Para LET874 – 6

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co’o tormento,
Para que seus enganos não disesse

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.

Luis de Camões

 

 

O que estes dois poemas têm em comum? Justifique. A partir de sua resposta, comente sobre como e por que é possível considerar o poema de Camões um exemplo de “modernidade” avant la lettre e o de Pessoa, um clássico.

 

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11 comentários sobre “Para LET874 – 6

  1. A meu ver, ambos os poemas expressam caraterísticas em comum, uma vez que nota-se a partir dos versos “Sentir sinta quem lê” de Pessoa e o de Camões “E sabeis que, segundo o amor tiverdes, Tereis o entendimento de meus versos.” que, o autor aponta uma certa responsabilidade por parte do poeta no sentido de que este suscite sentimentos, sensações e emoções subjetivas no leitor.

    No caso do verso de Pessoa, somente o entenderá e sentirá emoções, aquele leitor que se submeter à leitura de seu poema.

    Ao passo que no poema de Camões, apenas entenderá o poema deste autor, aquele leitor que se apropriar de um amor, e, além disso, o entendimento dos versos apenas pode se dar caso o leitor tenha um amor. Enfim, é preciso amar para haver a compreensão dos versos do poeta.

    E, de acordo com o poema de Camões, o entendimento de seus versos não será o mesmo para todos que o lerem, mas, ao contrário, cada leitor, os entenderá segundo o tipo de amor a que está sujeito.

    Sim, é possível considerar o poema de Camões um exemplo de “Modernidade”, e o de Pessoa, um clássico, uma vez que Camões tem o amor como principal das chaves, abrange um tema recorrente no sentido platônico e sensual e, ainda, transcende à tradição literária.

    Ao passo que o poema de Pessoa poderia ser considerado um clássico, uma vez que este é um poema com estética essencialmente normativa, além de ser um modelo exemplar cristalizado como tradição, como cânone gramatical e semântico, o qual tem uma dimensão edificante e o poeta tem uma capacidade de apresentar os temas e as paixões de forma decorosa.

    1. A meu ver, ambos os poemas expressam caraterísticas em comum comuns, uma vez que se nota a partir dos versos “Sentir sinta quem lê”, de Pessoa, e o de Camões, “E sabeis que, segundo o amor tiverdes, Tereis o entendimento de meus versos.”; que o autor aponta uma certa responsabilidade por parte do poeta no sentido de que este suscite sentimentos, sensações e emoções subjetivas no leitor. (Um tanto confusa esta afirmação!)

      No caso do verso de Pessoa, somente o entenderá e sentirá emoções, aquele leitor que se submeter à leitura de seu poema. (Isto não é uma tautologia?) Ao passo que, no poema de Camões, apenas entenderá o poema deste autor aquele leitor que se apropriar de um amor, e, além disso, o entendimento dos versos apenas pode se dar caso o leitor tenha um amor. Enfim, é preciso amar para haver a compreensão dos versos do poeta. (Estas condições “impostas” por você são muito redutoras!) E, de acordo com o poema de Camões, o entendimento de seus versos não será o mesmo para todos que o lerem, mas, ao contrário, cada leitor, os entenderá segundo o tipo de amor a que está sujeito.

      Sim, é possível considerar o poema de Camões um exemplo de “Modernidade”, e o de Pessoa, um clássico, uma vez que Camões tem o amor como principal das chaves (???), abrange um tema recorrente no sentido platônico e sensual e, ainda, transcende à tradição literária. (Como?) Ao passo que o poema de Pessoa poderia ser considerado um clássico, uma vez que este é um poema com estética essencialmente normativa (O que significa isto?), além de ser um modelo exemplar cristalizado como tradição, como cânone gramatical e semântico, o qual tem uma dimensão edificante e o poeta tem uma capacidade de apresentar os temas e as paixões de forma decorosa.

  2. Os dois poemas possuem em comum o fato de os poetas deixarem implícitos em seus versos que o entendimento destes não será o mesmo para todos que os lerem, ao contrário, cada leitor os compreenderá de acordo com as experiências de vida que possuem.

    Por isso escrevo em meio
    Do que não está ao pé,
    Livre do meu enleio,
    Sério do que não é.
    Sentir? Sinta quem lê!
    (Fernando Pessoa)

    O poeta recusa a poesia como sentença direta de sensações. Assim, o sentir, no sentido convencional do termo, é remetido para o leitor. Desta forma cada um faz a sua leitura de acordo com suas vivências.

    Verdades puras são e não defeitos;
    E sabei que, segundo o amor tiverdes,
    Tereis o entendimento de meus versos.
    (Luis de Camões)

    Igualmente acontece nos versos de Camões: cada leitor fará sua interpretação de acordo o tipo de amor a que está sujeito, ou seja, cada amante busca o seu retrato na leitura que faz, já que não existe um sentido colocado.

    Acredito que o poema de Pessoa pode ser considerado um clássico e o de Camões um exemplo de “modernidade” devido à suas estruturas, entre outras coisas.

    1. Os dois poemas possuem em comum o fato de os poetas deixarem implícitos em seus versos que o entendimento destes não será o mesmo para todos que os lerem, ao contrário, cada leitor os compreenderá de acordo com as experiências de vida que possuem.

      Por isso escrevo em meio
      Do que não está ao pé,
      Livre do meu enleio,
      Sério do que não é.
      Sentir? Sinta quem lê!
      (Fernando Pessoa)

      O poeta recusa a poesia como sentença direta de sensações. Assim, o sentir, no sentido convencional do termo, é remetido para o leitor. Desta forma cada um faz a sua leitura de acordo com suas vivências.

      Verdades puras são e não defeitos;
      E sabei que, segundo o amor tiverdes,
      Tereis o entendimento de meus versos.
      (Luis de Camões)

      Igualmente acontece nos versos de Camões: cada leitor fará sua interpretação de acordo o tipo de amor a que está sujeito, ou seja, cada amante busca o seu retrato na leitura que faz, já que não existe um sentido colocado.

      Acredito que o poema de Pessoa pode ser considerado um clássico e o de Camões um exemplo de “modernidade” devido à suas estruturas, entre outras coisas. (Que coisas seriam estas?)

  3. Foram-se as traças, ficaram os traços. Não pude resistir á tentação de expressar um trocadilho infame. Mas a verdade é que muitos escritores foram, em algum momento, influenciado por Camões. Alguns, talvez num momento de pouca inspiração, buscaram-na resgatando da estante um exemplar de Os Lusíadas ou Rimas, removeram as traças e se contaminaram com os traços absorventes e embriagadores do maior representante da Literatura Portuguesa. Percebe-se, embora não se possa afirmar, que no poema acima Fernando Pessoa justifica a teoria das traças, ao escrever e sentir com a imaginação, revelando no entanto sua confusão e arremata convidando o leitor a sentir o mesmo. No Soneto, Camões se diz guiado por um suave pensamento e igualmente confuso ou isento de juízo, fez o mesmo convite ao leitor.
    Na inovação estrutural, quando Camões “quebra” o soneto em …tormentos e …versos, O Poeta revela um breve traço modernista, que provavelmente esboçou um sorriso em Fernando Pessoa, e um descontentamento nas traças atiradas ao chão.

    1. Foram-se as traças, ficaram os traços. Não pude resistir à tentação de expressar um trocadilho infame. Mas a verdade é que muitos escritores foram, em algum momento, influenciados por Camões. Alguns, talvez num momento de pouca inspiração, buscaram-na resgatando da estante um exemplar de Os Lusíadas ou das Rimas, removeram as traças e se contaminaram com os traços absorventes e embriagadores do maior representante da Literatura Portuguesa. Percebe-se, embora não se possa afirmar, que no poema acima Fernando Pessoa justifica a teoria das traças, ao escrever e sentir com a imaginação, revelando no entanto sua confusão e arremata convidando o leitor a sentir o mesmo. No Soneto, Camões se diz guiado por um suave pensamento e igualmente confuso ou isento de juízo, fez o mesmo convite ao leitor.
      Na inovação estrutural, quando Camões “quebra” o soneto em …tormentos e …versos, O Poeta revela um breve traço modernista, que provavelmente esboçou um sorriso em Fernando Pessoa, e um descontentamento nas traças atiradas ao chão. (Interessante!)

  4. Após a leitura destes poemas pode-se inferir que ambos possuem no que diz respeito a uma temática na qual o leitor se insere como ponto central. Ambos conferem ao leitor a significação do poema, conferindo não somente autonomia ao leitor na interpretação deles como também estabelecendo um diálogo entre leitor-autor :em Fernando Pessoa essa autonomia de significação por parte do leitor pode ser vista nos seguintes versos:

    “Por isso escrevo em meio
    Do que não está ao pé,
    Livre do meu enleio,
    Sério do que não é.
    Sentir? Sinta quem lê!”

    Os versos são livres, não somente na composição estrutural, mas livres enquanto versos, não há por parte do autor (inferência minha) uma responsabilização daquilo que ele escreve, pelo contrário, há a consciência de que a poesia não deve significar “X” ou “Y”, de forma consolidada, unilateral por assim dizer, e sim de que a poesia só se torna poesia nas mãos do outro, de acordo com a interpretações de quem lê.

    Em Camões pode-se ver tal significação por parte do leitor nos versos:

    “Verdades puras são e não defeitos;
    E sabei que, segundo o amor tiverdes,
    Tereis o entendimento de meus versos.”

    Aqui a significação torna-se um pouco mais complexa devido ao condicionante conformativo de tal significação: o amor. Conforme a pessoa estiver em plena ação o amor, de acordo com suas nuances, haverá o entendimento dos versos do eu-lírico. E o entendimento que a princípio poderia ser consolidado, se torna livre também, uma vez que o amor em suas nuances geraria diversas significações na interpretação de quem lê o poema e por consequência na apreensão do mesmo.

    Em relação a característica em comum apresentada, creio que seja possível sim considerar o poema de Camões de moderno, “avant la lettre”, e considerar o de Pessoa como “clássico”. No que tange a Camões tal afirmação consistirá no diálogo com o leitor e o fato da atribuição de significação por parte do leitor ser necessária para a completude e entendimento do poema, uma característica arrojada em comparação com outros autores tidos como “clássicos”. No que tange a Pessoa, sua aproximação com o clássico pode ser observada através da ótica de um possível diálogo de sua obra com a Antiguidade Clássica, que pode ser vista nos conceitos empregados por ele em sua escrita: uma escrita sobe algo que está acima dele, inalcançável, algo belo em meio ao desconhecido, talvez uma reminiscência de algo desconhecido e belo, numa possível referência a teoria da reminiscencia de Platão, e ao mundo das ideias expresso nos versos:
    “Eu simplesmente sinto
    Com a imaginação.”

    1. Após a leitura destes poemas, pode-se inferir que ambos possuem (O quê? Faltou o “objeto direto” deste verbo…) no que diz respeito a uma temática na qual o leitor se insere como ponto central. Ambos conferem ao leitor a significação do poema, conferindo não somente autonomia ao leitor na interpretação deles, como também estabelecendo um diálogo entre leitor-autor: em Fernando Pessoa, essa autonomia de significação por parte do leitor pode ser vista nos seguintes versos:

      “Por isso escrevo em meio
      Do que não está ao pé,
      Livre do meu enleio,
      Sério do que não é.
      Sentir? Sinta quem lê!”

      Os versos são livres, não somente na composição estrutural, mas livres enquanto versos, não há por parte do autor (inferência minha) uma responsabilização daquilo que ele escreve, pelo contrário, há a consciência de que a poesia não deve significar “X” ou “Y”, de forma consolidada, unilateral por assim dizer, e sim de que a poesia só se torna poesia nas mãos do outro, de acordo com a interpretações de quem lê. (Interessante)

      Em Camões pode-se ver tal significação por parte do leitor nos versos:

      “Verdades puras são e não defeitos;
      E sabei que, segundo o amor tiverdes,
      Tereis o entendimento de meus versos.”

      Aqui, a significação torna-se um pouco mais complexa devido ao condicionante conformativo de tal significação: o amor. Conforme a pessoa estiver em plena ação, o amor, de acordo com suas nuances, haverá o entendimento dos versos do eu-lírico. (Redação confusa) E o entendimento, que a princípio poderia ser consolidado, se torna livre também, uma vez que o amor em suas nuances geraria diversas significações na interpretação de quem lê o poema e por consequência na apreensão do mesmo.

      Em relação à característica em comum apresentada, creio que seja possível, sim, considerar o poema de Camões de moderno, “avant la lettre” (Em itálico porque se trata de expressão em língua estrangeira), e considerar o de Pessoa como “clássico”. No que tange a Camões, tal afirmação consistirá no diálogo com o leitor e o fato da atribuição de significação por parte do leitor ser necessária para a completude e entendimento do poema, uma característica arrojada em comparação com outros autores tidos como “clássicos”. No que tange a Pessoa, sua aproximação com o clássico pode ser observada através da ótica de um possível diálogo de sua obra com a Antiguidade Clássica, que pode ser vista nos conceitos empregados por ele em sua escrita: uma escrita sobe algo que está acima dele, inalcançável, algo belo em meio ao desconhecido, talvez uma reminiscência de algo desconhecido e belo, numa possível referência a teoria da reminiscencia de Platão, e ao mundo das ideias expresso nos versos:

      “Eu simplesmente sinto
      Com a imaginação.”

  5. Por isso escrevo em meio
    Do que não está ao pé,
    Livre do meu enleio,
    Sério do que não é.
    Sentir? Sinta quem lê!
    (Fernando Pessoa)

    Ambos os poemas tem em comum o tema, a saber: o ofício do poeta. No entanto, se distinguem quanto ao emprego do ofício. Pessoa cria suas poesias a partir do que lhe está dado, como bom moderno, observa e transmiti em seus versos o que pretende como tema de sua poesia, nesse caso, o amor. Todavia deixa os seus leitores sentir o poema, e isso com base, cada um, em suas experiências próprias. Já Camões, o negado dos modernos, fia seus versos com base no já esperado e presumido pelo clássico, e aí entende-se muito bem os limites do amor. Por isso, podemos dizer que Camões está ancorado, como um navio, desses que descobrem novas terras, no passado clássico, estando lá também as origens de seu lirismo. Mantendo-se a oposição e a analogia, digo que Pessoa está desancorado, não livre, mas desempedido das métricas e dos lirismos tradicionais enfatizados por Camões. Pessoa, diferente de Camões, não pressupõe estados ideais para os efeitos de sua poesia. Para finalizar esta breve consideração e dissociação entre os dois poetas portugueses, penso que Pessoa (moderno) é poeta para ser interpretado, como ele mesmo diz, enquanto Camões (clássico) é poeta para ser decifrado, e isso com base em suas apropriações da poética clássica.

    1. Os dois poemas possuem como eixo temático a “função” do poeta. Fernando Pessoa, poeta modernista, transfere a responsabilidade da emoção de seus poemas para o leitor, o que de certa forma pressupõe a existência de um leitor cooperativo, consciente e ativo durante o processo interpretativo, que necessita também de sensibilidade, como podemos ver no trecho a seguir:
      “Por isso escrevo em meio
      Do que não está ao pé,
      Livre do meu enleio,
      Sério do que não é.
      Sentir? Sinta quem lê!”
      Os versos “Por isso escrevo em meio / Do que não está ao ao pé” podem sugerir a escrita do que está além da imaginação do poeta, ou seja, algo desconhecido que, de tão belo, torna-se vertigem. Desse ponto podemos atribuir uma característica clássica ao poema de Pessoa. Já a característica modernista do poema de Camões pode ser a que também ocorre nos versos de Pessoa: o diálogo aberto com o leitor e a necessidade de que haja uma interação cooperativa, como podemos ver nos versos “Verdades puras são e não defeitos; /E sabei que, segundo o amor tiverdes, /Tereis o entendimento de meus versos.”

      1. Os dois poemas possuem como eixo temático a “função” do poeta. Fernando Pessoa, poeta modernista, transfere a responsabilidade da emoção de seus poemas para o leitor, o que de certa forma pressupõe a existência de um leitor cooperativo, consciente e ativo durante o processo interpretativo, que necessita também de sensibilidade, como podemos ver no trecho a seguir:
        “Por isso escrevo em meio
        Do que não está ao pé,
        Livre do meu enleio,
        Sério do que não é.
        Sentir? Sinta quem lê!”
        Os versos “Por isso escrevo em meio/Do que não está ao ao pé” podem sugerir a escrita do que está além da imaginação do poeta, ou seja, algo desconhecido que, de tão belo, torna-se vertigem. Desse ponto, podemos atribuir uma característica clássica ao poema de Pessoa. Já a característica modernista do poema de Camões pode ser a que também ocorre nos versos de Pessoa: o diálogo aberto com o leitor e a necessidade de que haja uma interação cooperativa, como podemos ver nos versos “Verdades puras são e não defeitos;/E sabei que, segundo o amor tiverdes,/Tereis o entendimento de meus versos.” (Podia ter escrito mais!)

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