Seis meses

Foi num dia do mesmo número que o de hoje. A diferença agora é de seis meses. A esta altura do dia, já estávamos todos em torno de uma cova aberta, cortando o barato de certo “indivíduo” que desejava “se fazer” num momento de dor e tristeza. Enterrávamos meu pai. Na falta do que dizer – a absoluta impossibilidade de alguém saber dizer qualquer coisa em momentos como este é irrecorrível – me faz buscar socorro num texto alheio, encontrado ao acaso. É um trecho de carta escrito pelo mineiro Fernando Sabino a Murilo Mendes. Este trecho diz tudo o que eu poderia sonhar em pensar em dizer…

Carta 2
Rio, 7 de março de 1949
Meu velho Murilo,
Hoje está fazendo cinco meses que meu Pai morreu. Um pai é uma perda que o tempo faz aumentar – eis alguma coisa que o tempo está me ensinando. E que você também vai aprender. E o bem que o Pai nos faz se prolonga além do tempo e da morte – a própria morte vem a ser para nós mais um gesto de carinho, o último, o permanente ensinamento – um pai que morre nos ensina a morrer. Esta a lição que nos fica, como uma herança, para ser vivida até que chegue a nossa vez. Você não sentiu que finalmente se tornou em homem, que finalmente cortou a última corrente que o prendia à infância como um escravo, para poder recuperá-la em liberdade? Enfim, antes de chegarmos à velhice, já não somos mais crianças – inútil se iludir. E sempre é tempo para começar. Um pai que morre é a permanência do amor no filho, é uma esperança além da morte.

 

Papai 2

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2 comentários sobre “Seis meses

  1. Que ótimo: o contratempo com o blog foi resolvido!
    Seis meses já? Como passa o tempo – comentário desnecessário e prosaico, mas assusta mesmo… Difícil perder uma pessoa significativa em nossas vidas. Foi como com a perda da minha mãe – e ainda é: um vácuo que nada preenche. Quando a gente acha que já superou, a saudade volta, cortando a alma. Faz parte, mas é difícil… E faltam as palavras, porque sentimento não se expressa assim. É dor calada, funda, solitária. Deus o abençoe, amigo, e à sua família que eu amo tanto. Beijinhos, Angel

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