Alguma coisa

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“Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”.

Na voz de Caetano, a frase pode até ser poética, sem perder a sua verve de espanto. Sempre é bom lembrar que Platão dizia que o espanto é uma forma de aprendizado. Não tenho muita certeza de ser assim a ideia de Platão. Do texto então, a memória escapou de vez, como água entre os dedos.

 

Já vai longe o tempo que eu não me importava de gastar o meu tempo vendo jogos de voleibol, ao vivo, no ginásio do Mackenzie, às vezes, depois de nadar quilômetros e quilômetros durante a tarde; às vezes, pela televisão. Mais recentemente, vejo pela televisão, por pura comodidade. Já não tenho mais saúde e paciência para enfrentar o trânsito caótico, procurar vaga de estacionamento perto das “arenas” (houve um tempo em que estes lugares eram apenas e somente “ginásios”…), aguentar a gritaria, assistir ao desfile de comportamentos estereotipados, nos seus mais diversos matizes. Não, definitivamente não. Fico em casa e vejo pela televisão. Se eu quiser, saio da sala e volto ao computador, ou vou ao banheiro (sem ter que enfrentar fila e não suportar o mal cheiro, além da falta de higiene, dos frequentadores, do exagero no uso de papel para secar as mãos – quando isso existe! – da falta de educação que leva os “indivíduos” a não darem descarga, depois de urinarem em todos os cantos possíveis do cubículo onde está instalado o vaso sanitário, da conversa fiada, de gente urinando e falando ao celular… ai, que preguiça, ai que nojo…). Em vendo pela televisão, percebo uma coisa: os jogadores, principalmente “os” jogadores já não sorriem quando fazem pontos. Os cumprimentos mais parecem tapas trocados entre mãos já aquecidas pelos golpes desferidos na bola. Os esgares são de guerra, como conseguir fazer um ponto equivalesse a destruir o inimigo… nocivo. Gritos, gestos, esgares, tudo se transforma numa ópera bufa de tom trágico, visceral, bélico: uma guerra.

 

Quando eu treinava natação, pegava dois ônibus para chegar ao Minas (onde comecei a “carreira”), depois para chegar ao Mackenzie, onde treinei por quase dez anos seguidos. Todos os dias o mesmo trajeto, as mesmas dificuldades. Um dos ônibus me deixava na Avenida Amazonas, em frente ao Edifício Dantes (ou “Dantês” como se diz) e de lá eu subia até a Rua Tupis, bem na frente da residência dos padres redentoristas, responsáveis pela Igreja de São José, onde eu pegava o segundo ônibus que me deixava na esquina de Rua da Bahia e Rua Antônio de Albuquerque, isso quando eu não conseguia pegar outro ônibus, no mesmo ponto, que me deixava bem na entrada da piscina, na Rua Espírito Santo – hoje, um ponto quase instransitável, dada a concentração de “direitos” e “privilégios” da burguesia que ali habita. Depois disso a gente voltava pelo mesmo caminho. Anos a fio. Não se ganhava “nada”, absolutamente NADA. A gente nadava porque gostava de nadar e de competir, éramos atletas amadores, não no sentido pejorativo de hoje, quando que é “profissional” é considerado melhor, mais atualizado, de ponta, sofisticado. Repetindo: “melhor”. E há quem acredite que é assim mesmo que tem que ser…

 

Em função disso tudo, não posso deixaer de me sentir perplexo: “Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”.

 

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4 comentários sobre “Alguma coisa

  1. Há muita coisa fora da ordem: houve um tempo em que telefone era para falar com alguém a distância, hoje é companheiro, sedutor, multitarefa, do qual as pessoas não desgrudam os olhos; cinema era aonde se ia para ver filmes, hoje é lugar de comer pipoca e tomar refrigerante, emporcalhar tudo e falar alto junto com a ‘galera’; automóvel era uma caixa de metal com quatro rodas que nos levava onde precisávamos ir, com certo conforto e mais rapidez, hoje é ícone de poder material ou carro de som, tocando alto música sórdida ou de qualidade duvidosa; i tacko dalje… E olha que isso é “papo de gente velha”… Mas que é lamentável, lá isso é. Deus, dai-me compreensão e tolerância! Beijinhos cheios de enfado, Angel

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