Uma carta

Acabo de ler a carta que segue, enviada como mensagem por um amigo de quem gosto imenso, o Paulo Meyer. Não acrescento sequer um comentário. Com isso, não quero dizer que somente ele está certo e todo o resto da população brasileira, errado. O desabafo do médico, autor da carta, é mais que legítimo e tem sua razão de ser… Uma pena que tenhamos que ler coisas semelhantes a esta carta…

Guardadas as devidas proporções, trocando “médico” por “professor”, a situação parece muito similar… e não terá sido mera coincidência…

Leiam a carta (cuja autoria desconheço):

“Excelentíssima Sra. Presidente da República Dilma Rousseff

Permita-me a apresentação: na minha opinião eu sou um médico; na sua um “trabalhador da saúde”. Na minha opinião,medicina é cuidar de pessoas doentes; na sua é fazer “transformação social”. Eu penso em salvar vidas; a senhora em ganhar votos. Como podemos ver, a senhora e eu eu, não temos muito em comum à primeira vista mas existem na minha vida alguns fatos que a senhora desconhece.

Assim como a senhora,eu já fui marxista – e dos fanáticos! Brigava com colegas da faculdade no final dos 80 e inicio dos anos 90 para ver seu projeto de poder realizado. Caminhei ao lado daquele seu amigo que gosta de uma cachacinha e costuma ser fotografado com livros de cabeça para baixo..Conversei pessoalmente com o “poeta do sêmen derramado” que agora governa o Rio Grande do Sul..

Não tinha ideia correta daquilo que havia acontecido no Brasil entre 1964 e 1985. Imaginava, como a senhora quer fazer parecer até hoje, que tudo estava indo bem até que militares malvados que não tinham nada para fazer decidiram, com ajuda dos americanos, derrubar o governo brasileiro.

Eu só me dei conta, presidente, de quem Lula, a senhora e seu Partido-religião representavam quando comecei a trabalhar com a gente de vocês aqui em Porto Alegre a partir de 98. Duvido que eu estivesse mal-preparado, sabe? Eu já tinha feito 6 anos de faculdade, um ano de residência em Pediatria, um de Medicina Interna e dois de Cardiologia. Gostaria que a senhora visse em que lugar seus “cumpanheros” aqui dos pampas me colocaram para trabalhar…Imagino a senhora doente naquelas condições de segurança, higiene, espaço e administração que a ralé do PT do Rio Grande do Sul nos ofereceu.

A senhora tem ideia de como deve se sentir um médico ao ter seu estágio probatório avaliado por técnicos de enfermagem? A senhora sabe o que é receber, depois de tudo que se estudou na vida, ordens de enfermeiras, presidente? Em nome de que? Em nome de um delírio chamado “democratização da gestão”? Em nome de um absurdo chamado “controle social”??

A senhora tem alguma noção de quantas pessoas eu vi morrerem depois que esse seu partido de assassinos e mensaleiros terminaram com o resto da rede hospitalar brasileira “aparelhando” a gestão dela com uma legião de analfabetos, recalcados, alcoólatras e incompetentes que por oferecer uma parte de seu salário ao PT passaram a dar ordens a homens e mulheres com capacidade de salvar vidas ???

Mas por favor, não fique ofendida comigo presidente, de certa forma essa carta é um agradecimento, sabe? Formado há quase 20 anos, eu nunca havia visto os médicos brasileiros tão unidos quanto agora. É mais um mérito seu e desse seu partido a promover a maior humilhação que os médicos de um país sofreram até hoje! A senhora não tem vergonha de apelar para uma ditadura bananeira, para um país que mata, tortura, prende e vigia seus próprios cidadãos para fornecer médicos para o SEU povo? A senhora é brasileira, ou não, presidente Dilma??

Se não tem vergonha da medicina do seu país, tenha pelo menos do seu povo! A senhora nasceu aqui e a primeira pessoa que lhe viu foi provavelmente um médico do Brasil. Provavelmente vai ser algum colega, intensivista como eu sou hoje, quem vai estar ao seu lado no último momento e mesmo assim a senhora quer chamar médicos cubanos para enganar nossa gente pobre e doente a ponto de garantir sua reeleição?

Quem lhe deu esse conselho, presidente Dilma? Identifique por favor, um por um, os médicos que lhe cercam e sugeriram semelhante ideia! A senhora e eu já conhecemos alguns, né? Vamos apresentar os demais ao Conselho Federal de Medicina, ou não?

Presidente Dilma, até bandidos e prostitutas se ofendem quando tem seu território e ganha pão ameaçados. Nós somos médicos, nós salvamos vidas e não vamos permitir que uma profissão cuja origem se perde no tempo seja levada ao fundo do poço por um partido como o da senhora com o argumento de que estamos sendo corporativistas e o Brasil está sem médicos.

Deus lhe proteja na batalha que vai enfrentar conosco, presidente. Se a senhora for ferida vai precisar ser atendida por um médico – e eu duvido muito que ele fale português..

Porto Alegre, 2 de julho de 2013.”

 

 

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6 comentários sobre “Uma carta

  1. Percebo traços de preconceito e também uma certa arrogância em relação a outros profissionais, tdoso de nível superior e igualmente necessários para compor a equipe de um hospital. Já fiquei mais vezes do que gostaria em hospitais; o que ocorre é que os médicos passam duas vezes por dia para darem uma olhada no paciente e o resto do tempo quem fica ali, realmente, é o corpo de enfermagem. Temos também que reconhecer que os médicos brasileiros vêm de famílias de condição social privilegiada e que aprendem, na faculdade, a se sentirem meio que como ‘deuses’, donos da vida e da morte. Poucos, muito poucos se dispõem trabalhar no SUS, principalmente deslocando-se de suas cidades de origem para se enfiarem nos bolsões de miséria do país. Tampouco concordo que a função do médico seja a de tratar pessoas doentes, mas, sim, de promover a saúde. Apesar da ambivalência, entendo e até concordo com o desabafo do profissional que escreveu a carta.
    Trabalhar no setor público de saúde em nosso país é lidar, diuturnamente, com a carência de absolutamente tudo: higiene, ferramental, medicamentos, etc. etc. Para encerrar, não tenho qualquer fobia contra os que têm dinheiro e podem usufruir dele para seu próprio bem-estar. Se eu tivesse também o faria. Agora, trazer médicos de Cuba, ou de qualquer outro lugar do planeta, em situações excepcionais, dispensando-os do Revalida e criando formas de remuneração que vão contra a legislação do nosso país é desaforo mesmo. E as matérias hipócritas que saíram na mídia, dizendo que os médicos cubanos “não vieram para cá por dinheiro e privilégios, mas para ‘ajudar’ o povo e o governo brasileiros” me dá nos nervos.

    1. O espinheiro é tão grande… Por um lado, a falácia da “falta de médicos”. Por outro, a situação exorbitantemente miserável e animalesca da “saúde pública”. Entre os dois meu coração balança. Como “princípio” é alguma coisa escassa, cada dia mais escassa… Entre os dois meu coração continua balançando, cansado…

  2. Que médicos são uma classe corporativista não há como negar, especialmente quando se trata de ‘blindar’ um profissional acusado de erro médico. E que a saúde, no Brasil, mesmo a privada, anda um caos – só se consegue uma consulta com três a quatro meses de antecedência! – só um cego não vê.
    Talvez toda essa loucura sirva para alguma coisa: para escancarar a petulância do PT até para os menos avisados e mostrar aos nossos profissionais de saúde, tão elitistas, que não somos idiotas. É isso. Beijinhos, Angel
    P.S. Não dá pra comparar a situação do professor com a dos médicos: é absurdamente pior, especialmente em certas áreas do conhecimento.

    1. Que bom seria que o corporativismo “docente” conseguisse “blindar” os pares, uns aos outros. De fato, isso de blindagem nem chega perto do horizonte de expectativas das repúblicas dos phdeuses que se instituíram rincão afora… O negócio é se locupletar e reclamar, não necessariamente nessa ordem, mas… Além disso, em relação ao corpo “discente” paira ainda a ideia de que somos “tias” e que os “coitadinhos” têm que aprender com a nossa “ajuda”… Já viu né…

  3. Não sei até q ponto eu não concordo com a ideia desse médico…Fato é que, assim como para os médicos, o governo oferece “bolsas” para profissionais de diversas áreas, para que atuem em locais onde a miséria, ou as condições de trabalho chegam ao limite do “não ter nada”! Muitos profissionais são chamados a atuarem em municípios da região norte, ou no norte de Minas, onde não há uma agência bancária…E ao receberem um salário (mísero) de R$10.000,00, precisam ir até a cidade mais próxima (quase 70km) para poderem depositar o cheque, pq nem pra trocar o banco teria o dinheiro!! Não falo isso por ter ouvido 3ºs falarem, eu conheço pelo menos 2 profissionais que se dispuseram a receber esse pequeno valor salarial, fora uma casa na cidade e passagem para vir pra casa pelo menos 2 vezes a cada 3 meses, desistirem disso, por considerarem o salário pouco pra não ter condições de trabalhar!!!
    Pode ser ruim ter pessoas de fora ocupando seus postos, com certeza!!!E qualquer um concordaria com isso, mas para ter chegado ao que chegou, a trazer médicos cubanos para o Brasil, isso mostra como essa classe profissional está deixando a desejar!!!Por que?? Porque como disse a colega acima, a maioria dos médicos de hoje se sentem deuses, e merecedores de salários dantescos!!!! Mas não é assim que funciona! E oferecer esses salários dantescos a médicos de fora, também não é a melhor saída!!! Para os médicos cubanos, o alto salário, e a certeza de sair de Cuba, com uma vida boa, não só pra eles, mas para a família, é o que todos de lá querem…Seja médico ou professor!!!
    Fato é que professor não recebe o que deveria receber, e médico, muitas vezes, recebem mais do que deveriam!! Acredito que a profissão deveria ser escolhida não por base salarial, mas sim por questões de vocação, de dom, de realmente querer aquilo, e querer fazer a diferença!!!
    Se a saúde não estivesse do jeito que está, não seriam precisos os médicos cubanos!!! Se a educação chegar ao patamar da saúde (quanto aos profissionais que nela atuam), serão precisos professores cubanos!!!Só não podemos estar em busca de governantes como os desse país…Porque, se com os nossos está assim…Como estaríamos com os cubanos???

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