Espetáculo

Era uma coisa linda de se ver…

Em pleno início de tarde, com calor. Muita gente apressada com todas as justificativas do mundo para correr e ultrapassar. Os quase vinte e cinco quilômetros da estrada estavam com uma pista interditada. Sim. Interditada. Batata! Uma beleza. Quase chegando no “olho do furacão” começaram a aparecer as placas indicativas:

 a 500m, a 300m, a 200m, a 100m…

 

Depois… nada!

Mais alguns quilômetros à frente começaram a aparecer os “trabalhadores”. Os dois primeiros conversavam, às gargalhadas, encostados à mureta de proteção. Depois, um descia do caminhão, vazio e parado, e começava a andar com fones de ouvido e o sorriso maroto de quem escutava Thiaguinho, Michel Teló ou a banda Calipso. Mais adiante, dois carros estacionados com o pisca-alerta ligado (Para quê mesmo?). Num deles, o motorista, com óculos escuros horrorosos, lia o jornal. E dá-lhe tentativas de ultrapassagem numa pista mais que congestionada.

Pronto! Finalmente, ao final dos quilômetros isolados, uma pequena máquina, dessas de prensar asfalto, parada, deixava claro o motivo de tanta previdência. Uma pequena área recuperada de asfalto, quase encostada na faixa de segurança da pista esquerda. Tudo explicado.

Eu, com minhas retinas fatigadas, com minha síndrome de macunaíma, escutando música e pensando na preguiça antecipada pelo que vem por aí na “academia”… pensei comigo mesmo: eis aí um exemplo cabal de inteligência, bom senso, equilíbrio, sensatez, oportunidade, praticidade e altruísmo.

Ainda querem que eu acredite que o voto é LIVRE por aqui…

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Deslumbramento

substantivo masculino
ato ou efeito de deslumbrar(-se); deslumbre
1    turvação da vista causada por excesso de luz, brilho ou por outros fatores (p.ex., vertigem)
2    Derivação: sentido figurado.
estado de espírito de quem é tomado por viva admiração; encantamento
Ex.: o deslumbramento do menino era visível
2.1    Derivação: por extensão de sentido.
objeto de admiração, aquilo que provoca fascínio ou sedução; encanto, maravilha
Ex.: o panorama era um deslumbramento.
3    Derivação: sentido figurado.
perturbação do entendimento; alucinação, obcecação

A visão do pôr do sol, em alguns dias, em alguns lugares, para algumas pessoas, sob certas condições metereológicas , pode ser um espetáculo inefável. A visão da Acrópole, à noite, amarelada no horizonte enquanto o navio se afastava do porto de Atenas foi um deslumbramento pra mim. Em igual medida, deslumbrei-me com o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, em 1981, a primeira vez. Fui às lágrimas… Deslumbrar-se é coisa de gente que está viva e que não tem receio de se deixar levar por emoções, ainda que desconhecidas e/ou inesperadas. Foui assim com livro de Goretti de Freitas, de Ipatinga. O título é Contos interioranos. Assino embaixo as palavras estampadas na contracapa do livro: “Um convite para deixar-se levar do rio contido ao riso eufórico, principalmente, para aqueles que não vivenciaram a hora dos Contos interioranos, característicos das nossas Minas Gerais. Ou, para aqueles que agora se interessam por uma prosa bem construída, muitas inspiradas e passadas de gerações para gerações, e lógico… sempre aumentando um ponto!”.

É verdade, cada palavra. Acima de tudo e antes de mais nada, destaco a singeleza da linguagem, a pureza da visão, a delicadeza da expressão, características da autora que transbordam do texto. Uma delícia. Como não estou escrevendo um artigo, mas fazendo homenagem mais que devida, destado um dos contos, “Frases feitas”. Uma delícia, um acepipe refinado da linguagem. Uma historinha contada com “frases feitas”, deliciosamente arrumadas no ritmo poético da linguagem de Goretti. Que bom ler coisa boa assim!

Bobagem

 

Então tá… Você faz de conta que é moderno. Usa uns óculos enormes, de aro colorido – branco, vermelho ou laranja são as cores mais “chiques” – de maneira a parecer descolado. Ande olhando pro chão, dá um certo ar ingênuo de inocência perdida e desgosto pela passagem do tempo. Depois, se topar com alguém, dê um tapão na palma da mão da outra pessoa, depois troque com esta mesma pessoa um soco, na mesma mão. Isso é sinal de juventude!

Lições como esta parecem bobagem, mas podem valer a você a alcunha de “legal”, na moda, na boa… Sem caô, valeu?! Pobre Língua Portuguesa. Já não bastasse a invasão de estrangeirismos que se aboletam em formas esdrúxulas e mais certos formalismos idiotizantes, usados e abusados em nome da riqueza e do dinamismo da lingua… Tenha paciência! Uma coisa é reconhecer, usar e apreciar os recursos que uma língua oferece. Outra, bem diferente é fazer disso matéria para a expressão da boçalidade ou, pior, das estereotipias que costumam servir de molde e forma para comportamentos robotizados, disfarçados de falaciosas “atualidades”. Ai que preguiça…

Acordei mal humorado. Também, sempre tenho o desprazer de escutar o “gerente” da Oi prometendo mundos e fundos e deixando os fundos imundos (adoro esse trocadalho do carilho!). Como fizeram comigo: venderem uma linha telefônica – só me interessava a internete – depois disseram que não havia “capacidade técnica” para instalat a tal de internete. Obviamente, isto se deu depois que paguei a primeira mensalidade, sem sequer ter usado a linha telefônica, e ter assumido a responsabilidade pela “fidelização” de doze meses. Viram como a língua portuguesa – aqui em minúsculas mesmo! – é pródiga com aqueles que pensam que são mais espertos que os outros?

Tomara que o final de semana seja, de alguma forma, compensador…

Ficção minúscula

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No começo era um olhar estranho. Nada de misterioso, mas a impressão de que alguma coisa estava fora de lugar, contra a corrente. A impressão era de que ele era relapso, vagabundo mesmo. Uma expressão moleque e descompromissada, não inspirava confiança. de repente, do nada, o pedido, humilde. A surpresa: rapidez e eficiência no que fazia. Interesse. Surpresa. nada indicava que coisa boa sairia dali. E o tempo foi passando, dois anos, algum convívio semestral e a eficência e a dedicação e o entusiasmo. Mais confiança. Depois veio o acidente. O braço imobilizado, a recuperação. Depois o intervalo, longo e nãopremeditado. Algum contato virtual, mas nada que adiantasse o que poderia vir a acontecer. Na volta a surpresa mais impactante: no corredor, sem o menor pudor (ops, uma rima!) o abraço e o beijo, assim, de repente…

Catarse

“substantivo feminino
1    na religião, medicina e filosofia da Antiguidade grega, libertação, expulsão ou purgação do que é estranho à essência ou à natureza de um ser e que, por isso, o corrompe
2    Rubrica: estética, teatro.
purificação do espírito do espectador através da purgação de suas paixões, esp. dos sentimentos de terror ou de piedade vivenciados na contemplação do espetáculo trágico
3    Rubrica: medicina.
evacuação dos intestinos
4    Rubrica: psicanálise.
operação de trazer à consciência estados afetivos e lembranças recalcadas no inconsciente, liberando o paciente de sintomas e neuroses associadas a este bloqueio
5    Rubrica: psicologia.
liberação de emoções ou tensões reprimidas, comparável a uma ab-reação
6    Rubrica: psicologia.
efeito liberador produzido pela encenação de certas ações, esp. as que fazem apelo ao medo e à raiva”

Faz tempo que, na minha memória, houve um elã de espera por determinado acontecimento. Não era real, mas a ficção costuma ser um tanto mais instigante, às vezes. Chica Newmann (Fernanda Montenegro) era mãe de Inácio Newmann (Denis Carvalho) que gostava de Cláudio (Buza Ferraz), com quem parte para New York (o Inglês incrementa o chic da cena, coisa de época), ao som de Rapsody in blue, para uma viagem de sonhos: finalmente podiam viver seu romance sem a pressão da velha poderosa. Antes disso, por um bom tempo, a amiga dos dois, Luíza Sampaio (Vera Fisher) – na verdura exuberantemente estonteante de sua beleza – “pastou” na mão da velha senhora, radical e careta. Como o forçado namoro não deu certo, a perseguição foi o esperado. Então, num momento de climax, Luíza dá um tapão na cara de Chica. Um delírio! Costumo dizer que a cidade praticamente parou para ver esta cena, esperadíssima…

         

Por conta de uma carta deixada às pressas, apenas amassada, na lixeira do escritório, Luíza sofre horrores na mão dua empregada, Juliana, que se vinga, em nome de toda a classe operária lisboeta no século 19- na trama de Eça de Queirós. Falar de “empregada doméstica”, então, era coisa impensável: Juliana era a “ criada de dentro”. Na televisão, ela ficou conhecida na pele de Marília Pêra e, no cinema, na de Glória Pires. Imbatíveis, as duas, insuperáveis, sem comparação: perfeitas! Luíza foi encarnada por Giulia Gam, na televisão e por Débora Falabealla, no cinema. Esta, muito “fraquinha”, apesar do talento. A angústia e a ansiedade da burguesa têm fim com um ataque apoplético, na TV e por atropelamento, no cinema. Em ambas as situações, o desfecho agrada pela mesma vingança.

Depois de comer o pão que o diabo amassou a pseudo “mocinha” acaba por ser vingada por tabela. Nina (Débora Falabella) fica sabendo do que aconteceu a Carminha (Adriana Esteves) e sua expressão é de um alívio preocupado. Falar do peso da interpretação de ambas é chover no molhado. Mas, sim, Nina não é mocinha. Ela á uma vilã “do bem”. De acordo com um articulista do jornal estado de Minas, com quem concordo, a dicotomia vilãXmocinha não cabe aqui. mas os detalhes são muitos. Não vou cansar as retinas fatigadas que, porventura, chegaram até aqui. De qualquer maneira, os tapões ainda foram poucos para o alívio total… Pelo menos, em minha modesta e quase inútil opinião…

Leia e entenda quem quiser…

Continuidade

… pensei que seria capaz de manter o ritmo diário nos postagens deste blogue. Ledo engano… A síndrome de macunaíma e duas viagens atravessadas “no meio do caminho” (vide Drummond) não me deixaram. Ou eu mesmo não me empenhei o suficiente. De fato, este tipo de empenho é um dos exemplos de contraprodução, entre muitos que existem por aí… A gente pensa/sente/imagina, escreve e… só os amigos do peito leem. O que não é pouco, mas a vaidade da gente é grande e o desejo de ver comentários seguidos de comentários continua insatisfeita… hiância!

Quando for viajar de avião, há alguns “detalhes” imprescindíveis:

– entre no aeroporto, sobraçando um daqueles carrinhos hediondos de carregar malas, mesmo que você vá viajar levando apenas uma sacolinha ou bolsa ou mochila. Dizem que é chic andar empurrando aquele arame todo e não se esqueça da pose, do bico, dos óculos escuros e do olhar perdido;

– se estiver acompanhado de amigos e/ou familiares, jamais deixe de fazer-se acompanhar por eles na hora do check in. Claro, socialização é a palavra da moda…; faz parte da diversão daqueles que adoram dizer (em voz alta) que estão viajando pela primeira vez. Aproveite para deixar espalhadas as malas, se forem muitas e fale alto, ao celular, olhando para os lados, com aquele ar alegre de pinto no lixo…;

– na hora do embarque, ligue para qualquer pessoa, enquanto caminha pelo corredor do aeroporto (as mais “dramáticas” são sempre um dos pais, o/a namorado/a, ou alguém da “galera” – ai que preguiça desta palavra…), conte cada detalhe de cada passo e de cada ângulo do que você vê pelo vidro. Isso vai enriquecer sua bagagem “cultural” e a de quem ouve você!

– lembre-se de repetir o telefonema, assim que os motores do avião forem desligados, quando as portas ainda estão fechadas e depois do/da comissário/a avisar que os aparelhos eletrônicos devem ficar desligados no percurso do avião até o saguão do aeroporto…

São quatro passos simples e práticos, porém, fundamentais para o sucesso de seu prélio aéreo. Uma epopeia! Em tempos de frangos gordos e passagens aéreas baratas, é preciso se adequar aos ditames do que é fashion, descolado, moderno… Caso contrário, você vai se reduzir à condição de cidadão comum: aquele que vive a própria vida, sem perder tempo tentando impressionar aos outros, como se isso fosse possível, de fato!

 

 

Notícias

Na semana que passou, Afonso Ávila morreu. A considerar certas estatísticas, muito pouca gente ficou sabendo. Mais, muito pouco gente ficou “sentida” com sua morte. Pensei logo no colega de universidade e amigo, José Arnaldo, professor de História da Arte. Ele era afilhado de casamento do poeta falecido. Ano passado, combinei com ele uma entrevista com seu padrinho, por conta dos 50 anos de publicação do livro O modernismo (edição da Perspectiva). Seria uma forma de homenagear o poeta e comemorar os quarenta anos da publicação que, por sua vez, celebrava o cinquentenário, o da Semana de arte moderna. O livro reunia textos de professores e críticos e ensaístas, todos eles convidados do Festival de inverno daquele ano. Isso vai ficar no limbo…

No final de semana que passou, morreu outro escritor mineiro: Autran Dourado. Já fazia um tempo que desejava reler alguns de seus livros. Li-os, quase todos, por volta dos anos da graduação. Valeria a pena reler. Vou fazê-lo. No entanto, espantou-me o silêncio da “mídia”. O jornal Estado de Minas publicou matéria sobre o escritor. Até agora, só isso. Mentira… Vi notícia de rodapé de vídeo no canal Globo News. Vamos aguardar a próxima edição do caderno “Pensar” do mesmo jornal mineiro. Quem sabe alguém se aventura a falar mais alguma coisa sobre este homem que é importante para a História da Literatura do Brasil.

No mesmo final de semana, morreu Hebe Camargo. A vida desta mulher se confunde com a História da televisão no/do Brasil. No domingo, o dia inteiro, a televisão só falou nisso. Ela merece, claro, mas…

Um pouco da chatice continua…