Sensibilidade

Nos dias que correm, escrever tem sido uma prática utilizada de maneira um tanto instigante. Desde os modelos editoriais que fazem um “escritor de sucesso”, até os protocolos acadêmicos que parecem não enxergar que a linguagem é um ente vivo, que respira e que, portanto, não poder aprisionado nas quatro linhas de uma página em branco com amarras apertadas – ainda que “virtuais”. De um jeito ou de outro, é sempre gratificante ver que a criatividade ainda é um instrumento acessível e que muitos sujeitos sabem fazer bom uso dele. O exemplo abaixo – de autoria desconhecida – que recebi do Celso, amigo que vive em Santa Maria-RS, me faz pensar nisso também… A banalidade, que costuma ser critério de talento e sensibilidade em páginas de autoria conhecida e reconhecida – Adélia Prado, Clarice Lispector, Rubem Alves, entre outros muitos por aí – chega a ser gritante aqui. Gostei… Espero que quem o ler também goste…

Índice1REDAÇÃO PARA CONCURSO NA VOLKSWAGEN

No processo de seleção da Volkswagen do Brasil, os candidatos deveriam responder à seguinte pergunta: ‘Você tem experiência’?

A redação abaixo foi desenvolvida por um dos candidatos. Ele foi aprovado e seu texto está fazendo sucesso, e com certeza será sempre lembrado por sua criatividade, sua poesia, e acima de tudo por sua alma.
REDAÇÃO VENCEDORA:
Já fiz cosquinha na minha irmã pra ela parar de chorar,
Já me queimei brincando com vela. Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto,
Já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo.
Já quis ser astronauta, violonista, mágico, caçador e trapezista.
Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora.
Já passei trote por telefone.
Já tomei banho de chuva e acabei me viciando.
Já roubei beijo. Já confundi sentimentos.
Já peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido.
Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro,
Já me cortei fazendo a barba apressado, já chorei ouvindo música no ônibus.
Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais difíceis de se esquecer.
Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas,
Já subi em árvore pra roubar fruta. Já caí da escada de bunda.
Já fiz juras eternas,
Já escrevi no muro da escola,
Já chorei sentado no chão do banheiro,
Já fugi de casa pra sempre, e voltei no outro instante.
Já corri pra não deixar alguém chorando. Já fiquei sozinho no meio de mil pessoas, sentindo falta de uma só.
Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado,
Já me joguei na piscina sem vontade de voltar,
Já bebi uísque até sentir dormentes os meus lábios,
Já olhei a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar.
Já senti medo do escuro, já tremi de nervoso,
Já quase morri de amor, mas renasci novamente pra ver o sorriso de alguém especial.
Já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar.
Já apostei em correr descalço na rua.

Já gritei de felicidade.
Já roubei rosas num enorme jardim.
Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um ‘para sempre’ pela metade.
Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol.
Já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Foram tantas coisas feitas, momentos fotografados pelas lentes da emoção, guardados num baú, chamado coração.
E agora um formulário me interroga, me encosta na parede e grita: ‘Qual sua experiência?’.
Essa pergunta ecoa no meu cérebro: experiência…experiência…

Será que ser ‘plantador de sorrisos’ é uma boa experiência?
Sonhos!!! Talvez eles não saibam ainda colher sonhos!
Agora gostaria de indagar uma pequena coisa para quem formulou esta pergunta:
Experiência? ‘Quem a tem, se a todo o momento tudo se renova?’.

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