LET 973 – 1

Segue o texto do conto.

Trata-se de narrativa naturalista.

A “atividade” é citar três passagens que demonstrem traços da “personalidade” da “contessina” que ajudam a compor a sua figura de personagem e tentar comentar os “comos” e os “porquês” desta imagem.

Boa leitura!

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O FUNÃMBULO DE MÁRMORE

A contessina sentiu-se triste nessa manhã, aborrecida da quietação lânguida do seu boudoir, da falsa pompa de vegetação dos seus salões-estufas, da vida contemplativa dos aquários de cristal-rocha, da atmosfera perfumada dos salões e das alcovas, onde o oxigênio vivificante se corrompe, por entre a subtileza das exalações de opopanax e verveine, contidas nos frascos boê­mios, todos facetados e cintilantes. Mandou pôr o cupê, um pe­quenino cupê estofado de carmesim, grandes fivelões de madre-pérola floreteados; escolheu um vestido claro, de um estofo liso, grandes laços vermelho e branco, apertado em longa cuirasse, com uma cauda aristocrática, que deixava no ouvido um doce frufru inebriante.

E com um gorro de penas, de forma excêntrica, uma tira de gaze a meio rosto, atada na nuca, penteado simples, em que des­tacavam contra a luz uns pequeninos anéis dos seus cabelos cas­tanhos, sobre a fronte de castidade sonhada, com uma camélia branca no seio, a contessina saltou para o carro. Era sábado, nos dias lúcidos de Maio. O cocheiro teve ordem de seguir ao longo dos bulevares, atulhados de gente activa que tumultuava nos passeios, nos armazéns, nas casas de modas e nos ateliers, viva­mente, alegremente, raça de gigantes e de artistas que ia fecun­dando as indústrias com o poder da sua violenta actividade.

Na Bolsa, à porta, junto do guarda-vento, viu o conde de M., que argumentava com o judeu W. sobre questões de fundos. Mais adiante, cumprimentou a jovem C., que apartava num li­vreiro as últimas publicações de crítica e de estética. Parou no ateliers de Cario Bórgio, o pintor de quinze anos, que fizera ruído com um quadro impressionista, repudiado pelo júri de uma ex­posição artística em Roma. Encontrou lá a fina flor do mundo culto da cidade: o médico F., a quem um trabalho sobre doenças cardíacas abrira as portas das mais célebres academias euro­péias; Henrique de R., o folhetinista mais delicado da Itália; Rai­mundo Conti, o crítico por excelência, que ditava a lei do bom

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gosto, com um bom senso admirável, e mil personagens célebres do grande mundo ilustrado e do grande mundo elegante.

Ó pintor tinha olheiras – a contessina reparou nisso –, não apartara o cabelo ainda e o seu trajo de manhã, cheio de negli­gência, o seu largo e branco colarinho decotado, deixavam adivinhar pela curva do seu pescoço forte e levemente sangüíneo, cor-de-rosa-claro, um corpo escultural de atleta, vigoroso e saudável, criado à larga no puro ar balsâmico dos campos, ante a vastidão contemplativa do mar. Não havia no atelier nenhum qua­dro novo. Apenas sobre o cavalete, um cartão esboçado a traços. Cario fumava cachimbo; a contessina achou-o por isso detestá­vel, e saiu sem lhe haver sorrido como costumava. Sem ela repa­rar, a camélia branca que levava esfolhou-se ao sair, maculando a alcatifa escura do atelier com as pétalas imaculadas, brancura láctea, cheia de pequeninos veios caprichosos, como as ruas do mais intrincado labirinto.

Deixou-se cair outra vez nos coxins do cupê e mandou rodar para a Galeria Médicis, no extremo ocidental da cidade.

Ia fatigada, nervosa e indisposta. Quanto vira lhe apareceu vulgar e indigno da sua atenção. Mirou no espelho que ficava de­fronte, atrás da tábua do cocheiro, a sua flexível figura, magra e branca, o seu rostinho fresco, o seu belo perfil rafaelesco, de uma finura, de um contorno verdadeiramente singulares pela sua pu­reza, pelo seu conjunto, a um tempo audaz e tímido. Uma ruga imperceptível se avincava verticalmente na sua testa. E impa­cientou-se, achou que estava feia, trigueira, mal vestida. Então inclinou a cabeça para trás, sobre os coxins, deixou pender o cor­po também, com um abandono, uma morbidezza tentadora, es­tendeu-se quase no cupê, indolentemente, sem vontade, sem palpitação e sem coragem, com desejos de se espreguiçar, de so­nhar coisas extraordinárias e fantásticas, de correr aventuras sobre o mar, num cutter ligeiro, pintado de branco, com jovens marinheiros escoceses, louros e atléticos, de uma candura virginal, que cantassem as árias das montanhas, baladas suaves e frias, onde a manhã rompe e os galos cantam e se ouve bater ho­ras o sino do castelo em ruínas, ao descer da velha ponte levadiça, quando o couraceiro fantasma recolhe de lança ensangüenta­da, no meio dos coros das vítimas.

E sob o domínio da sua áurea fantasia cerrou os olhos e co­meçou a viver naquele devaneio que interiormente ia bosquej an­do. O cupê parou enfim, desceu lesta no átrio de mosaico e pene­trou nos salões abertos à curiosidade dos amadores.

Sobre os cavaletes, sobre degraus e pelas paredes, paten-

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teavam-se os capi-d’opera dos grandes mestres da Renas­cença, do Perugino, de senza error, de Fra Angélico, de Sanzio, do Buonarroti, do Ticiano, do Tintoreto, de Dominiquino, de Jú­lio Romano, dos Carraches, de Montagna e todos os primores das escolas alemãs e flamengas: cenas de interior, trechos de ménage e cervejaria, as paisagens realistas dos Holandeses, de céus húmidos e flocos de nevoeiro, onde o verde alcança todas as gradações vegetais e o Sol, como uma brasa metida em óleo, se extingue vermelhamente, entre fumaradas que passam. Roçagando a sua cauda elegante, a contessina passava sem parar diante dessas soberbas telas, que resumiam todo o ideal de mais duma raça, demarcando as tendências e aspirações, um pouco modificadas havia muito, na evolução social do último século. A cada passo lhe sorriam dentro de molduras de pau-rosa, de pra­ta, de sândalo, bronze ou talha uma madona casta, com o Bambino nos braços, um mártir amarelecido e chagoso, uma Vénus concupiscente e nua, um Cristo dolorosamente lívido, atado ao madeiro da ignomínia, um guerreiro sob a armadura cintilante das grandes idades heróicas. E movendo o seu leque de frias plumagens, todo constelado de cintilações preciosas, com o binó­culo de ouro na pequenina mão calçada em peau de Suède, o olhar distraído passeando sobre os aspectos sem os distinguir nem os fixar, a contessina perdia-se entre os amadores oficiosos, entre os artistas obscuros de ambos os sexos, que tiravam có­pias, vestidos nas suas túnicas talares de atelier, o olhar atento e perscrutador cravado nos modelos, com uma concentração ner­vosa e extática. Não tinha já admiração para queimar, como um perfume enervante, ante tamanhos primores acumulados. Desde pequenina conhecia aquelas magníficas pinturas, e escutara as exclamações de uma admiração mais ou menos convicta solta­das pelos entendidos ou pelos pedantes, ao longo dos vastos sa­lões esplendentes da galeria. Mas a verdade é que os modelos clássicos, as sacras famílias do colorido éclatant, sempre na mesma pose e composta das mesmas figuras, as cenas bíblicas repassadas de unção convencional e misticismo fradesco, não iam direitas, pela sua maneira e pela sua idéia simbólica, ao seu coração modernamente educado de artista, à sua alma expansi­va de meridional, tão cheia de amor pela verdade e tão penetra­da da sedução esquisita das pompas de uma natureza luxuriante e escorrendo de cor, e dos característicos hábitos e índoles pi­torescas de uma raça vigorosa, cheia de culto, de forma e de ideal. A sua predilecção artística era alguma coisa como o aroma exa­lado por quanto contemplara em viagens, estudara em bibliote­cas e sentira em convivência, aroma que rescendia em espiras

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balsâmicas e suavíssimas, numa palpitação de borboleta irisada num hausto de liberdade sublime, extraordinária e sonora. Compreende-se que o seu temperamento lhe exigisse uma arte que se pudesse admirar sem profanação e se pudesse amar ser remorso, que falasse às suas exigências e aos seus caprichos, sem incluir a recordação dos velhos martírios, apoteoses entre serafins e nuvens, mistérios idiotas e teológicos, em que se con­trariam, por princípio de carolice, as leis mais lógicas e simples da ciência, da criação e da espécie.

E numa disposição rebelde, fatigada das saturações da cor, das exuberâncias sistemáticas de musculatura, das garridices da forma, da abundância de pinturas, voltou para trás antes de chegar ao fim, entrou no carro cheia de spleen e abatimento, e mandou rodar para casa.

Atirou o chapéu mal entrou no boudoir; a camareira trouxe-lhe o roupão de Unho de Manchéster com que costumava traba­lhar; e envolta no tecido de listas graves, a fresca figura de uma palidez serena, foi tomar assento no seu atelier, diante da está­tua de mármore branco, que começava a sair ainda indecisamen­te da bruta massa de pedra, ferida pelo seu cinzel fantasista de uma graça e de uma originalidade cativantes.

Havia tempos que trabalhava nessa obra, e com que amor!…

A vida das outras mulheres era-lhe irritante, apertada num pequeno cinto de conveniências e vulgaridades. Pouco conhece­ra da família, não sabia admirar o que nas mães se chama uma missão heróica e, nas mulheres em geral, os deveres próprios do sexo. Tinha percorrido o mundo sozinha. A quantos a amaram nesse período sorrira sempre. À sua natureza excêntrica apare­ciam deformados em esgares ridículos os galãs modelos. Fatigava-se depressa. Demais, tinha um intuito finíssimo de artista, altivo de mais para aceitar lugares-comuns. Mas havia na sua vida este episódio – uma noite, num circo de Nápoles, vira fa­zendo equilíbrios num globo um rapaz vestido de meia, ágil e ele­gante. Nunca pôde esquecer aquela figura que surgira pela pri­meira vez à sua imaginação, como eflorescência rara, sonhada entre incoerências de febre.

Procurou depois, mais perto, essa soberba organização que fizera na sua sensibilidade como um lampejo instantâneo, a fas­cinação sombria e fatal do jettatore. Pouco a pouco, a sua mente apoderou-se daquela imagem fascinante, correcta como não vira outra, juvenil como não sonhara igual. Todas as noites ia ao cir­co ver trabalhar o equilibrista: dominava-a a soberba atitude do funâmbulo, livre, impetuoso e colossal. Nela sentia-se, de facto,

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toda a opulência duma seiva que irrompe, em circulação vigoro­sa e regularíssima; todos aqueles fortes membros elásticos, fle­xíveis e aptos aos movimentos mais contrastantes se sentiam palpitar de saúde, de vida e de beleza, ritmo sonoro, cheio de presteza e propriedade.

E aquela apetitosa figura de adolescente trigueiro, os olhos esmaltados de uma serenidade de deus, plástica irrepreensível e firme, apoderaram-se da contessina, com um ímpeto, uma vio­lência que tocavam os paroxismos da loucura.

Começou então uma existência nocturna, roubada de ale­grias, cheia de sobressaltos, terrores e prazeres. Zampa, o fu­nâmbulo, levava os dias caído entre garrafas de conhaque e fu­maças de charuto. Além disso, tinha gordos pedidos de dinheiro, teimosias de parasita e surdas raivas de vadio. Era exigente como um faccihno e brutal como um barqueiro: a devassidão exas­perada que busca viver fora do tédio adquirido por longos dias de desordem, e mediante fantasias realizadas à custa de grandes despesas. Ela adorava-o; às vezes tinha medo.

Sentia-lhe as mãos grosseiras, calejadas do trapézio, a voz rouca, o hálito alcoolizado, um cheiro a charuto que se metia pelas mucosas dentro. Gostava porém de o agarrar pela cintura, de lhe pender do pescoço nu com todo o peso do corpo, de se entre­gar com um grande soluço dilacerante, vergada para trás, cabe­los soltos e a túnica rasgada de alto a baixo, com a folha dum punhal. E era com uma delicia inexplicável, aguda e cheia de frê­mitos, que lhe tirava a capa, quando Zampa chegava do circo, ainda com os fatos da arena, couraçado na sua beleza superior e intangível.

O espectáculo de um corpo fortemente criado embriagava-a de uma aspiração criminosa e de uma animalidade fatal: queria-o! Algumas vezes Zampa não vinha e as horas da noite deslizavam para a pobre leviana em suplícios atrozes e vacilações eternas. Então saia a procurá-lo, só, envolta numa dessas mantas de cores vivas, que Livorno produz, um punhal no cinto e pálida como uma esperança pisada à beira dum esquecimento. Já podia entrar nos lugares lôbregos onde tilinta o dinheiro dos vícios cobardes, para arrancá-lo do jogo, embriagado e vil, falando uma aravia brutal. Os convivas faziam-lhe toasts, cobriam-na de sar­casmos, prenhes de insolência de bordel. Nestas lutas supremas, parecia que a sua paixão se avigorava; queria explicar a si mes­ma por que razão esse palhaço a dominava e a prendia, fazendo dela uma escrava; reflectia então insurgir-se contra semelhante envilecimento, readquirir a sua liberdade de outrora, a sua franca alegria de criança; impossível! Quando tratava de expulsar

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de si o ébrio, com desprezo veemente e indignação explosiva, como se levantava diante dela a esplêndida figura de arcanjo que era o seu desejo, o seu gozo, o seu deslumbramento e a sua per­dição; e era sempre o mesmo olhar plácido que ela contemplava, a mesma carne vigorosa, de uma tonalidade opulenta, a mesma linha soberba do perfil, a mesma postura de academia, altiva e forte, como a de um gladiador que triunfa, na arena onde espa-dana o sangue dos mártires e se espedaçam corpos frementes de vitimas obscuras e trágicas. Em outros dias, à força de súplicas, Zampa ficava: era uma festa. Saiam de carruagem para o campo, lá passavam a tarde no meio da poderosa eflorescência dos ar­bustos, no silêncio das villas brancas, em torno de que se alas­travam vinhedos, sob os nogais de um verde quente ou entre perfumes acres de pinheiros que gemem o seu cântico desolado. Jantavam sobre a relva, como bons lavradores: ele não bebia en­tão. Tudo em roda estalava de risos metálicos, finamente tim­brados; era bom viver assim. Naquela afinidade de sensações tranqüilas, a alma dele parecia irradiar uma delicadeza poética. A contessina. descobria-lhe predilecções de paisagem, observa­ções sentidas, fortes destaques de inspiração, uma docilidade de carácter, mesmo. E era feliz, esquecida de angústias de outras horas, com a mente povoada de sonhos de ouro. Se fosse assim sempre! Se fugissem para um país remoto, o Oriente, num mos­teiro em ruínas!… E figurava minaretes tártaros, as grandes tulipas das cúpulas, rendas frágeis dos pórticos árabes, o céu pro­fundo e cálido, onde a miragem inverte os panoramas, palmeiras seculares, erguidas entre casas quadradas como dados colossais, albornós brancos, barbas pontiagudas e tez parda – como nos desenhos de Bida. Ou numa herdade perdida no seio dos Apeninos, longe do bulício e à beira dum lago, num chalé vermelho, t entre árvores. E pelas madrugadas róseas iriam tomar os leites perfumados de turinas brancas; os sinos das ermidas tocariam o Angelus no meio dum coro de pássaros; a natureza seria de uma sonoridade cristalina, perlada de orvalhos frescos e cálices de ja­cintos, cor-de-rosa.

O seu lirismo abstraía-se em idealidades azuis, em grandes e nebulosas viagens, em que se destacava o grupo formado por Zampa e por ela – um pelo braço do outro.

Um domingo, ele não voltou. No dia seguinte, encontraram–no apunhalado na casa de jogo. Foi quando começou a estátua. Dentro de poucos meses, o mármore, desbastado, realizava a criação mais lúcida que se possa sonhar. Era uma obra-prima realmente, esculpida com verdade profunda e inspiração fogosa. Sobre um plano inclinado via-se um grande globo polido retido a

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meio caminho do declive, Sobre o globo, numa posição agilíssima e graciosa, o funâmbulo, com os braços abertos, as pernas quase unidas, a face risonha, juvenil e um pouco irônica, pro­curava conservar resolvido o seu problema de equilíbrio pelo maior espaço de tempo possível: e toda aquela obra ressaltava de vitalidade, de arrojo e de elegância. Uma lufada de gênio pas­sara por ali. Quase se esperava ver oscilar o globo, moverem-se os pés de Zampa, erguer-se um pouco o travessão de balança que ele fazia com os braços para deslocar imperceptivelmente o centro de gravidade a fim de o fazer subir ou descer, andar ou desandar, dentro da base de sustentação, e vir descendo, descen­do conforme quisesse, pelo declive geométrico e doce do plano oblíquo, sempre sobre o seu globo humilde e no meio das ovações estrepitantes de alguns milhares de espectadores. Era Zampa tornado estátua; as mesmas soberbas linhas, a mesma ir­repreensível musculatura, perna firme, retesada e direita, de uma elegância única, os fortes encontros, a larga espádua de he­rói, de uma curva severa, o braço sem grandes nós articulares, o pulso atlético e ricamente modelado, um peito leonino em que subiam ondulações viris de seios, a cabeça um primor de cinzel e um prodígio de distinção, alta, cabelos revoltos, a audácia dominadora, olhando em face a turba pressuposta, com o ar superior de quem se faz admirar.

Era Zampa. Ninguém que o tivesse visto na arena podia desconhecê-lo.

Ao acabar o trabalho, quando numa contemplação palpitante ergueu os olhos sobre a sua obra, o cinzel caiu-lhe das mãos e os soluços estrangularam-lhe a voz.

Toda a sua alma estava ali, como talvez, nos primitivos dias do mundo, a alma do bom Deus, nos corpos dos primeiros ho­mens criados. Nada fora omitido; era ele, bem o estava vendo, ri-sonho e vivo como outrora, os lábios quentes de beijos e o olhar cintilante de raios. Bem o estava vendo! Os dias que mediavam entre a morte e a ressurreição daquele homem tinham-lhe centuplicado o amor, tornando candente o desejo, e calcinado as últi­mas fibrilhas de receio. Era sua, era dele para sempre. Passa­riam diante de todo o mundo, abstraídos um no outro, com o olhar errante nas estrelas.

E de rastos no xadrez do atelier, cabelos soltos em espiras procelosas, o olhar faiscante de loucura, seminua, agonizante, branca, cingia com os braços a sua obra imortal, tentando aque­cer com a lava dos seus beijos a gélida indiferença do funâmbulo de mármore.

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Enfim, acharam-na caída aos pés da estátua, abraçada ao globo como a serpente dos retábulos da Virgem, um sorriso divi­no de bacante nos lábios emudecidos. Morrera.

Uma palavra de confidencia. Não procurem na sociedade a contessina: seria ridículo! O amor moderno, despido dos atavios românticos e das consagrações imortais, tornou-se, fora da famí­lia, o que é na ciência e referido às outras espécies animais: a ex-citação fatal, regida por leis fisiológicas, que atrai e liga dois se­res da mesma construtura orgânica e da mesma conformação anatômica, posto que de sexo diferente. O mesmo que para os cães, que para os elefantes, que para os peixes, que para as aves, que para os insectos: instinto, exacerbado na raça humana tal­vez, pela depuração do sistema nervoso. Degradante porém nes­te caso, por improdutivo. Actualmente há só duas mulheres, a da família: a mãe, a esposa, a filha; e a da viela. Esta última, compreende-se, se chega a amar um funâmbulo, ama-o canina-mente, pela sensação que lhe arranca. Se o funâmbulo morre, es­se amor despertado não transforma nunca a cocotte numa artis­ta, qualquer que seja o seu grau de educação, de gosto e de ta­lento.

Se quiserem ver passar por instantes a contessina, tal como a sonhamos, vão a um atelier onde se curve um escultor sobre a pedra ou sobre o tronco, ou observem um poeta que febrilmente escreve os alexandrinos do seu poema. Em qualquer dos três, poeta, pintor ou escultor, pousou o beijo da contessina. Não é uma mulher, meus caros, mas o sopro abrasado que passa e se extingue, depois de haver criado também o seu funâmbulo de mármore. Chama-se a Inspiração. Devemos-lhe o machado de sí­lex e o desenho rudimentar gravado em certas cavernas sepulcrais; viveu já na cidade lacustre, onde fazia colares de dentes de carnívoros para ornar o peito dos vencedores; passados sé­culos ergueu a Acrópole grega, o Patéon e os circos; fez o Coli­seu e a Capela Sistina; tudo quanto é grande alevantou-o ela, amou os artistas da Renascença, os arquitectos piedosos da Meia Idade, levou às fogueiras os apóstatas, guiou Lutero, des­calço e faminto, através da Alemanha, impôs Savonarola na Itá­lia, e Cristo obedecera-lhe muito tempo antes. Na ciência, da mesma forma que na religião e na arte, tudo lhe pertence e tudo lhe obedece; foi amante de Arquimedes, de Newton, Laplace, Tyndall, Cuvier e Owen, e sempre a mesma frescura de tez e a mesma suavidade de forma, a mesma cintilação no olhar e o mesmo braço imortal e correcto, que rasga no incógnito um sul­co palpitante e magnífico.

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ALMEIDA, Fialho de. Contos. Mem Martins: Publicações Europa-América, s/d, p. 143-150. Livros de bolso Europa-|América, 347,

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22 comentários sobre “LET 973 – 1

  1. Fiz algumas correções. Veja lá…

    “E era feliz, esquecida de angústias de outras horas, com a mente povoada de sonhos de ouro. Se fosse assim sempre! Se fugissem para um país remoto, o Oriente, num mos­teiro em ruínas!”…

    “A contessina sentiu-se triste nessa manhã, aborrecida da quietação lânguida do seu boudoir, da falsa pompa de vegetação dos seus salões-estufas, da vida contemplativa dos aquários de cristal-rocha, da atmosfera perfumada dos salões e das alcovas, onde o oxigênio vivificante se corrompe, por entre a subtileza das exalações de opopanax e verveine, contidas nos frascos boê­mios, todos facetados e cintilantes.”

    “Cario fumava cachimbo; a contessina achou-o por isso detestá­vel, e saiu sem lhe haver sorrido como costumava”.

    “Ia fatigada, nervosa e indisposta. Quanto vira lhe apareceu vulgar e indigno da sua atenção. Mirou no espelho que ficava de­fronte, atrás da tábua do cocheiro, a sua flexível figura, magra e branca, o seu rostinho fresco, o seu belo perfil rafaelesco, de uma finura, de um contorno verdadeiramente singulares pela sua pu­reza, pelo seu conjunto, a um tempo audaz e tímido. Uma ruga imperceptível se avincava verticalmente na sua testa. E impa­cientou-se, achou que estava feia, trigueira, mal vestida.”

    Através das passagens acima citadas, é possível tentar traçar o perfil da personagem da “contessina”. A própria vida da personagem compõe sua imagem. Quando apaixonada pelo funâmbulo, a personagem tinha uma vida boa e era feliz, como se pode ver na primeira passagem. Após a morte de seu amado, acontece um declínio na vida da contessina e, consequentemente, em seu humor, ou no modo de vê-la, como na segunda e quarta passagens. A terceira passagem, onde em que a personagem acha o pintor detestável, pode estar ligada à lembrança dos vícios do amado, de quando ia buscá-lo bêbado, do com hálito de álcool e do cheiro de charuto que que se metia pelas mucosas dentro.

    1. Através das passagens acima citadas, é possível tentar traçar o perfil da personagem da “contessina”. A própria vida da personagem compõe sua imagem. Quando apaixonada pelo funâmbulo, a personagem tinha uma vida boa e era feliz, como se pode ver na primeira passagem. Após a morte de seu amado, acontece um declínio na vida da contessina e, consequentemente, em seu humor, ou no modo de vê-la, como na segunda e quarta passagens. A terceira passagem, em que a personagem acha o pintor detestável, pode estar ligada à lembrança dos vícios do amado, de quando ia buscá-lo bêbado, com hálito de álcool e do cheiro de charuto que que se metia pelas mucosas dentro.

      1. Parece estar faltando alguma coisa. Você sequer menciona o conto do Caio Fernando Abreu. Além disso, os comentários esparsos sobre o conto de Fialho de Almeida traem (é do verbo trair mesmo!) certa superficialidade…

      2. Foureaux, esse comentário é sobre a o conto “O Funâmbulo de Mármore”( é a 1ª atividade), por isso não citei Caio Fernando (2ª atividade).

      1. As características da personagem Contessina se firmam pela delicadeza mas ao mesmo tempo força. Busca pelo seus ideias que demonstra ser a personagem uma mulher a frente de seu tempo, destemida ao mesmo tempo doce e sensível como se mostra diante da morte de seu amado.

  2. “A contessina sentiu-se triste nessa manhã, aborrecida da quietação lânguida do seu boudoir…”
    “Ia fatigada, nervosa e indisposta. ”
    “E de rastos no xadrez do atelier, cabelos soltos em espiras procelosas, o olhar faiscante de loucura, seminua, agonizante, branca, cingia com os braços a sua obra imortal, tentando aque­cer com a lava dos seus beijos a gélida indiferença do funâmbulo de mármore.’

  3. 1º -Ó pintor tinha olheiras – a contessina reparou nisso –, não apartara o cabelo ainda e o seu trajo de manhã, cheio de negli­gência, o seu largo e branco colarinho decotado, deixavam adivinhar pela curva do seu pescoço forte e levemente sangüíneo, cor-de-rosa-claro, um corpo escultural de atleta, vigoroso e saudável, criado à larga no puro ar balsâmico dos campos, ante a vastidão contemplativa do mar. Não havia no atelier nenhum qua­dro novo. Apenas sobre o cavalete, um cartão esboçado a traços. Cario fumava cachimbo; a contessina achou-o por isso detestá­vel, e saiu sem lhe haver sorrido como costumava. Sem ela repa­rar, a camélia branca que levava esfolhou-se ao sair, maculando a alcatifa escura do atelier com as pétalas imaculadas, brancura láctea, cheia de pequeninos veios caprichosos, como as ruas do mais intrincado labirinto.

    2º- Ia fatigada, nervosa e indisposta. Quanto vira lhe apareceu vulgar e indigno da sua atenção. Mirou no espelho que ficava de­fronte, atrás da tábua do cocheiro, a sua flexível figura, magra e branca, o seu rostinho fresco, o seu belo perfil rafaelesco, de uma finura, de um contorno verdadeiramente singulares pela sua pu­reza, pelo seu conjunto, a um tempo audaz e tímido. Uma ruga imperceptível se avincava verticalmente na sua testa. E impa­cientou-se, achou que estava feia, trigueira, mal vestida. Então inclinou a cabeça para trás, sobre os coxins, deixou pender o cor­po também, com um abandono, uma morbidezza tentadora, es­tendeu-se quase no cupê, indolentemente, sem vontade, sem palpitação e sem coragem, com desejos de se espreguiçar, de so­nhar coisas extraordinárias e fantásticas, de correr aventuras sobre o mar, num cutter ligeiro, pintado de branco, com jovens marinheiros escoceses, louros e atléticos, de uma candura virginal, que cantassem as árias das montanhas, baladas suaves e frias, onde a manhã rompe e os galos cantam e se ouve bater ho­ras o sino do castelo em ruínas, ao descer da velha ponte levadiça, quando o couraceiro fantasma recolhe de lança ensangüenta­da, no meio dos coros das vítimas.

    3º -A vida das outras mulheres era-lhe irritante, apertada num pequeno cinto de conveniências e vulgaridades. Pouco conhece­ra da família, não sabia admirar o que nas mães se chama uma missão heróica e, nas mulheres em geral, os deveres próprios do sexo. Tinha percorrido o mundo sozinha. A quantos a amaram nesse período sorrira sempre. À sua natureza excêntrica apare­ciam deformados em esgares ridículos os galãs modelos. Fatigava-se depressa. Demais, tinha um intuito finíssimo de artista, altivo de mais para aceitar lugares-comuns. Mas havia na sua vida este episódio – uma noite, num circo de Nápoles, vira fa­zendo equilíbrios num globo um rapaz vestido de meia, ágil e ele­gante. Nunca pôde esquecer aquela figura que surgira pela pri­meira vez à sua imaginação, como eflorescência rara, sonhada entre incoerências de febre.

  4. Nota-se uma primeira impressão da sua personalidade no 6º parágrafo, pág.144: “Ia fatigada, nervosa e indisposta. Quanto vira lhe apareceu vulgar e indigno da sua atenção. Mirou no espelho que ficava de­fronte, atrás da tábua do cocheiro, a sua flexível figura, magra e branca, o seu rostinho fresco, o seu belo perfil rafaelesco, de uma finura, de um contorno verdadeiramente singulares pela sua pu­reza, pelo seu conjunto, a um tempo audaz e tímido”…
    Outra passagem é no 8º parágrafo, pág.146: “Compreende-se que o seu temperamento lhe exigisse uma arte que se pudesse admirar sem profanação e se pudesse amar ser remorso, que falasse às suas exigências e aos seus caprichos, sem incluir a recordação dos velhos martírios”..
    A última passagem se encontra no 12º parágrafo, pág.146: “A vida das outras mulheres era-lhe irritante, apertada num pequeno cinto de conveniências e vulgaridades. Pouco conhece­ra da família, não sabia admirar o que nas mães se chama uma missão heróica e, nas mulheres em geral, os deveres próprios do sexo. Tinha percorrido o mundo sozinha. A quantos a amaram nesse período sorrira sempre. À sua natureza excêntrica apare­ciam deformados em esgares ridículos os galãs modelos. Fatigava-se depressa. Demais, tinha um intuito finíssimo de artista, altivo de mais para aceitar lugares-comuns….

  5. As características de Contessina estão presentes no 6º parágrafo da página 144 “Mirou no espelho que ficava de­fronte, atrás da tábua do cocheiro, a sua flexível figura, magra e branca, o seu rostinho fresco, o seu belo perfil rafaelesco, de uma finura, de um contorno verdadeiramente singulares pela sua pu­reza, pelo seu conjunto, a um tempo audaz e tímido. Uma ruga imperceptível se avincava verticalmente na sua testa. E impa­cientou-se, achou que estava feia, trigueira, mal vestida.” Na página 146, os traços de personalidade de Contessina como: não viveu muito com sua família, viajou muito pelo mundo e não gostava de lugares comuns, “tinha um intuito finíssimo de artista” e tinha uma natureza excêntrica.

  6. A gnt pode destacar tres pontos no conto que colaboram pra construção do personagem. O primeiro, logo no inicio do conto, é a alusão melancólica, a presença do sentimento de tristeza, referente ao contexto de futilidades da protagonista. Depois a alegria mesclada com o medo, nas experiencias dela ao lado de zampa. E por fim, quando o amado morre, o desespero, a loucura e a morte. Essas tres partes refletem a construção psicologica da personagem.

    1. Íris,
      Não entendi o “gnt”…
      Além disso, se não me esqueci (confesso a preguiça de esperar a conexão da claro permitir que eu abra outra página para verificar…), havia pedido três parágrafos. Mas tudo bem, seu poder de síntese me convenceu!

      1. oi Foureaux,
        o “gnt” significa gente, foi bem informal, me desculpe, é a força do hábito de escrever assim na internet. E com relação aos parágrafos, voce pediu tres na outra atividade.
        Beijinhos, =D

  7. Professor, pude reparar quatro passagens que me permitiram construir uma representação mental da “contessina”. A primeira delas, abaixo:
    “A cada passo lhe sorriam dentro de molduras de pau-rosa, de prata, de sândalo, bronze ou talha uma madona casta, com o Bambino nos braços, um mártir amarelecido e chagoso, uma Vénus concupiscente e nua, um Cristo dolorosamente lívido, atado ao madeiro da ignomínia, um guerreiro sob a armadura cintilante das grandes idades heróicas.” (p. 144)
    Esta passagem me faz pensar qual seria relação da “contessina” com estas obras, e que a santidade de cada personagem das telas as quais ela perpassa diz respeito à sua constituição. A princípio, me fez pensar que seria uma jovem destituída de origens familiares, por ver sorrisos em figuras que, de acordo com a tradição católica imprimem respeito através da expressão austera. Este desligamento da personagem com as origens familiares pode ser conferida na página 145, quando o autor se preocupa em descrever sua impressão em relação às mulheres consideradas comuns.
    A segunda passagem:
    “A sua predilecção artística era alguma coisa como o aroma exa¬lado por quanto contemplara em viagens, estudara em bibliote¬cas e sentira em convivência, aroma que rescendia em espiras balsâmicas e suavíssimas, numa palpitação de borboleta irisada num hausto de liberdade sublime, extraordinária e sonora. Compreende-se que o seu temperamento lhe exigisse uma arte que se pudesse admirar sem profanação e se pudesse amar ser remorso, que falasse às suas exigências e aos seus caprichos, sem incluir a recordação dos velhos martírios, apoteoses entre serafins e nuvens, mistérios idiotas e teológicos, em que se con-trariam, por princípio de carolice, as leis mais lógicas e simples da ciência, da criação e da espécie.” (p. 144 – 145)
    Nesta passagem é possível observar os valores que regem os passos da “contessina” que permitiram um relacionamento tão intenso e sem nenhuma das burocracias sociais para que este relacionamento acontecesse.
    Um terceiro trecho:
    “A vida das outras mulheres era-lhe irritante, apertada num pequeno cinto de conveniências e vulgaridades. Pouco conhece¬ra da família, não sabia admirar o que nas mães se chama uma missão heróica e, nas mulheres em geral, os deveres próprios do sexo. Tinha percorrido o mundo sozinha. A quantos a amaram nesse período sorrira sempre. À sua natureza excêntrica apare¬ciam deformados em esgares ridículos os galãs modelos. Fatigava-se depressa. Demais, tinha um intuito finíssimo de artista, altivo de mais para aceitar lugares-comuns.” (p. 146)
    Neste, retomamos o que foi dito a respeito da primeira passagem. A “contessina” não reconhece a estrutura familiar. Isto lhe permitira olhares diferentes em relação às estruturas sociais as quais assiste, principalmente em relação à família. E permite também viver as relações interpessoais de maneira, digamos, menos burocráticas no que diz respeito às convenções sociais.
    Uma quarta passagem:
    “Se quiserem ver passar por instantes a contessina, tal como a sonhamos, vão a um atelier onde se curve um escultor sobre a pedra ou sobre o tronco, ou observem um poeta que febrilmente escreve os alexandrinos do seu poema. Em qualquer dos três, poeta, pintor ou escultor, pousou o beijo da contessina. Não é uma mulher, meus caros, mas o sopro abrasado que passa e se extingue, depois de haver criado também o seu funâmbulo de mármore. Chama-se a Inspiração.” (p. 150)
    A visão diferenciada, o olhar livre de preconceitos e a autopermissividade em relação ao sentimento justificam a superioridade de espírito da “contessina”. Não é um ser humano comum, um indivíduo inserido na sociedade. É um ser superior, capaz de circular em todas as instâncias e incitar o mais nobre sentimento naqueles que a percebem.

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