Para LET873 – 6

Moça linda bem tratada

Mário de Andrade

Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.

Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.

Mulher gordaça, filó,
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência…

Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta de pobre arromba:
Uma bomba.

 

“O Modernismo Brasileiro foi complexo e contraditório, com linhas centrais e linhas secundárias, mas iniciou uma era de transformações essenciais. Depois de ter sido considerado excentricidade e afronta ao bom gosto, acabou tornando-se um grande fator de renovação e o ponto de referência da atividade artística e literária. De certo modo, abriu a fase mais fecunda da literatura brasileira, porque já então havia adquirido maturidade suficiente para assimilar com originalidade as sugestões das matrizes culturais, produzindo em larga escala uma literatura própria.

A sua contribuição fundamental foi a defesa da liberdade de criação e experimentação, começando por bater em brecha a estética acadêmica, encarnada sobretudo na poesia e na prosa oratória, mecanizadas nas formas endurecidas que serviam para petrificar a expressão a serviço das idéias mais convencionais. Para isso, os modernistas valorizaram na poesia os temas quotidianos tratados com prosaísmo e quebraram a hierarquia dos vocábulos, adotando as expressões coloquiais mais singelas, mesmo vulgares, para desqualificar a solenidade ou a elegância afetada. Neste sentido, combateram a mania gramatical e pregaram o uso da língua segundo as características diferenciais do Brasil, incorporando o vocabulário e a sintaxe irregular de um país onde as raças e as culturas se misturam. Além disso, passaram por cima das distinções entre os gêneros, injetando poesia e insólito na narrativa em prosa, abandonando as formas poéticas regulares, misturando documento e fantasia, lógica e absurdo, recorrendo ao primitivismo do folclore e ao português deformado dos imigrantes, chegando a usar como exemplo extremo contra a linguagem oficial certas ordenações sintáticas tomadas a línguas indígenas. Os românticos haviam “civilizado”a imagem do índio, injetando nele os padrões do cavalheirismo convencional. Os modernistas, ao contrário, procuraram nele e no negro o primitivismo, que injetaram nos padrões da civilização dominante como renovação e quebra das convenções acadêmicas. Mas nesse jogo muitos acabaram num artificialismo equivalente ao dos românticos, sobretudo os que foram buscar na tradição indígena alimento para um patriotismo ornamental. Assim foi que alguns modernistas secundários de São Paulo denunciaram as tendências cosmopolitas e demolidoras, criando o grupo Verde-Amarelo, patriótico e sentimental, que terminou politicamente em atitudes conservadoras.”

(CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira)

 

Depois de ler o poema e os dois parágrafos de Antono Candido, redija (no mínimo, dois parágrafos) um comentário que articule o “resultado” de SUA leitura analítica e as ideias do crítico brasileiro.

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13 comentários sobre “Para LET873 – 6

  1. O poema de Mário de Andrade expressa crítica aos padrões, à aceitação irrefletida de modelos estabelecidos. Questiona o culto a determinadas formas para demonstrar o seu interior “vazio”, “oco”. Utiliza a metáfora dos ricos, da posição social para ilustrar sua crítica. Pessoas que, possuindo fortuna, dispõem da sua vida conforme a tradição e reproduzem costumes, gestos e posicionamentos, são vistos como belos dentro da hierarquia social, entretanto sua beleza é artificial ou pouco sólida (falta a substância da “inteligência”).

    A crítica de Mário concorda com a defesa da liberdade de criação e experimentação, o desprezo pela estética acadêmica, utilizando de uma linguagem simples, coloquial, propondo um novo formato para prosa e a poesia buscando “desqualificar a solenidade ou a elegância afetada”, segundo Antônio Cândido. O modernismo vem trazer renovação, liberdade, tentativa de valorização e resgate cultural, e simultaneamente, deslocar a poesia de um certo pedestal e trazê-la para o cotidiano

    1. O poema de Mário de Andrade expressa crítica aos padrões, à aceitação irrefletida de modelos estabelecidos. Questiona o culto a determinadas formas para demonstrar o seu interior “vazio”, “oco”. Utiliza a metáfora dos ricos, da posição social para ilustrar sua crítica. Pessoas que, possuindo fortuna, dispõem da sua vida conforme a tradição e reproduzem costumes, gestos e posicionamentos, são vistos como belos dentro da hierarquia social, entretanto sua beleza é artificial ou pouco sólida (falta a substância da “inteligência”). (Interessante)

      A crítica de Mário concorda com a defesa da liberdade de criação e experimentação, o desprezo pela estética acadêmica, utilizando de uma linguagem simples, coloquial, propondo um novo formato para prosa e a poesia buscando “desqualificar a solenidade ou a elegância afetada”, segundo Antonio Candido. O Modernismo vem trazer renovação, liberdade, tentativa de valorização e resgate cultural e, simultaneamente, deslocar a poesia de um certo pedestal e trazê-la para o cotidiano. (!)

  2. Professor, como viajei na sexta-feira, só pude responder a essa questão agora. Espero que a considere. Vamos lá:

    O poema “Moça Linda bem Tratada” de Mário de Andrade expõe, de forma irônica, ideias conservadoras. Quando o autor diz, em seu poema: “três séculos de família”, ele está na verdade, criticando o fato de a família ter que se sustentar pelo nome, pelo qual determinada moça casava-se com um rapaz predeterminado, já que na atualidade isto não acontece mais. Na modernidade a moça quer estudar e trabalhar para conquistar sua independência e, não mais, ser a bela menina que viria a ser uma mulher que morreria gorda e solitária. As moças da atualidade não seguem os padrões da antiguidade e, se precisassem os seguir, “explodiriam”.

    Neste mesmo sentido, Antonio Cândido critica a estética acadêmica, despreza as ideias convencionais, o padrão, considerado, por ele, obsoleto. Assim, em defesa do modernismo, prega a liberdade de criação na poesia: “temas quotidianos tratados com prosaísmo e quebraram a hierarquia dos vocábulos, adotando as expressões coloquiais mais singelas, mesmo vulgares, para desqualificar a solenidade ou a elegância afetada.”

    1. Professor, como viajei na sexta-feira, só pude responder a essa questão agora. Espero que a considere. Vamos lá:

      O poema “Moça Linda bem Tratada”, de Mário de Andrade, expõe, de forma irônica, ideias conservadoras. Quando o autor diz, em seu poema: “três séculos de família”, ele está, na verdade, criticando o fato de a família ter que se sustentar pelo nome, pelo qual determinada moça casava-se com um rapaz predeterminado, já que na atualidade isto não acontece mais. Na Modernidade, a moça quer estudar e trabalhar para conquistar sua independência e, não mais, ser a bela menina que viria a ser uma mulher que morreria gorda e solitária. As moças da atualidade não seguem os padrões da antiguidade e, se precisassem os seguir, “explodiriam”. (Interessante!)

      Neste mesmo sentido, Antonio Candido critica a estética acadêmica, despreza as ideias convencionais, o padrão, considerado, por ele, obsoleto. Assim, em defesa do Modernismo, prega a liberdade de criação na poesia: “temas quotidianos tratados com prosaísmo e quebraram a hierarquia dos vocábulos, adotando as expressões coloquiais mais singelas, mesmo vulgares, para desqualificar a solenidade ou a elegância afetada.” (Podia ter argumentado mais…)

  3. Tendo em base o poema “Moça linda bem tratada” de autoria de Mário de Andrade e relacionando-o com os dois parágrafos extraídos de Antônio Candido em seu livro Iniciação à Literatura Brasileira, acima vistos, podemos observar que ambos dialogam em algumas partes. Conforme o comentário de Candido, o Modernismo vem com uma proposta inovadora defendendo a liberdade de criação e expressão poéticas, abordando temas cotidianos e inserindo em sua estética quebras de hierarquia de vocábulos, expressões coloquiais que dialogam com a questão da presença do cotidiano na tematização modernista, incorporando o vocabulário e a sintaxe de cada região constituinte do territorio brasileiro. E isso podemos ver presente no poema “Moça linda bem tratada” quando Andrade utiliza-se de expressões coloquiais como “coio”, “gordaça, filó” e “grã-fino” para caracterizaros tipos por ele representados em seu poema.
    Alem disso, também podemos observar no que diz respeito à construção do poema que se trata de um poema sem rimas, sem métrica específica, o que pode ser visto como uma reação aos moldes da estética tradicional, outra proposta modernista, citada também por Candido acima e que vem a dar mais consistência a argumentação de que o Modernismo veio a produzir uma literatura própria. Também podemos observar no que diz respeito ao fato de o Modernismo passar por cima da distinção dos gêneros, de ser capaz de misturar em uma mesma estrutura generos diferentes, o que em minha leitura (claro, que pode ser vista como inverossímil para alguns e verossímil para outros) foi visto no fato de o poema comportar uma narrativa, no sentido de narrar uma ação cometida: a de arrombar uma porta e nela tacar uma bomba. Além disso podemos ver também as críticas sociais, o engajamento político comum ao modernismo, que critica certos grupos através dos personagens apresentados no poema e que dialoga com a parte final do excerto de Antonio Candido no qual ele se refere aos modernistas secundários de São Paulo que denunciaram as tendências cosmopolitas e demolidoras e que terminaram politicamente em atitudes conservadoras.

    1. Tendo como base o poema “Moça linda bem tratada”, de autoria de Mário de Andrade e relacionando-o com os dois parágrafos extraídos de Antonio Candido, em seu texto “Iniciação à Literatura Brasileira”, acima vistos, podemos observar que ambos dialogam em algumas partes. Conforme o comentário de Candido, o Modernismo vem com uma proposta inovadora defendendo a liberdade de criação e expressão poéticas, abordando temas cotidianos e inserindo em sua estética quebras de hierarquia de vocábulos, expressões coloquiais que dialogam com a questão da presença do cotidiano na tematização modernista, incorporando o vocabulário e a sintaxe de cada região constituinte do territorio brasileiro. E isso podemos ver presente no poema “Moça linda bem tratada”, quando Andrade utiliza-se de expressões coloquiais como “coió”, “gordaça, filó” e “grã-fino” para caracterizar os tipos por ele representados em seu poema.
      Além disso, também podemos observar, no que diz respeito à construção do poema, que se trata de um poema sem rimas, sem métrica específica, o que pode ser visto como uma reação aos moldes da estética tradicional, outra proposta modernista, citada também por Candido, acima, e que vem dar mais consistência à argumentação de que o Modernismo veio a produzir uma literatura própria. Também podemos observar, no que diz respeito ao fato de o Modernismo passar por cima da distinção dos gêneros, de ser capaz de misturar em uma mesma estrutura generos diferentes, o que em minha leitura (claro, que pode ser vista como inverossímil para alguns e verossímil para outros) foi visto no fato de o poema comportar uma narrativa, no sentido de narrar uma ação cometida: a de arrombar uma porta e nela tacar uma bomba. (Este período está confuso comprometendo a sua compreensão!) Além disso, podemos ver também as críticas sociais, o engajamento político comum ao Modernismo, que critica certos grupos através dos personagens apresentados no poema e que dialoga com a parte final do excerto de Antonio Candido, no qual ele se refere aos modernistas secundários (???) de São Paulo que denunciaram as tendências cosmopolitas e demolidoras e que terminaram politicamente em atitudes conservadoras. (Interessante!)

  4. É possível perceber nitidamente no poema de Mário de Andrade as características modernistas pontuadas no trecho de Antônio Cândido. Nota-se em “Moça linda e bem tratada” a ironia fina do autor ao falar do espírito de São Paulo e dos paulistas.
    Em Moça linda e bem tratada, Mário de Andrade critica os costumes da época voltada para o prestigio social a para a estética mostrando a falta de princípios sólidos para caracterizar o que deve ser verdadeiramente belo e prestigiado. Nesse poema, o autor se expressa fazendo uso do coloquialismo, como quando utiliza a expressão “burro como uma porta”, e trata de um tema presente no cotidiano da sociedade paulista a fim de simplificar a literatura.

    1. É possível perceber nitidamente, no poema de Mário de Andrade, as características modernistas pontuadas no trecho de Antonio Candido. Nota-se em “Moça linda e bem tratada”, a ironia fina do autor ao falar do espírito de São Paulo e dos paulistas.
      Em “Moça linda e bem tratada”, Mário de Andrade critica os costumes da época voltados para o prestígio social a para a estética, (???) mostrando a falta de princípios sólidos para caracterizar o que deve ser verdadeiramente belo e prestigiado. Nesse poema, o autor se expressa fazendo uso do coloquialismo, como quando utiliza a expressão “burro como uma porta” e trata de um tema (Qual?) presente no cotidiano da sociedade paulista a fim de simplificar a literatura.

  5. Nas três primeiras estrofes, Mário de Andrade caracteriza o conservadorismo de maneira irônica, através de três personagens (praticamente caricaturas), para na quarta estrofe transformar a ironia em uma crítica direta aos preceitos conservadores.

    Durante todo o poema, Mário utiliza recursos modernistas típicos para fazer essas caracterizações (ou caricaturas) da classe conservadora, inclusive recursos citados por Antônio Candido: “…adotando as expressões coloquiais mais singelas, mesmo vulgares, para desqualificar a solenidade ou a elegância afetada”.

    Mais que isso, em cada uma das três primeiras estrofes, Mário de Andrade desbanca um valor específico tido como importante dentro da “alta” sociedade conservadora: na primeira, a boa linhagem “três séculos de família”; na segunda, a polidez esmerada “Grã-fino do despudor’; na terceira, a ostentação de riqueza “ouro por todos os poros”.

    Esse ataque às convenções sociais pode ser tomado como uma tentativa de defender o que Antônio Cândido, no trecho acima, chama de liberdade de criação e experimentação, uma das maiores conquistas modernistas.

  6. Nas três primeiras estrofes, Mário de Andrade caracteriza o conservadorismo de maneira irônica, através de três personagens (praticamente caricaturas), para na quarta estrofe transformar a ironia em uma crítica direta aos preceitos conservadores.

    Durante todo o poema, Mário utiliza recursos modernistas típicos para fazer essas caracterizações (ou caricaturas) da classe conservadora, inclusive recursos citados por Antônio Candido: “…adotando as expressões coloquiais mais singelas, mesmo vulgares, para desqualificar a solenidade ou a elegância afetada”.

    Mais que isso, em cada uma das três primeiras estrofes, Mário de Andrade desbanca um valor específico tido como importante dentro da “alta” sociedade conservadora: na primeira, a boa linhagem “três séculos de família”; na segunda, a polidez esmerada “Grã-fino do despudor’; na terceira, a ostentação de riqueza “ouro por todos os poros”.

    Esse ataque às convenções sociais pode ser tomado como uma tentativa de defender o que Antônio Cândido, no trecho acima, chama de liberdade de criação e experimentação, uma das maiores conquistas modernistas.

    1. Renan Andrade commented on Para LET873 – 6

      Nas três primeiras estrofes, Mário de Andrade caracteriza o conservadorismo de maneira irônica, através de três personagens (praticamente caricaturas), para na quarta estrofe transformar a ironia em uma crítica direta aos preceitos conservadores.

      Durante todo o poema, Mário utiliza recursos modernistas típicos para fazer essas caracterizações (ou caricaturas) da classe conservadora, inclusive recursos citados por Antonio Candido: “…adotando as expressões coloquiais mais singelas, mesmo vulgares, para desqualificar a solenidade ou a elegância afetada”.

      Mais que isso, em cada uma das três primeiras estrofes, Mário de Andrade desbanca um valor específico tido como importante dentro da “alta” sociedade conservadora: na primeira, a boa linhagem “três séculos de família”; na segunda, a polidez esmerada “Grã-fino do despudor’; na terceira, a ostentação de riqueza “ouro por todos os poros”.

      Esse ataque às convenções sociais pode ser tomado como uma tentativa de defender o que Antonio Candido, no trecho acima, chama de liberdade de criação e experimentação, uma das maiores conquistas modernistas.

      (Bom, mas faltou comentar os trechos dos manifestos…)

  7. No poema de “moça linda bem tratada” de Mário de Andrade é possível perceber os traços típicos do modernismo tais como a ironia, a linguagem coloquial e regional, a abordagem de temas corriqueiros, está é a proposta do modernismo, quebrar com os valores pré-estabelecidos e dogmáticos das academias que ditam tais cânones. A crítica e a ironia já são percebidas logo na primeira estrofe, pois a moça linda e bem tratada é burra como uma porta porém é um amor e o grã-fino do despudor é um idiota. As expressões coloquias e regionais também são uma constante no poema, tais como coió, filó e gordaça. Podemos concluir, então, que o poema de Mário de Andrade contém uma certa síntese dos ideais do modernismo, ideias estes que alguns escritores exagerarão tanto que ficarão tão dogmáticos e artificiais como o modernismo, esta é uma crítica que o próprio Antônio Cândido fez ao movimento no texto. E concordo plenamente com ele, pois quando contestar algo torna-se tão dogmático quando o que é repelido, a função de contestar perde o sentido e se transforma em algo tão conservador como as outras formas que então eram rejeitadas.

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