Para LET873 – 5

 

O carnaval, mais uma vez, passou. Não acaba… Desde a antiguidade está aqui, presente na cultura ocidental. Neste ano, ele já se foi… Apesar das imbecilidades que sou obrigado a ouvir dos “comentaristas” da Globo, vejo parte do desfile das escolas de samba, de São Paulo e do Rio. A União da Ilha do Governador é uma das escolas de samba de que mais gosto. Seu samba-enredo em 2013 homenageou os 100 anos do  “poetinha”. Pego carona nos ecos do reinado de Momo e proponho a leitura de um poema quase homônimo.

Ilha do Governador

Vinícius de Moraes

Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a “Berceuse“?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?

Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.

Um dia mandei: “Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…”

Depois, eu e Eli fomos andando… – ela tremia no meu braço
Eu tremia no braço dela, os seios dela tremiam
A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.

Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…

Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento
Vêm da noite inquieta que agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia
Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?

 

Na leitura, o poema é quase um “tratado”.

1. Dos versos, qual(is) pode(m) servir de exemplo de um exercício de “retorno” a procedimentos de criação poética considerados “tradicionais”? Explique como o exemplo procede.

2. É possível encontrar no poema traços de certa “sensibilidade romântica”? Justifique sua resposta.

3. O Realismo se circunscreve a uma poética vinculada à “realidade” como objeto de representação poética. Se esta afirmativa procdde, é possível encontrar alguma vinculação desta a firmação e o texto do poema de Vinícius? Como? Por quê? Dê exemplo(s).

21 respostas para “Para LET873 – 5”.

  1. 1. EU acredito que o verso que pode servir de exemplo de um exercício de “retorno” a procedimentos de criação poética considerados “tradicionais” seria: “Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.” Este verso me leva a pensar que a cultura prescrita (limitada) pela literatura – a norma culta – torna-se um obstáculo diante do autor e a sua amizade com aqueles meninos ingênuos e pobres. De acordo com a MINHA leitura, é como se o menino (autor), acreditasse que, para fazer uma boa criação poética, assim como Dumas, fosse preciso ter o domínio de uma linguagem difícil, isto é, confusa, turva, o que é uma das características marcantes na poética tradicional. Portanto, para ser um grande escritor, teria que se privar das amizades iletradas por elas possuírem linguagem comum, já que tal característica poderia vir a influenciá-lo negativamente. Como se para ser notável fosse preciso estar ligado ao padrão tradicional.

    2. Considero como sendo possível sim, encontrar traços de certa “sensibilidade romântica” no poema.
    “Os olhos de Susana eram doces, mas Eli tinha seios bonitos
    Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
    Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.”
    O poeta descreve mulheres delicadas e atraentes, as quais habitam uma ilha e, diante desta ilha e destas mulheres, o menino (poeta) tornar-se-ia, aos poucos, um homem. EU suponho que, neste sentido do poema, exista certa “sensibilidade romântica”.

    3. Sim, é possível encontrar vinculação entre a afirmação e o poema de Vinícius. O texto de Vinícius de Moraes, assim como acontece com a poética no Realismo, é narrado miudamente de acordo com as observações da realidade que vão sendo feitas pelo escritor.
    Exemplo:
    “Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
    Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
    Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas”. – Uma realidade narrada em seus mínimos detalhes.

    1. 1. EU acredito que o verso que pode servir de exemplo de um exercício de “retorno” a procedimentos de criação poética considerados “tradicionais” seria: “Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.” Este verso me leva a pensar que a cultura prescrita (limitada) pela Literatura – a norma culta (“Norma culta se refere explícita e diretamente à Língua Portuguesa…) – torna-se um obstáculo diante do autor e a sua amizade com aqueles meninos ingênuos e pobres. De acordo com a MINHA leitura, é como se o menino (autor), acreditasse que, para fazer uma boa criação poética, assim como Dumas, fosse preciso ter o domínio de uma linguagem difícil, isto é, confusa, turva, o que é uma das características marcantes na poética tradicional. Portanto, para ser um grande escritor, teria que se privar das amizades iletradas por elas possuírem linguagem comum, já que tal característica poderia vir a influenciá-lo negativamente. Como se para ser notável fosse preciso estar ligado ao padrão tradicional. (Interessante)

      2. Considero como sendo possível sim, encontrar traços de certa “sensibilidade romântica” no poema.
      “Os olhos de Susana eram doces, mas Eli tinha seios bonitos
      Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
      Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.”
      O poeta descreve mulheres delicadas e atraentes, as quais habitam uma ilha e, diante desta ilha e destas mulheres, o menino (poeta) tornar-se-ia, aos poucos, um homem. EU suponho que, neste sentido do poema, exista certa “sensibilidade romântica”.

  2. 1) “Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.” Ele parte da simplicidade para o tradicional, sendo considerado as obras de Alexandre Dumas complexas.

    2) Sim, “Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
    Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
    Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.”
    o poeta descreve uma mulher sensual, doce e atraente.

    3)Sim, Narrativa minuciosa (com muitos detalhes)
    “Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
    Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
    Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
    Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos”

    1. 1) “Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.” Ele (Quem?) parte da simplicidade para o tradicional, sendo considerado as obras de Alexandre Dumas complexas. (A segunda parte do período não faz sentido!!!)

      2) Sim (O quê?), “Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
      Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
      Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.”
      o poeta descreve uma mulher sensual, doce e atraente. (E daí?)
      3)Sim, Narrativa minuciosa (com muitos detalhes)
      “Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
      Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
      Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
      Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos”

  3. 1) Pode ser considerado como exercício de “retorno” aos modos tradicionais o verso: “Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.” Pois ele se refere a leitura como se fosse de fácil entendimento, mesmo elas sendo complexa a sua interpretação necessitando de outras leituras para entender.

    2) Sim, é possível nos versos: Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
    Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
    Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
    Eu me admirava horas e horas no espelho.
    Perceber que o autor é sensível ao retratar os traços femininos.

    3) Sim essa afirmação procede e pode se vincular ao poema de Vinícius, pois o poema é muito rico em detalhes. Exemplo: “Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
    Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
    Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
    Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos
    E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.”

    1. 1) Pode (O quê?) ser considerado como exercício de “retorno” aos modos tradicionais o verso: “Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.” Pois ele (Quem?) se refere a leitura como se fosse de fácil entendimento, mesmo elas sendo complexa a sua interpretação necessitando de outras leituras para entender. (Esta frase não faz o menor sentido!)

      2) Sim, é possível perceber que o autor é sensível ao retratar os traços femininos nos versos:
      Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
      Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
      Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
      Eu me admirava horas e horas no espelho.

      3) Sim essa afirmação procede e pode se vincular ao poema de Vinícius, pois o poema é muito rico em detalhes. Exemplo: “Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
      Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
      Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
      Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos
      E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.”

  4. 1) Eu acredito que seja possível identificar um certo “retorno” à poética “tradicional” em todo o poema, sobretudo na primeira e última estrofes, pois os versos refletem uma apropriação de temas tradicionais como as paixões simples e genuínas, a mágoa, a angústia e a saudade, representada pela lembrança do tempo passado. Além disso, o poeta expressa a melancolia pela felicidade passada por meio de um barco, que simboliza a efemeridade da vida, outro tema recorrente na poética tradicional.
    2) A sensibilidade romântica está na representação poética de elementos da natureza, como o mar, está na saudade das experiências sentimentais intensamente vividas, está no lamento pela felicidade fugaz, está em Vinícius de Moraes! Eu leio o poema e “sinto” o barco passando… e semeando fragmentos da sensibilidade romântica por toda a “Ilha do Governador”…
    3) No poema encontramos uma representação do cotidiano do eu-lírico como um indivíduo comum por meio de versos compostos em uma linguagem simples, com a qual o poeta transcreve detalhadamente os acontecimentos e os personagens em seus aspectos reais, sem idealismos, como nos versos “Um dia mandei: “Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…” e “Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam”.

    1. 1) Eu acredito que seja possível identificar um certo “retorno” à poética “tradicional” em todo o poema, sobretudo na primeira e última estrofes, pois os versos refletem uma apropriação de temas tradicionais como as paixões simples e genuínas, a mágoa, a angústia e a saudade, representada pela lembrança do tempo passado. Além disso, o poeta expressa a melancolia pela felicidade passada por meio de um barco, que simboliza a efemeridade da vida, outro tema recorrente na poética tradicional.
      2) A sensibilidade romântica está na representação poética de elementos da natureza, como o mar, está na saudade das experiências sentimentais intensamente vividas, está no lamento pela felicidade fugaz, está em Vinícius de Moraes! Eu leio o poema e “sinto” o barco passando… e semeando fragmentos da sensibilidade romântica por toda a “Ilha do Governador”… (Interessante)
      3) No poema, encontramos uma representação do cotidiano do eu-lírico como um indivíduo comum por meio de versos compostos em uma linguagem simples, com a qual o poeta transcreve detalhadamente os acontecimentos e os personagens em seus aspectos reais, sem idealismos, como nos versos “Um dia mandei: “Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…” e “Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam”.

  5. 1) O poema se assemelha mais a um texto em prosa, na verdade. Os versos “como não lembrar essas noites… se o barco que eu não via é a vida passando…” lembram vagamente as formas tradicionais em sua estrutura, apesar da ausência de rimas e métrica.

    2) O poema expressa, do início ao fim, sentimentalismos característicos do Romantismo, principalmente a saudade pungente:

    “Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
    Como não lembrar Susana e Eli?
    Como esquecer os amigos pobres?
    Eles são essa memória que é sempre sofrimento”

    Sentimentos vinculados ao amor e à dor:

    “Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
    Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
    Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
    Eu me admirava horas e horas no espelho.
    Um dia mandei: “Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…”
    Depois, eu e Eli fomos andando… – ela tremia no meu braço…”

    3) A realidade é descrita de forma clara, como em uma obra de um pintor adepto do realismo, quando Vinícius descreve os pescadores e suas atividades no mar, as carroças entornando cal e situações que lembram a banalidade suave do cotidiano, como “receber um saco de mangas”, por exemplo.São descrições tão reais e absorventes que quase consegui vislumbrá-las em minha frente (talvez seja o reflexo incoerente do ritmo vertiginoso de um carnaval que não vivi).

    1. 1) O poema se assemelha mais a um texto em prosa, na verdade. Os versos “como não lembrar essas noites… se o barco que eu não via é a vida passando…” lembram vagamente as formas tradicionais em sua estrutura, apesar da ausência de rimas e métrica.

      2) O poema expressa, do início ao fim, sentimentalismos característicos do Romantismo, principalmente a saudade pungente:

      “Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
      Como não lembrar Susana e Eli?
      Como esquecer os amigos pobres?
      Eles são essa memória que é sempre sofrimento”

      Sentimentos vinculados ao amor e à dor:

      “Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
      Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
      Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
      Eu me admirava horas e horas no espelho.
      Um dia mandei: “Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…”
      Depois, eu e Eli fomos andando… – ela tremia no meu braço…”

      3) A realidade é descrita de forma clara, como em uma obra de um pintor adepto do Realismo, quando Vinícius descreve os pescadores e suas atividades no mar, as carroças entornando cal e situações que lembram a banalidade suave do cotidiano, como “receber um saco de mangas”, por exemplo. São descrições tão reais e absorventes que quase consegui vislumbrá-las em minha frente (talvez seja o reflexo incoerente do ritmo vertiginoso de um carnaval que não vivi). (Puxa…! Interessante!)

  6. 1- Tendo em vista a leitura do poema e os conhecimentos adquiridos ao longo do tempo no que diz respeito aos procedimentos de construção poética considerados “tradicionais”, podemos inferir que o autor se utiliza da temática da saudade lusitana, esta expressada no poema através das imagens do mar, do esquecimento, das mágoas. Podemos também inferir que ele contrapõe, de certo modo o “tradicional” perante o contemporâneo ao falar de onde vem a voz da juventude calma e o som de piano antigo. Se quisermos podemos inferir até ago a mais : a valorização do antigo pelo som, contraposto ao contemporâneo representado pela voz. E também um tom de indagação em face daquilo que é novo. E todas essas considerações podemos ver presentes na seguinte estrofe:

    “Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
    Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
    Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
    Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
    De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
    De onde sai esse som de piano antigo sonhando a “Berceuse“?
    Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?”

    Outra estrofe onde podemos inferir tal presença dos procedimentos de construção poéticas tradicionais é esta:

    “Como esquecer isso que foi a primeira angústia
    Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
    Se o barco que eu não via é a vida passando
    Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?”

    De novo podemos inferir a presença de uma saudade, da presença do mar, da angústia noturna dos pescadores que pode fazer uma alusão a imagem dos navegadores em alto mar.

    2- Sim, creio que é possível encontrar no poema trechos de certa “sensibilidade romântica”, e o podemos ver nos trechos que irão abordar as duas figuras femininas que o eu-lírico cita ao decorrer do poema: Susana e Eli.
    “Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
    Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
    Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
    Eu me admirava horas e horas no espelho.

    Um dia mandei: ‘Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…’”

    Tanto na descrição das personagens, quanto na construção do sentimento que o eu-lírico tinha por elas, vemos traços de certa sensibilidade romântica. Até mesmo na construção do bilhete enviado a Susana, em que o autor a pede pra esquece-lo e depois adiciona a frase sempre teu, podem ser considerados como traços, no que diz respeito na relação entre o pedido e afirmativa pois cria ser tensão, conflito de sentimentos, característica presente na estética romântica.

    3- Sim, o Realismo vinculado à realidade pode ser visto na temática cotidiana, descritiva feita pelo eu-lírico. A descrição dos pescadores e suas atividades, a parte em que os amigos Mário e Quincas são descritos, “fotografados” ao longo do poema, do mesmo modo que Susana, Eli, Carmen e Clara são descritas, tudo isso colabora para tal afirmação. Como exemplo, irei utilizar os versos que tratam dos antigos amigos, Mário e Quincas:

    “Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
    Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
    Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
    Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos
    E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.”

    1. 1- Tendo em vista a leitura do poema e os conhecimentos adquiridos ao longo do tempo no que diz respeito aos procedimentos de construção poética considerados “tradicionais”, podemos inferir que o autor se utiliza da temática da saudade lusitana, esta expressada no poema através das imagens do mar, do esquecimento, das mágoas. Podemos também inferir que ele contrapõe, de certo modo o “tradicional” perante o contemporâneo ao falar de onde vem a voz da juventude calma e o som de piano antigo. Se quisermos podemos inferir até ago a mais: a valorização do antigo pelo som, contraposto ao contemporâneo representado pela voz. E também um tom de indagação em face daquilo que é novo. (Bom!) E todas essas considerações podemos ver presentes na seguinte estrofe:

      “Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
      Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
      Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
      Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
      De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
      De onde sai esse som de piano antigo sonhando a “Berceuse“?
      Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?”

      Outra estrofe onde podemos inferir tal presença dos procedimentos de construção poéticas tradicionais é esta:

      “Como esquecer isso que foi a primeira angústia
      Se o murmúrio do mar está sempre nos meus ouvidos
      Se o barco que eu não via é a vida passando
      Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?”

      De novo podemos inferir a presença de uma saudade, da presença do mar, da angústia noturna dos pescadores que pode fazer uma alusão a imagem dos navegadores em alto mar.

      2- Sim, creio que é possível encontrar no poema trechos de certa “sensibilidade romântica”, e o podemos ver nos trechos que irão abordar as duas figuras femininas que o eu-lírico cita ao decorrer do poema “Susana e Eli”:

      “Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos
      Eu sofria junto de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas
      Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.
      Eu me admirava horas e horas no espelho.

      Um dia mandei: ‘Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…’”

      Tanto na descrição das personagens, quanto na construção do sentimento que o eu-lírico tinha por elas, vemos traços de certa sensibilidade romântica. Até mesmo na construção do bilhete enviado a Susana, em que o autor a pede pra esquece-lo e depois adiciona a frase sempre teu, podem ser considerados como traços, no que diz respeito na relação entre o pedido e afirmativa pois cria ser tensão, conflito de sentimentos, característica presente na estética romântica. (Interessante!)

      3- Sim, o Realismo vinculado à realidade pode ser visto na temática cotidiana, descritiva feita pelo eu-lírico. A descrição dos pescadores e suas atividades, a parte em que os amigos Mário e Quincas são descritos, “fotografados” ao longo do poema, do mesmo modo que Susana, Eli, Carmen e Clara são descritas, tudo isso colabora para tal afirmação. Como exemplo, irei utilizar os versos que tratam dos antigos amigos, Mário e Quincas:

      “Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
      Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
      Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
      Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes olhos abertos
      E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.”

  7. 1- Pode-se notar que a criação poética do poema de Vinícius de Morais se pauta na construção de um sentimento de nostalgia tradicional do Romantismo. Nos versos da primeira estrofe, o poetinha constrói, a partir de imagens sonoras, as imagens praianas que remetem às lembranças da narrativa poética relativa ao contexto que remete à nostalgia em foco:

    “Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
    Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
    Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
    Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
    De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
    De onde sai esse som de piano antigo sonhando a “Berceuse“?
    Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?”

    Na última estrofe, há um verso que confirma a forte nostalgia que permeia todo o poema: “Eles são essa memória que é sempre sofrimento”.

    2- A sensibilidade romântica pode ser encontrada ao longo de todo o poema através da idealização de um passado longínquo que remete à dor da nostalgia, da saudade. Também é possível encontrar traços dessa sensibilidade no modo como ele descreve as moças com as quais de relacionou naquele contexto, bem como nas imagens metafóricas utilizadas para descrever sua relação: “Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.”.

    3- O vínculo com a realidade no poema de Vinícius se encontra na descrição do cotidiano das pessoas que viviam na Ilha do Governador, havendo menção às suas atividades corriqueiras. Nos versos “Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo/Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.” pode-se notar tal vínculo com a realidade, dando consistência às lembranças nostálgicas e poéticas de Vinícius.

    1. 1- Pode-se notar que a criação poética do poema de Vinícius de Morais se pauta na construção de um sentimento de nostalgia tradicional do Romantismo. Nos versos da primeira estrofe, o poetinha constrói, a partir de imagens sonoras, as imagens praianas que remetem às lembranças da narrativa poética relativa ao contexto que remete à nostalgia em foco:

      “Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando
      Esse ei-ou que ficou nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos
      Eles vêm remando sob o peso de grandes mágoas
      Vêm de longe e murmurando desaparecem no escuro quieto.
      De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
      De onde sai esse som de piano antigo sonhando a “Berceuse“?
      Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?”

      Na última estrofe, há um verso que confirma a forte nostalgia que permeia todo o poema: “Eles são essa memória que é sempre sofrimento”. (Bom!)

      2- A sensibilidade romântica pode ser encontrada ao longo de todo o poema através da idealização de um passado longínquo que remete à dor da nostalgia, da saudade. Também é possível encontrar traços dessa sensibilidade no modo como ele descreve as moças com as quais se relacionou naquele contexto, bem como nas imagens metafóricas utilizadas para descrever sua relação: “Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.”.

      3- O vínculo com a realidade no poema de Vinícius se encontra na descrição do cotidiano das pessoas que viviam na Ilha do Governador, havendo menção às suas atividades corriqueiras. Nos versos “Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo/Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.” pode-se notar tal vínculo com a realidade, dando consistência às lembranças nostálgicas e poéticas de Vinícius. (Bom!)

  8. 1) O principal elemento do poema e que reconstrói a considerada forma tradicional de composição poética é a centralização do sofrimento, a exaltação da vida, da felicidade, do passado sob uma perspectiva nostálgica, como nos versos: “Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo? / Como não lembrar Susana e Eli? / Como esquecer os amigos pobres? / Eles são essa memória que é sempre sofrimento / Vêm da noite inquieta que agora me cobre.”

    2) Sim. É possível encontrar traços de sensibilidade romântica, pois o autor expõe durante todo o poema sua individualidade, suas emoções e sentimentos, é subjetivo, ancora suas perspectivas de acordo com suas sensações, retoma sempre o seu sofrimento durante todo o poema, é idealista, exacerbalista, e faz a natureza interagir com seu “eu” lírico.

    3) Sim. A proximidade da realidade, a riqueza dos detalhes, a temática cotidiana, a possível veracidade da narrativa aproximam o poema do Realismo. A forma direta como ele descreve seus amigos Mário e Quincas, a maneira clara e pragmática como expõe as relações estabelecidas com seus dois amigos. A descrição atrevida sobre o corpo de Eli e a subentendida confissão do seu desejo. Seguem os versos como ilustração: “[…]Eli tinha seios bonitos”,
    “Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.”

    1. 1) O principal elemento do poema e que reconstrói a considerada forma tradicional de composição poética é a centralização do sofrimento, a exaltação da vida, da felicidade, do passado sob uma perspectiva nostálgica, como nos versos: “Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo? / Como não lembrar Susana e Eli? / Como esquecer os amigos pobres? / Eles são essa memória que é sempre sofrimento / Vêm da noite inquieta que agora me cobre.”

      2) Sim. É possível encontrar traços de sensibilidade romântica, pois o autor expõe durante todo o poema sua individualidade, suas emoções e sentimentos, é subjetivo, ancora suas perspectivas de acordo com suas sensações, retoma sempre o seu sofrimento durante todo o poema, é idealista, exacerbalista, e faz a natureza interagir com seu “eu” lírico.

      3) Sim. A proximidade da realidade, a riqueza dos detalhes, a temática cotidiana, a possível veracidade da narrativa aproximam o poema do Realismo. A forma direta como ele descreve seus amigos Mário e Quincas, a maneira clara e pragmática como expõe as relações estabelecidas com seus dois amigos. A descrição atrevida sobre o corpo de Eli e a subentendida confissão do seu desejo. Seguem os versos como ilustração: “[…]Eli tinha seios bonitos”,
      “Eli era o beijo ardente sobre a areia úmida.” (Sucinto… Podia ter se desdobrado mais!)

  9. Negarei a forma deste gênero virtual. Das angústias de Vinícius só posso manifestar-me transgredindo algumas regras. Por isso, fica a seu critério, leitor, retirar das minhas modestas linhas alguma resposta:

    Para Vinícius

    Desliza, Modernista! Estica as dobras
    Do pergaminho – que a Tradição fala.
    Colore de azul o manto invisível
    Do medo; e de preto a melancolia.

    Meça a ficção do horizonte real;
    Veja as cores do céu indeciso e
    Consulte o relógio suspenso na
    Aurora em prelúdio: balé plural.

    Lembre-se do tango argentino e saiba
    Que a dor é poesia romântica,
    Que na sua urgência há prosa e Bandeira.

    Porém também não abuse da regra
    Três; desprenda-se da verba e, do verbo
    Sentido, faça tarde, Itapuã!

    1. Negarei a forma deste gênero virtual. Das angústias de Vinícius só posso manifestar-me transgredindo algumas regras. Por isso, fica a seu critério, leitor, retirar das minhas modestas linhas alguma resposta:

      Para Vinícius

      Desliza, Modernista! Estica as dobras
      Do pergaminho – que a Tradição fala.
      Colore de azul o manto invisível
      Do medo; e de preto a melancolia.

      Meça a ficção do horizonte real;
      Veja as cores do céu indeciso e
      Consulte o relógio suspenso na
      Aurora em prelúdio: balé plural.

      Lembre-se do tango argentino e saiba
      Que a dor é poesia romântica,
      Que na sua urgência há prosa e Bandeira.

      Porém também não abuse da regra
      Três; desprenda-se da verba e, do verbo
      Sentido, faça tarde, Itapuã! (Criativo! No entanto, de fato, a resposta não veio, o que não chega a ser um “problema”… Há coisas mais importantes na vida!)

      1. Entrelinhas, foureaux, entrelinhas… Acho um tanto incoerente ser muito analítico em termos de poesia. Há uma frase interessante do filme “O carteiro e o poeta” que diz o seguinte: “a poesia não é de quem a escreve, mas de quem precisa.” Poesia é resignificação. Ao poetinha só posso dedicar alguns versos singelos em resposta às suas angústias, as quais são, segundo ele, matéria prima da poesia. Enfim, também tenho as minhas “urgências”, por isso, achei “instigante” salientar obliquamente suas referências clássicas, modernas e românticas na prática. Trata-se de um soneto, um tanto moderno,que apesar de não “rimar”, tem a métrica precisa. Também há alusões aos ideais românticos e realistas, além de valsar com algumas canções de Vinícius, e, também, ser uma brincadeira em forma de conselho…

  10. Entrelinhas, Foureaux, entrelinhas… Acho um tanto incoerente ser muito analítico em termos de poesia. Há uma frase interessante do filme “O carteiro e o poeta” que diz o seguinte: “a poesia não é de quem a escreve, mas de quem precisa.” Poesia é ressignificação. Ao poetinha só posso dedicar alguns versos singelos em resposta às suas angústias, as quais são, segundo ele, matéria prima da poesia. Enfim, também tenho as minhas “urgências”, por isso, achei “instigante” salientar obliquamente suas referências clássicas, modernas e românticas na prática. Trata-se de um soneto, um tanto moderno, que apesar de não “rimar”, tem a métrica precisa. Também há alusões aos ideais românticos e realistas, além de valsar com algumas canções de Vinícius, e, também, ser uma brincadeira em forma de conselho…

  11. Em todo o poema ” A ilha do governador” podemos constatar um arremesso à melancolia e nostalgia tão presentes no romantismo e consagrados nos muitos sonetos existentes desse cânone, em que o saudosismo e as idealizações são elementos pulsantes. O poema mostra um eu lírico reminiscente que ao ver a realidade em que se encontra, migra para os labirintos fugidios da memória, esta é plena de idealizações e mais confortável do que o presente explícito.

    Neste poema, também é possível perceber a mescla de elemento românticos com elementos realistas todo o tempo, tais como o detalhamento minucioso do cotidiano, ainda que alguns sejam travestido de idealização, as referências da realidade do local, tais como a pobreza e a humildade do povo e também as meticulosas descrições da sua paixão pelas mulheres no poema.

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