LET 973 – 3

Pode parecer estranho o fato de você ler dois poemas numa postagem supostamente dedicada à narrativa. Lembre-se de que, numa perspectiva tradicional, a Teoria da Literatura ensina que os gêneros literários eram três: lírico, épico e dramático. Ensina também que estes três gêneros se referiam à “poesia” – atenção para o fato de que esta palavra carrega um conceito que está longe de ser aquele que atualmente se usa tão corriqueiramente. Neste sentido, “poesia” refere-se a todo e qualquer texto que não tinha como função precípua a mera e simples “comunicação”. Preste atenção. Leia de novo os dois poemas e responda: os textos apresentam caráter “narrativo”. Por quê?

Agora leia mais uma vez os poemas.

Pessoa                    Quadrilha

QuadrilhaJoão amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Eros e PsiqueConta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

               Eros e Psique               Drummond

Agora que você leu mais uma vez os poemas, responda:

1. O título “Quadrilha”, do poema de Drummond e a palavra “lenda” no de Pessoa… O que elas poderiam ter em comum?

2. Os nomes próprios que aparecem no poema de Drummond e as duas figuras mitológicas que dão título ao poema de Pessoa podem ser considerados nomes de “personagens”? Por quê?

3. Caso a resposta anterior tenha sido “sim”, seria possível dizer alguma coisa sobre o caráter “esférico” ou “plano” dessas personagens? Explique.

6 respostas para “LET 973 – 3”.

  1. Diante à leitura dois poemas pode-se perceber que ambos os poemas possuem um caráter “narrativo”, pois estes narram fatos, acontecimentos, possuem personagens, tempo, lugar e espaço.

    1) Tanto a palavra “Quadrilha”, quanto a palavra “lenda” possuem algo em comum, pois ambas tratam de um evento. No poema “Quadrilha” houve uma mistura, onde ninguém acabou ficando com ninguém, houve uma decepção amorosa, pois os personagens amavam e não eram correspondidas. No outro poema de Pessoa ocorre o mesmo, pois o Infante gostava da princesa, mas não era correspondido, era ignorado.

    2) A meu ver tais nomes e figuras podem sim ser vistas como personagens, pois a história gira em torno destes nomes, os acontecimentos e os fatos se sucedem através deles. Se estes não aparecessem no poema, provavelmente não possuíria sentido algum.

    3) Trata-se de personagens que são iludidos e que sofrem por algum tipo de decepção amorosa à medida que não são correspondidos por seus parceiros, ou seja, à pessoa amada.

  2. “O poema narrativo, conta uma história e geralmente é mais extenso que os outros. O poeta apresenta os ambientes, os personagens e os acontecimentos e lhes dá uma significação podendo ou não rimar”. As ações nos dois poemas são narradas por um narrador que não participa da história. Os poemas apresentam características tipicamente narrativas como introdução, personagens, sucessão de acontecimentos,desfecho

    1) Ambas as palavras tem como função “introduzir” os poemas, apresentam ao leitor o cenário, a situação inicial da narrativa.

    2) Sim. Porque desempenham um papel fundamental no desenvolvimento das histórias dos poemas.

    3) As personagens possuem caráter esférico, evoluem ao longo da narrativa, não são estáticas, alteram comportamentos.

  3. Sim. Os dois poemas podem ser considerados “narrativos”, porque ambos apresentam características de uma narrativa, ou seja, possuem personagens, tempo, espaço e narrador.

    1) Definição: “Dança: Tipo de dança em que os pares executam passos ensaiados, sendo muito comum em festas juninas”.

    “Lendas são narrativas transmitidas oralmente pelas pessoas, visando explicar acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais, misturando fatos reais, com imaginários ou fantasiosos, e que vão se modificando através do imaginário popular. No que se tornam conhecidas vão sendo registradas na linguagem escrita. […]A origem das lendas é baseada em quatro teorias que tenta dar uma resposta. A Teoria Bíblica, com origem nas escrituras, Histórica com origem na mitologia, Alegórica onde diz que todos os mitos são simbólicos, contendo somente alguma verdade moral ou filosófica e Física usa os elementos, água, fogo e ar.”

    Ambas as palavras dão a ideia inicial sobre o assunto a ser tratado no poema. No caso do poema “Quadrilha” os “pares” e a confusão de um não amar o outro dá uma ideia de dança. Já no poema de Pessoa, pode-se entender que a história contada é uma lenda, assim como a lenda de “Eros e Psiquê”.

    2) Os nomes próprios que aparecem no poema de Drummond podem ser considerados personagens, já que hipoteticamente formam “pares” entre si e é sobre elas (personagens) que o poema é narrado.

    Quanto às duas figuras mitológicas que dão título ao poema de Pessoa, a meu ver, não podem ser considerados nomes de personagens. Cheguei a essa resposta depois de ler a lenda de “Psique e Eros”. Acredito que as personagens do poema são de alguma forma, semelhantes aos da lenda. Por exemplo, na lenda “Psique foi tomada por um profundo sono, sendo, então, conduzida pela brisa gentil de Zéfiro a um lindo vale.”, enquanto no poema há “Uma Princesa encantada”, “adormecida”.

    3) As personagens do poema “Quadrilha” são planas, ou seja, são “construídas em torno de uma única ideia ou qualidade.” As personagens não evoluem.

  4. a) Baseando-se nos estudos em sala de aula, pode-se perceber que os textos em questão apresentam caráter narrativo, pois como já vimos, o termo ‘narrativa’ deriva do Sânscrito “gnarus” – saber, ter conhecimento de algo – e “narro” – contar, relatar – , e vê-se que ambos os poemas relatam um acontecimento, uma sequência de fatos. Além disso, se pensarmos de acordo com Platão, vemos que a narrativa se aplica a todos os textos produzidos por prosadores e poetas, visto que ele considera como narrativas as narrações de todos acontecimentos passados, presentes e futuros.

    1- Apesar do texto de Drummond narrar um fato considerado meramente comum, assim como o texto de Pessoa, o texto Quadrilha pode ser considerado uma lenda, se observarmos e considerarmos os fatos, a ordem em que ocorrem (um amava o outro, que amava o outro, que no fim não amava ninguém … ), além do fato que nos surpreende no final, todos seguiram um rumo diferente e a Lili casou-se com um personagem que até então não fazia parte da história.

    2- Tanto os nomes próprios citados no texto de Drummond quanto os duas figuras mitológicas do texto de Pessoa podem ser considerados nomes de personagens, mesmo que no segundo texto ambos os personagens “se tornam um”, “uma única pessoa”, vê-se que isso acontece somente no final, no decorrer do textos eles aparecem como duas pessoas distintas, cada um com sua posição. E no texto Quadrilha, apesar de acontecer fatos curtos e não descreve-se detalhadamente características e personalidades das pessoas presentes, sabe-se que são pessoas que compõem a narrativa, personagens que a faz ter sequência, lógica, fatos, etc.

    3- Ambos os textos traz-nos uma surpresa no final. O de Drummond, o fato de em meio a tantos amores, apenas a Lili casou-se e com alguém que ainda não fazia parte da historia, e o de Pessoa, o fato de a Princesa e o Infante serem “a mesma pessoa”. Porém, apesar dessas surpresas, pode-se perceber que no primeiro texto, Quadrilha, os personagens são planos, constituem-se em uma única ideia, não há profundidade nem na descrição dos fatos nem nos personagens, eles são estáticos. Já os personagens do texto de Pessoa podem ser considerados redondos, visto que a Princesa e O Infante (que no fundo são as mesmas pessoas), são multifacetados e complexos, passível no inicio, mas que nos surpreende ao longo da ação.

  5. Ao meu ver os dois poemas são de cunho narrativo de acordo comas características que ambos apresentam. Através do gênero textual poema narram um conto de amor.

    1- Além do tema os dois poemas retratam um amor ilusório, imaginário, existente nos contos de fadas, lendas. O que eles tem em comum também é a espera por ser correspondido no amor, a busca e a decepção amorosa. Parecem retratar a insatisfação humana que sempre busca algo para ser feliz.

    2- Os nomes próprios que aparecem no poema de Drummmond são personagens porque são o amor carnal e a razão do personagem. Faz parte da personalidade dele e fala inconscientemente com ele como se fosse um outro personagem.

    3- São personagens esféricos porque reproduz um movimento, revelando um mistério em torno do personagem que não fica claro durante a leitura do poema.

  6. Nota-se que os dois poemas apresentados possuem caráter narrativo, isso se torna notório pelos elementos que compõe uma narrativa, ou seja, apresentam narração de fatos e acontecimentos, possuem tempo, espaço e personagens.
    1) Os termos “Quadrilha” e “Lenda” possuem algo comum, pois ambos trazem um pouco do assunto que os poemas ressaltam.

    2) Sim, tanto as figuras e os nomes em seu papel de personagem, uma vez que são fundamentais para o entendimento dos acontecimentos nos poemas.

    3) Nota-se que os personagens do poema de Drumond não evoluem, portanto são planos, pois tem o mesmo fundamento. Já “os personagens” do poema de Pessoa são esféricos devido à movimentação exercida dentro da história do poema.

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