Para LET873 – 7

Abaixo seguem trechos de três manifestos vanguardistas que exerceram influência no desenvolvimento do Modernismo brasileiro e um excerto de um poema e Mario de Andrade. O que se pede hoje é o seguinte:

1. Quais são os traços comuns encontrados nos três trechos dos manifestos?

2. Como se pode articular estes “traços comuns” na/pela leitura do excerto do poema?

Redija um comentário que explicite estes aspectos comuns na leitura do excerto do poema.

 

 

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As ideias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimamos as ideias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

(Manifesto Antropófago)

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6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem.

8. Estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade omnipresente

(Manifesto Futurista)

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O surrealismo, tal como o encaro, declara bastante o nosso não-conformismo absoluto para que possa ser discutido trazê-lo, no processo do mundo real., como testemunho de defesa. Ao contrário, ele só pode justificar o estado completo de distração da mulher em Kant, a distração das “uvas” em Pasteur, a distração dos veículos em Curie são a esse respeito profundamente sintomáticos. Este mundo só relativamente está à altura do pensamento, e os incidentes deste gênero são apenas os episódios até aqui mais marcantes de uma guerra de independência, da qual tenho o orgulho de participar. O surrealismo é o “raio invisível” que um dia nos fará vencer os nossos adversários. “Não tremes mais, carcaça.” Neste verão as rosas são azuis, a madeira é de vidro. Aterra envolta em seu verdor me faz tão pouco afeito quanto um fantasma. VIVER E DEIXAR DE VIVER É QUE SÃO SOLUÇÕES IMAGINÁRIAS. A EXISTÊNCIA ESTÁ EM OUTRO LUGAR.

(Manifesto Surrealista)

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A meditação sobre o Tietê (excerto)

Mario de Andrade

Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
– Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar…
É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade… É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?…
Por que me proíbes assim praias e mar, por que
Me impedes a fama das tempestades do Atlântico
E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?
Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!…

Para LET874 – 6

Fernando Pessoa

[Carta a Adolfo Casais Monteiro – 20 Jan. 1935]

[Carta a Adolfo Casais Monteiro – 20 Jan. 1935]

Caixa Postal 147

Lisboa, 20 de Janeiro de 1935.

Meu querido Camarada:

Muito obrigado pela sua carta. Ainda bem que consegui dizer alguma coisa que deveras interessasse. Cheguei a duvidar de que o fizesse, pela maneira precipitada e corrente como lhe escrevi, ao sabor da conversa mental que estava tendo consigo.

Respondo e com igual espontaneidade, portanto falta de método e de arrumação, à sua carta agora recebida. Mas, enfim, qualquer coisa respondo. Sigo ao acaso os pontos a que tenho de responder.

Quanto ao seu estudo a meu respeito, que desde já, por o que é de honroso, muito lhe agradeço: deixe-o para depois de eu publicar o livro grande em que congregue a vasta extensão autónima do Fernando Pessoa. Salvo qualquer complicação imprevista, deverei ter esse livro feito e impresso em Outubro deste ano. E então V. terá os dados suficientes: esse livro, a faceta subsidiária representada pela «Mensagem», e o bastante, já publicado, dos heterónimos. Com isto já o Casais Monteiro poderá ter uma «impressão de conjunto», supondo que em mim haja qualquer coisa tão contornada como um conjunto.

Em tudo isto, reporto-me simplesmente a poesia, não sou porém limitado a esse sorriso das letras. Mas, quanto a prosa, já me conhece, e o que há publicado é o bastante. Até à data, que indico como provável para o aparecimento do livro maior, devem estar publicados o Banqueiro Anarquista (em nova forma e redacção), uma novela policiária (que estou escrevendo e não é aquela a que me referi na carta anterior) e mais um ou outro escrito que as circunstâncias possam evocar.

É extraordinariamente bem feita a sua observação sobre a ausência que há em mim do que possa legitimamente chamar-se uma evolução qualquer. Há poemas meus, escritos aos vinte anos, que são iguais em valia — tanto quanto posso apreciar — aos que escrevo hoje. Não escrevo melhor do que então, salvo quanto ao conhecimento da língua portuguesa — caso cultural e não poético. Escrevo diferentemente. Talvez a solução do caso esteja no seguinte.

O que sou essencialmente — por trás das máscaras involuntárias do poeta, do raciocinador e do que mais haja — é dramaturgo. O fenómeno da minha despersonalização instintiva a que aludi em minha carta anterior, para explicação da existência dos heterónimos, conduz naturalmente a essa definição. Sendo assim, não evoluo, VIAJO. (Por um lapso na tecla das maiúsculas saiu-me, sem que eu quisesse, essa palavra em letra grande. Está certo, e assim deixo ficar). Vou mudando de personalidade, vou (aqui é que pode haver evolução) enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo. Por isso dei essa marcha em mim como cornparável, não a uma evolução, mas a uma viagem: não subi de um andar para outro; segui, em planície, de um para outro lugar. Perdi, é certo, algumas simplezas e ingenuidades, que havia nos meus poemas de adolescência; isso, porém, não é evolução, mas envelhecimento.

Creio ter dado, nestas palavras apressadas, qualquer vislumbre de uma ideia nítida do em que concordo com, e aceito, o seu critério de que em mim não tem havido propriamente evolução.

Refiro-me, agora, ao caso da publicação de livros meus num futuro próximo. Não há razão para se preocupar com dificuldades nesse sentido. Se quiser realmente publicar o Caeiro, o Ricardo Reis e o Álvaro de Campos, posso fazê-lo imediatamente. Sucede, porém, que receio a nenhuma venda de livros desse género e tipo. A hesitação está só aí. Quanto ao livro grande de versos, esse, como qualquer outro, tem desde já a publicação garantida. Se penso mais nesse do que noutro, é que acho mais vantagem mental na publicação dele, e, apesar de tudo, menos risco de inêxito na sua edição.

Quanto à publicação do Banqueiro Anarquista em inglês, também aí não haverá, creio eu, mas por outras razões, dificuldade notável. Se na obra houver capacidade de interesse para o mercado inglês, o agente literário a quem eu a enviar, a colocará mais tarde ou mais cedo. Não será preciso recorrer ao apoio do Richard Aldington, cuja indicação todavia, muito lhe agradeço. Os agentes literários (respondo agora à sua pergunta sobre o que são) são indivíduos, ou firmas, que colocam os livros ou escritos dos autores junto de editores ou directores de jornais, que eles, melhor que os autores, avaliam quais devem ser, mediante uma comissão, em geral de dez por cento. Neste ponto, sei o que hei-de fazer e a quem me hei-de dirigir — coisa rara, aliás, em mim, um qualquer circunstância prática da vida.

Abraça-o o camarada amigo e admirador

Fernando Pessoa

A carta acima é mais que importante para oe studo da obra de Fernando Pessoa e a compreensão de importante “passo” da História da Literatura Portuguesa.

1. Que ideias expressas pelo poeta podem apontar para uma relação direta de sua poesia com o Modernismo português?  Justifique.

2. Que trecho da carta pode ser exemplificar o posicionamento do poeta em relação ao contexto da Literatura Portuguesa no início do século 20? Justifique.

Para LET873 – 6

Moça linda bem tratada

Mário de Andrade

Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.

Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.

Mulher gordaça, filó,
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência…

Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta de pobre arromba:
Uma bomba.

 

“O Modernismo Brasileiro foi complexo e contraditório, com linhas centrais e linhas secundárias, mas iniciou uma era de transformações essenciais. Depois de ter sido considerado excentricidade e afronta ao bom gosto, acabou tornando-se um grande fator de renovação e o ponto de referência da atividade artística e literária. De certo modo, abriu a fase mais fecunda da literatura brasileira, porque já então havia adquirido maturidade suficiente para assimilar com originalidade as sugestões das matrizes culturais, produzindo em larga escala uma literatura própria.

A sua contribuição fundamental foi a defesa da liberdade de criação e experimentação, começando por bater em brecha a estética acadêmica, encarnada sobretudo na poesia e na prosa oratória, mecanizadas nas formas endurecidas que serviam para petrificar a expressão a serviço das idéias mais convencionais. Para isso, os modernistas valorizaram na poesia os temas quotidianos tratados com prosaísmo e quebraram a hierarquia dos vocábulos, adotando as expressões coloquiais mais singelas, mesmo vulgares, para desqualificar a solenidade ou a elegância afetada. Neste sentido, combateram a mania gramatical e pregaram o uso da língua segundo as características diferenciais do Brasil, incorporando o vocabulário e a sintaxe irregular de um país onde as raças e as culturas se misturam. Além disso, passaram por cima das distinções entre os gêneros, injetando poesia e insólito na narrativa em prosa, abandonando as formas poéticas regulares, misturando documento e fantasia, lógica e absurdo, recorrendo ao primitivismo do folclore e ao português deformado dos imigrantes, chegando a usar como exemplo extremo contra a linguagem oficial certas ordenações sintáticas tomadas a línguas indígenas. Os românticos haviam “civilizado”a imagem do índio, injetando nele os padrões do cavalheirismo convencional. Os modernistas, ao contrário, procuraram nele e no negro o primitivismo, que injetaram nos padrões da civilização dominante como renovação e quebra das convenções acadêmicas. Mas nesse jogo muitos acabaram num artificialismo equivalente ao dos românticos, sobretudo os que foram buscar na tradição indígena alimento para um patriotismo ornamental. Assim foi que alguns modernistas secundários de São Paulo denunciaram as tendências cosmopolitas e demolidoras, criando o grupo Verde-Amarelo, patriótico e sentimental, que terminou politicamente em atitudes conservadoras.”

(CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira)

 

Depois de ler o poema e os dois parágrafos de Antono Candido, redija (no mínimo, dois parágrafos) um comentário que articule o “resultado” de SUA leitura analítica e as ideias do crítico brasileiro.

Para LET874 – 5

 

M_P_Amada

A SOMBRA SOU EU

Almada Negreiros


A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei dó que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e que não me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

 

O poema acima é de Almada Negreiros. Escritor e artista plástico, José Sobral de Almada Negreiros nasceu em S. Tomé e Príncipe a 7 de Abril de 1893. Foi um dos fundadores da revista “Orpheu”(1915), veículo de introdução do modernismo em Portugal, onde conviveu de perto com Fernando Pessoa. Além da literatura e da pintura a óleo, Almada desenvolveu ainda composições coreográficas para ballet. Trabalhou em tapeçaria,  gravura, pintura mural, caricatura, mosaico, azulejo e vitral. Faleceu a 15 de Junho de 1970 no Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa,  no mesmo quarto onde morrera seu amigo Fernando Pessoa.

“As duas orientações de busca e criação de Almada Negreiros foram a beleza e a sabedoria. Para ele “a beleza não podia ser ignorante e idiota tal como a sabedoria não podia ser feia e triste” (Freitas, 1985). Almada Negreiros foi um pintor-pensador. Foi praticante de uma arte elaborada que pressupõe uma aprendizagem que não se esgota nas escolas de arte; bem pelo contrário, uma aprendizagem que implica um percurso introspectivo e universal. O tema principal de Almada foi o número, a geometria (sagrada) e  os seus significados, declarando que a sabedoria poética e a sabedoria reflectida têm entre elas a fronteira irredutível do número. Almada revela-se assim um neopitagórico sendo este seu lado a fonte mais profunda da sua inspiração e da sua criatividade e, segundo Lima de Freitas, a sua “loucura” central.

Vulto cimeiro da vida cultural portuguesa durante quase meio século, contribuiu mais que ninguém para a criação, prestígio e triunfo do modernismo artístico em Portugal. Na sua evolução como pintor, Almada passou do figurativismo e da representação convencional dos primeiros tempos, para a abstracção geométrica, matemática e numérica que caracteriza as suas últimas obras. A sua preocupação central foi a determinação do enigmático Ponto de Bauhütte. Essa procura ficou registada por vários textos, por numerosos traçados geométricos e por algumas pinturas a preto e branco que Almada foi acumulando, mas sem tornar público o fundo do seu pensamento. Antes de romper o quase segredo da sua busca, Almada realiza, para o Tribunal de Contas de Lisboa, um dos cartões para tapeçaria intitulado «O Número». “

1. Os versos de Almada Negreiros podem ser lidos como uma espécie de “eco temático” de outros dois poetas já citados aqui. Que poetas são esses? Que versos de Almada Negreiros poderiam ser usados como exemplo desta “aproximação”? Justifique sua resposta.

2. No segundo parágrafo do trecho acima, algumas ideias de ordem “filosófica” podem ser apontadas como pontos de articulação da propostas modernistas da poética de Negreiros e uma possível herança “realista”. Que ideias seriam estas? Como VOCÊ vê esta articulaçãp possível? Justifique sua resposta.

Para LET873 – 5

 

O carnaval, mais uma vez, passou. Não acaba… Desde a antiguidade está aqui, presente na cultura ocidental. Neste ano, ele já se foi… Apesar das imbecilidades que sou obrigado a ouvir dos “comentaristas” da Globo, vejo parte do desfile das escolas de samba, de São Paulo e do Rio. A União da Ilha do Governador é uma das escolas de samba de que mais gosto. Seu samba-enredo em 2013 homenageou os 100 anos do  “poetinha”. Pego carona nos ecos do reinado de Momo e proponho a leitura de um poema quase homônimo.

Ilha do Governador

Vinícius de Moraes

Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a “Berceuse“?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?

Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.

Um dia mandei: “Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…”

Depois, eu e Eli fomos andando… – ela tremia no meu braço
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam
A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.

Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…

Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento
Vêm da noite inquieta que agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?

 

Na leitura, o poema é quase um “tratado”.

1. Dos versos, qual(is) pode(m) servir de exemplo de um exercício de “retorno” a procedimentos de criação poética considerados “tradicionais”? Explique como o exemplo procede.

2. É possível encontrar no poema traços de certa “sensibilidade romântica”? Justifique sua resposta.

3. O Realismo se circunscreve a uma poética vinculada à “realidade” como objeto de representação poética. Se esta afirmativa procdde, é possível encontrar alguma vinculação desta a firmação e o texto do poema de Vinícius? Como? Por quê? Dê exemplo(s).

Para LET873 – 4

Postula-se que a Idade Média resgatada por Bandeira seja de feição portuguesa, uma vez que o próprio poeta admite ter sofrido uma forte influência da literatura portuguesa em sua produção poética, informação que é atestada por meio de cartas e crônicas escritas por ele. Em uma crônica intitulada “Presente”, de seu livro Crônicas da província do Brasil (1974), em que o poeta expõe sua formação clássica portuguesa, Manuel Bandeira admite que mesmo quando se vale de formas, aparentemente, rebeldes à tradição, ainda sente as raízes que vão mergulhar nos cancioneiros.

A correspondência entre Manuel Bandeira e Mário de Andrade, reunidas no livro Correspondências Mário de Andrade & Manuel Bandeira (2001), organizada por Marcos Antônio de Moraes, também sinaliza essa relação de influência de Bandeira com a literatura portuguesa. Aliás, quando o poeta publicou Cinza das horas (1917), seu primeiro livro de poesias, Mário de Andrade criticou a presença do lusitanismo em alguns poemas de Manuel Bandeira. Sua crítica dirigiu-se, em particular, aos poemas “Paráfrase de Ronsard” e “Solau do desamado”. Manuel Bandeira não gostou das considerações de Mário, pois para ele o que o amigo chamava de influência lusitana, não era somente uma influência, mas uma incorporação das estéticas de seus precursores portugueses transferidas para a sua própria poesia. O poeta não considera os elementos portugueses, em seus versos, como recursos expressivos de outra língua, mas como elementos pertencentes à sua própria linguagem. Não esquecendo de mencionar que Bandeira aprecia o efeito estético de elementos de origem portuguesa em sua poesia. Além da poesia trovadoresca portuguesa, a poesia bandeiriana, principalmente, em seus primeiros livros, Cinza das Horas (1917) e Carnaval (1919), sugere uma relação de influência com os poemas de Camões, Eugênio de Castro e Antonio Nobre.

(“A presença do elemento medieval na poesia de Manuel Bandeira”, Mestranda Juliana Fabrícia da Silveira – UNESP-IBILCE)

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Numa fuga à expressão “poética”, ao “belo” tradicional, Manuel Bandeira explora os veios da fala cotidiana, coloquial e popular usando um “prosismo poético”. Tira poema de notícia de jornal, de frases de todo dia. Com esse material traduz as dores do mundo, a vida e a morte, não na dolência ou balanceio da poesia habitual, mas numa secura e por vezes num humor que ostenta a rara qualidade de ser ao mesmo tempo trágico, como “Pneumotórax”. A essa orientação coloquial-irônica pertence, também, mas a outra obra, a “Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá”, escrita pelo poeta depois de ter visto um cartaz do dito sabonete. Neste como em outros poemas, vê-se a intenção de poetar o prosaico, o insignificante – atitude típica do Modernismo e da arte de Manuel Bandeira.

(http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=604750)

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1. Com base no primeiro trecho acima, é possível dizer que a poética de Manuel Bandeira é “tradicionalista” e revaloriza os procedimentos “clássicos” do fazer poético? Por que?

2. Partindo das ideias expressas no segundo trecho, a afirmativa de que o cotidiano é elemento constitutivo da poética de Manuel Bandeira? Justifique sua resposta.

3. No poema “Poética”, há quatro versos que podem ser analisados como um resquício do lirismo romântico, presente na criação do poema, mesmo que circunscrito ao Modernismo brasileiro. Que versos seriam estes? Como estes versos podem ser interpretados da maneira que aqui se afirma?

Para LET874 – 4

Um pouco de poesia não faz mal a ninguém. Hoje, coloco na mesma sala dois poetas cronologicamente separados. O que pergunto é: entre os dois POEMAS, existe alguma característica comum? Em caso positivo, qual(is) seria(m)? No que ivocê lê sobre os dois POETAS, existe a possibilidade de estabelecer traço(s) comum(ns)? Em caso positivo, qual(is) seria (m)? Na SUA opinião, como os dois poetas contribuem para a consolidação da Literatura Portguesa ao longo de sua História?

Sobre Sá de Miranda:

“Sá de Miranda, colaborador do Cancioneiro Geral, cultivou em língua portuguesa e castelhana as formas consagradas nessa colectânea, antes e depois da sua conversão ao novo estilo. Nunca, aliás, repudiou a “medida velha”, em que aprendeu a versejar: na écloga Alexo, que é uma das primeiras expressões da nova escola em Portugal, aceita a coexistência dos dois estilos; numa elegia dedicada a António Ferreira, muito mais tarde, reconhece o interesse das antigas formas de trovar, vilancetes, glosas esparsas, poesia obrigada a mote; e numa carta a António de Meneses, em versos atrás citados, manifesta-se preso ainda ao ambiente dos extintos momos e serões de Portugal, onde se fizera poeta.
Na primeira fase da sua carreira, anteriormente à sua campanha pelo novo estilo, Sá de Miranda cultiva exclusivamente a poesia amorosa em volta dos temas petrarquianos então em voga. A nota que mais frequentemente fere é a da contradição entre a razão e a “vontade”, isto é, a inclinação amorosa. Os seus versos testemunham um espírito torturado e tenso; já então os repassa uma melancolia muito sentida, que se acentuará posteriormente; e já por vezes se nota a expressão condensada, elíptica, que é uma das grandes dificuldades, mas também um dos interesses do seu estilo conciso, em que as palavras parecem faltar para cingir a intensidade ou a largueza do pensamento.
Em fase ulterior, nos poemas que marcam a sua campanha pela introdução em Portugal das formas italianas, enriquece e varia consideravelmente o seu material literário. Nas éclogas, em que segue o modelo de Garcilaso, exibe um estendal de erudição histórica e mitológica, reconta histórias célebres da Antiguidade e alude constantemente a lugares-comuns clássicos. Mas os melhores valores da cultura greco-romana, mesmo os de expressão mítica, pareciam-lhe provir dos “Livros Divinos”. Tanto nas éclogas como noutras obras de inspiração clássica – elegias, sonetos, canções – toca certos tópicos característicos da literatura renascentista: o desdém pela vulgaridade, a superioridade do culto das letras sobre o das armas, a necessidade de renovação pelo estudo dos modelos estrangeiros, e exorta à composição de poemas heróicos de assunto português.”

(SARAIVA, António José; LOPES, Oscar. História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto ,Editora.)

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Sobre Mário de Sá-Carneiro:

“Dono duma insólita hipersensibilidade, aguçada ao extremo do delírio e da loucura, mas destituído de qualquer faculdade equilibradora ou orientadora, como o bom senso ou a Razão, o poeta ganha muito cedo a angustiante sensação de ser estranho à vida, e de esta lhe ser igual e totalmente estranha. O sentimento de estranheza gera-lhe outro: o de inadaptado ao mundo, ou melhor, egocêntrico, vaidoso, mealomaco, sente que o mundo é que não se me adapta e o repete mo a uma incomoda presença. Em consequência, retrai-se para dentro de si num encarolamento soberbo e narcisista, sentindo-se o “Emigrado Astral”, que deve errar na terra seu “exílio” perpétuo como expiação ditada pelos Astros. Sentindo-se “Rei exilado, / vagabundo dum sonho de sereia… “, enerva-se diante da vida terrena, à qual dedica um “desdém Astral”, desejoso de “ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor”. Esse isolamento de ave ferida guarda no íntimo uma egolatria furiosamente feminina e passiva (“Paris da minha ternura”, “Quisera dormir contigo, / Ser todo a tua mulher!…”), traduzida numa egolatria patológica que lhe reduz a zero os ímpetos positivos da existência comum e lhe determina sensações depressivas e derrotistas, como a da pré-inutilidade das coisas, a de viver num mundo irreal, etc. Origina-se daí uma profunda tibieza física, psíquica e metafísica, incluindo o anestesiamento nirvânico do seu corpo (“Esfinge Gorda”), logo tornado igualmente estranho à custa de não mais ser “localizado”, sentido como entidade concreta, em suma, desmaterializado: “Não sinto o espaço que encerro / Nem as linhas que projeto: / Se me olho a um espelho, erro – / Não me acho no que projecto.”

(MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. São Paulo: Cultrix)