LET 973 – 4

Mais uma vez, mais um poema. Desta feita, as perguntas são:

1. Trata-se de um poema narrativo? Por quê?

2. Caso a resposta da primeira pergunta tenha sido positiva, o quê, no poema, sustenta esta afirmativa? Cite verso(s) do poema para exemplificar sua argumentação.

3. O que se pode dizer do “narrador” – ainda que não seja, especificamente, o epos – neste poema?

4. Quantas, quais são as “personagens? São elas planas ou esféricas? Mais uma vez, cite verso(s) do poema para exemplificar sua argumentação.

 

Serra

A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não…

Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.

Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puserem de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.

Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.

A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.

As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.

Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos,
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.

Ali, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte,
Na altura tudo era paz …
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.

E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

 

 

Mário de Andrade

Mário

LET 973 – 3

Pode parecer estranho o fato de você ler dois poemas numa postagem supostamente dedicada à narrativa. Lembre-se de que, numa perspectiva tradicional, a Teoria da Literatura ensina que os gêneros literários eram três: lírico, épico e dramático. Ensina também que estes três gêneros se referiam à “poesia” – atenção para o fato de que esta palavra carrega um conceito que está longe de ser aquele que atualmente se usa tão corriqueiramente. Neste sentido, “poesia” refere-se a todo e qualquer texto que não tinha como função precípua a mera e simples “comunicação”. Preste atenção. Leia de novo os dois poemas e responda: os textos apresentam caráter “narrativo”. Por quê?

Agora leia mais uma vez os poemas.

Pessoa                    Quadrilha

QuadrilhaJoão amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Eros e PsiqueConta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

               Eros e Psique               Drummond

Agora que você leu mais uma vez os poemas, responda:

1. O título “Quadrilha”, do poema de Drummond e a palavra “lenda” no de Pessoa… O que elas poderiam ter em comum?

2. Os nomes próprios que aparecem no poema de Drummond e as duas figuras mitológicas que dão título ao poema de Pessoa podem ser considerados nomes de “personagens”? Por quê?

3. Caso a resposta anterior tenha sido “sim”, seria possível dizer alguma coisa sobre o caráter “esférico” ou “plano” dessas personagens? Explique.

Mais uma carona…

Recebi de uma amiga, por e-mail. Selecionei, copiei e colei!

futuro

Nove coisas que desaparecerão futuramente de nossas vidas.

 

 

Autoria desconhecida

Interessante notar e muito verdadeiro também.  Se essas nove mudanças são boas ou más depende em parte de como nós nos adaptamos a elas.  Mas, estejamos prontos ou não, elas vão acontecer.

1. O Correio

Prepare-se para imaginar um mundo sem Correios. Eles estão afundando tanto em problemas financeiros que provavelmente não há maneira de sustentá-los a longo prazo. E-mail, FedEx, DHL e UPS têm praticamente dizimado a receita mínima necessária para manter os Correios vivos. A maioria do que você recebe pelo correio todos os dias é ”lixo” e contas.

2. O cheque

A Grã-Bretanha já está preparando o terreno para acabar com o cheque até 2018. O processamento de cheques custa  bilhões de dólares por ano ao sistema financeiro. Cartões plásticos e transações on-line vão levar à eventual extinção do cheque. Isto joga direto para a morte dos Correios. Se você nunca pagar suas contas pelo correio e nunca receber os boletos pelo correio, os Correios absolutamente estarão fora do negócio.

3. O jornal

A geração mais jovem simplesmente não lê jornal. Eles certamente não assinam um jornal impresso que lhes seja entregue. Isso pode acontecer como foi com o leiteiro e o tintureiro. Quanto a ler o jornal on-line, prepare-se para pagar por isso. O aumento dos dispositivos móveis de Internet e e-readers tem motivado todos os jornais e editoras de revistas para formar alianças. Eles reuniram-se com a Apple, Amazon, e as grandes empresas de telefonia celular para desenvolver um modelo de serviços de assinatura paga.

4. O livro

Você diz que nunca vai desistir do livro físico que você segura em sua mão e vira as páginas. Eu disse a mesma coisa sobre o download de música do iTunes. Eu queria que meu CD tivesse cópia impressa. Mas eu rapidamente mudei de ideia quando eu descobri que eu poderia obter álbuns pela metade do preço sem sair de casa para conseguir a última música. A mesma coisa vai acontecer com os livros. Você pode navegar em uma livraria on-line e até mesmo ler um capítulo pré-visualizado antes de comprar. E o preço é menos da metade de um livro real. E pensar na conveniência! Uma vez que você começar movendo os dedos na tela em vez do livro, você vai se achar perdido na história, e não pode esperar para ver o que acontece a seguir, e você se esquece de que está segurando um gadget em vez de um livro.

5. O telefone fixo

A menos que você tenha uma família grande e faz muitas chamadas locais, você não precisa mais do telefone fixo. A maioria das pessoas o mantém simplesmente porque sempre o tiveram. Mas você está pagando encargos duplos para este serviço. Todas as empresas de telefonia celular permitem chamar os clientes do mesmo provedor de celular sem nenhum custo adicional.

6. Música

Esta é uma das partes mais tristes da história da mudança. A indústria da música está morrendo uma morte lenta. Não apenas por causa de downloads ilegais. É a falta de oportunidade para a nova música inovadora chegar às pessoas que gostariam de ouvi-la. A ganância e a corrupção é o problema. As gravadoras e os conglomerados de rádio estão simplesmente se auto-destruindo. Mais de 40% das músicas compradas hoje são “Itens de Catálogos”, o que significa a música tradicional com a qual o público está familiarizado. Os mais antigos artistas consagrados. Isto também é verdade no circuito de concertos ao vivo. Para explorar este tema fascinante e perturbador ainda, confira o livro, “Appetite for Self-Destruction”, de Steve Knopper, e o documentário em vídeo, “Antes que a música morra.”

7. Televisão

As rendas das redes tem caído drasticamente. Não apenas por causa da economia. As pessoas estão assistindo TV e filmes transmitidos a partir de seus computadores. E elas estão jogando e fazendo muitas outras coisas que ocupam o tempo que costumava ser gasto assistindo TV. Shows de horário nobre degeneraram abaixo do menor denominador comum. Taxas de TV a cabo estão subindo rapidamente e os comerciais rodam a cada 4 minutos e 30 segundos. Eu digo boa viagem para a maior parte de tudo isso. É hora das companhias de cabo serem postas para fora de nossa miséria. Deixem as pessoas escolher o que querem assistir on-line e através de Netflix.

8. As coisas que você possui

Muitos dos bens que usamos e possuímos nós não poderemos realmente possui-los no futuro . Eles podem simplesmente residir na “nuvem “. Hoje o seu computador tem um disco rígido e armazena suas fotos, músicas, filmes e documentos. O software está em um CD ou DVD, e você sempre pode reinstalá-lo se for necessário. Mas tudo isso está mudando. Apple, Microsoft e Google estão terminando seus últimos “serviços em nuvem”. Isso significa que quando você ligar o computador, a Internet vai ser incorporada ao sistema operacional. Assim, o Windows, o Google, e o Mac OS serão vinculados diretamente para a Internet. Se você clicar em um ícone, ele vai abrir algo na nuvem Internet. Se você salvar alguma coisa, ela será salva para a nuvem. E você pode pagar uma taxa de assinatura mensal para o provedor de nuvem. Neste mundo virtual, você pode acessar a sua música ou os seus livros, ou qualquer coisa do gênero a partir de qualquer computador portátil ou dispositivo portátil. Essa é a boa notícia. Mas, se você realmente possui alguma dessas “coisas” tudo será capaz de desaparecer a qualquer momento em um grande “Poof “. Será que a maioria das coisas em nossas vidas é descartável e caprichosa? Isso faz você querer correr para o armário e retirar o álbum de fotos, pegar um livro da prateleira, ou abrir uma caixa de CD e apertar a inserção.

9. Privacidade

Se já houve um conceito que podemos olhar para trás com nostalgia seria a privacidade. Isso acabou. Ela se foi há muito tempo de qualquer maneira. Há câmeras na rua, na maior parte dos edifícios, e até mesmo  em seu computador e celular. Mas você pode ter certeza que 24 horas por dia, 7 dias na semana, “Eles” sabem quem você é e onde você está, até as coordenadas GPS, e o Google Street View. Se você comprar alguma coisa, o seu hábito é colocado em um zilhão de perfis e os seus anúncios serão alterados para refletirem os hábitos. “Eles” vão tentar levá-lo a comprar algo mais. Uma e outra vez. Tudo o que tivermos perdido e que não pode ser alterado são “Memórias”… E então, provavelmente, o Alzheimer vai tirar isso de você também!

Jornal dos Amigos

mago

 

Liberdade… e se…

Num impulso incontrolável, coloco aqui um trecho de um livro do Caio Fernando Abreu. A ideia não foi minha, só o impulso. Lendo o que escreveram entre ontem e hoje no Facebook (vício global), li uma postagem do Gustavo, aluno brilhante, pessoa legal, amigo, que me fez ler até o fim e daí o impulso. Faz tempo que não “escrevo” por aqui. Faz tempo que só tenho usado o blogue para transmitir as “atividades didáticas” para outros alunos. Hoje não vai ser diferente. Fica o texto do Caio então. Quem ler vai pensar o que quiser. Como perguntaria o contista (santa presunção): não é isto a liberdade?

Índice

Trecho de “Pela noite”, conto do livro Triângulo das águas, de Caio Fernando Abreu:

“E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo. No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.”

LET 973 – 2

Para hoje, o tópico ainda é a personagem, mas numa de suas caracterizações mais tradicionais, conforme os dois verbetes abaixo.

Desta feita, considere o conto de Caio Fernando Abreu, “Diálogo”, e o de Fialho de Almeida, “O funâmbulo de mármore”, ambos lidos e comentados em sala. A partir disso escreva três parágrafos. No primeiro você vai dissertar sobre as personagens de ambos os contos: se são planas ou redondas. No segundo, você vai destacar passagens dos respectivos contos que sustentem a escolha que você fez para cada uma das personagens destes contos. No terceiro, tente definir duas ou três personagens do “conto” que você está escrevendo e caracterize-as como planas ou redondas, justificando sua escolha em função da história que você quer contar.

Boa leitura e bom trabalho!

PERSONAGEM PLANA

Estabelecida por E. M. Forster em Aspects of the novel (1927), a distinção entre personagem plana (flat character) e personagem redonda (round character), continua a ser um instrumento útil para a configuração de uma taxonomia das personagens, quer na narrativa quer no drama. Segundo E. M. Forster, a personagem plana é construída em torno de uma única ideia ou qualidade. Daí deriva a sua falta de profundidade em termos de caracterização psicológica, e o facto de não evoluir ao longo da acção. E é justamente porque não evolui que a personagem plana tende a ser, simultaneamente, uma personagem estática. Pra além disso, e na medida em que geralmente funciona como representação de um grupo ou de uma classe social sem se individualizar em relação aos mesmos, esta espécie de personagem é passível de ser definida como tipo.

PERSONAGEM REDONDA

Ao contrário da personagem plana, a personagem redonda apresenta-se multifacetada e complexa no que respeita à sua caracterização psicológica.

Ao estabelecer a distinção entre personagem plana (flat character) e personagem redonda (round character) em Aspects of the novel (1927), E. M. Foster aponta a acumulação de características ou qualidades como factor determinante da classificação de uma personagem como sendo redonda.

A sua complexidade e profundidade psicológicas transformam-na numa personagem passível de nos surpreender no decurso da acção, até porque ela tende a evoluir ao longo da mesma. Por este motivo, a personagem redonda é, por via de regra, uma personagem dinâmica. Simultaneamente, e já que o conjunto das sua características a destaca e autonomiza em relação ao grupo ou classe a que pertence, esta espécie de personagem pode também ser definida como indivíduo.

Bibliografia: E. M. Forster, Aspects of the novel (1927); Philippe Hamon, “Para um Estatuto Semiológico da Personagem”, in F. Van Rossum et alii, Categorias da Narrativa (1977).

 

Fonte: http://www.edtl.com.pt/index.php