LET 973 – 5

O texto abaixo foi publicado num dos mais importantes jornais brasileiros. A matéria trata de um livro igualmente importante. O que você vai fazer é o seguinte: depois de ler este texto, selecione dois ou três passagens de um dos textos lidos/comentados em sala de aula dos apresentados aqui no blogue, rara ilustrar uma ou duas ideias apresentadas neste texto jornalístico. feita a seleção, comente a sua escolha em função do que é dito no texto aqui apresentado.

Boa leitura!

Estrutura

Quem tem medo do estruturalismo?

Autor comenta análise feita por Alcides Villaça da obra Análise Estrutural do Romance Brasileiro, agora reeditado

O Estado de São Paulo , 21 de outubro de 2012

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É sempre antipático responder críticas, mas a rejeição frontal à décima edição ampliada de Análise Estrutural de Romances Brasileiros (Editora da Unesp) e ao estruturalismo em geral, expressa na resenha do professor Alcides Villaça publicada no dia 7 de outubro no Caderno 2, me obriga a alguns esclarecimentos.

Quando apareceu a primeira edição desse livro (em 1973), Antonio Candido escreveu dois ensaios sobre a análise d’O Cortiço que eu fizera e eu o convidei para apresentar essa crítica no 2.º Encontro Nacional de Professores de Literatura, realizado em 1975.

Agora, com seu consentimento, publiquei seu texto nesse livro junto da minha resposta. Em carta, ele me disse que nossa polêmica era coisa rara na vida literária, onde se atacam pessoas e não ideias. Era o tempo da ditadura e o Departamento de Letras da PUC do Rio de Janeiro estava provocando uma revisão dos estudos literários.

Numa entrevista à revista Veja, aliás, Antonio Candido ressaltou o trabalho de renovação crítica que se fazia em nosso departamento. Com efeito, trouxemos até Michel Foucault para conferências. E na polêmica que sustentei com o professor Candido, ele reconhecia no meu trabalho “uma análise que faz progredir efetivamente o conhecimento do texto”.

Não é o que pensa, 40 anos depois, o professor Alcides Villaça, da Unicamp. Na resenha publicada, aqui, nas páginas do Estado, ele entende que meu livro é um equívoco e o estruturalismo, por ser “sazonal”, é algo que não tem nada a oferecer.

Da mesma maneira que divergia dos colegas que na época achavam que “a estilística”, “os estilos de épocas”e a “crítica sociológica” eram “sazonais”, discordo de Alcides Villaça, pois no miolo estruturalista há muita coisa a preservar.

Uma afirmativa do professor da Unicamp me chamou a atenção. Diz: “os ganhos de tão aplicado exercício com os romances ocorrem apesar do método”. Isso é maravilhoso. É desligar a viagem do trajeto. Imaginem se alguém chega à minha casa depois de ter viajado de avião e eu não o recebo alegando que não acredito em aviões.

Foi o que ocorreu com a resenha de Alcides Villaça: ele é contra aviões, contra o estruturalismo enquanto veículo de análise literária, ele é contra o arsenal analítico que coloquei em movimento para ler algumas obras canônicas.

Isso equivale a dizer que de nada adiantaram as contribuições de Lévi-Strauss na antropologia, de Jakobson na linguística, de Freud e Lacan na psicanálise. Barthes e outros semiólogos perderam seu latim. Tantos filósofos, tantos seminários e em vários países e línguas e não adiantou nada, porque há quem insista em ficar nos anos 60. Já nessa época, Albee se perguntava: “Quem tem medo de Virginia Woolf?”

Formalização. Queiramos ou não, as estruturas existem. São construções simbólicas, mas fazem a realidade andar. Se o cientista não apreender o fenômeno num modelo ou fórmula, não tem como mostrá-lo a si mesmo e aos demais. A formalização existe na antropologia, na psicanálise, na linguística, nas ciências exatas e sociais e, acreditem, até no Ibope. O sistêmico, que tanto incomoda aquele resenhista, existe na natureza e na cultura. A análise literária não é um punhado de intenções, mas de concretizações.

Há um outro mal-entendido da parte de Alcides Villaça: a noção de narrativas de estrutura simples e complexas não são duas finalidades. Não são duas estratégias. Há obras que podem ter simplicidade e complexidade ao mesmo tempo. Dizer que esses modelos são um “binômio avassalador e perpétuo”, sobre repetir errôneas afirmativas de apressadas leituras anteriores, é o mesmo que inviabilizar na matemática os conceitos de números pares e ímpares ou dizer que a estrutura digital baseada no 0 e no 1 não leva a nada. O simples e complexo são pontos de partida, não de chegada. Enfim, dizer que Fabiano foi reduzido a um “lexema” ou “morfema zero” é empobrecer a análise que fiz, não faz jus à inteligência do meu crítico.

Quanto à questão do estruturalismo/estrutura a que alude, dispensa lembrar que meus livros sobre Carlos Drummond de Andrade, sobre o “canibalismo e amoroso” e sobre o Barroco localizam estruturas sem serem “estruturalistas”. E este Análise Estrutural de Romances Brasileiros faz uma crítica no interior do estruturalismo e vai além, muito além do estruturalismo.

Finalmente, concordando com ele que análise literária não é ciência – posto que Merleau Ponty já dizia que a ciência tem por fundamento algo que não é científico – a análise literária também não é pura intuição, “impressionismo”, divagações eruditas e ideológicas, mas um produto o mais objetivo possível. O que interessa numa análise de texto é saber se depois dela o nosso entendimento do texto e da obra e a compreensão do autor foram modificados. As reedições desse livro, passada a “onda” estruturalista, talvez sejam a melhor resposta.

 

Affonso 

3 respostas para “LET 973 – 5”

  1. Para essa atividade escolhe a seguinte passagem do texto lido acima: “A noção de narrativas de estrutura simples e complexas não são duas finalidades. Não são duas estratégias. Há obras que podem ter simplicidade e complexidade ao mesmo tempo.”

    E para ilustrar essa ideia, pretendi escolher uma passagem do texto “Diálogo, de Fernando de Abreu” estudado em sala de aula, mas ao lê-lo novamente vi que na verdade, todo o texto Diálogo, delineia a ideia citada acima, visto que quando o lemos, a princípio nos parece um simples diálogo entre duas pessoas, mais especificadamente entre dois homens, que nos parece confusos, e a primeira leitura percebemos um companheirismo, uma amizade. Contudo, ao lermos duas, três, quatro vezes, vemos que o texto não é simplesmente um diálogo, tem-se uma história por trás dele, um acontecimento, um lugar, uma determinada época, o que faz com que o texto se torne complexo, e com a simplicidade vista a princípio, fazendo assim com que este seja simples e complexo ao mesmo tempo.

    Vemos uma relação homoafetiva entre dois homens, a qual tais sentimentos ainda não estão claros, os personagens se confundem, um não tem certeza se o outro sente a mesma coisa que ele, e ambos estão com dúvidas. No texto, ainda há diversas frases ambíguas, o que também dá a ele complexidade, e há uma relação homoafetiva e não homossexual, visto que o primeiro termo era utilizado no século XIX para pessoas que apresentavam “traços” a homossexualidade, também utilizava-se o termo “homoerótico” e “homosocial”, uma vez que fazia-se uso de palavras mais simples, mais “leves”, como se a relação homoafetiva representasse uma aprofundamento da amizade, uma a celebração do desejo e não celebração da sexualidade.
    Todo esse contexto por trás do texto Diálogo o torna complexo, como já disse anteriormente, simples pela escrita, complexo pelo contexto.

  2. Para essa atividade escolhi a seguinte trecho do texto lido acima: “A noção de narrativas de estrutura simples e complexas não são duas finalidades. Não são duas estratégias. Há obras que podem ter simplicidade e complexidade ao mesmo tempo.”

    Para ilustrar tal trecho baseio-me do texto “Diálogo” de Fernando de Abreu, no qual conta uma história que a um primeiro momento parece de amizade e companheirismo entre dois homens, mas ao decorrer do texto pode-se perceber que este não é tão simples quanto parece, pois apresenta frases ambíguas, dúvidas entre os personagens em todo o decorrer do conto.

    Trata-se de uma relação homoafetiva, entre os dois personagens, seus sentimentos ainda não estão claros, os personagens se confundem, um não tem certeza se o outro sente a mesma coisa que ele, e ambos estão com dúvidas, o que faz com que o texto tenha essa relação de complexidade.

  3. Para realização da atividade proposta escolhi a seguinte passagem do texto acima: “ Noção de narrativas de estruturas simples e complexas não são duas finalidades. Não são duas estratégias. Há obras que podem ter simplicidade e complexidade ao mesmo tempo” . E para complementar a passagem citada, escolhi o poema de Pessoa denominado Eros e Psique, pois quando o lemos , a princípio parece ter dois personagens, ou seja, a Princesa e o Infante, que demonstram uma passividade no início, mas desenrolar da narrativa há uma certa surpresa, justamente pelo fato que ambos personagens “se tornam um” e isso é perceptível no final do poema.

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