Para LET873 – 3

Machado de Assis

(Roberta da Costa de Sousa)

O autor que desenvolve esse estilo na literatura brasileira é Machado de Assis. Inicialmente, Machado escreveu romances românticos tradicionais, como Helena e Iaiá Garcia. A ruptura se dá com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico, não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. Brás Cubas sabe que seu romance é uma versão: está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações. “Era fixa a minha idéia, fixa como… Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo…” (ASSIS, 1978, p. 19).

Desde o prólogo, ele classifica o romance como uma “obra difusa”, que não vai agradar a todos, e não disfarça que os comentários irônicos vão acompanhar o leitor por toda a narrativa. Assim, Machado faz uso da metalinguagem ao interpelar o leitor ou a leitora ou redigindo digressões, o que torna a leitura descontínua. Essa descontinuidade impede a mistura entre realidade e ficção por parte de quem lê. O leitor machadiano é levado a distanciar-se da narrativa para compreender o sentido simbólico inerente.

Dessa forma, Machado foi um predecessor do Modernismo. Este movimento abordou a transformação do ato criador em tema da criação, o que constitui a metalinguagem. A arte do século XX passou por um autoquestionamento, do qual a metalinguagem se tornou um instrumento. Este recurso foi adotado pela arte moderna com a finalidade de produzir no espectador/leitor uma nova atitude. A intenção de despertar no leitor a consciência de que a arte é um “fazer artístico” integrava o projeto estético modernista.

A arte deixou de ser apenas um espaço de evasão e também incluiu em suas funções a possibilidade da tomada de consciência por meio do distanciamento do objeto artístico. Quando Machado de Assis dialoga com o leitor, seja para comentar o teor de um capítulo ou para antecipar um acontecimento que só concretizar-se-á num momento posterior, está rompendo a linearidade narrativa e içando o leitor a outro plano. Assim, antecipa a atitude autocrítica dos modernistas.

A discussão sobre os procedimentos de construção do texto deixa claro que o romance não pretende iludir o leitor, tratando a obra como uma realidade aparente. Ao contrário, esta postura lança uma espécie de pacto entre o leitor e o narrador: “eu sei que você está lendo e você sabe que eu estou escrevendo”. Ambos sabem que aquela é uma obra de ficção.

Nas artes plásticas, o termo “desrealização” se refere ao fato de que a pintura deixou de ser mimética e se recusa a simplesmente reproduzir ou imitar a realidade empírica. Na pintura, correntes figurativas, como o cubismo, o expressionismo e o surrealismo, todas consideradas representantes das vanguardas européias, deixaram de visar à reprodução fiel da realidade sensível para desenvolver a arte a partir da fragmentação, da geometria, da deformação, do onírico e do absurdo. Todas constituem a negação do realismo enquanto designação da tendência à reprodução da realidade apreendida pelos sentidos.

No universo machadiano, o que importa é considerar que a fantasia funciona como realidade. No caso de Bentinho, em Dom Casmurro, imaginária ou real, falsa ou verdadeira, a conseqüência é a mesma, destrói a vida do personagem-título, torna-o um sujeito atormentado pela dúvida, pela desconfiança de que sua amada, Capitu, o traíra com seu grande amigo Escobar, gerando um filho.

No entanto, como a obra é narrada em primeira pessoa, o leitor não tem acesso aos fatos tais como eles aconteceram, mas apenas à versão do narrador-personagem, cuja isenção é nula. Ele diz que o filho é idêntico a Escobar, e cabe ao leitor tirar as suas próprias conclusões, acreditar ou não na versão de Bentinho. Enfim, o real pode ser o que parece real.

As pergunta”s:

1. Que trecho do texto acima revela um equívoco na leitura da obra de Machado de Assis? Transcreva-o.

2. Que passagem do texto pode ser usada para sustentar a hipótese de que Machado de Assis foi “vanguardista”, considerando o contexto em que se insere a sua obra?

3. Na SUA opinião, Machado de Assis pode ser citado como exemplo de autor “genial” Por quê? Que passagem do texto acima poderia sustentar sua justificativa?

Para LET874 – 3

 

“O conceito de vanguarda sempre esteve associado ao de ruptura com a tradição, compreendida como repertório de formas históricas superadas pela evolução tecnológica e pelo sentimento de mundo das novas gerações. O entusiasmo pela sociedade urbana e industrial, pelas máquinas, pela velocidade e pelos novos meios de comunicação e de transporte, nas primeiras décadas do século XX, motivou a exigência de “uma arte verbal completamente nova”, conforme escreve Marjorie Perloff em O momento futuristaavant-garde, avant-guerre e a linguagem da ruptura (PERLOFF, 1993: 116). O “discurso tradicional”, prossegue a autora, não podia transportar-se “para essa nova linguagem de telefones, fonógrafos, aeroplanos, cinema, o grande jornal” (idem). Havia um descompasso entre a sociedade moderna e as “formas canônicas do passado”, que correspondiam a um certo “estado do mundo” e cuja “carga crítica implícita” e “grau de novidade” estariam “perdidos para sempre”, segundo escreveu o poeta e crítico uruguaio Eduardo Milán no ensaio Poesia: questão de futuro (MILÁN, 2002: 72).

A revolta da modernidade contra os modelos estéticos estabelecidos pela tradição, bem como “o desejo de criar novas formas e incorporar novos temas, característica que vem motivando os artistas ocidentais desde o tempo de Baudelaire” (KOSTELANETZ, 1967: 9), levou os criadores modernos a recusarem a estabilidade, o imobilismo e a repetição em favor do inesperado, do imprevisível, do ignorado, compreendido como informação estética nova por autores como Abraham Moles, para quem a “medida da quantidade de informação” encontra-se “reduzida à medida da imprevisibilidade, isto é, a uma questão de teoria das probabilidades” (MOLES, 1969: 36). A “medida da informação”, diz Moles, “deve ser baseada na originalidade e não na significação” (idem, 41). O novo seria, portanto, o inesperado formal, aquilo que surpreende a percepção estética do espectador, por encontrar-se fora de uma cadeia previsível de fenômenos[1].

O desejo de criar novas estruturas formais, observa Richard Kostelanetz, é cúmplice do próprio devir temporal, pois acompanha processos históricos como “a I Guerra Mundial, a Depressão, a II Guerra Mundial — uma era de arte chegou a um fim somente para ser seguida, em todas as artes, por estilos consideravelmente diferentes” (KOSTELANETZ, 1967: 9). Neste aspecto, prossegue o ensaísta norte-americano, “o século XX sintetiza toda a história da arte”, e cita o historiador cultural Meyer Schapiro, para quem “importantes mudanças econômicas e políticas… são geralmente acompanhadas ou seguidas por mudanças nos centros da arte e em seus estilos” (idem). Com efeito, as transformações ocorridas na sociedade européia entre  o final do século XIX e o início do XX foram decisivas para o surgimento das primeiras vanguardas artísticas, que, em dialética contínua com a história, aliaram o projeto da revolução estética a uma expectativa de profundas mudanças sociais, o que André Breton sintetizou em sua conhecida fórmula de que era preciso unir o “mudar a vida” de Rimbaud ao “mudar o mundo” de Marx.”

 

(Cláudio Daniel, http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=3905)

 

O texto acima apresenta uma das maneiras de introduzir o tópico “vanguarda”, na consideração da expressão artística do Ocidente. Evidentemente, nesta abordagem, pode-se inferir a plausibilidade de considerar a Literatura Portuguesa no conjunto dessas “expressões”. A atividade de hoje consiste em:

1. Listar os autores citados e as suas contribuições para o raciocínio desenvolvido no próprio texto aqui apresentado.

2. Responder (justificando):

a) A partir do exposto no texto, é possível considerar as vanguardas como superação das contribuições estéticas realistas e naturalistas para o desenvolvimento da Literatura Portuguesa?

b) Em que medida, o Realismo e o Naturalismo – no âmbito da Literatura Portuguesa – constituem a base para as proposções vanguardistas que, porventura tenham vindo a influenciar a produção literária portuguesa na passagem do século 19 para o século 20?

 

 

Perfeição

Mais uma vez, o texto que segue não é meu. Quem me mandou foi a querida amiga, Ângela, que, por sua vez, copiou e colou de um blogue de uma amiga dela, a Marina. Eu gostei e então copiei e colei também. Perfeito!

PAI DOS ESPERTOS

 

Desde que escutei, pela primeira vez, minha primeira professora de português chamar o dicionário de “pai dos burros”, não concordei.

Para os sábios, isso pode até ser uma brincadeira engraçada, pois eles sabem que, quanto mais se estuda, menos se sabe.

Contudo, para uma criança, isso vira uma informação negativa, pois ela entende ser burro quem recorre a uma fonte de saber.

Ademais, cria uma grande dúvida, qual seja, se não devo buscar o conhecimento nos bons livros, como vou aprender?

Talvez aí esteja uma propaganda subliminar da profissão de professor, com a insinuação mercadológica “aprenda comigo e não precisará de outros meios”. Não, não acredito nessa hipótese. Os professores, em geral, são sábios.

Certo é que fui ao encontro do pai dos burros, digo, dos espertos, para esclarecer o verdadeiro significado de uma palavra comum, o vocábulo “perfeito”.

A causa disso foi uma viagem que meu filho fez a uma cidade praiana, por conta de um encontro acadêmico.

Carente de notícias, aqui no interior seco do país, enviei uma mensagem a ele, pelo telefone celular, perguntando: “Tudo bem?”

A resposta demorada chegou curta e significativa: “Tudo. O mar é perfeito”.

A resposta me satisfez, pois refletia sua boa condição física, mental e emocional.

Ensina o dicionário que perfeito é feito até o fim, acabado, bem acabado, incomparável, único, sem-par, excelente, irrepreensível, primoroso, impecável, completo, perficiente.

Normalmente, o verbete qualifica a coisa. Aqui, o mar qualificou a palavra.

Assim, fiz uma comparação entre o mar e um automóvel novo, construído pelo homem obviamente, com material futurístico, espelhado, admiravelmente polido. Como toda modernidade, o carro sairá de moda. O mar, não!

Com um microscópio potente, poderemos observar as imperfeições na superfície do veículo. Com o mesmo aparelho, poderemos observar mais belezas dos componentes dos oceanos, detalhes invisíveis aos olhos nus.

Mais uma vez, entendi que a diferença na obra é feita pelo talento do Autor.

Costuma-se admirar os aparelhos eletrônicos, as vestimentas, as comidas, as obras de arte, sentimentos esses legítimos e compreensíveis. Porém, a perfeição mesmo está na velha goiabeira, na terra granulada e disforme, na chuva criadeira, nos olhos dos bichos, nas células dos insetos, no mistério das estrelas, nos corpos com vida, no infinito da noite, no mar.

E é lamentável saber que se chega ao ponto de uma completa inversão de valores, por conta desses conceitos. Um homem pode matar outro, por conta de um amassado em seu carro, mas não titubeia em derrubar uma árvore centenária com uma moto-serra ou um machado, criados pela sua “genialidade”, sem o menor constrangimento.

Meio atordoado pelo antropocentrismo, fiquei pensando sobre qual obra do homem poderia ser considerada perfeita.

Definitivamente, as obras humanas, as materiais, são imperfeitas. As imateriais, como as boas músicas, as boas poesias, os bons textos, muitas vezes se aproximam bastante da perfeição. E isso já deveria ser satisfatório, mas o homem é um eterno insatisfeito, como dizem, se é que será eterno como o mar.

Tentei galgar uma escala mais agressiva de valores intangíveis e já estava a ponto de desistir, quando uma voz infantil, ingênua, cochichou em meu ouvido uma pequena alteração na frase de meu filho: – Amar é perfeito.

Sérgio Antunes de Freitas

20 de janeiro de 2013

Para LET873 – 2

 

O Realismo se tingirá de naturalismo, no romance e no conto, sempre que fizer personagens e enredos submeterem-se ao destino cego das “leis naturais” que a ciência da época julgava ter codificado; ou se dirá parnasiano, na poesia, à medida que se esgotar no lavor do verso tecnicamente perfeito. Tentando abraçar de um só golpe a literatura realista-naturalista-parnasiana, é uma grande mancha pardacenta que se alonga aos nossos olhos: cinza como o cotidiano do homem burguês, cinza como a eterna repetição dos mecanismos de seu comportamento; cinza como a vida das cidades que já então se unificava

em todo o Ocidente. E é a moral cinzenta do fatalismo que se destila na prosa de Aluísio Azevedo, de Raul Pompéia, de Adolfo Caminha, ou na poesia de Raimundo Correia. E, apesar das meias-tintas com que a soube temperar o gênio de Machado, ela não será nos seus romances maduros menos opressora e inapelável.

A coexistência de um clima de idéias liberais e uma arte existencialmente negativa pode parecer um paradoxo, ou, o que seria mortificante, um êrro de enfoque do historiador. Mas o contraste está apenas na superfície das palavras: a raiz comum dessas direções é a postura incômoda do intelectual em face da sociedade tal como esta se veio configurando a partir da Revolução Industrial. Agredindo na vida pública o status quo, êle é ainda um rebelde e um protestatário, como o foram, entre nós, Raul Pompéia, Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha e o Machado jovem; mas, introjetando-o nos meandros de sua consciência reificando-o como lei natural e como seleção dos mais fortes, êle acaba depositário de desencantos e, o mais das vêzes, conformista.

(BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira, p. 186)

No primeiro parágrafo, o autor quer dizer que a contribuição estética dos “ismos” a que ele se refere é nefasta para Literatura Brasileira? Justifique.

No segundo parágrafo, parece que Alfredo Bosi desqualifica a contribuição dos autores por ele citados para a consolidação da Literatura Brasileira. Seria isso mesmo? Justifique sua resposta.

Uma terceira questão diz respeito a uma comparação entre as declarações acima e o que diz Bilac em texto aqui apresentado antes. O que você teria a dizer a este respeito?

 

Longa temporalidade

O texto que segue não é meu. Desconheçco a autoria. Ao lê-lo, pensei nas miríades de pessoas que se “matam” para manter “a forma” e não perder seu lugar ao sol. Isso me dá uma pena… Para além do fato de ter acordado um tanto mais azedo hoje…

Estamos envelhecendo. Não nos preocupemos! De que adianta, é assim mesmo. Isso é um processo natural. É uma lei do Universo conhecida como a 2ª Lei da Termodinâmica ou Lei da Entropia. Essa lei diz que: A energia de um corpo tende a se degenerar e com isso a desordem do sistema aumenta. Portanto, tudo que foi composto será decomposto, tudo que foi construído será destruído, tudo foi feito para acabar. Como fazemos parte do universo, essa lei também opera em nós. Com o tempo os membros se enfraquecem, os sentidos se embotam. Sendo assim, relaxe e aproveite. Parafraseando Freud: “A morte é o alvo de tudo que vive”. Se você deixar o seu carro no alto de uma montanha daqui a 10 anos ele estará todo carcomido. O mesmo acontece a nós. O conselho é: Viva. Faça apenas isso. Preocupe-se com um dia de cada vez. Como disse um dos meus amigos a sua esposa: “me use, estou acabando!”. Hilário, porém realista.

Ficar velho e cheio de rugas é natural. Não queira ser jovem novamente, você já foi. Pare de evocar lembranças de romances mortos, vai se ferir com a dor que a si próprio inflige. Já viveu essa fase, reconcilie com a sua situação e permita que o passado se torne passado. Esse é o pré-requisito da felicidade. “O passado é lenha calcinada. O futuro é o tempo que nos resta: finito, porém incerto” como já dizia Cícero. Abra a mão daquela beleza exuberante, da memória infalível, da ausência da barriguinha, da vasta cabeleira e do alto desempenho pra não se tornar caricatura de si mesmo. Fazendo isso ganhará qualidade de vida. Querer reconquistar esse passado seria um retrocesso e o preço a ser pago será muito elevado. Serão muitas plásticas, muitos riscos e mesmo assim você verá que não ficou como outrora. A flor da idade ficou no pó da estrada. Então, para que se preocupar?! Guarde os bisturis e toca a vida.

Você sabe quem enche os consultórios dos cirurgiões plásticos? Os bonitos. Você nunca me verá por lá. Para o bonito, cada ruga que aparece é uma tragédia, para o feio ela é até bem vinda, quem sabe pode melhorar, ele ainda alimenta uma esperança. Os feios são mais felizes, mais despreocupados com a beleza, na verdade ela nunca lhes fez falta, utilizaram-se de outros atributos e recursos. Inclusive tem uns que melhoram na medida em que envelhecem. Para que se preocupar com as rugas, você demorou tanto para tê-las! Suas memórias estão salvas nelas. Não seja obcecado pelas aparências, livre-se das coisas superficiais. O negócio é zombar do corpo disforme e dos membros enfraquecidos.

Essa resistência em aceitar as leis da natureza acaba espalhando sofrimento por todos os cantos. Advêm consequências desastrosas quando se busca a mocidade eterna, as infinitas paixões, os prazeres sutis e secretos, as loucas alegrias e os desenfreados prazeres. Isso se transforma numa dor que você não tem como aliviar e condena a ruína sua própria alma. Discreto, sem barulho ou alarde, aceite as imposições da natureza e viva a sua fase. Sofrer é tentar resgatar algo que deveria ter vivido e não viveu. Se não viveu na fase devida o melhor a fazer é esquecer. A causa do sofrimento está no apego, está em querer que dure o que não foi feito para durar. É viver uma fase que não é mais sua. Tente controlar essas emoções destrutivas e os impulsos mais sombrios. Isso pode sufocar a vida e esvaziá-la de sentido.Não dê ouvidos a isso, temos a tentação de enfrentar crises sem o menor fundamento. Sua mente estará sempre em conflito se ela se sentir insegura. A vida é o que importa. Concentre-se nisso. A sabedoria consiste em aceitar nossos limites.

Você não tem de experimentar todas as coisas, passar por todas as estradas e conhecer todas as cidades. Isso é loucura, é exagero. Faça o que pode ser feito com o que está disponível. Quer um conselho? Esqueça. Para o seu bem, esqueça o que passou. Têm tantas coisas interessantes para se viver na fase em que está. Coisas do passado não te pertencem mais. Se você tem esposa e filhos experimente vivenciar algo que ainda não viveram juntos, faça a festa, celebre a vida, agora você tem mais tempo, aproveite essa disponibilidade e desfrute. Aceitando ou não o processo vai continuar. Assuma viver com dignidade e nobreza a partir de agora. Nada nos pertence.

Tive um aluno com 60 anos de idade que nunca havia saído de Belo Horizonte. Não posso dizer que pelo fato de conhecer grande parte do Brasil sou mais feliz que ele. Muito pelo contrário, parecia exatamente o oposto. O que importa é o que está dentro de nós, a velha máxima continua atual como nunca: “quem tem muito dentro precisa ter pouco fora”. Esse é o segredo de uma boa vida.

Para LET874 – 2

Para hoje, o etxto de base foi retirado de outro blogue (http://auladeliteraturaportuguesa.blogspot.com.br/2009/07/questao-coimbra.html).  O texto trata da cébere questão Coimbrã.

09/07/2009

A Questão Coimbrã

O primeiro sinal da renovação literária e ideológica que acabámos de indicar foi dado na Questão Coimbrã, onde se defrontaram os defensores do statu quo literário e um grupo de jovens escritores estudantes em Coimbra, mais ou menos entusiasmados pelas leituras e correntes indicadas.
Castilho – aliás um pouco incongruentemente – tornara-se em uma espécie de padrinho oficial de escritores mais novos, tais como Ernesto Biester, Tomás Ribeiro ou Pinheiro Chagas. Como já vimos, constelou-se à sua volta um grupo de admiradores e protegidos (“escola do elogio mútuo”, dirá Antero), em que o academismo e o formalismo anódino das produções literárias correspondiam coerentemente à hipocrisia das relações humanas, e em que toda a audácia tendia a neutralizar-se. Este grupo trava diversas escaramuças defensivas desde 1862, e sobretudo em 1864-65.
Em 1865, solicitado a apadrinhar com um posfácio o Poema da Mocidade de Pinheiro Chagas, Castilho aproveitou a ocasião para, sob a forma de uma Carta ao editor António Maria Pereira, inculcar o poeta apadrinhado como candidato mais idóneo à cadeira de Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras, e censurar um grupo de jovens de Coimbra, acusando-os de exibicionismo livresco, de obscuridade propositada e de tratarem temas que nada tinham que ver com a poesia. Os escritores mencionados eram Teófilo Braga, autor dos poemas Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras (futuro candidato a essa cadeira de Literatura); Antero de Quental, que então publicara as Odes Modernas ; e um jovem e verboso deputado, Vieira de Castro, o único aliás que Castilho exceptuava da sua ridicularização, um tanto eufemística, da “escola coimbrã”. O desencadeamento da Questão só se compreende se o relacionarmos com uma série de antecedentes que vêm desde a crítica à Conversação Preambular elogiativa do D. Jaime por Castilho, feita em artigos de Ramalho Ortigão, Pereira de Castro e João de Deus, até uma leitura dos poemas, ainda então inéditos, de Antero e Teófilo a Castilho, que os acolheu com hiperbólica ironia, e, finalmente, até escaramuças jornalísticas entre Pinheiro Chagas, crítico dos “coimbrões”, e Germano Meireles, seu apologeta.
Antero de Quental respondeu numa carta aberta a Castilho, que saiu em folheto: Bom Senso e Bom Gosto . Nela defendia a independência dos jovens escritores; apontava a gravidade da missão dos poetas na época de grandes transformações em curso, a necessidade de eles serem os arautos do pensamento revolucionário e os representantes do “Ideal”: metia a ridículo a futilidade, a insignificância e o provincianismo da poesia de Castilho. O que sobressai destes textos de Antero é a constante invocação da integridade moral-social. Pouco depois Teófilo Braga solidarizava-se com Antero no folheto Teocracias Literárias, 1866. Entretanto, Antero desenvolvia as ideias já expostas na Carta a Castilho com o folheto A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, 1865; aí, em termos aliás muito idealistas, reivindicava uma literatura militante dirigida à “Nação verdadeira […] três milhões de homens que trabalham, suam, produzem”, terminando, em apêndice, por uma extensa apreciação da obra de Castilho, redigida em termos que ostentam, e em geral atingem, uma séria ponderação.
Castilho não reagiu publicamente; mas conseguiu a intervenção de amigos seus. Nas intervenções de uma parte e de outra, o problema central levantado por Antero ficou apagado por considerações pessoalistas, mostrando-se alguns dos polemistas impressionados com a irreverência dos jovens em relação aos mestres, sobretudo com a brutalidade das alusões de Antero e de Teófilo à idade e à cegueira física de Castilho. Foi o caso de um folhetinista ecléctico, Ramalho Ortigão, num opúsculo intitulado A Literatura de Hoje, 1866, que deu lugar a um duelo do autor com Antero. Camilo Castelo Branco interveio de forma ambígua, a pedido de Castilho, com o opúsculo Vaidades Irritadas e Irritantes, 1866. Na realidade, pouco se acrescentou aos dois folhetos de Antero durante os meses que a polémica durou ainda. No entanto um ou dois textos são interessantes pelas suas considerações de ordem estética. Nela intervieram, além de muitos outros (alguns solicitados por Castilho), M. Pinheiro Chagas, Júlio de Castilho, Teixeira de Vasconcelos, José Feliciano de Castilho e Brito Aranha.

Na sua opinião, a “questão” é matéria externa aos estudos literários ou não? Justifique. Em qualquer dos casos, é possível encontrar no poema abaixo alguma ideia que se relacione com o conteúdo do texto sobre a questão Coimbrã? Caso seja possível, aponte e comente pelo menos duas delas! Segue o poema:

Evolução Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo…

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade…

Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

(Antero de Quental, in “Sonetos”)

Para LET873 – 1

Pois bem. Segue abaixo o texto sobre o qual vocês vão comentar. Trata-se de um texto de Olavo Bilac. O comentário deve se desenvolver a partir da seguinte proposição:

O posicionamento de Olavo Bilac é contrário à contribuição romântica para a Literatura Brasileira? Se sim ou se não, como VOCÊ vê a relação do que o poeta diz e a proposta (mais generalizada) do Realismo para nossa literatura?

Segue o texto:

“Os paladinos de 1830 [os românticos] apenas tinham pretendido dar seiva nova de idealizações e de elocuções à planta da poesia, mirrada e anêmica, empobrecida pela secura do Classicismo. E os de 1865 [os parnasianos], rebelando-se contra os últimos discípulos daqueles, somente quiseram restaurar estas qualidades, tão simples e tão belas, que estavam a ponto de ser esquecidas: a simplicidade e a correção. A extravagância da imaginação e o desalinho da forma iam expelir dos poemas a sobriedade, a clareza e a justeza, virtudes máximas do gênio greco-latino. Porque já eram sóbrios, claros e justos, na rudeza da vida pastoril, os primeiros poetas da nossa civilização, apercebidos de cajado e avena, sonhando, ao pé da montanha da Phócida, consagrada a Apollo e às Musas; aqueles foram os primeiros e verdadeiros parnasianos; e parnasianos foram, pelas idades fora, todos os artistas que amaram e praticaram as ideias límpidas, os sentimentos altos e as expressões puras. Os poetas franceses, arregimentados no Parnasse Contemporain, não quiseram estabelecer uma teoria, em que se pregasse ‘a poesia sem paixão e sem pensamento, o desprezo dos sentimentos humanos, o culto dos versos bem feitos e ocos, e, em suma, a forma pela forma’. Quiseram apenas lembrar que, em matéria de arte, não se compreende um artista sem arte; que, sem palavras precisas, não há ideias vivas; que, sem locução perfeita, não há perfeita comunicação de sentimento; e que não pode haver simplicidade artística sem trabalho, e mestria sem estudo.”

(BILAC, Olavo. A Alberto Oliveira. In: ________. Últimas conferências e discursos. São Paulo: Francisco Alves, 1924, p. 23.)