Jogos 4

 

Hoje termina a apresentação dos participantes do jogo que propus. Vamos dar um dalto e atravessar o Atlântico. Lá vai…

 

“(…)

Mas havia na sua vida este episódio – uma noite, num circo de Nápoles, vira fazendo equilíbrios num globo um rapaz vestido de meia, ágil e elegante. Nunca pôde esquecer aquela figura que surgira pela primeira vez à sua imaginação, como eflorescência rara, sonhada entre incoerências de febre.

Procurou depois, mais  perto,  essa  soberba  organização  que  fizera  na  sua sensibilidade como um lampejo instantâneo, a fascinação sombria e fatal do jettatore. Pouco a pouco, a sua mente apoderou-se daquela imagem fascinante, correcta como não vira outra, juvenil como não sonhara igual. Todas as noites ia ao circo ver trabalhar o equilibrista: dominava-a a soberba atitude do funâmbulo, livre, impetuoso e colossal. Nela sentia-se, de facto toda a opulência duma seiva que irrompe, em circulação vigorosa e regularíssima; todos aqueles fortes membros elásticos, flexíveis e aptos aos movimentos mais contrastantes se sentiam palpitar de saúde, de vida e de beleza, ritmo sonoro, cheio de presteza e propriedade.

E aquela apetitosa figura de adolescente trigueiro, os olhos esmaltados de uma serenidade de deus, plástica irrepreensível e firme, apoderaram-se da contessina, comum ímpeto, uma violência que tocavam os paroxismos da loucura.

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Sentia-lhe as mãos grosseiras, calejadas do trapézio, a voz  rouca, o hálito alcoolizado, um cheiro a charuto que se metia pelas mucosas dentro. Gostava porém de o agarrar pela cintura, de lhe pender do pescoço nu com todo o peso do corpo, de se entregar com um grande soluço dilacerante, vergada para trás, cabelos soltos e a túnica rasgada de alto a baixo, com a folha dum punhal. E era com uma delicia inexplicável, aguda e cheia de frêmitos, que lhe tirava a capa, quando Zampa chegava do circo, ainda com os fatos da arena, couraçado na sua beleza superior e intangível.

O espectáculo de um corpo fortemente criado embriagava-a  de uma aspiração criminosa e de uma animalidade fatal: queria-o! Algumas vezes Zampa não vinha e as horas da noite deslizavam  para a pobre leviana em suplícios atrozes e vacilações eternas (…)

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Quando tratava de expulsar de si o ébrio, com desprezo veemente e indignação explosiva, como se levantava diante dela a esplêndida figurara de arcanjo que era o seu desejo, o seu gozo, o seu deslumbramento e a sua perdição; e era sempre o mesmo olhar plácido que ela contemplava a mesma carne vigorosa, de uma tonalidade opulenta, a mesma linha soberba do perfil, a mesma postura de academia, altiva e forte, como a de um gladiador que triunfa, na arena onde espadana o sangue dos mártires e se espedaçam corpos frementes de vitimas obscuras e trágicas (…).

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Era Zampa tornado estátua; as mesmas soberbas linhas, a mesma irrepreensível musculatura, perna firme, retesada e direita, de uma elegância única, os fortes encontros, a larga espádua de herói, de uma curva severa, o braço sem grandes nós articulares, o pulso atlético e ricamente modelado, um peito leonino em que subiam ondulações viris de seios, a cabeça um primor de cinzel e um prodígio de distinção, alta, cabelos revoltos, a audácia dominadora, olhando em face a turba pressuposta, com o ar superior de quem se faz admirar. Era Zampa. Ninguém que o tivesse visto na arena podia desconhecê-lo (…).”

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