LET 973 – 2

Para hoje, o tópico ainda é a personagem, mas numa de suas caracterizações mais tradicionais, conforme os dois verbetes abaixo.

Desta feita, considere o conto de Caio Fernando Abreu, “Diálogo”, e o de Fialho de Almeida, “O funâmbulo de mármore”, ambos lidos e comentados em sala. A partir disso escreva três parágrafos. No primeiro você vai dissertar sobre as personagens de ambos os contos: se são planas ou redondas. No segundo, você vai destacar passagens dos respectivos contos que sustentem a escolha que você fez para cada uma das personagens destes contos. No terceiro, tente definir duas ou três personagens do “conto” que você está escrevendo e caracterize-as como planas ou redondas, justificando sua escolha em função da história que você quer contar.

Boa leitura e bom trabalho!

PERSONAGEM PLANA

Estabelecida por E. M. Forster em Aspects of the novel (1927), a distinção entre personagem plana (flat character) e personagem redonda (round character), continua a ser um instrumento útil para a configuração de uma taxonomia das personagens, quer na narrativa quer no drama. Segundo E. M. Forster, a personagem plana é construída em torno de uma única ideia ou qualidade. Daí deriva a sua falta de profundidade em termos de caracterização psicológica, e o facto de não evoluir ao longo da acção. E é justamente porque não evolui que a personagem plana tende a ser, simultaneamente, uma personagem estática. Pra além disso, e na medida em que geralmente funciona como representação de um grupo ou de uma classe social sem se individualizar em relação aos mesmos, esta espécie de personagem é passível de ser definida como tipo.

PERSONAGEM REDONDA

Ao contrário da personagem plana, a personagem redonda apresenta-se multifacetada e complexa no que respeita à sua caracterização psicológica.

Ao estabelecer a distinção entre personagem plana (flat character) e personagem redonda (round character) em Aspects of the novel (1927), E. M. Foster aponta a acumulação de características ou qualidades como factor determinante da classificação de uma personagem como sendo redonda.

A sua complexidade e profundidade psicológicas transformam-na numa personagem passível de nos surpreender no decurso da acção, até porque ela tende a evoluir ao longo da mesma. Por este motivo, a personagem redonda é, por via de regra, uma personagem dinâmica. Simultaneamente, e já que o conjunto das sua características a destaca e autonomiza em relação ao grupo ou classe a que pertence, esta espécie de personagem pode também ser definida como indivíduo.

Bibliografia: E. M. Forster, Aspects of the novel (1927); Philippe Hamon, “Para um Estatuto Semiológico da Personagem”, in F. Van Rossum et alii, Categorias da Narrativa (1977).

 

Fonte: http://www.edtl.com.pt/index.php

 

 

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10 comentários sobre “LET 973 – 2

  1. Analisando as personagens dos contos “Diálogo” e “Funâmbulo de Mármore”, podemos observar que as personagens do primeiro conto podem ser classificadas como planas, ou seja, mantêm sempre o mesmo comportamento ao longo da narrativa. Já a personagem do segundo conto é dinâmica, o seu comportamento muda variadas vezes no decorrer da narrativa, o que a caracteriza como uma personagem redonda.
    A partir de alguns trechos do conto “Diálogo” de Caio Fernando Abreu, podemos identificar como as personagens são construídas em torno de uma única ideia:

    “A: Você é meu companheiro.
    B: Hein?
    A: Você é meu companheiro, eu disse.
    B: O quê?
    A: Eu disse que você é meu companheiro.
    B: O que é que você quer dizer com isso?
    A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso.
    B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto. ”

    “A: Eu vejo. Eu quero.
    B: O quê?
    A: Que você seja meu companheiro.
    B: Hein?
    A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
    B: O quê?
    A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
    B: Você disse?
    A: Eu disse?
    B: Não. Não foi assim: eu disse.
    A: O quê?
    B: Você é meu companheiro.
    A: Hein? ”

    Ao contrário, no conto “Funâmbulo de Mármore”, podemos identificar o dinamismo da personagem e como evolui na narrativa:

    “A contessina sentiu-se triste nessa manhã, aborrecida da quietação lânguida do seu boudoir, da falsa pompa de vegetação dos seus salões-estufas, da vida contemplativa dos aquários de cristal-rocha, da atmosfera perfumada dos salões e das alcovas, onde o oxigênio vivificante se corrompe, por entre a subtileza das exalações de opopanax e verveine, contidas nos frascos boêmios, todos facetados e cintilantes.”

    “A vida das outras mulheres era-lhe irritante, apertada num pequeno cinto de conveniências e vulgaridades. Pouco conhecera da família, não sabia admirar o que nas mães se chama uma. missão heroica e, nas mulheres em geral, os deveres próprios do sexo. Tinha percorrido o mundo sozinha. A quantos a amaram nesse período, sorrira sempre. À sua natureza excêntrica apareciam deformados em esgares ridículos os galãs modelos. Fatigava-se depressa. Demais tinha um intuito finíssimo de artista, altivo de mais para aceitar lugares-comuns”

    ” Ela adorava-o; às vezes tinha medo.”

    “A contessina descobria-lhe predileções de paisagem, observações sentidas, fortes destaques de inspiração, uma docilidade de caráter, mesmo. E era feliz, esquecida de angústias de outras horas, com a mente povoada de sonhos de ouro. Se fosse assim sempre”

    No conto que está sendo escrito os personagens tendem a ser redondos dinâmicos e evoluirem em torno de si mesmos. São personagens que se diferem bastante e não tem muitas afinidades, um é romântico e outro realista. Ao longo da narrativa tendem a mudar esse comportamento.

    1. O meu único questionamento diz respeito ao argumento que você usa para “classificar” as personagens do conto de Caio Fernando Abreu como planas. Você diz: “as personagens do primeiro conto podem ser classificadas como planas, ou seja, mantêm sempre o mesmo comportamento ao longo da narrativa, possuem os mesmos questionamentos”. Tenho minhas dúvidas. A aparente “simplicidade” do diálogo pode ter sido o atalho para chegar à conclusão, a meu ver, questionável. Pense sobre isso!

  2. Após a leitura da distinção entre personagem plana e personagem redonda dada por E. M. Forster observo que no conto de Caio Fernando Abreu, “Diálogo”, os personagens podem ser caracterizados como planos, visto que ambos não se evoluem ao longo da ação, o diálogo do começo ao fim não nos surpreende, é até um tanto engraçado, e muito interessante, mas não passa daquilo, vemos os mesmos questionamentos, as mesmas dúvidas. Já o “O funâmbulo de mármore” de Fialho de Almeida, noto que os personagens são redondos, possuem várias aparências, nos surpreende a cada parágrafo, principalmente a “contessina”, percebo a presença de muitas características, qualidades, uma personagem dinâmica, que está sempre se destacando e surpreendendo o leitor.

    Para confirmação das ideias registradas no parágrafo acima, destaco primeiramente passagens do conto “Dialógo”, nota-se que é uma conversa entre dois amigos que se gostam, dois homens em uma relação erótica, a qual os sentimentos ainda não estão claros. A classificação dos personagens como planos se dão ao longo de todo o texto, nas perguntas e respostas dadas, por exemplo:
    1- “Você é meu companheiro.”
    2-“Hein?”
    1- “Você é meu companheiro eu disse.”
    2 “o que?” (…)

    ou até mesmo nas frases ambíguas:

    1-“ Você também sente?”
    2-“Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.” (…) entre muitos outros.

    Já no conto “O Funâmbulo de mármore” nota-se que se inicia ironizando uma mulher, uma ironia a uma nobreza decadente. Vemos no primeiro parágrafo um tom irônico, uma representação, tudo muito exagerado, o quarto, as plantas o cheiro, tudo muito sensual.

    “A contessina sentiu-se triste nessa manhã, aborrecida da quietação lânguida do seu boudoir, da falsa pompa de vegetação dos seus salões-estufas, da vida contemplativa dos aquários de cristal-rocha, da atmosfera perfumada dos salões e das alcovas, onde o oxigênio vivificante se corrompe, por entre a subtileza das exalações de opopanax e verveine, contidas nos frascos boê¬mios, todos facetados e cintilantes. Mandou pôr o cupê, um pe¬quenino cupê estofado de carmesim, grandes fivelões de madre-pérola floreteados; escolheu um vestido claro, de um estofo liso, grandes laços vermelho e branco, apertado em longa cuirasse, com uma cauda aristocrática, que deixava no ouvido um doce frufru inebriante.” p.143

    No terceiro parágrafo, vemos que o autor valoriza a perspectiva frívola da sociedade secular, pessoas refinadas, elegantes, a qual contessina faz parte de tal, mas seu estado de espírito demonstra cansaço.

    “Na Bolsa, à porta, junto do guarda-vento, viu o conde de M., que argumentava com o judeu W. sobre questões de fundos. Mais adiante, cumprimentou a jovem C., que apartava num li¬vreiro as últimas publicações de crítica e de estética. Parou no ateliers de Cario Bórgio, o pintor de quinze anos, que fizera ruído com um quadro impressionista, repudiado pelo júri de uma ex¬posição artística em Roma. Encontrou lá a fina flor do mundo culto da cidade: o médico F., a quem um trabalho sobre doenças cardíacas abrira as portas das mais célebres academias euro¬péias; Henrique de R., o folhetinista mais delicado da Itália; Rai¬mundo Conti, o crítico por excelência, que ditava a lei do bom.” p.143

    Dentre tantas surpresas que o conto nos traz em relação à personagem contessina, vemos por último o mais surpreendente. Ela se joga de corpo e alma na relação, ela se entrega ao prazer.

    “Sentia-lhe as mãos grosseiras, calejadas do trapézio, a voz rouca, o hálito alcoolizado, um cheiro a charuto que se metia pelas mucosas dentro. Gostava porém de o agarrar pela cintura, de lhe pender do pescoço nu com todo o peso do corpo, de se entre¬gar com um grande soluço dilacerante, vergada para trás, cabe¬los soltos e a túnica rasgada de alto a baixo, com a folha dum punhal. E era com uma delicia inexplicável, aguda e cheia de frê¬mitos, que lhe tirava a capa, quando Zampa chegava do circo, ainda com os fatos da arena, couraçado na sua beleza superior e intangível.”p.147.

    E por fim, sobre o conto que estou escrevendo destaco os dois personagens principais, o namorado e a namorada, o primeiro como personagem plano, triste, sofredor, cheio de recordações e esperanças, sempre assim, estático, não muda, e a segunda como personagem redonda, realizada, feliz, independente, que surpreende o leitor a cada passo, sempre demonstrando força de vontade coragem, a cada dia “brilha” mais, nos surpreende com suas realizações.

    1. O meu único questionamento diz respeito ao argumento que você usa para “classificar” as personagens do conto de Caio Fernando Abreu como planas. Você diz: “as personagens do primeiro conto podem ser classificadas como planas, ou seja, mantêm sempre o mesmo comportamento ao longo da narrativa, possuem os mesmos questionamentos”. Tenho minhas dúvidas. A aparente “simplicidade” do diálogo pode ter sido o atalho para chegar à conclusão, a meu ver, questionável. Pense sobre isso!

  3. Analisando as personagens dos contos “Diálogo” e “Funâmbulo de Mármore”, pode-se observar que as personagens do primeiro conto podem ser classificadas como planas, ou seja, mantêm sempre o mesmo comportamento ao longo da narrativa, possuem os mesmos questionamentos o que faz com que se torne engraçado, devido às perguntas ambíguas dos personagens. Já a personagem do segundo conto o “Funâmbulo de Mármore” a contessina é dinâmica, pois o seu comportamento muda várias vezes no decorrer da narrativa, visto que, ao mesmo tempo que esta se sente ansiosa ela sente prazer, é uma mulher vista como marginalizada, à frente do seu tempo o que a caracteriza como uma personagem redonda.
    O texto “Diálogo”, trata de relatar uma conversa entre dois amigos que se gostam, mas não sabem como transmitir ou demonstrar esse sentimento erótico que sentem um pelo outro, algumas passagens por exemplo são:

    1- “Você é meu companheiro.”
    2-“Hein?”
    1- “Você é meu companheiro eu disse.”
    2 “o que?” (…)

    1-“ Você também sente?”
    2-“Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.” (…) entre outras.

    Já no conto “O Funâmbulo de mármore”, trata-se de uma mulher que ironiza uma nobreza decadente, que é muito exagerada, que prioriza sua sensualidade, que é acima de tudo uma artista, à frente do seu tempo, vista pela sociedade como uma mulher marginalizada, que ao mesmo tempo que está ansiosa sente prazer, viajou pelo mundo todo.

    “A vida das outras mulheres era-lhe irritante, apertada num pequeno cinto de conveniências e vulgaridades. Pouco conhecera da família, não sabia admirar o que nas mães se chama uma. missão heroica e, nas mulheres em geral, os deveres próprios do sexo. Tinha percorrido o mundo sozinha. A quantos a amaram nesse período, sorrira sempre. À sua natureza excêntrica apareciam deformados em esgares ridículos os galãs modelos. Fatigava-se depressa. Demais tinha um intuito finíssimo de artista, altivo de mais para aceitar lugares-comuns”.
    “Ia fatigada, nervosa e indisposta. Quanto vira lhe apareceu vulgar e indigno da sua atenção. Mirou no espelho que ficava de¬fronte, atrás da tábua do cocheiro, a sua flexível figura, magra e branca, o seu rostinho fresco, o seu belo perfil rafaelesco, de uma finura, de um contorno verdadeiramente singulares pela sua pu¬reza, pelo seu conjunto, a um tempo audaz e tímido. Uma ruga imperceptível se avincava verticalmente na sua testa. E impa¬cientou-se, achou que estava feia, trigueira, mal vestida. Então inclinou a cabeça para trás, sobre os coxins, deixou pender o cor¬po também, com um abandono, uma morbidezza tentadora, es¬tendeu-se quase no cupê, indolentemente, sem vontade, sem palpitação e sem coragem, com desejos de se espreguiçar, de so¬nhar coisas extraordinárias e fantásticas, de correr aventuras sobre o mar, num cutter ligeiro, pintado de branco, com jovens marinheiros escoceses, louros e atléticos, de uma candura virginal, que cantassem as árias das montanhas, baladas suaves e frias, onde a manhã rompe e os galos cantam e se ouve bater ho¬ras o sino do castelo em ruínas, ao descer da velha ponte levadiça, quando o couraceiro fantasma recolhe de lança ensangüenta¬da, no meio dos coros das vítimas”.

    Esta citação traz os sentimentos que a contessina passou a sentir por um equilibrista e como esta se entrega ao prazer: “Sentia-lhe as mãos grosseiras, calejadas do trapézio, a voz rouca, o hálito alcoolizado, um cheiro a charuto que se metia pelas mucosas dentro. Gostava porém de o agarrar pela cintura, de lhe pender do pescoço nu com todo o peso do corpo, de se entre¬gar com um grande soluço dilacerante, vergada para trás, cabe¬los soltos e a túnica rasgada de alto a baixo, com a folha dum punhal. E era com uma delicia inexplicável, aguda e cheia de frê¬mitos, que lhe tirava a capa, quando Zampa chegava do circo, ainda com os fatos da arena, couraçado na sua beleza superior e intangível.”p.147.

    “A contessina descobria-lhe predileções de paisagem, observações sentidas, fortes destaques de inspiração, uma docilidade de caráter, mesmo. E era feliz, esquecida de angústias de outras horas, com a mente povoada de sonhos de ouro. Se fosse assim sempre”.

    Assim os personagens que destaco são o companheiro, que é plano, tem esperança, guarda recordações, e a contessina que é redonda, feliz, independente, e não se abala pela frieza das pessoas.

    1. O meu único questionamento diz respeito ao argumento que você usa para “classificar” as personagens do conto de Caio Fernando Abreu como planas. Você diz: “as personagens do primeiro conto podem ser classificadas como planas, ou seja, mantêm sempre o mesmo comportamento ao longo da narrativa, possuem os mesmos questionamentos”. Tenho minhas dúvidas. A aparente “simplicidade” do diálogo pode ter sido o atalho para chegar à conclusão, a meu ver, questionável. Pense sobre isso!

  4. No conto “Diálogo”, de C. F. Abreu, os dois personagens são redondondos, ou esféricos (me parece que a tradução por esféricos é melhor). Ambas personagens mostram uma percepção dos acontecimentos que está para além do texto. Podemos notar isso em ““ Você também sente?”, ou ainda em, “Tem alguma coisa atrás, eu sei.”. Ou seja, uma caracterização que nos conduz a uma leitura psicologica do texto e das personagens.

    Ja no conto “Funâmbulo de Mármore”, de Fialho de Almeida, a protagonista é esferica, enquanto que todos os demais personagens são planos. Isso se dá devido a construçao mais psicologica da mesma. Sua descrição vai alem das caracterizações fisicas, ou superficialmente comportamentais. O estado de sentimentos da contessina conduz nao só sua construção como também parte das nuances da narrativa. Observamos isso em “A contessina sentiu-se triste nessa manhã”, ou “Ela adorava-o; às vezes tinha medo”.

    Quanto aos personagens dos conto que eu e Vanessa estamos ecrevendo posso caracterizá-los como esféricos, uma vez que suas construções se dão majoritariamente no sentido psicológico. Não me recordo com exatidão de alguma passagem em que eu possa evidenciar isto, mas, se não me falha a memoria, os parágrafos de descrição de ambos demonstra bastante isso.

    ps.: acho que seu blog deixou o mesmo comentário como resposta para todos as respostas.

    Abraço!

    1. De acordo com a distinção que E. M. Forster em Aspects of the novel (1927), faz entre personagens planas e redondas, caracterizo os personagens do conto de Caio Fernando Abreu, “Diálogo” como redondas porque sugerem inúmeras interpretações sobre o que dialogam. A personalidade multifacetada e complexa dos personagens supõe que há algo desconhecido que precisa ser revelado. Surpreende o leitor porque tem algo oculto, que faz com que os personagens se desenvolvam durante a narrativa. A personagem de Fialho de Almeida, “O funâmbulo de mármore” pode ser classificada como plana porque não há muito o que esperar dela durante o desenvolvimento do conto. É previsível suas ações e características psicológicas. Não há mistério porque ele se revela ao final do conto.

      Um exemplo que confirma que os personagens do “Diálogo” são redondas é: ” Tem alguma coisa atrás, eu sinto.” “Você também sente? B: O quê? A: Que você é meu companheiro?
      B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.”
      No conto “O funâmbulo de mármore” vejamos alguns trechos que revelam que a personagem Contessina é plana. “A Contessina sentiu-se triste nessa manhã, aborrecida da quietação lânguida do seu boudoir,”
      “a contessina passava sem parar diante dessas soberbas telas, que resumiam todo o ideal de mais de uma raça, demarcando as tendências e aspirações,” Havia tempos que trabalhava nessa obra, e com que amor!.. ”

      No texto solicitado em que eu e a Júlia estamos desenvolvendo os personagens são redondas porque têm uma complexidade que sugere interpretações que não se encerram ao final da leitura do conto.

  5. Caio F. Abreu e Fialho de Almeida criam personagens diferentes nas definições e atitudes. Mas criam com equidade duas incógnitas que tornam a narrativa ainda mais instigante e sedutora.

    Em “O Funâmbulo de Mármore”, duas personagens percorrem a narrativa de modo aparentemente desconexo e sem uma sequência linear. Aparentemente. Uma releitura do conto de Almeida permite perceber que a “contessina” é o fio condutor de todas as ações e todos os elementos descritos pelo autor, bem como o próprio funâmbulo. A “contessina” é inserida na narrativa, mais há sempre a sensação de que ela não pertence à este mundo ao demonstrar não reconhecer determinadas convenções e ritos sociais. O funâmbulo pela mesma maneira também parece não se inserir em nenhuma instância social daquele meio que o circunda – talvez, no caso dele, seja exatamente isto: ele está envolto num contexto, mais não pertence à este. A descrição de suas atividades profissionais também nos fazem pensar nesta sensação do não-pertencimento destes dois personagens ao mundo. São artistas. A sensibilidade e a visão diferenciada que o artista toma das coisas o fazem fugir do comum e enxergar coisas cotidianas de maneira no mínimo diferente das demais pessoas. O funâmbulo e a “contessina” são artistas e parecem ver de modo diferente as convenções e os ritos socias que assistem. A atividade artística do funâmbulo também é sugestiva: um trapezista, que pende e faz acrobacias arriscadas sobre os espectadores durante um espetáculo. A sensibilidade da “contessina” também nos faz crer no seu deslocamento em relação ás coisas do mundo. O próprio fato de ela estar moldando algo em seu atelier nos dá a impressão de que esta pode mudar as coisas e moldá-las propriamente convenientemente.
    Já em “Diálogo”, Caio F. Abreu traz dois personagens sem nome e sem nenhuma caracterização específica. Nos é possível somente deduzir acerca dos personagens a partir das ações e das reações dos personagens no diálogo que estabelecem no texto. O personagem “A” instiga o personagem “B” com uma afirmação que soa como pergunta. No entanto, “B” vê uma outra significação para o termo “companheiro” utilizado por “A”. A não compreensão da real intenção de “A” faz com que “B” sequencie com questionamentos.

    O primeiro conto, de Fialho de Almeida, a “contessina” recebe uma caracterização redonda, enquanto o funâmbulo é um personagem de características planas. É possivel especular sobre a personalidade da “contessina” por observar todos os elementos que compõem os cenários e os hábitos de vida desta, não havendo definições específicas sobre sua personalidade, preferências os trejeitos, impossibilitando ao leitor prever alguma atitude desta em relação a algum acontecimento ou situação narrado no conto. o funãmbulo é uma personagem plana, já que suas definições permitem ao leitor compreender de quem se trata e como este personagem pode contribuir na narrativa. Em “Diálogo”, a construção dos dois personagens é redonda e extremamente complexa. as poucas referências que existem no texto são amplas e permitem ao leitor tanto ler de maneira mais complexa, tentando atribuir à narrativa elementos para justificá-la, quanto uma maneira mais simples, podendo lê-la somente pela denotação que apresenta.

    No conto que estou construindo as personagens são planas, com caracterizações detalhadas possibilitando ao leitor imaginas determinadas ações por parte destes personagens. Isto porque preciso que meu leitor repare mais no desencadeamento dos fatos do que na investigação acerca da real índole ou tendência dos personagens. Além disto, usando uma caracterização aberta e plana, posso construir quebras de expectativas do leitor, dando um tom surpreendente à narrativa (apesar de não ser este o objetivo). Caracterizo os personagens no conto não só por adjetivos e descrições físicas, mas, também por ações e trejeitos, para que o leitor reflita mais sobre o desencadeamento dos fatos do que sobre os personagens (não que estes não sejam importantes).

  6. O conto “Diálogo” “é uma conversa entre duas personagens, A e B, na qual uma pergunta insinua um comprometimento que tanto pode ser ideológico quanto afetivo, ficando pautados o medo e a insegurança de ser denunciado ou ser amado, sem abdicar do desejo de ver-se como um igual e sem a coragem de assumir-se como tal.” As personagens deste conto são dinâmicas, ou seja, são personagens redondas, já que seus comportamentos mudam por revelarem a total incapacidade de entendimento e compreensão entre eles, mesmo quando o objetivo de ambos aparentemente é o mesmo. Esta característica pode ser observada no trecho abaixo:
    “A: Eu vejo. Eu quero.
    B: O quê?
    A: Que você seja meu companheiro.
    B: Hein?
    A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
    […]
    B: Você disse?
    A: Eu disse?
    B: Não. Não foi assim: eu disse.
    A: O quê?
    B: Você é meu companheiro.
    A: Hein? ”

    No conto “Funâmbulo de Mármore”, de Almeida Fialho, podemos classificar a personagem principal como redonda, porque ela evolui ao longo da narrativa, como vemos nos trechos a seguir: “A Contessina sentiu-se triste nessa manhã, aborrecida da quietação lânguida do seu boudoir, […]” , “Ela adorava-o; às vezes tinha medo.” e “E era feliz, esquecida de angústias de outras horas, com a mente povoada de sonhos de ouro. Se fosse assim sempre”.
    No conto que está sendo escrito em sala de aula, juntamente com mais duas colegas, Julyana e Suellen, as personagens tendem a ser redondas, ou seja, dinâmicas, porque sofrerão transformações ao longo da narrativa. (O conto ainda não está finalizado, mas esta é a tendência).

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