Contramão (?)

A poesia tem dessas coisas. Acredita-se, ingenuamente, nem que seja por breve período de tempo, que a poesia revela beleza. E é verdade, mas , não apenas no sentido de denegar o “resto”. Afinal, como “delimitar” o conceito de “beleza”? Só a subjetividade já daria pano pra manga numa pretensa discussão sobre o assunto. Assim, pode-se admitir, não sem haver controvérsias – claro está que a “chatice” faz parte da psique humana, às vezes, às vezes menos, mas faz… – que o feio, o grotesco, o inesperado, o condenado e até o desconhecido conformem matéria poética. Que o diga Augusto dos Anjos, minha “bola da vez”… Numa página que gosto de consultar (http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp) encontrei parágrafo instigante sobre o poeta:

Cético em relação às possibilidades do amor (“Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me”), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio “eu” o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético (“Ai! Um urubu pousou na minha sorte”). A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo (“Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa”). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma (“Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais”).

Segue o poema, pra deixar que sua “beleza” fale por si…

Versos Íntimos

Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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5 comentários sobre “Contramão (?)

  1. A despeito da dor profunda, habitante funesta do peito do poeta, de sua carne e de sua alma, percebe-se um laivo de esperança na própria transcendência, na crença em uma ‘viagem’ a outros mundos após a morte. E o que ele diz neste poema não fica tão distante da verdade, sejamos honestos. Porque o ser humano, nosso ‘semelhante’, interligado a nós pela concepção atômica do universo, é sempre inprevisível. Amor e ódio convivem em nós e se completam. A dualidade faz, ainda, parte da nossa imperfeição. Beijos, Angel

    1. Esse poema sempre me “tocou”. Há uma tal beleza em imagens tão contrastantemente chocantes e inesperadas. É “coisa” de poeta, sem dúvida. Na prosa, há alguém como ele: Gustavo Corção e seu livro “Lições de abismo”.

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