LET 877 – 6

Pra começar, vamos retomar dois trechos, um de cada conto, a saber:

1. “O corpo”, Clarice Lispector

“Xavier chegou com uma fome que não acabava mais. E abriu uma garrafa de champanha. Estava em pleno vigor. Conversou animadamente com as duas, contou-lhes que a indústria farmacêutica que lhe pertencia ia bem de finanças. E propôs às duas irem os três a Montevidéu, para um hotel de luxo. Foi uma tal azáfama a preparação das três malas. Carmem levou toda a sua complicada maquilagem.
Beatriz saiu e comprou uma minissaia. Foram de avião. Sentaram-se em banco de três lugares: ele no meio das duas. Em Montevidéu compraram tudo o que quiseram. Inclusive uma máquina de costura para Beatriz e uma máquina de escrever que Carmem quis para aprender a manipula-la. Na verdade não precisava de nada, era uma pobre desgraçada. Mantinha um diário: anotava nas páginas do grosso caderno encadernado de vermelho as datas em que Xavier a procurava. Dava o diário a Beatriz para ler.
Em Montevidéu compraram um livro de receitas culinárias. Só que era em francês e elas nada entendiam. As palavras mais pareciam palavrões. Então compraram um receituário em castelhano. E se esmeraram nos molhos e nas sopas. Aprenderam a fazer rosbife. Xavier engordou três quilos e sua força de touro acresceu-se.
Às vezes as duas se deitavam na cama. Longo era o dia. E, apesar de não serem homossexuais, se excitavam uma à outra e faziam amor. Amor triste. Um dia contaram esse fato a Xavier. Xavier vibrou. E quis que nessa noite as duas se amassem na frente dele. Mas, assim encomendado, terminou tudo em nada. As duas choraram e Xavier encolerizou-se danadamente.”

2. “Aqueles dois”, Caio Fernando Abreu

“Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia, La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.
Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.”

Creio não ser surpresa dizer que o “desejo” é o conceito-chave na/da leitura de ambas as narrativas curtas. mesmo que você não tenha lido todos os textos de apoio, vou propor o seguinte: veja no dicionário o verbete “desejo” e tente comentar alguma coisa que seja possível articular entre a leitura dos dois contos e as acepções do verbete.

Uma segunda provocação, pra tentar fazer você comentar é a seguinte:

no conto de Clarice, duas mulheres

no conto de Caio, dois homens

no conto de Clarice, a comida

no conto de Caio, a música

Isso faz algum sentido? Se faz, como você veria uma abordagem comparatista entre os dois textos. Apenas indique a(s) possibilidade(s), não é necessário desenvolver a abordagem aqui, agora… Boa leitura!

 

4 respostas para “LET 877 – 6”.

  1. No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa,a palavra “desejo” significa: 1) ato ou efeito desejar; aspiração diante de algo que corresponda ao esperado aspiração, querer, vontade;2)expectativa de possuir ou alcançar algo; 3) anelo,pretensão, propósito;4) ambição,cobiça,sede;5) instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual, atração física; 6) ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez.
    E partindo do conceito de desejo,pude perceber que o significado que mais se aproxima das duas leituras é o do instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual,atração física.Desse modo, no conto de Clarice Lispector, essa atração ocorre entre duas mulheres e tem como elemento comum a comida e no conto de Caio Fernando Abreu ocorre entre dois homens e a música é o fator comum que os uni.

  2. No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a palavra “desejo” significa: 1) ato ou efeito desejar; aspiração diante de algo que corresponda ao esperado aspiração, querer, vontade; 2) expectativa de possuir ou alcançar algo; 3) anelo, pretensão, propósito; 4) ambição,cobiça,sede; 5) instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual, atração física; 6) ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez.
    E partindo do conceito de desejo, pude perceber que o significado que mais se aproxima das duas leituras é o do instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual, atração física. Desse modo, no conto de Clarice Lispector, essa atração ocorre entre duas mulheres e tem como elemento comum a comida e no conto de Caio Fernando Abreu ocorre entre dois homens e a música é o fator comum que os une. (Podia ter argumentado mais extensivamente!)

  3. Partindo do significado de “desejo”: “1) ato ou efeito desejar; aspiração diante de algo que corresponda ao esperado aspiração, querer, vontade; 2) expectativa de possuir ou alcançar algo; 3) anelo, pretensão, propósito; 4) ambição,cobiça,sede; 5) instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual, atração física; 6) ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez.” e fazendo uma tentativa de comparação entre os dois textos (de Clarice Lispector e de Caio Fernando Abreu), arrisco-me:

    Há dois enlaces claros no texto: o desejo de concretizar ou de gritar para o mundo a vontade, o querer, o possuir o outro e o bloqueio existente que não os permitem concretizar. Tanto as personagens de Lispector quanto os personagens de Caio Fernando Abreu sentem uma atração, um desejo sexual e/ou emocional um pelo outro, porém há um bloqueio, há uma não permissão para a concretização desse desejo entre todos esses personagens que não está explicita nos textos.
    No texto de Lispector, as duas personagens chegam a trocar carícias e a se amarem embaixo dos lençóis e no escuro da noite, mas não próximo ao ouvido do outro do lado de fora. É um desejo contido, mesmo concretizado. O bloqueio, mesmo não explicitado no texto, vem de fora, vem do outro que deseja vê-las se tocando, num ato sexual.
    No texto de Caio Fernando Abreu, não fica claro se os dois personagens chegaram ou não a trocar carícias e a se amarem, mas o bloqueio desse desejo é colocado como algo externo a eles, é o quarto fechado e pequeno que poderia simbolizar esse bloqueio. E, ainda se acostuma a esse bloqueio, a esse quarto pequeno e fechado, acostuma-se a não se permitir desejar e concretizar seus anseios e vontades.
    Em Caio Fernando de Abreu há o quarto pequeno, em Lispector há o homem de fora, nos dois textos é o mundo externo que bloqueia, que frustra, que machuca e que não os permitem desacostumar a sair das imposições.

    1. Partindo do significado de “desejo”: “1) ato ou efeito desejar; aspiração diante de algo que corresponda ao esperado aspiração, querer, vontade; 2) expectativa de possuir ou alcançar algo; 3) anelo, pretensão, propósito; 4) ambição,cobiça,sede; 5) instinto físico que impulsiona o ser humano ao prazer sexual, atração física; 6) ânsia de satisfazer certos apetites durante a gravidez.” e fazendo uma tentativa de comparação entre os dois textos (de Clarice Lispector e de Caio Fernando Abreu), arrisco-me:

      Há dois enlaces claros no texto: o desejo de concretizar ou de gritar para o mundo a vontade, o querer, o possuir o outro e o bloqueio existente que não os permitem concretizar. Tanto as personagens de Lispector, quanto os personagens de Caio Fernando Abreu, sentem uma atração, um desejo sexual e/ou emocional um pelo outro, porém há um bloqueio, há uma não permissão para a concretização desse desejo entre todos esses personagens que não está explicita nos textos.
      No texto de Lispector, as duas personagens chegam a trocar carícias e a se amarem embaixo dos lençóis e no escuro da noite, mas não próximo ao ouvido do outro do lado de fora. É um desejo contido, mesmo concretizado. O bloqueio, mesmo não explicitado no texto, vem de fora, vem do outro que deseja vê-las se tocando, num ato sexual.
      No texto de Caio Fernando Abreu, não fica claro se os dois personagens chegaram ou não a trocar carícias e a se amarem, mas o bloqueio desse desejo é colocado como algo externo a eles, é o quarto fechado e pequeno que poderia simbolizar esse bloqueio. (Mais do que o quarto – que pode ser uma imagem implícita de bloqueio – há a reação dos colegas que, ao longo da narrativa, concretiza explicitamente essa mesma imagem!) E, ainda se acostuma a esse bloqueio, a esse quarto pequeno e fechado, acostuma-se a não se permitir desejar e concretizar seus anseios e vontades.
      Em Caio Fernando de Abreu, há o quarto pequeno; em Lispector, há o homem de fora. Nos dois textos, é o mundo externo que bloqueia, que frustra, que machuca e que não os lhes permite desacostumar a sair das imposições. (Não “entendi” essa conclusão.)

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