LET 973 – 8

Leia atenta mente o parágrafo abaixo:

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Lucien Goldmann afirma que a visão de mundo do autor sempre será expressa, voluntariamente ou não. A literatura é fortemente influenciada pela sociedade, sendo muito importante entendermos os fatores econômicos e as relações entre as classes sociais para que entendamos, também, a obra literária. Alguns pensadores dizem que essa forma de conceber o literário rebaixa os valores espirituais ao colocá-los no mesmo patamar das contingências sociais e econômicas. Goldmann contesta essa visão de mundo afirmando que os verdadeiros valores espirituais não se destacam da realidade econômica e social, mas se dirigem precisamente para esta realidade tentando introduzir nela o máximo de solidariedade e de comunidade humanas. Convém salientar que o autor deixa claro a condição hipotética dessa influência do social sobre o literário, já que se trata de uma teoria. Tal hipótese poderá ou não ser comprovada. De acordo com o materialismo histórico, tanto a literatura, quanto a filosofia são ?expressões de uma visão de mundo? e, portanto, são fatos sociais. Nisso reside a essência dos estudos literários. O escritor pode sofrer influências do meio em que vive através da recusa ou da assimilação das ideias vigentes ou, ainda, associando-as a outras de lugares ou tempos distantes. Associando o método estruturalista genético aos estudos de literatura, Goldmann diz que tentamos responder a todas as questões da vida, dando sentido a elas através de nossas ações. Desse modo, criamos um equilíbrio entre nós mesmos e o mundo, ou seja, entre o sujeito que age e entre o objeto que sofre a ação. Para que estudemos os acontecimentos humanos, seja em que campo for (econômico, político, social, cultural, etc.), faz-se necessário que tenhamos conhecimento de como esses equilíbrios se desfazem e refazem. Em primeiro lugar é preciso que determinemos o que é esse sujeito que age sobre o mundo. Segundo Goldmann, ele pode ser visto de três formas: como ?indivíduo? (empirismo, racionalismo e fenomenologia); como coletividade; ou como coletivo composto por uma rede de indivíduos, como acontece com as teorias hegeliana e marxista. A obra deve ser analisada a partir do grupo social em que foi criada e não do indivíduo que a criou. Sob esse ponto de vista, pode-se afirmar que a explicação para o fato de determinado autor escrever certa obra, e não outra, não pode ser dada pela psicologia do autor, mas sim pela influência social que sofre. Esse fator social está refletido na estrutura da obra, não sendo possível separar-se um da outra. Alguns teóricos anteriores a Goldmann, que centravam seus estudos literários na sociologia, defendiam a ideia de uma influência da consciência coletiva sobre o escritor e sua obra. As pesquisas de Goldmann demonstram que a vida social é um processo coletivo que estrutura de forma equilibrada os fatores psíquicos e de ação. Outro conceito importante na teoria de Goldmann é o de consciência possível, que faz o contraponto com a consciência real. Segundo essa teoria, a maioria de nós estrutura seus pensamentos a partir das percepções que tem. Entretanto, muitas informações escapam de nossa percepção ou chegam a ela deformadas, determinando, assim, a forma de pensar característica de uma sociedade. Quando o indivíduo consegue alcançar um grau de percepção maior do que o da maioria das pessoas de sua sociedade, vai além da consciência real, alcançando essa consciência possível.

Índice

Há, neste trecho, várias perguntas. Considerando as personagens “pequena flor”, do conto de Clarice Lispector e “Negrinha”, de Monteiro Lobato, tente respondê-las, sempre justificando com a importância da categoria “personagem” para o melhor desempenho da estrutura narrativa do conto em que cada uma delas aparece.

LET 973 – 7

Abaixo você vai ler a sequência final de um romance de António Lobo Antunes, escritor português, As naus. Um romance excepcional. A tarefa de hoje é ler o final do romance e o fragmento que o sucede. Depois disso, escreva um parágrafo ou dois articulando as ideias com a cena lida. Considere, para a redação do(s) parágrafo(s) o fato de se tratar de um romance que tangencia a História recente de Portugal (guerras coloniais), sem deixar de fazer referência à História remota do mesmo país. Boa leitura! Bom trabalho.

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No serão em que o músico trocou o reportório do costume pelo hino nacional, executado em ritmo de pasodoble para enganar os serventes, já muito poucos colonos sobreviviam aos bacilos dos pulmões, a calcular pelos bancos desertos e pelo odor de carne decomposta das enfermarias, e vários médicos haviam deixado o hospital em busca de melhoras nas clínicas nos Alpes, arrepiados pelos soluços dos cucos. Preparava-se para se levantar do sofá, enjoado pela pestilência dos defuntos, quando o sujeito transparente o arrastou com brandura pelo terraço de tijoleira fora, que as raízes das macieiras fracturavam num esforço imenso de ressurreição, e lhe apontou com o mínimo, que mal se diferençava da cor malva do ar, uma camioneta de faróis acesos estacionada ao portão e tuberculosos em pijama que se disseminavam em bicos de pés pelas moitas de arbustos, tentando não fazer barulho no silêncio do escuro em que patinhavam como escafandristas na direcção das luzes coaguladas do carro.

A camioneta era um espantoso veículo para americanos ricos, de assentos semelhantes a cadeiras de barbeiro, ar condicionado, lavatórios de avião, auscultadores individuais para zarzuelas e óperas, e hospedeiras de farda e bivaque que serviam pães de leite e copinhos de sumo. O motor trabalhava no zunido imperceptível da electricidade estática, e o homem de nome Luís viu pela última vez o desmedido edifício do asilo composto de varandas sucessivas e cercado de caramanchões indecifráveis, adornado sob a meia laranja da lua. Viu os pavilhões na trama dos buxos, as estufas dos laboratórios em que chiava o medo das cobaias e a casa mortuária repleta de múmias quitinosas, idênticas aos caimões dos museus. Nos quartos dos médicos deslizavam de quando em quando os pavios de navegação da insónia dos doutores, que desciam seminus ao armário dos remédios à cata da garrafa rolhada dos hipnóticos. O colégio dos dalai-lamas era uma nave de cujo sótão surdiam sem rumor cardumes de morcegos, de caninos cruéis como mestres de francês. Carrocéis de cavalinhos e outras ferramentas de tortura giravam numa espécie de redil destinado a esmagar rótulas e a abrir cabeças, que o farmacêutico do quarteirão suturava amorosamente num aparato de agrafes. O homem de nome Luís acomodou-se nos estofos, fechou o; olhos e sonhava já com as vielas tortas do Cazenga e os jipes da polícia militar derrapando nas traições do lodo, quando o flautista berrou lá da frente, com o pífaro numa das mãos e a proveta dos cuspos na outra, S. Jorge e Portugal. O hospício dos pneumotórax desapareceu nas suas costas, sombras de prédios escorregaram para trás de mim nas janelas fumadas, os lampiões dos palacetes do Lumiar -, cobertos de buganvílias até às vigias do sótão, afastaram-se de nós com as suas salvas de prata e os seus leitos de dossel e quedou-se apenas a telefonia do autocarro que repetia, aos uivos, marchas militares e versos comunistas.

Tomaram a estrada de Sintra atrás do escape de uma furgoneta de legumes que silvava gases de guerra por todos os poros da panela desfeita, enquanto vários pijamas revolucionários se desmoronavam em intermináveis acessos de tosse e o senhor transparente, de termómetro na boca, vacilava de febre à minha esquerda naufragado em limos de transpiração.

Pinheiros afiados ameaçavam-nos das bermas perto do arco de trevas do desvio de Queluz devorado pela gula da hera. Um tapume que corria paralelamente ao alcatrão, desvaneceu-se de súbito abandonando-nos numa mata de abetos. Polícias de trânsito de bastões luminosos, emboscados nas encruzilhadas, multavam caleches desprevenidas. Os restaurantes e os monumentos de Sintra, diluídos numa neblina perpétua e desenhados por holofotes de estádio, achatavam-se no fundo da humidade com robalos entrando e saindo pelas janelas abertas a despedirem reflexos azulados. A estação dos comboios enchia-se na noite de malmequeres de ausentes, e nas vivendas de telhados como cornos de bois minhotos, marujos vogavam de perfil na preguiça das algas. O homem de nome Luís recordou-se dos crepúsculos concretos de Loanda onde tudo parecia exactamente o que era, sem mistérios náuticos nem pegadas de sereias ausentes, que se limitavam a conversar nos bares dos hotéis, de cigarro nas escamas das unhas, com belgas idosos a quem o quarto cálice de porto transtornava.

O trajecto de Sintra à Ericeira compunha-se de um desespero de curvas e contracurvas com aglomerados de aldeolas no percurso, casas de campo, vivendas de emigrantes e cães estremunhados, de palatos negros, a ladrarem com ódio das portas das tabernas.

Ultrapassaram o convento de Mafra repleto de centopeias e soldados, e chegaram à Ericeira pouco antes das três e vinte da manhã, chocalhando os ossos de frio no interior do pijama hospitalar, cada qual com o seu gargalo expectorante debaixo da boca e os comprimidos do pequeno almoço na algibeira, sob as ordens do tísico do pífaro cuja asma assobiava como um fole empenado. Vaguearam por becos e pracinhas reconhecendo-se mutuamente pela tonalidade dos pigarros, a farejar, com o nariz cor de amêijoa dos doentes, a direcção do mar e a localização da praia, e esbarrando em cadeiras de esplanada, bancos públicos a que faltavam pranchas, taipais que lhes vedavam a água, muralhas de granito de cinquenta metros a pique, canoas de pescadores, redes enroladas, cintilações de bóias e os paus de toldo do verão acabado, com os seus desperdícios atolados nas dunas.

Foi um velhote de pupilas pisadas pelo avanço dos bacilos, de cachecol em torno do talo de couve do pescoço, que encontrou a escada que descia para a areia em patamares precários, e chamou o músico que decifrava nas trevas o mercúrio do termómetro a fim de se inteirar dos centígrados da sua desdita. O patriota transparente e mais dois ou três heróis de bacia no queixo convocaram os tuberculosos que se aventuravam, em roupão, num parque de automóveis deserto palpando o possível sentido do oceano que os espreitava ao mesmo tempo de todas as esquinas com o seu cheiro de alforrecas e narcisos, e acabaram por tropeçar em rebanho, numa manada incerta de esqueletos, nos degraus que levavam à praia e aos cesto de sardinha desprezada, junto a um café com um gato cinzento a dormir no gume desigual do parapeito.

Amparados uns aos outros para partilharem em conjunto do aparecimento do rei a cavalo, com cicatrizes de cutiladas nos ombros e no ventre, sentaram-se nos barcos de casco ao léu, no convés de varanda das traineiras, nos flutuadores de cortiça e nos caixotes esquecidos, de que se desprendiam odores de suicida dado às dunas pela chibata das correntes. Esperámos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos, de mistura com os restos de feira acabada das vagas e os guinchos de borrego da água no sifão das rochas, um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tânger ao pescoço, e tudo o que pudemos observar, enquanto apertávamos os termómetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital, foi o oceano vazio até à linha do horizonte coberta a espaços de uma crosta de vinagreiras, famílias de veraneantes tardios acampados na praia, e os mestres de pesca, de calças enroladas, que olhavam sem entender o nosso bando de gaivotas em roupão, empoleiradas a tossir nos lemes e nas hélices, aguardando, ao som de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível.

(ANTUNES, António Lobo. As naus. Lisboa: D. Quixote: Círculo de Leitores, Lisboa, 1988.)

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Uma alegoria (do grego αλλος, allos, “outro”, e αγορευειν, agoreuein, “falar em público”) é uma figura de linguagem, mais especificamente de uso retórico, que produz a virtualização do significado, ou seja, sua expressão transmite um ou mais sentidos que o da simples compreensão ao literal. Diz b para significar a. Uma alegoria não precisa ser expressa no texto escrito: pode dirigir-se aos olhos e, com frequência, encontra-se na pintura, escultura ou noutras formas de linguagem. Embora opere de maneira semelhante a outras figuras retóricas, a alegoria vai além da simples comparação da metáfora. A fábula e a parábola são exemplos genéricos (isto é, de gêneros textuais) de aplicação da alegoria, às vezes acompanhados de uma moral que deixa claro a relação entre o sentido literal e o sentido figurado.

João Adolfo Hansen estudou a alegoria e publicou seu estudo em Alegoria: construção e interpretação da metáfora, distinguindo a alegoria greco-romana (de natureza essencialmente linguística, não obstante o anacronismo) da alegoria cristã, também chamada de exegese religiosa (na qual eventos, personagens e fatos históricos passam também a ser interpretados alegoricamente). Northrop Frye discutiu o espectro da alegoria desde o que ele designou de “alegoria ingênua” da The Faerie Queene, de Edmund Spenser as alegorias mais privadas da literatura de paradoxos moderna. Os personagens numa alegoria “ingênua” não são inteiramente tridimensionais, para cada aspecto de suas personalidades individuais e eventos que se abatem sobre eles personificam alguma qualidade moral ou outra abstração. A alegoria foi selecionada primeiro: os detalhes meramente a preenchem. Já que histórias expressivas são sempre aplicáveis a questões maiores, as alegorias podem ser lidas em muitas dessas histórias, algumas vezes distorcendo o significado explícito expresso pelo autor.

A alegoria tem sido uma forma favorita na literatura de praticamente todas as nações. As escrituras dos hebreus apresentam instâncias frequentes dela, uma das mais belas sendo a comparação da história de Israel ao crescimento de uma vinha no Salmo 80. Na tradição rabínica, leituras alegóricas tem sido aplicadas em todos os textos, uma tradição que foi herdada pelos cristãos, para os quais as semelhanças alegóricas são a base da exegese.

Na literatura clássica duas das alegorias mais conhecidas são o mito da caverna na República de Platão (Livro VII) e a história do estômago e seus membros no discurso de Menenius Agrippa (Tito Lívio ii. 32); e várias ocorrem nas Metamorfoses de Ovídio.

Índice

LET 973 – 6

Um

 

Leia atentamente o texto abaixo e responda às seguintes questões:

1. O que caracteriza o estruturalismo?

2. Qual a funcionalidade do signo linguístico para os estudos estruturalista?

3. Pode-se dizer que o estruturalismo é uma “teoria”? Por quê?

4. Qual a relevância do estruturalismo para os estudos de narratologia?

5. Qual o papel desempenhado pelo “mito” na concepção do estruturalismo?

6. Dos textos lidos, escolha um e escreva alguns parágrafos articulando as ideias do texto aqui apresentado a seus comentários.

 

Estruturalismo: Quais as origens desse método de análise?

José Renato Salatiel, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

O que determina o modo como pensamos, nos relacionamos com os outros, nos comportamos à mesa, nos vestimos e vivemos em família? Será que cultura e sociedade foram historicamente construídas pela ação do homem ou existiriam estruturas ocultas que explicariam nossos hábitos? Para o estruturalismo francês, movimento intelectual que atingiu seu apogeu na segunda metade da década de 1960, a segunda hipótese seria mais viável para investigar tais fenômenos.

Pode-se dizer que o estruturalismo foi o último movimento filosófico francês a ganhar notoriedade mundial, logo após o existencialismo, corrente criticada em debates que envolveram dois dos maiores expoentes dessas escolas filosóficas, respectivamente, Michel Foucault (1926-1984) e Jean-Paul Sartre (1905- 1980). Mas o estruturalismo reuniu pensadores de diversas áreas das ciências humanas, a ponto de ser difícil encontrar um núcleo coeso que permita classificá-lo como sistema filosófico. Na verdade, o estruturalismo é mais um método de análise, que consiste em construir modelos explicativos de realidade, chamados estruturas.

Por estrutura entende-se um sistema abstrato em que seus elementos são interdependentes e que permite, observando-se os fatos e relacionando diferenças, descrevê-los em sua ordenação e dinamismo. É um método que contraria o empirismo, que vê a realidade como sendo constituída de fatos isolados. Para o estruturalismo, ao contrário, não existem fatos isolados, mas partes de um todo maior. Assim, compreende-se que:

· Alguns fenômenos podem ser explicados não pelo que deixam à mostra, mas por uma estrutura subjacente.

· Os fatos possuem uma relação interna, de tal forma que não podem ser entendidos isoladamente, mas apenas em relação aos seus pares antagônicos.
Para entender como esse método funciona, é preciso estudar suas origens, na Linguística e na Antropologia. A linguagem O método estruturalista foi usado pela primeira vez pelo linguista suíço
Ferdinand de Saussure (1857-1913) em sua obra póstuma, editada por alunos, Curso de Linguística Geral. Nesta obra, Saussure fornece as bases teóricas para duas importantes ciências do século 20: a Linguística Estrutural e a Semiologia, ou ciência dos signos. As teorias de Saussure podem ser explicadas por meio de quatro dicotomias. A primeira diz respeito a duas formas de se abordar a linguagem:

· Língua: o aspecto social da linguagem.

· Fala: o aspecto individual da linguagem.

A segunda refere-se a tipos de estudos da linguagem:

· Linguística sincrônica (estática ou descritiva): estuda a constituição da língua (fonemas, palavras, gramática, etc.) num dado momento.

· Linguística diacrônica (evolutiva ou histórica): estuda as mudanças da língua através dos tempos.

A originalidade de Saussure foi propor um estudo da língua enquanto sistema social de um ponto de vista sincrônico, não histórico, como vinha sendo feito antes. Ele também propõe o nome de semiologia, ou estudo do signo linguístico, que contém:

· Significante: é a expressão material do signo, como o som da palavra “árvore” ou a imagem da palavra escrita no papel.

· Significado: o conceito que o significante representa ou o conteúdo do signo, uma ideia, como a árvore que eu imagino ao ouvir ou ler a palavra escrita.

A palavra estrutura não aparece na obra do linguista suíço, mas se faz presente no conceito de sistema, que quer dizer uma análise estrutural que inclui o estudo da língua em suas relações internas, conforme a terceira dicotomia:

· Eixo sintagmático: um termo só é compreendido em oposição (relação) a outro termo. Ex.: “O semáforo está verde”.

· Eixo paradigmático: o termo é associado a outros, presentes na memória. Por exemplo, na frase anterior, ao invés de semáforo, uso “sinal” e ao invés de “está verde”, “abriu”: “O sinal abriu”. Saussure, ao entender a linguagem como estrutura subjacente e sistema cujos elementos são solidários entre si (e que, somente assim, adquirem valor e sentido), e, ainda, vista de uma perspectiva não histórica, inaugurou o método estruturalista de análise.

Os mitos A primeira aplicação do estruturalismo fora do âmbito da linguística foi feita pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908), hoje aposentado e um dos mais importantes intelectuais vivos. Lévi-Strauss observou, ao estudar tribos indígenas de vários países, incluindo o Brasil, um conjunto de normas que se preservavam em diferentes culturas, como se fossem formas inconscientes que moldavam o pensamento e o comportamento dos povos. Diferente de uma abordagem histórica, que não veria as relações, ele empregou o método da linguística estrutural em, basicamente, dois sentidos:

· Como uma estrutura profunda ou inconsciente.

· Como elementos que só adquirem significado quando vistos dentro dessa estrutura.

Consequentemente, existiriam estruturas que determinam regras de vestuário, alimentação, parentesco, condutas morais e políticas recorrentes em diferentes povos, e que não são visíveis. Os mitos, segundo Lévi-Strauss, são estruturados com linguagem, de modo que, da mesma forma que na língua – eu não penso em formas gramaticais quando falo, apenas falo -, também não penso em mitos quando os reproduzo inconscientemente (como Freud mostrou com o mito de Édipo, por exemplo): os mitos só funcionam quando a estrutura permanece invisível, como a linguagem. A conclusão do antropólogo é a de que o pensamento mítico não está no homem, mas o próprio homem é que é pensado nos mitos. Mas vejamos outro exemplo da antropologia estrutural de Lévi-Strauss nas relações de parentesco. Parte-se da compreensão de que fenômenos de parentesco são estruturados como fenômenos linguísticos. Então, procede-se à identificação de elementos desta estrutura: pai, mãe, filhos, tios e irmãos. Cada um desses termos só faz sentido estando em relação aos demais: o pai autoritário em relação à mãe protetora, por exemplo. O que o antropólogo verificou, no convívio com culturas diversas, foi que, apesar das diferentes formas de filiação e relações de afetividade, hostilidade, antagonismo ou reserva (tios mais afetivos, pais mais hostis e irmãos mais conflituosos, por exemplo), a mesma estrutura de oposições – pai/mãe, tios/sobrinhos, irmãos/irmãs – permanece inalterada.

Outros estruturalistas No decorrer das décadas de 1960 e 1970, surgiram aplicações do método estruturalista em áreas como crítica literária, cinema, estudos culturais e publicidade, entre outros, o que provocou críticas de abusos. Alguns dos mais renomados intelectuais e pensadores franceses empregaram o método em suas obras, como Jacques Lacan (1901-1981), que concebeu o inconsciente como estruturado na forma de linguagem; Foucault, que estudou estruturas discursivas que condicionavam o pensamento do homem em determinadas épocas; Roland Barthes (1915-1980), que examinou os mitos modernos, a moda e a literatura; e Louis Althusser (1918-1990), que fez uma leitura estruturalista da obra de Marx.

 

2

LET 973 – 5

O texto abaixo foi publicado num dos mais importantes jornais brasileiros. A matéria trata de um livro igualmente importante. O que você vai fazer é o seguinte: depois de ler este texto, selecione dois ou três passagens de um dos textos lidos/comentados em sala de aula dos apresentados aqui no blogue, rara ilustrar uma ou duas ideias apresentadas neste texto jornalístico. feita a seleção, comente a sua escolha em função do que é dito no texto aqui apresentado.

Boa leitura!

Estrutura

Quem tem medo do estruturalismo?

Autor comenta análise feita por Alcides Villaça da obra Análise Estrutural do Romance Brasileiro, agora reeditado

O Estado de São Paulo , 21 de outubro de 2012

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É sempre antipático responder críticas, mas a rejeição frontal à décima edição ampliada de Análise Estrutural de Romances Brasileiros (Editora da Unesp) e ao estruturalismo em geral, expressa na resenha do professor Alcides Villaça publicada no dia 7 de outubro no Caderno 2, me obriga a alguns esclarecimentos.

Quando apareceu a primeira edição desse livro (em 1973), Antonio Candido escreveu dois ensaios sobre a análise d’O Cortiço que eu fizera e eu o convidei para apresentar essa crítica no 2.º Encontro Nacional de Professores de Literatura, realizado em 1975.

Agora, com seu consentimento, publiquei seu texto nesse livro junto da minha resposta. Em carta, ele me disse que nossa polêmica era coisa rara na vida literária, onde se atacam pessoas e não ideias. Era o tempo da ditadura e o Departamento de Letras da PUC do Rio de Janeiro estava provocando uma revisão dos estudos literários.

Numa entrevista à revista Veja, aliás, Antonio Candido ressaltou o trabalho de renovação crítica que se fazia em nosso departamento. Com efeito, trouxemos até Michel Foucault para conferências. E na polêmica que sustentei com o professor Candido, ele reconhecia no meu trabalho “uma análise que faz progredir efetivamente o conhecimento do texto”.

Não é o que pensa, 40 anos depois, o professor Alcides Villaça, da Unicamp. Na resenha publicada, aqui, nas páginas do Estado, ele entende que meu livro é um equívoco e o estruturalismo, por ser “sazonal”, é algo que não tem nada a oferecer.

Da mesma maneira que divergia dos colegas que na época achavam que “a estilística”, “os estilos de épocas”e a “crítica sociológica” eram “sazonais”, discordo de Alcides Villaça, pois no miolo estruturalista há muita coisa a preservar.

Uma afirmativa do professor da Unicamp me chamou a atenção. Diz: “os ganhos de tão aplicado exercício com os romances ocorrem apesar do método”. Isso é maravilhoso. É desligar a viagem do trajeto. Imaginem se alguém chega à minha casa depois de ter viajado de avião e eu não o recebo alegando que não acredito em aviões.

Foi o que ocorreu com a resenha de Alcides Villaça: ele é contra aviões, contra o estruturalismo enquanto veículo de análise literária, ele é contra o arsenal analítico que coloquei em movimento para ler algumas obras canônicas.

Isso equivale a dizer que de nada adiantaram as contribuições de Lévi-Strauss na antropologia, de Jakobson na linguística, de Freud e Lacan na psicanálise. Barthes e outros semiólogos perderam seu latim. Tantos filósofos, tantos seminários e em vários países e línguas e não adiantou nada, porque há quem insista em ficar nos anos 60. Já nessa época, Albee se perguntava: “Quem tem medo de Virginia Woolf?”

Formalização. Queiramos ou não, as estruturas existem. São construções simbólicas, mas fazem a realidade andar. Se o cientista não apreender o fenômeno num modelo ou fórmula, não tem como mostrá-lo a si mesmo e aos demais. A formalização existe na antropologia, na psicanálise, na linguística, nas ciências exatas e sociais e, acreditem, até no Ibope. O sistêmico, que tanto incomoda aquele resenhista, existe na natureza e na cultura. A análise literária não é um punhado de intenções, mas de concretizações.

Há um outro mal-entendido da parte de Alcides Villaça: a noção de narrativas de estrutura simples e complexas não são duas finalidades. Não são duas estratégias. Há obras que podem ter simplicidade e complexidade ao mesmo tempo. Dizer que esses modelos são um “binômio avassalador e perpétuo”, sobre repetir errôneas afirmativas de apressadas leituras anteriores, é o mesmo que inviabilizar na matemática os conceitos de números pares e ímpares ou dizer que a estrutura digital baseada no 0 e no 1 não leva a nada. O simples e complexo são pontos de partida, não de chegada. Enfim, dizer que Fabiano foi reduzido a um “lexema” ou “morfema zero” é empobrecer a análise que fiz, não faz jus à inteligência do meu crítico.

Quanto à questão do estruturalismo/estrutura a que alude, dispensa lembrar que meus livros sobre Carlos Drummond de Andrade, sobre o “canibalismo e amoroso” e sobre o Barroco localizam estruturas sem serem “estruturalistas”. E este Análise Estrutural de Romances Brasileiros faz uma crítica no interior do estruturalismo e vai além, muito além do estruturalismo.

Finalmente, concordando com ele que análise literária não é ciência – posto que Merleau Ponty já dizia que a ciência tem por fundamento algo que não é científico – a análise literária também não é pura intuição, “impressionismo”, divagações eruditas e ideológicas, mas um produto o mais objetivo possível. O que interessa numa análise de texto é saber se depois dela o nosso entendimento do texto e da obra e a compreensão do autor foram modificados. As reedições desse livro, passada a “onda” estruturalista, talvez sejam a melhor resposta.

 

Affonso