Para LET873 – 3

Machado de Assis

(Roberta da Costa de Sousa)

O autor que desenvolve esse estilo na literatura brasileira é Machado de Assis. Inicialmente, Machado escreveu romances românticos tradicionais, como Helena e Iaiá Garcia. A ruptura se dá com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico, não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. Brás Cubas sabe que seu romance é uma versão: está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações. “Era fixa a minha idéia, fixa como… Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo…” (ASSIS, 1978, p. 19).

Desde o prólogo, ele classifica o romance como uma “obra difusa”, que não vai agradar a todos, e não disfarça que os comentários irônicos vão acompanhar o leitor por toda a narrativa. Assim, Machado faz uso da metalinguagem ao interpelar o leitor ou a leitora ou redigindo digressões, o que torna a leitura descontínua. Essa descontinuidade impede a mistura entre realidade e ficção por parte de quem lê. O leitor machadiano é levado a distanciar-se da narrativa para compreender o sentido simbólico inerente.

Dessa forma, Machado foi um predecessor do Modernismo. Este movimento abordou a transformação do ato criador em tema da criação, o que constitui a metalinguagem. A arte do século XX passou por um autoquestionamento, do qual a metalinguagem se tornou um instrumento. Este recurso foi adotado pela arte moderna com a finalidade de produzir no espectador/leitor uma nova atitude. A intenção de despertar no leitor a consciência de que a arte é um “fazer artístico” integrava o projeto estético modernista.

A arte deixou de ser apenas um espaço de evasão e também incluiu em suas funções a possibilidade da tomada de consciência por meio do distanciamento do objeto artístico. Quando Machado de Assis dialoga com o leitor, seja para comentar o teor de um capítulo ou para antecipar um acontecimento que só concretizar-se-á num momento posterior, está rompendo a linearidade narrativa e içando o leitor a outro plano. Assim, antecipa a atitude autocrítica dos modernistas.

A discussão sobre os procedimentos de construção do texto deixa claro que o romance não pretende iludir o leitor, tratando a obra como uma realidade aparente. Ao contrário, esta postura lança uma espécie de pacto entre o leitor e o narrador: “eu sei que você está lendo e você sabe que eu estou escrevendo”. Ambos sabem que aquela é uma obra de ficção.

Nas artes plásticas, o termo “desrealização” se refere ao fato de que a pintura deixou de ser mimética e se recusa a simplesmente reproduzir ou imitar a realidade empírica. Na pintura, correntes figurativas, como o cubismo, o expressionismo e o surrealismo, todas consideradas representantes das vanguardas européias, deixaram de visar à reprodução fiel da realidade sensível para desenvolver a arte a partir da fragmentação, da geometria, da deformação, do onírico e do absurdo. Todas constituem a negação do realismo enquanto designação da tendência à reprodução da realidade apreendida pelos sentidos.

No universo machadiano, o que importa é considerar que a fantasia funciona como realidade. No caso de Bentinho, em Dom Casmurro, imaginária ou real, falsa ou verdadeira, a conseqüência é a mesma, destrói a vida do personagem-título, torna-o um sujeito atormentado pela dúvida, pela desconfiança de que sua amada, Capitu, o traíra com seu grande amigo Escobar, gerando um filho.

No entanto, como a obra é narrada em primeira pessoa, o leitor não tem acesso aos fatos tais como eles aconteceram, mas apenas à versão do narrador-personagem, cuja isenção é nula. Ele diz que o filho é idêntico a Escobar, e cabe ao leitor tirar as suas próprias conclusões, acreditar ou não na versão de Bentinho. Enfim, o real pode ser o que parece real.

As pergunta”s:

1. Que trecho do texto acima revela um equívoco na leitura da obra de Machado de Assis? Transcreva-o.

2. Que passagem do texto pode ser usada para sustentar a hipótese de que Machado de Assis foi “vanguardista”, considerando o contexto em que se insere a sua obra?

3. Na SUA opinião, Machado de Assis pode ser citado como exemplo de autor “genial” Por quê? Que passagem do texto acima poderia sustentar sua justificativa?

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17 comentários em “Para LET873 – 3

  1. 1- ” A ruptura se dá com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico, não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. Brás Cubas sabe que seu romance é uma versão: está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações.”
    2- “Quando Machado de Assis dialoga com o leitor, seja para comentar o teor de um capítulo ou para antecipar um acontecimento que só concretizar-se-á num momento posterior, está rompendo a linearidade narrativa e içando o leitor a outro plano.A discussão sobre os procedimentos de construção do texto deixa claro que o romance não pretende iludir o leitor, tratando a obra como uma realidade aparente. Ao contrário, esta postura lança uma espécie de pacto entre o leitor e o narrador: “eu sei que você está lendo e você sabe que eu estou escrevendo”. Ambos sabem que aquela é uma obra de ficção.”
    3- Sim, pois é um autor que utilizou de um modo diferenciado para escrever conseguindo unir a realidade e a ficção. Nessa passagem, “No universo machadiano, o que importa é considerar que a fantasia funciona como realidade.” Nos traz várias leituras possíveis em sua obra, dependendo do olhar mais atento ou menos atento do leitor.

    1. Comentário:
      1- ” A ruptura se dá com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico (Há controvérsias…), não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. (Mesmo assim, a peculiar verossimilhança do romance se consolida!) Brás Cubas sabe que seu romance é uma versão (De quê?): está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações.”
      2- “Quando Machado de Assis dialoga com o leitor, seja para comentar o teor de um capítulo ou para antecipar um acontecimento que só concretizar-se-á num momento posterior, está rompendo a linearidade narrativa e içando o leitor a outro plano. A discussão sobre os procedimentos de construção do texto deixa claro que o romance não pretende iludir o leitor, tratando a obra como uma realidade aparente. Ao contrário, esta postura lança uma espécie de pacto entre o leitor e o narrador: “eu sei que você está lendo e você sabe que eu estou escrevendo”. Ambos sabem que aquela é uma obra de ficção.”
      3- Sim, pois é um autor que utilizou de um modo diferenciado para escrever conseguindo unir a realidade e a ficção. Nessa passagem, “No universo machadiano, o que importa é considerar que a fantasia funciona como realidade.” Nos traz várias leituras possíveis em sua obra, dependendo do olhar mais atento ou menos atento do leitor.

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  2. 1)”A ruptura se dá com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico, não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança.”
    2)”Machado faz uso da metalinguagem ao interpelar o leitor ou a leitora ou redigindo digressões, o que torna a leitura descontínua. Essa descontinuidade impede a mistura entre realidade e ficção por parte de quem lê. O leitor machadiano é levado a distanciar-se da narrativa para compreender o sentido simbólico inerente.”
    3)Sim,”A discussão sobre os procedimentos de construção do texto deixa claro que o romance não pretende iludir o leitor, tratando a obra como uma realidade aparente. Ao contrário, esta postura lança uma espécie de pacto entre o leitor e o narrador: “eu sei que você está lendo e você sabe que eu estou escrevendo”. Ambos sabem que aquela é uma obra de ficção.”

    1. 1)”A ruptura se dá com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico (Isso não é unanimidade nacional!), não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança.”(Mas a peculiaridade da narrativa não deixa de explicitar sua própria verossimilhança!)
      2)”Machado faz uso da metalinguagem ao interpelar o leitor ou a leitora ou redigindo digressões, o que torna a leitura descontínua. Essa descontinuidade impede a mistura entre realidade e ficção por parte de quem lê. O leitor machadiano é levado a distanciar-se da narrativa para compreender o sentido simbólico inerente.”
      3) Sim,”A discussão sobre os procedimentos de construção do texto deixa claro que o romance não pretende iludir o leitor, tratando a obra como uma realidade aparente. Ao contrário, esta postura lança uma espécie de pacto entre o leitor e o narrador: “eu sei que você está lendo e você sabe que eu estou escrevendo”. Ambos sabem que aquela é uma obra de ficção.” (Foi pedido que você desse a SUA opinião…)

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  3. 1- …”No caso de Bentinho, em Dom Casmurro, imaginária ou real, falsa ou verdadeira, a conseqüência é a mesma, destrói a vida do personagem-título, torna-o um sujeito atormentado pela dúvida, pela desconfiança de que sua amada, Capitu, o traíra com seu grande amigo Escobar, gerando um filho”…
    Nada há de irreal nesse romance, pois, traição, ciúmes, etc. são bastante reais no cotidiano humano.

    2- “A ruptura se dá com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico, não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança”.
    Agora sim, pode-se vislumbrar um traço de vanguarda do modernismo, embora seja muito pouco para se considerar que a novidade de um narrador-defunto seja o bastante para o início de um grande movimento artístico.

    3- Na MINHA opinião, li muito pouco da obra de Machado (alguns contos, um ou dois romances) para ousar julgá-lo um gênio ou não. No entanto, Machado é considerado um grande nome da Literatura Brasileira, e não é por acaso, evidentemente.

    1. Comentário:
      1- “… No caso de Bentinho, em Dom Casmurro, imaginária ou real, falsa ou verdadeira, a consequência é a mesma, destrói a vida do personagem-título, torna-o um sujeito atormentado pela dúvida, pela desconfiança de que sua amada, Capitu, o traíra com seu grande amigo Escobar, gerando um filho …”.
      Nada há de irreal nesse romance, pois, traição, ciúmes, etc. são bastante reais no cotidiano humano.

      2- “A ruptura se dá com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico (Há controvérsias!), não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança”. (Mas acaba por encontrar-se no terreno sólido de peculiar verossimilhança!)
      Agora sim, pode-se vislumbrar um traço de vanguarda do modernismo, embora seja muito pouco para se considerar que a novidade de um narrador-defunto seja o bastante para o início de um grande movimento artístico. (Qual o “grande movimento artístico”? A frase ficou ambígua.)

      3- Na MINHA opinião, li muito pouco da obra de Machado (alguns contos, um ou dois romances) para ousar julgá-lo um gênio ou não. No entanto, Machado é considerado um grande nome da Literatura Brasileira, e não é por acaso, evidentemente. (Por certo!)

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  4. – Sim, um tanto difusa, Roberta. Circunscrever Machado de Assis a um estilo sempre será difuso. Ele transborda…

    Qual o terreno da verossimilhança?

    Em termos de ficção, obviamente presume-se ausência do real, entretanto, essa ausência pode vir vestida de realidade. Além do mais, o que é a vida senão uma grande ficção? Mas deixemos de lado as reflexões filosóficas e consideremos as questões propriamente literárias…

    É senso comum classificar Machado de Assis em duas fases literárias. Com efeito, uma configuração mais panorâmica tende a ignorar alguns detalhes assaz importantes, com os quais o próprio Machado fazia muita questão de rechear suas obras.

    “Inicialmente, Machado escreveu romances românticos tradicionais”. Romances românticos tradicionais?! Ok, dentro da visão panorâmica, tudo bem. Mas me parece que outro termo seria mais apropriado, já que não é novidade que as entrelinhas é que são “o forte” do autor.

    Em termos gerais, o texto apresenta uma abordagem lúcida, entretanto, algumas afirmações são um tanto genéricas, repare a pluralidade semântica de “predecessor do Modernismo”. Modernismo aonde? No mundo? Na arte? De fato, Machado de Assis é um homem do seu tempo e, também, muito além dele. A silhueta vanguardista do autor é perceptível, da linguagem à organização textual – como o exemplo do uso das metalinguagens em Brás Cubas. Machado valsa ora com a realidade, ora com o total absurdo. Este aspecto é o que descortina a genialidade do autor. “No universo machadiano, o que importa é considerar que a fantasia funciona como realidade”.

    Enfim, perdoe-me as críticas difusas, caro leitor, mas para tecer considerações sobre Machado devemos valsar…

    1. Comentário:
      – Sim, um tanto difusa, Roberta. Circunscrever Machado de Assis a um estilo sempre será difuso. Ele transborda…

      Qual o terreno da verossimilhança?

      Em termos de ficção, obviamente presume-se ausência do real, entretanto, essa ausência pode vir vestida de realidade. Além do mais, o que é a vida senão uma grande ficção? Mas deixemos de lado as reflexões filosóficas e consideremos as questões propriamente literárias…

      É senso comum classificar Machado de Assis em duas fases literárias. Com efeito, uma configuração mais panorâmica tende a ignorar alguns detalhes assaz importantes, com os quais o próprio Machado fazia muita questão de rechear suas obras.

      “Inicialmente, Machado escreveu romances românticos tradicionais”. Romances românticos tradicionais?! Ok, dentro da visão panorâmica, tudo bem. Mas me parece que outro termo (Que “outro” termo seria este?) seria mais apropriado, já que não é novidade que as entrelinhas é que são “o forte” do autor.

      Em termos gerais, o texto apresenta uma abordagem lúcida, entretanto, algumas afirmações são um tanto genéricas, repare a pluralidade semântica de “predecessor do Modernismo”. Modernismo aonde? No mundo? Na arte? De fato, Machado de Assis é um homem do seu tempo e, também, muito além dele. A silhueta vanguardista do autor é perceptível, da linguagem à organização textual – como o exemplo do uso das metalinguagens em Brás Cubas. Machado valsa ora com a realidade, ora com o total absurdo. Este aspecto é o que descortina a genialidade do autor. “No universo machadiano, o que importa é considerar que a fantasia funciona como realidade”.

      Enfim, perdoe-me as críticas difusas, caro leitor, mas para tecer considerações sobre Machado devemos valsar… (Uma opção instigante, a sua, para responder às questões propostas… Podia ter se alongado um tanto mais… Mas o cansaço da valsa deve ter-se abatido…!)

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  5. 1. “Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. Brás Cubas sabe que seu romance é uma versão: está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações.”
    2. “Machado faz uso da metalinguagem ao interpelar o leitor ou a leitora ou redigindo digressões, o que torna a leitura descontínua. Essa descontinuidade impede a mistura entre realidade e ficção por parte de quem lê. O leitor machadiano é levado a distanciar-se da narrativa para compreender o sentido simbólico inerente.”
    3. Sim, considero-o um gênio, pois apesar das inúmeras dificuldades em seu caminho: mestiço e pobre dentro de uma sociedade com princípios escravocratas (séc. XIX), Machado de Assis não se curvou perante a classe dominante e, com força de revelação crítica, através dos seus conhecimentos, ou até mesmo por uma tendência natural, o autor produziu uma obra de modo a romper com as antigas tendências.
    Neste sentido, de maneira radical, com novas ideias, conceitos e técnicas, a obra representada pelo pensamento do escritor o levou ao patamar de figura com grande destaque na Literatura Brasileira.
    “Dessa forma, Machado foi um predecessor do Modernismo. Este movimento abordou a transformação do ato criador em tema da criação, o que constitui a metalinguagem.”.

    1. 1. “Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. (Mas acaba por inaugurar sua “própria” verossimilhança!) Brás Cubas sabe que seu romance é uma versão (De quê?): está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações.”
      2. “Machado faz uso da metalinguagem ao interpelar o leitor ou a leitora ou redigindo digressões, o que torna a leitura descontínua. Essa descontinuidade impede a mistura entre realidade e ficção por parte de quem lê. O leitor machadiano é levado a distanciar-se da narrativa para compreender o sentido simbólico inerente.”
      3. Sim, considero-o um gênio pois, apesar das inúmeras dificuldades em seu caminho: mestiço e pobre dentro de uma sociedade com princípios escravocratas (séc. XIX), Machado de Assis não se curvou perante a classe dominante e, com força de revelação crítica, através dos seus conhecimentos, ou até mesmo por uma tendência natural, o autor produziu uma obra de modo a romper com as antigas tendências.
      Neste sentido, de maneira radical, com novas ideias, conceitos e técnicas, a obra representada pelo pensamento do escritor o levou ao patamar de figura com grande destaque na Literatura Brasileira. (Interessante)
      “Dessa forma, Machado foi um predecessor do Modernismo. Este movimento abordou a transformação do ato criador em tema da criação, o que constitui a metalinguagem.”.

  6. 1) “A ruptura se dá com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico, não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. Brás Cubas sabe que seu romance é uma versão: está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações. ”

    2)Considerando o contexto no qual Machado de Assis produz a sua obra, podemos considerá-lo “vanguardista” tanto pelo teor metalinguístico, pelo caráter inverosímel inovador presente no ” defunto-autor”, quanto na configuração de uma relação narrador- leitor que será marcada pela premissa de quem ambos sabem que aquilo diz respeito a uma obrade ficção. Uma passagem que serve de sustentação para a hipótese de Machado de Assis ser considerado vanguardista pode ser vista nesse trecho: “Quando Machado de Assis dialoga com o leitor, seja para comentar o teor de um capítulo ou para antecipar um acontecimento que só concretizar-se-á num momento posterior, está rompendo a linearidade narrativa e içando o leitor a outro plano. Assim, antecipa a atitude autocrítica dos modernistas.”

    3) É indiscutível na minha opinião a questão da genialidade de Machado de Assis, uma vez que as condições que lhe foram impostas por uma sociedade como a que ele vivia, com os princípios que ela pregava, não lhe foram suficientemente fortes para que o impedissem se tornar o que ele é na Literatura Brasileira. Fora a questão social, temos a sua excelência tanto em textos literários quanto em textos críticos: as propostas difundidas por ele em seu “Instinto de Nacionalidade” de teor crítico refletem em seus textos literários. O caráter metalinguístico, a preocupação em estabelecer um diálogo entre o narrador e o leitor de modo com que ambos interajam mesmo sabendo que se trata de uma obra ficcional e principalmente a preocupação de que o leitor saiba se distanciar do texto para que possa atribuir uma significação a ele. Podemos perceber essa preocupação, que para mim é de grande importância na seguinte frase do texto: ” O leitor machadiano é levado a distanciar-se da narrativa para compreender o sentido simbólico inerente.”

    1. 1) “A ruptura se dá com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico (Isso é discutível!), não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. (Sem deixar de constituir sua própria verossimilhança) Brás Cubas sabe que seu romance (É mesmo dele? Mas ele não é uma personagem?) é uma versão: está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações. ” (???)

      2) Considerando o contexto no qual Machado de Assis produz a sua obra, podemos considerá-lo “vanguardista” tanto pelo teor metalinguístico, pelo caráter inverossímil inovador presente no ” defunto-autor”, quanto na configuração de uma relação narrador-leitor que será marcada pela premissa de que ambos sabem que aquilo diz respeito a uma obra” de ficção. (Em vez de “dizer respeito… é uma obra de ficção) Uma passagem que serve de sustentação para a hipótese de Machado de Assis ser considerado vanguardista pode ser vista nesse trecho: “Quando Machado de Assis dialoga com o leitor, seja para comentar o teor de um capítulo ou para antecipar um acontecimento que só concretizar-se-á num momento posterior, está rompendo a linearidade narrativa e içando o leitor a outro plano. Assim, antecipa a atitude autocrítica dos modernistas.”

      3) É indiscutível, na minha opinião, a questão da genialidade de Machado de Assis, uma vez que as condições que lhe foram impostas por uma sociedade como a que ele vivia, com os princípios que ela pregava, não lhe foram suficientemente fortes para que o impedissem se tornar o que ele é na Literatura Brasileira. Fora a questão social, temos a sua excelência tanto em textos literários quanto em textos críticos: as propostas difundidas por ele em seu “Instinto de Nacionalidade”, de teor crítico refletem em seus textos literários. O caráter metalinguístico, a preocupação em estabelecer um diálogo entre o narrador e o leitor de modo com que ambos interajam mesmo sabendo que se trata de uma obra ficcional e principalmente a preocupação de que o leitor saiba se distanciar do texto para que possa atribuir uma significação a ele. Podemos perceber essa preocupação que, para mim, é de grande importância na seguinte frase do texto: ” O leitor machadiano é levado a distanciar-se da narrativa para compreender o sentido simbólico inerente.”

  7. 1- Pode-se dizer que, ao escrever que “Machado escreveu romances românticos tradicionais, como Helena e Iaiá Garcia.”, a autora classifica a obra machadiana com a grade do senso-comum, que teima em separar a obra o escritor em fase romântica e fase realista. No entanto, ao meu ver, a obra de Machado é, desde o inicio, orientada mais pelas técnicas realistas, uma resposta ao romantismo, em um primeiro momento, e, a partir de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, uma resposta às limitações da escola realista, adiantando algumas técnicas que serão caras aos modernistas do início do século XX.

    2- A metalinguagem e a interpelação do leitor são os pontos que permitem a autora aproximar a obra machadiana dos ideais vanguardistas. De fato, Machado adianta certos procedimentos que estarão inseridos no programa modernista. O afastamento do narrador em relação ao narrado e o consequente afastamento do leitor em relação ao que é lido, se hoje é um paradigma da literatura moderna, ao contexto de Machado era inusual. Basta pensar que a metalinguagem só será pensada teoricamente no início do século XX, por Roman Jakobson, e o distanciamento do personagem em relação a ficção da qual participa será celebrada após o surgimento da obra de Bertolt Brecht.

    3- Desconsiderando a noção romântica do gênio subjetivamente inspirado, e tomando o termo gênio para designar um “homem de seu tempo” que foi capaz de adiantar procedimentos técnicos graças à argúcia da observação de seu meio social, podemos sim considerar machado um gênio. Além da análise dos hábitos e costumes de sua sociedade, da renovação formal e da inventividade superior, Machado permanece como um paradigma da literatura moderna e contemporânea.

    1. 1- Pode-se dizer que, ao escrever que “Machado escreveu romances românticos tradicionais, como Helena e Iaiá Garcia”, a autora classifica a obra machadiana com a grade do senso comum, que teima em separar a obra o escritor em fase romântica e fase realista. No entanto, ao meu ver, a obra de Machado é, desde o inicio, orientada mais pelas técnicas realistas, uma resposta ao Romantismo, em um primeiro momento, e, a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma resposta às limitações da escola realista, adiantando algumas técnicas que serão caras aos modernistas do início do século XX.

      2- A metalinguagem e a interpelação do leitor são os pontos que permitem a autora aproximar a obra machadiana dos ideais vanguardistas. De fato, Machado adianta certos procedimentos que estarão inseridos no programa modernista. O afastamento do narrador em relação ao narrado e o consequente afastamento do leitor em relação ao que é lido, se hoje é um paradigma da literatura moderna, no contexto de Machado, era inusual. Basta pensar que a metalinguagem só será pensada teoricamente no início do século XX, por Roman Jakobson, (Antes dele hou Bakhtin que, de certa forma, estabeleceu as “bases” para o desenvolvimento deste conceito) e o distanciamento do personagem em relação à ficção da qual participa será celebrada após o surgimento da obra de Bertolt Brecht. (Por que e como, especificamente, este autor?)

      3- Desconsiderando a noção romântica do gênio subjetivamente inspirado e tomando o termo gênio para designar um “homem de seu tempo”, que foi capaz de adiantar procedimentos técnicos graças à argúcia da observação de seu meio social, podemosm, sim, considerar machado um gênio. Além da análise dos hábitos e costumes de sua sociedade, da renovação formal e da inventividade superior, Machado permanece como um paradigma da literatura moderna e contemporânea. (Bom!)

  8. 1) “A ruptura se dá com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico, não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. Brás Cubas sabe que seu romance é uma versão: está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações. ”
    2) “Quando Machado de Assis dialoga com o leitor, seja para comentar o teor de um capítulo ou para antecipar um acontecimento que só concretizar-se-á num momento posterior, está rompendo a linearidade narrativa e içando o leitor a outro plano. Assim, antecipa a atitude autocrítica dos modernistas.”
    3) “No universo machadiano, o que importa é considerar que a fantasia funciona como realidade” Eu vejo Machado de Assis como uma mente extraordinária, a frente de seu tempo e capaz de transportar o leitor a um mundo novo, engendrado com tamanha habilidade que transpõe à existência o irreal. Além disso, ele possuía algo que eu admiro imensamente em uma escritor: a competência de fazer transbordar de histórias o “vazio” das entrelinhas. Porém, apesar de Machado de Assis ser inegavelmente grandioso, eu acredito que os verdadeiros gênios são aqueles artistas que transcendem o magnífico, o que, para mim, não foi o caso de Machado, ainda que ele tenha sim beirado a genialidade.

    1. Comentário:
      1) “A ruptura se dá com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico, (Esta afirmativa não pode ser assim tão categórica. Há que “modulá-la” pois há controvérsias!) não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. (Mas ele acaba por ser absolutamente verossímil!) Brás Cubas sabe que seu romance (O romance é do Brás Cubas? Ele é apenas uma personagem…) é uma versão (De quê?): está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações.” (Como assim?)
      2) “Quando Machado de Assis dialoga com o leitor, seja para comentar o teor de um capítulo ou para antecipar um acontecimento que só concretizar-se-á num momento posterior, está rompendo a linearidade narrativa e içando o leitor a outro plano. Assim, antecipa a atitude autocrítica dos modernistas.”
      3) “No universo machadiano, o que importa é considerar que a fantasia funciona como realidade”. Eu vejo Machado de Assis como uma mente extraordinária, à frente de seu tempo e capaz de transportar o leitor a um mundo novo, engendrado com tamanha habilidade que transpõe à existência o irreal. Além disso, ele possuía algo que eu admiro imensamente em uma escritor: a competência de fazer transbordar de histórias o “vazio” das entrelinhas. Porém, apesar de Machado de Assis ser inegavelmente grandioso, eu acredito que os verdadeiros gênios são aqueles artistas que transcendem o magnífico, o que, para mim, não foi o caso de Machado, ainda que ele tenha sim beirado a genialidade. (Como assim? Ele não “transcende” o magnífico? O que você quer dizer com isso?)

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  9. 1- “A ruptura se dá com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), no qual o narrador em primeira pessoa, autobiográfico, não é um “autor defunto”, mas um “defunto autor”. Ao colocar um defunto como narrador, o texto já deixa claro que envereda pelo terreno da inverossimilhança. Brás Cubas sabe que seu romance é uma versão: está rememorando os fatos e não pode recuperá-los fielmente, apenas contá-los como interpretações. “Era fixa a minha idéia, fixa como… Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo…” “. Um dos equívocos desse texto é dividir a obra machadiana em duas fases. Não houve ruptura alguma e sim a intensificação de determinados traços que já estavam presentes em sua obra, por exemplo, sua visão ímpar do mundo. Outro erro bárbaro é a autora dizer que o texto deixa claro que envereda pelo caminho da inverossimilhança, se julgarmos verossimilhança desta forma, classificaríamos a maior parte da literatura como inverosímel, Hamlet, por exemplo.

    2- “Dessa forma, Machado foi um predecessor do Modernismo. Este movimento abordou a transformação do ato criador em tema da criação, o que constitui a metalinguagem. A arte do século XX passou por um autoquestionamento, do qual a metalinguagem se tornou um instrumento. Este recurso foi adotado pela arte moderna com a finalidade de produzir no espectador/leitor uma nova atitude. A intenção de despertar no leitor a consciência de que a arte é um “fazer artístico” integrava o projeto estético modernista.” No Brasil, Machado de Assis foi o precursor da metalinguagem, sua visão ímpar e irônica dos fatos também foi inusitada na literatura brasileira, tendo isso em vista, podemos, sim, afirmar que machado de Assis foi vanguardista em nossa literatura.

    3- “A arte deixou de ser apenas um espaço de evasão e também incluiu em suas funções a possibilidade da tomada de consciência por meio do distanciamento do objeto artístico. Quando Machado de Assis dialoga com o leitor, seja para comentar o teor de um capítulo ou para antecipar um acontecimento que só concretizar-se-á num momento posterior, está rompendo a linearidade narrativa e içando o leitor a outro plano. Assim, antecipa a atitude autocrítica dos modernistas. ”
    Para mim, sem duvidas, Machado de Assis é um autor genial, pois conseguiu mesclar elementos tais como exuberância, ironia, metalinguagem, concisão, entre. Foi um autor capaz de mudar a história (e sobreviver a ela!) e nisto consiste, também, sua genialidade.

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