LET 877 – 2

Carta

“De ponta a ponta é toda praia… muito chã e muito fremosa. (…) Nela até agora não pudemos saber que haja ouro nem prata… porém a terra em si é de muitos bons ares assim frios e temperados como os de Entre-Doiro-e-Minho. Águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem, porém o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar” (…).

…………………………………………………………………………………………………………………………
“Andam nus sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa de cobrir nem mostrar suas vergonhas e estão acerca disso com tanta inocência como têm de mostrar no rosto. (…) Eles porém contudo andam muito bem curados e muito limpos e naquilo me parece ainda mais que são como as aves ou alimárias monteses que lhes faz o ar melhor pena e melhor cabelo que as mansas, porque os corpos seus são tão limpos e tão gordos e tão fremosos que não pode mais ser.”

…………………………………………………………………………………………………………………………
“(…) Ali andavam entre eles três ou quatro moças bem novinhas e gentis, com cabelo mui pretos e compridos pelas costas e suas vergonhas tão altas e tão saradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.”

(Pero Vaz de Caminha, A carta)

***************************************************************************

Macunaíma

“Haveis de saber que este vocábulo, tão familiar às vossas trompas de Eustáquio, é quase desconhecido por aqui. Por estas paragens mui civis, os guerreiros chamam-se polícias, grilos, guardas-cívicas, boxistas, legalistas, masorqueiros, etc; sendo que alguns desses termos são neologismos absurdos — bagaço nefando com que os desleixados e petimetres conspurcam o bom falar lusitano. Mas não nos sobra já vagar para discretearmos “sub tegmine fagi”, sobre a língua portuguesa, também chamada lusitana. O que vos interessará mais, por sem dúvida, é saberdes que os guerreiros de cá não buscam mavórticas damas para o enlace epitalâmico; mas antes as preferem dóceis e facilmente trocáveis por pequeninas e voláteis folhas de papel a que o vulgo chamará dinheiro — o “curriculum vitae” da Civilização, a que hoje fazemos ponto de honra em pertencermos. Assim a palavra muiraquitã, que fere já os ouvidos latinos do vosso Imperador, é desconhecida dos guerreiros, e de todos em geral que por estas partes respiram. Apenas alguns “sujeitos de importância em virtude e letras”, como já dizia o bom velhinho e clássico frei Luís de Sousa, citado pelo doutor Rui Barbosa, ainda sobre as muiraquitãs projetam as suas luzes, para aquilatá-las de medíocre valia, originárias da Ásia, e não de vossos dedos, violentos no polir.”

…………………………………………………………………………………………………………………………

“Andam elas vestidas de rutilantes jóias e panos finíssimos, que lhes acentuam o donaire do porte, e mal encobrem as graças, que, a de nenhuma outra cedem pelo formoso do torneado e pelo tom. São sempre alvíssimas as donas de cá; e tais e tantas habilidades de­monstram, no brincar, que enumerá-las, aqui seria fàstiendo porventura; e, certamente, quebraria os mandamentos de discreção, que em relação de Imperator para súbditas se requer. Que beldades! Que elegância! Que cachet! Que degagé flamífero, ignívomo, devorador!! Só pensamos nelas, muito embora não nos descuidemos, relapso, da nossa muiraquitã.

Nós, nos parece ilustres Amazonas, que assaz ganharíeis em aprenderdes com elas, as condescendências, os brincos e passes do Amor. Deixaríeis então a vossa orgulhosa e solitária Lei, por mais amáveis mesteres, em que o Beijo sublima, as Volúpias encandecem, e se demonstra gloriosa, “urbi et orbe”, a subtil força do Odor di Femina, como escrevem os italianos.”

(Mário de Andrade, Macunaíma)

********************************************************************************************************

Considerando o que já lemos, discutimos e pensamos até aqui, tente escrever dois ou três parágrafos, comentando estas duas passagens na perspectiva dos estudos de Literatura Comparada, principalmente no que concerne à ideia de “fontes e influências” e de “tradução”.

9 respostas para “LET 877 – 2”

  1. Mário de Andrade tem a ‘Carta’ de Caminha enquanto influência posto que esta é anterior ao seu ‘Macunaíma’. O autor modernista se apropria de certas passagens de Caminha em tom de paródia: enquanto a carta de 1500, não obstante sua riqueza ficcional, se propunha a realizar uma descrição das terras recém-descobertas, em ‘Macunaíma’ já se tem séculos de passado nacional e uma imensa herança cultural que será revisitada por Mário de Andrade. Se na ‘Carta’ as mulheres descritas são pudicas, indígenas e morenas, as mulheres de Andrade são brancas e ocidentalizadas, versadas nos prazeres carnais.

    No modernismo, não há uma idealização como a do indianismo romântico, que via no índio o símbolo do brasileiro por excelência. Mário de Andrade está consciente da heterogeneidade cultural brasileira, e inclusive parodia a busca por um ‘mito’ original (que pode estar ou não metaforizado na busca pela ‘muiraquitã’): o nascimento de Macunaíma, paródia do nascimento de Iracema, evidencia isso. Além dessa passagem, há outras diversas em que há invenção de mitos, sátira da ‘origem’, como aquelas em que o narrador de Macunaíma explica a origem etimológica de expressões como ‘vai tomar banho’. Em sentido amplo, passagens de paródias como as de Macunaíma podem ser entendidas enquanto ‘tradução’. Assim como a tradução é um caminho de transferência sempre incompleta, mas não por isso inferior, a tradição literária também é um constante ir e vir em textos variados, um processo constante de inovação recriação do antigo.

    • Comentário:
      Mário de Andrade tem a ‘Carta’ de Caminha enquanto influência posto que esta é anterior ao seu ‘Macunaíma’. O autor modernista se apropria de certas passagens de Caminha em tom de paródia: enquanto a carta de 1500, não obstante sua riqueza ficcional, se propunha a realizar uma descrição das terras recém-descobertas, em ‘Macunaíma’, já se tem séculos de passado nacional e uma imensa herança cultural que será revisitada por Mário de Andrade. Se, na ‘Carta’, as mulheres descritas são pudicas, indígenas e morenas, as mulheres de Andrade são brancas e ocidentalizadas, versadas nos prazeres carnais.

      No Modernismo, não há uma idealização como a do indianismo romântico, que via no índio o símbolo do brasileiro por excelência. Mário de Andrade está consciente da heterogeneidade cultural brasileira, e inclusive parodia a busca por um ‘mito’ original (que pode estar ou não metaforizado na busca pela ‘muiraquitã’): o nascimento de Macunaíma, paródia do nascimento de Iracema, evidencia isso. Além dessa passagem, há outras diversas em que há invenção de mitos, sátira da ‘origem’, como aquelas em que o narrador de Macunaíma explica a origem etimológica de expressões como ‘vai tomar banho’. Em sentido amplo, passagens de paródias como as de Macunaíma podem ser entendidas enquanto ‘tradução’. Assim como a tradução é um caminho de transferência sempre incompleta, mas não por isso inferior, a tradição literária também é um constante ir e vir em textos variados, um processo constante de inovação recriação do antigo. (Muito bom!)

  2. É inevitável, após a leitura dos dois excertos acima colocados, não pensarmos em uma rede de aproximação que inter-relaciona duas obras com perspectivas e lugares diferentes. O também chamado achamento do Brasil expresso na Carta de Caminha, é considerada por muitos um marco da literatura nacional, um clássico portanto do ponto de vista documental e porque não literário, um vez que encerra também a crônica, além de trazer um toque edênico. Nesse caminho de tradições e não negando o leite que bebeu, Mário de Andrade, modernista brasileiro, acaba criando em seu texto pontes metafóricas que retoma o texto de Caminha.
    A retomada que se dá em Mário de Andrade tem um tom de subversão, em que traços e lugares comuns são desfeitos para abrigar um louvor nacional diferente. O traço edênico no texto de Mário desaparece, assim como os traços de beleza e louvor indígena. A retomada de caminha se dá por meio de uma quebra, bem como de um esbarrar em uma obra, sem no entanto, estabelecer o que Macunaíma possui de Caminha, mas sim quais os efeitos uma fonte ponte criar quando ganha outras traduções. Há, pois, dois fatores sobre a literatura comparada quando as duas obras são postas em análise; o primeiro delas sem dúvida é o não louvor das obras às literaturas nacionais, e portanto não temos obras que sirvam à festa das literaturas nacionais; e segundo, o surgimento de questionamentos da cultura nacional, ambientando não por uma perspectiva estrangeira, e sim por uma identidade posta à prova.

    • É inevitável, após a leitura dos dois excertos acima colocados, não pensarmos em uma rede de aproximação que interrelaciona (Ainda não memorizem todas as novas regras da “reforma”, mas…) duas obras com perspectivas e lugares diferentes. O também chamado “achamento” do Brasil expresso na Carta de Caminha, é considerado por muitos um marco da literatura nacional, um clássico, portanto, do ponto de vista documental e, porque não, literário, um vez que encerra também a crônica, além de trazer um toque edênico. Nesse caminho de tradições, e não negando o leite que bebeu, Mário de Andrade, modernista brasileiro, acaba criando em seu texto pontes metafóricas que retomam o texto de Caminha.
      A retomada que se dá em Mário de Andrade tem um tom de subversão, em que traços e lugares comuns são desfeitos para abrigar um louvor nacional diferente. O traço edênico no texto de Mário desaparece, assim como os traços de beleza e louvor indígena. A retomada de caminha se dá por meio de uma quebra, bem como de um esbarrar em uma obra sem, no entanto, estabelecer o que Macunaíma possui de Caminha, mas sim quais os efeitos uma fonte ponte criar quando ganha outras traduções. Há, pois, dois fatores sobre a Literatura Comparada quando as duas obras são postas em análise: o primeiro deles, sem dúvida, é o não louvor das obras às literaturas nacionais,(Não entendi o que você quis dizer com isso!) e, portanto, não temos obras que sirvam à festa das literaturas nacionais; segundo, o surgimento de questionamentos da cultura nacional, ambientado não por uma perspectiva estrangeira, e sim por uma identidade posta à prova. (Outra frase cujo sentido me escapa… Pode ser por falta de atenção minha!)

  3. Macunaíma e a carta de Pero Vaz Caminha estão situados em momentos históricos completamente diferentes, o aspecto comum entre eles é a presença marcante dos elementos da natureza.
    A presença desses elementos tem caráter diferente, na carta de Caminha, a finalidade é descrever com uma perspectiva informativa. Já na obra Macunaíma de Mario de Andrade, esses elementos vem com a finalidade de ressaltar a exuberância da natureza brasileira, cenário das lendas e mitos nacionais que o autor coloca na obra.
    Junto Caminha quando Andrade tem a preocupação de ressaltar as singularidades brasileiras, porém, com objetivos que diferem.

    • Macunaíma e a carta de Pero Vaz Caminha estão situados em momentos históricos completamente diferentes, o aspecto comum entre eles é a presença marcante dos elementos da natureza. (Só isso é comum?)
      A presença desses elementos tem caráter diferente: na carta de Caminha, a finalidade é descrever com uma perspectiva informativa; já na obra Macunaíma, de Mario de Andrade, esses elementos vêm com a finalidade de ressaltar a exuberância da natureza brasileira, cenário das lendas e mitos nacionais que o autor coloca na obra. (Você tem certeza disso? O que dizer do tom paródico e carnavalizado que marca o texto de Mário, fazendo com que seu discurso seja irônico, invertendo seu similar no texto de Caminha? Você tem alguma coisa a dizer sobre isso? Percebe a diferença?)
      Junto Caminha quando Andrade tem a preocupação de ressaltar as singularidades brasileiras, porém, com objetivos que diferem. (Esta frase está desarticulada do rexto do pequeno parágrafo que voc6e escreveu. Além disso o sentido dela se perde no início…)

  4. A carta de Pero Voz de Caminha leva em si o choque cultural vivenciado pela descoberta desta terra que hoje nos encontramos. O olhar surpreso, a tentativa de descrição para uma aproximação com a cultura de Portugal é nítida. O que era considerado por ele uma vergonha, na cultura local era algo considerado comum.
    Observa-se, com sua carta, uma linguagem que descreve a sua própria cultura, que diz mais sobre o observador do que sobre o objeto observado; claramente, é o autor quem escreve o texto e não a história em si.
    Com isso, Mário de Andrade, tomando como base a carta de Pero Vaz, descreve ironicamente uma outra cultura com seu olhar brasileiro e sua crítica ao romantismo (indio como herói do Brasil). A sua linguagem tenta aproximar o estranhamento da carta ao povo português como um choque cultural, a nossa cultura; fazendo-nos, achar estranho e, talvez cômico, a cultura do outro por um olhar nosso.

    • A carta de Pero Vaz de Caminha leva em si expressa o choque cultural vivenciado (Por quem?) pela descoberta(“descoberta” não “vivencia” nada pois é apenas uma experiência, uma ciscunstância, sem a capaciodade de “vivenciar” o que quer que seja!) desta terra em que hoje nos encontramos. O olhar surpreso, a tentativa de descrição para uma aproximação com a cultura de Portugal é nítida. O que era considerado por ele (Quem?) uma vergonha, na cultura local, era algo considerado comum.
      Observa-se, com sua na carta, uma linguagem que descreve a sua própria cultura (A cultura da carta?), que diz mais sobre o observador do que sobre o objeto observado (Como assim?); claramente, é o autor quem escreve o texto e não a história em si. (Esta frase está desarticulada do resto e seu sentido é vago. Oque você quer dizer com ela?)
      Com isso (??????), Mário de Andrade, tomando como base a carta de Pero Vaz, descreve ironicamente uma outra cultura com seu olhar brasileiro e sua crítica ao Romantismo (índio como herói do Brasil). A sua linguagem tenta aproximar o estranhamento da carta ao povo português como um choque cultural, a nossa cultura (Outra frase um tanto desarticulada e igualmente sem sentido); fazendo-nos, achar estranho e, talvez, cômica a cultura do outro por um olhar nosso.

  5. Parecendo parodiar a carta de Pero Vaz de Caminha, Mário de Andrade utiliza de “fontes e influências” para realizar bem tal proeza. Satirizando a carta, o escritor modernista traduz a fala de Pero Vaz para uma linguagem atual, em um tempo atual, em uma cultura atual, em meios sociais atuais (lembrando da importância do tempo da escrita da obra).
    Como discutido em sala de aula (destacando as paródias feitas da Canção do Exílio) e no blogue, observamos a importância da contextualização para os estudos da Literatura Comparada. Aqui, no texto de Mário de Andrade, observamos a contextualização feita pelo escritor – colocando uma obra, a carta de Pero Vaz, em um contexto diferente, causando humor e certo estranhamento.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: