O vestido azul

Dia útil. Inverno, apesar da temperatura e alta e de um calor inexplicável, misto de umidade represada pelo entorno montanhoso. Nada parecia diferente. De fato, nada era diferente. A fila na entrada do banco, com os mesmos tipos andrajosos, aparentando sujeira e subnutrição; o mesmo clima provinciano de gente que se considera urbana, ainda que mineralmente amarrada a um passado já esquecido, aqui e ali cristalizado em frames nervosos, plenos de pixels que eternizam uma impressão passageira, de gente também passageira. O mesmo lixo espalhado, a mesma indolência do interior, o mesmo tudo. No ar, a música de Madonna, vinda de um radinho de pilha, estridente, sobraçado por uma figura exótica de um homem que ensaiava dublagem frouxa, imitando os sons sem se dar conta do que dizia e sem a preocupação com a opinião alheia. Cabelos alisados a ferro, pintura carregada no rosto, já meio derretida pelo calor, olhos vidrados, passos de uma coreografia pobre e alucinada, de quem tentava exarar seu prazer mais íntimo em praça pública. E o vestido azul brilhava ao sol da manhã de quinta-feira, sem o menor pudor. Peão? Pedreiro? Carpinteiro? Malandro? Quem sabe? Quem pode dizer. Com requebros arrítmicos, aquele homem vestido de azul… dançava. Será isso a felicidade? Os passantes riam… Que gente pobre…

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Toda atenção é pouca

Recebi o texto abaixo no corpo de uma mensagem enviada por um amigo que vive nas terra do tio sam. É estarrecedor. Pelo sim, pelo não, reproduzo o texto, literalmente. Fico pensando em George Orwell (quem lê sabe do que estou falando…) Fica aí a mensagem para fazer pensar… e agir, de alguma forma!

 

“Querem colocar um cadáver no colo da Presidente
 
Ontem, 22 de junho de 2013, minha mulher e eu fomos à manifestação ocorrida em Belo Horizonte na qualidade de médicos. Somos professores e vários de nossos alunos estavam presentes. Como já havíamos testemunhado a violência no ato da segunda-feira anterior, fomos preparados para atender possíveis vítimas, levando na mochila alguns elementos muito básicos para pequenos ferimentos e limpeza dos olhos irritados por gás. A manifestação foi tranquila durante todo o trajeto. Até mesmo a intolerância com militantes de partidos de esquerda foi pouco vista. Uma grande bandeira vermelha era orgulhosamente carregada e, salvo um ou outro, respeitada. Contudo, o clima começou a piorar quando a manifestação encontrou o cordão policial. Como tem ocorrido, a maioria aceitou o limite imposto, mas os provocadores instavam os moderados a enfrentarem a polícia. Parecem colocados estrategicamente entre o povo, porque se repartem em certo padrão e gritam as mesmas frases.
Como é sabido, eventualmente o conflito aconteceu. Retiramo-nos para a pequenina área verde que sobra naquele encontro as avenidas Abraão Caran e Antônio Carlos. E ali ficamos tratando sobretudo intoxicações leves e ferimentos superficiais causados por estilhaços e balas de borracha. Em um momento, fui chamado para atender um senhor ferido na cabeça. Fui correndo, mas ele já passara o cordão de isolamento da polícia. Identifiquei-me como médico aos policiais do Governo de Minas Gerais e disse que poderia atender o senhor ferido. A resposta foi uma arma apontada contra meu peito. Pedi para falar com algum oficial, mas a PM recomeçou a atirar. Voltei para nosso pronto-socorro improvisado. De dentro do campus da UFMG começaram a atirar bombas de gás sobre nós que atendíamos os feridos e recuamos ainda mais, para o meio da Antônio Carlos.
Minutos depois, chamaram-nos com urgência informando que alguém caíra do viaduto José de Alencar. Quando chegamos, um jovem com o rosto sangrando estava sofrendo uma pequena convulsão. Fizemos a avaliação primária e, na medida em que surgiam problemas, tratávamos da melhor forma possível. Aquele paciente precisava de atendimento avançado urgentemente, em um centro de trauma, mas a polícia não arrefecia. Aproximou-se de mim um sujeito com o rosto tampado por uma camiseta. Ele descobriu parcialmente a face e me disse no ouvido que era policial e que pediria que não atirassem para que pudéssemos evacuar a vítima (penso ter visto esse autodeclarado policial perto de mim, quando eu tentava falar com um oficial, e depois correndo ao meu lado. Se for a mesma pessoa, ele era um dos exaltados que instavam à violência). Chegaram algumas pessoas com camiseta vermelha, na qual se lia “bombeiro civil”. Eles nos ajudaram a improvisar uma maca com um cavalete da empresa de transportes e faixas de manifestantes. Algum tempo depois, por coincidência ou não, os tiros pararam e fomos, com dificuldade, levando a vítima em direção do cordão policial. Minha mulher ficou na barreira.
Quando passamos a barreira, vi uma ambulância parada a uns 20 metros. Gritei para os que ajudavam para que fôssemos para ela. Todavia, para meu horror, a polícia não permitiu. Disse que aquela viatura era somente para policiais feridos. Tentei discutir, mas vi que seria improdutivo. Disse a um oficial, então, que conseguisse outra. Não tínhamos muito tempo. Colocamos a vítima no chão, imobilizando sua coluna cervical e iniciei a avaliação secundária. Na medida do possível, limpamos o rosto ensanguentado do jovem e realinhamos os membros fraturados. Pedi aos policiais que, pelo menos, trouxessem equipamentos da ambulância “deles” para imobilização e infusão. Recusaram-se.
Esperamos um bom tempo até que uma ambulância do resgate do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais chegasse. O veículo praticamente não tinha nenhum equipamento. Somente a prancha, talas, colar cervical e oxigênio para ser usado com máscara. “Soro” não havia. Transferimos e imobilizamos o paciente. Nesse tempo, tentávamos descobrir para onde levar a vítima. Respostas demoravam a chegar. Pensamos no Mineirão, bem próximo de nós, mas primeiro disseram que era para torcedores e depois que não dispunha de centro de trauma. Fomos para o Pronto Socorro de Venda Nova, Risoleta Neves. Lá uma colega assumiu o tratamento do ferido. Entrei em contato com minha mulher e ela me disse havia se juntado a meu irmão, que dois outros haviam caído do viaduto e que havia vários feridos, mas que eles não estavam conseguindo mais atender.
Mais tarde, quando os reencontrei no metrô de Santa Efigênia eles me contaram uma história de terror. Depois de me deixar com a primeira vítima, minha mulher se identificou aos policiais e disse que queria passar também para me ajudar. A polícia não deixou e ameaçou atirar nela. Como as agressões reiniciaram logo depois, ela ficou presa entre bombas e pedras, até que conseguiu fugir e retomar a antiga posição para socorro, no meio da Antônio Carlos. Foi quando encontrou meu irmão. Logo depois, receberam um chamado, avisando que outro rapaz havia caído. A situação clínica desse paciente era muito pior do que a do anterior. Não interessa escandalizar ou ofender com detalhes médico-cirúrgicos. Relato somente que o quadro que os dois descrevem é gravíssimo. A vítima não reagia, estava em coma, mas respirava e o coração batia. Meu irmão, sabendo da primeira experiência, correu para os policiais, desta vez um outro cordão formado na Antônio Carlos, levantando as mãos, agitando uma camisa branca e gritando que havia um ferido morrendo. Os policiais, vários, apontaram-lhe armas e gritaram para que ele fosse embora. Quando ele tentou avançar um pouco mais, os tiros começaram e ele correu em direção de minha mulher para ajudá-la. Ali, ao lado da vítima, perceberam que a polícia atirava neles. Relatam que já não havia ninguém próximo. Somente a vítima, ele e minha mulher de jaleco branco. Os tiros e as bombas de efeito moral e de gás vinham com um único endereço. O deles. Ficaram o quanto aguentaram; mais não puderam fazer. Desesperados, tiveram que abandonar o rapaz que morria e buscar refúgio. Depois, tiveram a notícia de que um terceiro homem caíra do mesmo viaduto. A cavalaria já estava em ação e não havia como atravessar a avenida para socorrer essa terceira vítima. Quando cheguei em casa, alguns alunos relataram que socorreram um homem que caíra do viaduto (perece que foram quatro, no total). Quando a polícia passou, eles conseguiram chegar à vítima e ficar com ela até que o SAMU chegasse.

Algumas ideias ficam em minha cabeça. Quem já conviveu com militares sabe na maioria das vezes reconhecer um por sua forma de agir, andar, cortar o cabelo e de falar. Sem leviandade, acredito que vários dos provocadores eram militares infiltrados. Vi o homem de rosto coberto dizer ser policial e que pediria para que os policiais alinhados dessem uma trégua e nos deixassem passar. Isso aconteceu. Outra imagem simbólica foi ver a tropa de choque da Polícia Militar de Minas Gerais dentro de uma universidade federal (deveria ser um território livre e sagrado da paz, da inteligência e da cultura) fechada para os estudantes. Da universidade vinham bombas que machucavam a juventude. Já ampliando o horizonte, o Itamaraty em chamas, a bandeira de São Paulo queimando, o Congresso quebrado, um governador sitiado em sua casa. Há que se ler nos símbolos e nos fatos. Amplie-se mais esse horizonte. Não se vê que os métodos são os mesmos usados nas “primaveras” árabes, em Honduras, no Paraguai, no Equador, na Venezuela e que começa também a ser usado na Argentina?
Nada há de espontâneo no que está ocorrendo e não é à toa que os meios de comunicação têm promovido e estimulado a agressividade e a multiplicidade de slogans e bandeiras. Não é verdade que não haja líderes nessas manifestações. Os líderes estão nas sombras, colhendo os frutos das últimas tecnologias. São discretos. Quem sabe o que são o Instituto Millenium, o instituto Fernando Henrique Cardos, o Council on Foreign Relations, a Trilateral Commission, o Carnegie Council? Preparam o Brasil para a guerra global idealizada pelos think tanks? É essa a forma de chegar aos recursos naturais do imenso território brasileiro sem a mínima resistência de governos mais progressistas? Incomoda o acordo com a Rússia para a compra e desenvolvimento de armas?

Uma certeza: querem atacar a democracia. Em vez de atacar partido, tome partido. Você está sendo manipulado. Pelo que vi e vivi é certo que querem jogar um cadáver no colo da Presidente Dilma. “
 
Giovano Iannotti
Professor de Medicina

Sem comentários…

“Carta” que o jornalista Cosme Rímoli escreveu para esclarecer à presidente Dilma o que está se passando no país da Copa.

Quem tiver estômago, que leia até o fim.

Excelentíssima presidente Dilma Rousseff…

Esta é a primeira vez que escrevo para uma presidente. O motivo é nobre. Quero avisá-la que a senhora irá entrar para a história com a Copa do Mundo. Mas não da maneira que imagina. Por mais que sua participação efetiva seja dar bicudas na bola…

Fazer discursos eleitorais para políticos aliados que não vão poupar palmas… Derrubar Ricardo Teixeira… E delegar todo o controle do Mundial mais caro da história a Aldo Rebelo. A senhora herdou esta Copa do seu mentor, o ex-presidente Lula. Esperto, ele vislumbrava o maior amor do Brasileiro. E, principalmente, a ano que o Mundial será disputado. Não é uma beleza ele acontecer justo quando haverá eleição presidencial? Melhor impossível.

O Brasil assegurou a Copa aqui em 30 de outubro de 2007.

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Há quase seis anos. O anúncio oficial arrancou lágrimas de felicidade de Lula. E de várias construtoras e empreiteiras. A Fifa propôs e o governo de integração aceitou de imediato. Pela primeira vez desde 1930 haverá 12 sedes em um Mundial. O ‘normal’ eram oito. Mas aqui não. Houve uma reunião governamental em 2010. Sim, três anos depois do anúncio do Mundial nesta terra. Com pomposo nome, presidente: Matriz de Responsabilidades. Ficou acertado que os estádios custariam no máximo R$ 5,4 bilhões. Pois três anos depois, as obras já passaram de R$ 7,1 bilhões. E vão aumentar, para que todas sejam entregues no prazo.

Cara Dilma, me permita a intimidade… Sabia que quatro destes oito estádios são elefantes brancos? O de Manaus, Cuiabá, Natal e a que a senhora acaba de inaugurar? Onde ironizou os como eu, pessimistas de plantão? Isso, o da cidade onde mora, presidente. Onde ouviu o assanhado Aldo Rebelo chamar de Coliseu da nova Roma? Será que ele está prevendo como ficará daqui a alguns anos a arena?

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Aos poucos a senhora entenderá o motivo pelo qual entrará na história. O estádio Mané Garrincha que acabou de inaugurar. Sem saber, teve a primazia de batizar o primeiro elefante branco do País. A arena custou um bilhão de reais. Tem capacidade para 75 mil pessoas, que beleza. Sabe qual é a média de público do Campeonato Brasiliense? 844 pessoas. Com um detalhe muito interessante. Ingressos a R$ 1,00. Vamos falar de Cuiabá. A nova arena custou até agora R$ 519 milhões. 43.600 pessoas poderão assistir grandes confrontos por lá. Isso se decidirem sair de casa. A média do Campeonato Mato-Grossense é de 612 pessoas. Mesmo com o incentivo governamental. Um quilo de comida vale um ingresso. A arena das Dunas em Natal ficou linda, nos trinques. Cabem 45 mil pessoas. A senhora quer a média de público no Campeonato Potiguar? Como ou sem emoção, como perguntam os bugueiros de lá? O emocionante primeiro turno mostrou 1.041 pagantes. Porém a mais confortável será a de Manaus. Ela custou baratinho: R$ 529 milhões. Caberão 44.310 pagantes. No poderoso Campeonato Amazonense será uma festa. Será possível acampar, jogar futebol nas arquibancadas. A média do torneio é de 588 pagantes.

Sim, presidente. Elefantes brancos anunciados antes mesmo de começarem as obras. Mas para que parar? Há de se ter uma solução. Talvez a criação do bolsa ingresso. José Maria Marin tem uma solução. Lembrando o tempo da Ditadura Militar que o fez governador. E discursar contra o Vlado Herzog, se recorda? Lógico que sim… Pois bem, ele quer que os grandes clubes brasileiros ajudem na marra. Sejam obrigados a levar partidas como mandantes para estes estádios. Sem poder de barganha. Quer tornar isso uma prática normal no Campeonato Brasileiro. Por enquanto não anunciou oficialmente. Mas já está articulando. Haverá enormes conflitos e provável rebelião.

A senhora sabe, presidente, o efeito colateral destas arenas? O preço dos ingressos subiu em média 300% no país. A se fosse o nosso PIB, hein presidente? Mas não é. As arenas estão elitizando o público. Na Copa então, será uma doideira. Futebol só na televisão ou nos telões de lanchonete. A Fifa já começou a vender os ingressos para o Mundial. Vou mostrar para a senhora os preços dos caros. Os baratos só depois da Copa das Confederações. É para assustar, presidente. Tem direito a buffet, os melhores lugares. Os jogos são da primeira fase, da Seleção Brasileira. No Itaquerão custam US$ 2.552, nada menos do que R$ 5.145. Em Fortaleza e Brasília será uma pechincha. US$ 1.595, R$ 3.190, em cada jogo. Se a seleção do Felipão se classificar para a final, vou ficar muito feliz. E surpreso. Tanto assim que convido a senhora, eu pago. Faço questão. Desembolso US$ 4.543 ou R$ 9.086,00 para cada ingresso. Não é por nada, não. Mas considero esses preços um ultraje para a população brasileira. E a senhora, não? Será que tem ideia, alguém lhe contou quanto custa ver um jogo na Copa?

Queria perguntar outra coisa. Por que muitas obras de mobilidade social ficaram no papel? A senhora por acaso sabe o caos que a torcida sofre para chegar ao Mineirão? Os tumultos no trânsito por onde há uma nova arena. Como a Fonte Nova e sua deprimente venda de ingressos. Com a polícia dando tiros de borracha e soltando bombas nos torcedores? Aquele estádio que a senhora inaugurou com o Carlinhos Brown.

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Onde chacoalhou a caxirola com a espevitada Marta Suplicy? Que custou a bobagem de R$ 2,2 bilhões. Sim, a obra saiu por R$ 591,7 milhões. Mas o consórcio que administrará o estádio foi ousado. Pediu como contrapartida R$ 103 milhões por 15 anos. Somados os valores se chega ao estádio mais caro da Copa. Em 2011, o Tribunal de Contas da União (TCU) criticou o modelo de negócio. Definiu a contrapartida como longa e cara. Sim, presidente, R$ 2,2 bilhões, ninguém falou para a senhora? Segure seu queixo. Até a caxirola fará a alegria dos gringos. A empresa norte-americana que faz as embalagens do McDonald’s tem a exclusividade sobre ela. E pretende faturar R$ 3 bilhões até a Copa. Não é mais um motivo de orgulho?

Quanto aos turistas, pode ficar aliviada. Eles não serão nem sombra do que se esperava. A Copa das Confederações já mostra isso, cara Dilma. A Fifa garante que venceu mais de 588 mil ingressos. A senhora sabe a porcentagem de estrangeiros que os comprou? Menos de 3%. Ainda bem que seu governo não remodelou os aeroportos. Para quê? Seu governo pode seguir o ritmo paquidérmico. Até os hooligans estão assustados. E não querem vir para cá. Têm medo das nossas torcidas organizadas. Só invejam a nossa legislação frouxa. Que trata com carinho os torcedores brigões, assassinos. A violência urbana que domina o País está espantando os turistas. Bobagem, não é? Assustadinhos, qual o problema de se sentir em uma guerrilha urbana? Estupros em ônibus acontecem em todos os países civilizados. Dentistas queimadas por bandidos também. Pessoas mortas em roubo de celular acontece no mundo todo. Assim como assassinatos de policiais monitorados pela cadeia. A farra dos menores delinquentes é até interessante, tadinhos. Muitos estão gostando tanto da história que falsificam suas identidades. Querem ficar mais jovens por dois ou três anos. Assim não podem ser julgados como maiores. Não são bonitinhos? Cada um que fosse para a Fundação Casa deveria ganhar um fuleco.

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O Ronaldo não vai poder dar. Mesmo membro do COL ele foi morar em Londres. Essa história de arrastões em restaurantes pode ser divertida. O turista que vier para cá na Copa vai ter o que falar quando voltar. Se não reagir, lógico. A procura de ingressos e hospedagem para o Mundial está muito abaixo do esperado. Tão menor que os números não estão sendo divulgados. Mas não importa, a Copa é nossa. E daí que a legislação brasileira foi desrespeitada pela Fifa. O que interessa são as budweisers nas mãos dos torcedores. Cerveja para eles. O importante é todos estarem felizes em junho de 2014.

Quanto à mobilidade social, a saída foi brilhante. Aplaudo em pé. Para evitar trânsito, feriado nas cidades onde há jogos. Que importa a produção, o trabalho? Vale é o futebol. A Copa do Mundo é nossa. Me empolguei… Perco a educação e faço o que a senhora não pode fazer. Dou uma banana para mim mesmo, seu pessimista. Mas só faço uma ressalva, cara Dilma. Nunca duvidei que os estádios ficariam prontos. Ficaram como esperava, superfaturados. Com bilhões do dinheiro público envolvido. Não havia acreditado no Ricardo Teixeira. Ele disse que todo o custo seria privado… Bela piada, sem o menor fundamento.

É a população do seu país que está pagando a Copa. Mais caro que jamais qualquer outra nação. O mundial vai passar. Chegarão às eleições presidenciais. E o clima de festa pode até valer a reeleição. A senhora é superfavorita. Cuidado só com seu mentor, que está com saudade do cargo. Mas um dia, quanto tiver tempo, procure se informar. Falar a sério sobre legado. O que esta Copa caríssima deixará de bom para o Brasil.

O que o País fará com suas novas arenas? As danadas têm um custo mensal de manutenção que chegam a R$ 500 mil. Nada menos do que R$ 6 milhões por ano. Quem é vai pagar, por exemplo, a de Brasília, Cuiabá, Manaus e Natal depois da Copa? O custo total do Mundial até agora é de R$ 33 bilhões. É uma beleza, já que a previsão era de R$ 80 bilhões. A senhora economizou muito com a suspensão de várias obras de mobilidade social. Desistindo de promover reformas de verdade nos aeroportos brasileiros. Só para lembrar. Cerca de 85% desses 33 bilhões são dinheiro público. Os danados da iniciativa privada só entraram com 15%. Os governos federal, estadual e municipal que estão pagando. Com o dinheiro arrecadado da população, não é?

Sim, presidente. É o povo brasileiro que vai pagar. A Fifa já anunciou que terá um lucro de R$ 10 bilhões. Que inveja, não é? A gente está organizando e promovendo a festa. Tirando o dinheiro de áreas como Saúde, Educação, Segurança. E os gringos ainda saem com o dinheiro. Cara Dilma, eu não tenho a menor dúvida. A senhora ficará para sempre na história do Brasil. A Copa do Mundo de 2014 será uma marca registrada sua. Mais cara que a do Japão, da Alemanha e da África juntas. Que beleza! Pode comemorar dando mais bicudas na inauguração de novas arenas. E discursar para políticos que aplaudem até sua tosse. O tempo vai passar. E o legado do Mundial mais caro da história será seu. Quem pagará agora e depois será a população. Mas ela terá sua compensação. Ganhará caxirolas, a bola Cafusa e 12 bilionárias arenas. Assim como os índios na chegada dos portugueses em 1500. Eles trocavam ouro e pedras preciosas por espelhinhos. E se divertiam muito olhando o seu reflexo. O sentimento do brasileiro será o mesmo dos antepassados indígenas.

Um abraço cordial, Dilma. Deste assumido pessimista de plantão. Que nunca duvidou da capacidade dos políticos brasileiros. Vocês são capazes de tudo. Ou não é o Marin que está ao seu lado na fotografia?

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Um livro

Escrevi um livro. Depois de escrito, ficou quase dois anos esperando meu ânimo se manifestar para fazer uma revisão, organizar o texto, editar e publicar. Quase não sai… Finalmente, no ano passado, no finalzinho do ano, o dito cujo saiu da gráfica. O segundo livro de ficção. O segundo escrito de próprio punho. O quarto, contando com os dois volumes que organizei… Meu desejo pede mais. Antes, porém, uma palavrinha. Divirto-me com algumas observações que sempre caem na mesma vala: a da impressão do escrito como fruto do vivido. Há sempre uma sombra de dúvida quanto a isso, mesmo quando se trata da obra de “grandes” escritores (ai como não suporto esta expressão). De qualquer maneira, é divertido!

Se é um livro, se o escrevi e publiquei, se o apresentei a um possível público leitor, sou obrigado a esperar todo e qualquer tio de reação, mesmo que silenciosa… De um jeito ou de outro, fiquei surpreso como uma série de comentários (os que seguem), feitos por um primo. Mensagem inesperada, surpresa mais que agradável e uma sensação de gratificação incomensurável. Como não pedi permissão a ela para publicar o que ele escreveu, não cito seu nome, mas coloco a série de “aforismos” que ele produziu a partir da leitura de meu livro… Evoé!

Será que todo escritor experimenta o que estou a experimentar agora?

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O cenário: é uma mistura de residências e escritórios com seus núcleos, delimitados por duas artérias urbanas ou avenidas, reunidos no espaço e no tempo num endereço MAKANČEVA, 14 na cidade de Zagreb capital da Croácia.

O assunto: encontro do vivido com o concebido e atividades docentes numa universidade.

A Trajetória: é uma viagem de sonhos e realizações – ficção e realidade, que as palavras têm dificuldades em traduzir.

Pela sua narração lembro-me de um diálogo entre Sócrates e Fedro, que Paul Valery estabeleceu em Eupalinos ou O Arquiteto, referente à casa ou “o endereço” que é o “corpo do homem” à medida que oferece verdadeiras referências.

Eupalinos em um passado distante, indica como a construção se impregna de experiência pessoal e emoções.

“Escuta, Fedro e olha este pequeno templo que construí para morada de Hermes(…) se soubesse o que significa para mim! Onde o passante só vê uma elegante capela, quatro colunas muito simples, imprimi nela a lembrança de um claro dia de minha vida(…) Este templo, ninguém o sabe, é a imagem matemática de uma jovem de Corinto que, por felicidade amei.”

Realmente não podemos saber o que você sente pelo Endereço descrito, apenas o seu belo relato.

Há uma ruptura temporal que desliga do presente para voltar ao passado. Um passado que está tão presente. O Endereço parece transformar-se num modo privilegiado de pensar e agir.

Os tempos e temporalidades são progressivamente mais espaciais. É a convocação de um espaço que confere uma materialidade própria às relações que nele tem lugar.

A sucessão de tempos é também uma sucessão de espaços percorridos deixando marcas.

Segundo Martin Heidegger, o tempo não é originalmente uma entidade fora do Homem.

O seu espaço ou endereço, não é composto apenas de palavras e números, localizável pelos moderníssimos GPS – pois envolve sentimentos. Deixou-se de ser geográfico (físico) e passou a ser simbólico, concretizando uma travessia para uma função sócio cultural, focalizada num percurso.

O tempo deixou de ser físico, matemático, para ser tempo de duração proposto por Henri Bergson. O tempo real ou de duração é imediatamente percebido na intuição da vida interior, é continuidade. É em si “memória” que prolonga o antes no depois. É essa consciência de duração que se confunde com a memória – tempo passado/ tempo presente.

Os poemas constituem parte importante, onde as chuvas caem suaves através das palavras.

Nas resenhas, destacamos Fernando Baéz, que apresenta um foco que muito nos preocupa. O avanço das tecnologias digitais de informação e comunicação – TIDICs, onde a velocidade dos fatos afasta o pensamento e destrói as palavras.

Nas crônicas e nas notas pessoais, residem aspectos importantes:

A descrição da atitude da Igreja tradicional, representada pelo bispo de Olinda, não é religião e sim uma forma de impor poder e contradiz o que o atual Papa Francisco, Bispo de Roma, quer para a humanidade e para a Igreja que preside.

Destacamos o lapso que foi criado pela página perdida.

As incertezas de Setembro, onde a poeira ainda não baixou totalmente, numa mistura de poder, liberdade, democracia e sequelas de guerra. Tudo isso num caldeirão de MacBeth, de bruxas, numa tragédia Shakespeariana, sob o olhar tenebroso de Collor de Mello ou “Colera brasilis”.

Depois da moça dos Balcãs e das curtíssimas, no bom sentido, depois do RAP neutralizado pela Debbie Harry vem o bom relato Coda que fecha os habitats com os hábitos.

Há uma entidade reflexiva sobre o Ethos, a morada de nós mesmos. O encontro consigo mesmo.

Habitus x Habitat – Habitus definido como princípio gerador e unificador de condutos e opiniões. São estruturas, estruturantes como sistema de “disposições duráveis” que é apreendido ao longo de uma história. Significa que atitudes e inclinações: a perceber, a sentir, a fazer e a pensar, se tornam uma maneira de ser e são interiorizadas a partir de experiência passada. É um encontro consigo mesmo. É a fantasia com foco de realidade.

A pessoa só se entende se estiver dentro dela mesma. Só entende o mundo se estiver dentro do mesmo. Aqui reside o sentido de nossa existência. É importante incorporar a partilha que pode ser coroada com a solidariedade e o respeito à diversidade.

Há ainda um posfácio (em inglês) que reúne conceitos, preconceitos e as incertezas contemporâneas.

A concepção de linguagem discursiva foi usada em determinado tempo e espaço. Segundo Pierre Bourdieu

“É o estabelecimento de uma relação com o mundo e com o outro e também parte do conjunto das práticas sociais de produção e perpetuação de valores simbólicos.”

O construir, como no diálogo de Eupalinos, à maneira de Platão, é o mais completo de todos os atos, pois exige amor, meditação, “obediência ao mais belo pensamento”. Assim você construiu o seu livro, um endereço que guarda a magia do mistério.