O vestido azul

Dia útil. Inverno, apesar da temperatura e alta e de um calor inexplicável, misto de umidade represada pelo entorno montanhoso. Nada parecia diferente. De fato, nada era diferente. A fila na entrada do banco, com os mesmos tipos andrajosos, aparentando sujeira e subnutrição; o mesmo clima provinciano de gente que se considera urbana, ainda que mineralmente amarrada a um passado já esquecido, aqui e ali cristalizado em frames nervosos, plenos de pixels que eternizam uma impressão passageira, de gente também passageira. O mesmo lixo espalhado, a mesma indolência do interior, o mesmo tudo. No ar, a música de Madonna, vinda de um radinho de pilha, estridente, sobraçado por uma figura exótica de um homem que ensaiava dublagem frouxa, imitando os sons sem se dar conta do que dizia e sem a preocupação com a opinião alheia. Cabelos alisados a ferro, pintura carregada no rosto, já meio derretida pelo calor, olhos vidrados, passos de uma coreografia pobre e alucinada, de quem tentava exarar seu prazer mais íntimo em praça pública. E o vestido azul brilhava ao sol da manhã de quinta-feira, sem o menor pudor. Peão? Pedreiro? Carpinteiro? Malandro? Quem sabe? Quem pode dizer. Com requebros arrítmicos, aquele homem vestido de azul… dançava. Será isso a felicidade? Os passantes riam… Que gente pobre…

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2 comentários sobre “O vestido azul

  1. Realidade ou ficção? Nunca saberemos… Mas a figura humana de vestido azul é, no mínimo, comovente, em meio à modorra geral de uma cidade quase morta. Emblema da sandice, da cabeça afetada menos pelo calor e mais pela absoluta falta de perspectiva. Quase poética… Belo texto, ZéLu. Beijinhos, Angel

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