reside com dois amigos do tempo de Londres.

Em 1977 é publicado Pedras de Calcutá, com o material produzido na época em que estava no exterior e com o que escreveu logo após sua volta ao Brasil. Contos do livro já haviam sido publicados nas antologias Assim escrevem os gaúchos, Teia e Histórias de um novo tempo. Muda-se novamente para São Paulo em 78 para trabalhar como editor da revista Pop, a convite de Valdir Zwetsch, e começa a escrever Morangos mofados. Trabalha ainda nesse período nas revistas Nova e Leia livros.

Em 1982, Morangos mofados, seu livro de maior sucesso até então, é lançado pela editora Brasiliense. O início do ano seguinte, marca a terceira tentativa de Caio em morar no Rio de Janeiro. A decisão foi motivada pela jovem Ana Cristina Cesar, com quem manteve amizade intensa e conturbada até o suicídio dela em outubro do mesmo ano. No final de 83, Caio vai a Porto Alegre lançar Triângulo das águas na Feira do Livro. A obra ganha o prêmio Jabuti. Começa também a colaborar com a revista Gallery Around de São Paulo, para a qual envia resenhas, reportagens e assina uma coluna sobre livros. A revista muda o nome para Around e Caio vai novamente para São Paulo trabalhar na redação. O conto “Beatriz, ou o destino desfolhou” é publicado na antologia Ritos de passagem, em 1984. Quando o Estadão cria o Caderno 2,em 1986, Caio é convidado a fazer parte da nova equipe e aceita assumir a editoria de cultura. Em 1987 pede demissão do jornal e passa a trabalhar novamente na revista Around, que já havia mudado novamente o nome (para AZ), mas continua a enviar suas crônicas para o Estadão. Em 1988 faz críticas literárias no programa Leitura livre, da TV Cultura. Nesse ano lança o livro Os dragões não conhecem o paraíso, com o qual ganha seu segundo prêmio Jabuti. Em 1990 o romance Onde andará Dulce Veiga? é lançado pela Companhia das Letras.

Caio não gostava de ser visto como um escritor homossexual. Quando assim era rotulado, dizia: “Se o que eu faço é literatura gay, o que o Verissimo faz é literatura heterossexual? Literatura é literatura, ponto final.” Neste mesmo ano, Os dragões não conhecem o paraíso é o primeiro de seus livros a ser publicado no exterior. Vai à Inglaterra para o lançamento e estoura na mídia. Dá entrevistas para a BBC, para a revista Time Out e para o jornal The independent. Para poder ficar na Europa até o lançamento do livro em francês, Caio lava pratos, trabalha como garçom e faxineiro, como já havia feito em 73. Em março do ano seguinte, vai a Paris para o lançamento da edição francesa. Volta ao Brasil em julho e fica em São Paulo trabalhando na revista Qualis, onde permanece apenas três meses. No começo do ano de 1992 é convidado para fazer crítica literária na revista Playboy e começa a trabalhar na reedição de Limite branco. Em novembro ganha uma bolsa da Maison des Écrivains Étrangers para passar três meses em Saint Nazaire. Nesse tempo, tem que escrever um conto e ceder os direitos autorais à editora Arcane 17.

Em 1993 a novela O leopardo dos mares sai em edição bilíngue pela Arcane. Em meados de 93 volta à Europa para lançar as edições italiana e francesa de Onde andará Dulce Veiga?. Caio visitou, entre 1992 e 1994, a Inglaterra, a Holanda, a França, a Itália, a Alemanha, a Suécia, a Espanha e Portugal, não necessariamente nessa ordem. Participou de leituras e divulgou seus livros em Amsterdã, Utrecht e Haia. Esteve no Congresso Internacional de Literatura e Homossexualismo em Berlim, em Erlangem; em Milão, para lançar Dov’é Finita Dulce Veiga?, e em Paris para autografar Qu’est devenue Dulce Veiga?”.

Em 1994 Onde andará Dulce Veiga? foi indicado ao prêmio Laura Battaglion como melhor romance estrangeiro, ao lado de nomes como Philip Roth. Durante esses anos, Caio deu entrevistas para televisão, revistas e jornais, principalmente da França. Um escritor brasileiro que falava do lado obscuro de um povo que ama samba, mar e futebol encantou os franceses e a Europa, fazendo-os imaginar como era o Brasil real. Muitos artigos sobre a obra de Caio Fernando Abreu foram escritos também lá, e sua obra, como no Brasil, vem sendo estudada desde então. Em junho desse ano, Caio voltou da Europa com uma mancha que aparecera em seu rosto. Estava em São Paulo quando fez o exame: HIV positivo. Após alguns dias internado em São Paulo, Caio volta para Porto Alegre e para a casa da família Abreu no Menino Deus, onde decide passar seus últimos dias, e é recebido de braços abertos pelos pais, então já idosos, e pelos irmãos.

Caio Fernando Abreu assumiu publicamente a doença em crônicas para os jornais O Estado de São Paulo. Transformado em celebridade instantânea pela doença, faz uso da notoriedade até o fim para denunciar a falta de remédios a preços acessíveis e a forma como eram tratados os pacientes com HIV. Tornou-se porta-voz dos soropositivos que, além de não terem tratamento médico adequado, eram tratados com preconceito. Como Caio nunca juntou dinheiro durante sua vida, foi ajudado por amigos. Alguns contribuíam com remédios, como Marcos Breda e Graça Medeiros, que até o fim esteve em contato com hospitais do mundo inteiro e médicos que tentavam descobrir uma forma de amenizar a doença. Outros amigos de São Paulo juntaram dinheiro para dar-lhe um laptop, sonho antigo do escritor.

Em outubro de 1994, o Brasil era o país-tema da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, na Alemanha, e Caio foi um dos convidados. Em sua última passagem pela Europa, participou de debates ao lado de Chico Buarque de Hollanda, dentre outros. Quando voltou da Europa, no final de 94, passou em São Paulo para participar de uma festa em sua homenagem organizada por amigos. Despedia-se então da cidade que amou e odiou com a mesma intensidade e na qual passou a maior parte de sua vida: só voltaria a São Paulo rapidamente para lançar seu último livro. Em Porto Alegre, doente, Caio Fernando Abreu aprendeu a amar a vida como nunca, como anunciou em entrevistas. Caio e o pai, Zaél, cuidaram juntos de um jardim, encerrando assim os desentendimentos do passado e iniciando uma nova etapa, de compreensão e apoio. Nesse período foi o tradutor de Assim vivemos agora, de Susan Sontag e A arte da guerra, de Sun Tzu, com Miriam Paglia. Mudou também o nome de seu primeiro livro na reedição: Inventário do irremediável passou a chamar-se Inventário do Ir-remediável.

Caio voltou a Porto Alegre para cuidar da vida e da obra com igual fervor, pois não queria que, postumamente, remexessem em suas gavetas e publicassem o que não deviam. Em 1995 Ovelhas negras é publicado pela editora Sulina. O livro é uma reunião de contos rejeitados pelo autor em um primeiro momento. Caio analisou cada um, reescreveu alguns e lançou esse que seria seu último livro: cheio de ovelhas negras, como ele foi da família e de grande parte do mundo, que não conseguiu compreendê-lo. O livro lhe rendeu seu terceiro prêmio Jabuti. O conto “Linda, uma história horrível” é incluído no The penguin book of international gay writing, organizado por David Leavitt, e Molto lontano de Marienbad é lançado na Itália, pela editora Zanzibar. Em outubro é patrono da 41ª Feira do Livro de Porto Alegre. No final do ano, José Márcio Penido, então editor do Globo Repórter, fez um especial sobre Aids e o entrevistou. Meses antes de morrer, Caio participa da reportagem e diz “Adoro estar vivo, gosto de viver”, e encerra a entrevista decretando: “Agora estou muito ocupado, não tenho tempo para morrer.” Caio Fernando Loureiro de Abreu faleceu em 25 de fevereiro de 1996, aos 47 anos, no Hospital Moinhos de vento, em Porto Alegre, vítima de uma pneumonia. Deixou para os sobrinhos, numa carta-testamento, o computador, a impressora, o aparelho de som, alguns CDs e sua coleção de frangas de argila e louça, os bens que acumulou durante sua vida.

Em certo sentido, é o signo da margem o que marca e identifica a literatura de Caio Fernando Abreu. Daí a pensar em inversão, é um pulo. Desse modo, termino fazendo o que protocolar e tradicionalmente se faz no começo, subvertendo a ordem, invertendo a sequência sem deixar perder-se o sentido. Assim é que agradeço a presença de todos que aqui estão: familiares, amigos, confrades, confreiras e demais convidados. Outros agradecimentos, em nada e por nada protocolares, vão para Cláudia Gomes Pereira, quem me saudou e a quem nos laços da amizade aprendi a admirar e respeitar; para Águeda Santos, presidente da Academia Marianense infanto-juvenil de Letras, aluna matriculada em uma das disciplinas que leciono neste semestre, aqui mesmo no ICHS; para Hebe Rola, Promotora de eventos culturais da ALB-Mariana, que já foi colega de departamento e hoje é exemplo; para Gabriel Bicalho, secretário geral ds ALB-Mariana, a quem também admiro; para José Sebastião Ferreira, vice-presidente da ALB-Mariana, um sujeito que com que simplicidade me conduziu até aqui, cuja poesia é um exercício de mineiridade; para José Benedito Donadon Leal, presidente executivo da ALB-Mariana, que também já foi colega de departamento, que continua amigo, com quem divido angústias, alegrias, sonhos e delírios e para Andréia Aparecida Silva Donadon Leal, presidente fundadora da ALB-Mariana, ex-aluna, amiga que me recebe em sua casa e que agora me recebe aqui, a quem admiro por demais e a quem devo momentos de inspiração, ainda que ela não saiba. Muito obrigado!

 

Imagem 076