LET 973 – 7

Abaixo você vai ler a sequência final de um romance de António Lobo Antunes, escritor português, As naus. Um romance excepcional. A tarefa de hoje é ler o final do romance e o fragmento que o sucede. Depois disso, escreva um parágrafo ou dois articulando as ideias com a cena lida. Considere, para a redação do(s) parágrafo(s) o fato de se tratar de um romance que tangencia a História recente de Portugal (guerras coloniais), sem deixar de fazer referência à História remota do mesmo país. Boa leitura! Bom trabalho.

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No serão em que o músico trocou o reportório do costume pelo hino nacional, executado em ritmo de pasodoble para enganar os serventes, já muito poucos colonos sobreviviam aos bacilos dos pulmões, a calcular pelos bancos desertos e pelo odor de carne decomposta das enfermarias, e vários médicos haviam deixado o hospital em busca de melhoras nas clínicas nos Alpes, arrepiados pelos soluços dos cucos. Preparava-se para se levantar do sofá, enjoado pela pestilência dos defuntos, quando o sujeito transparente o arrastou com brandura pelo terraço de tijoleira fora, que as raízes das macieiras fracturavam num esforço imenso de ressurreição, e lhe apontou com o mínimo, que mal se diferençava da cor malva do ar, uma camioneta de faróis acesos estacionada ao portão e tuberculosos em pijama que se disseminavam em bicos de pés pelas moitas de arbustos, tentando não fazer barulho no silêncio do escuro em que patinhavam como escafandristas na direcção das luzes coaguladas do carro.

A camioneta era um espantoso veículo para americanos ricos, de assentos semelhantes a cadeiras de barbeiro, ar condicionado, lavatórios de avião, auscultadores individuais para zarzuelas e óperas, e hospedeiras de farda e bivaque que serviam pães de leite e copinhos de sumo. O motor trabalhava no zunido imperceptível da electricidade estática, e o homem de nome Luís viu pela última vez o desmedido edifício do asilo composto de varandas sucessivas e cercado de caramanchões indecifráveis, adornado sob a meia laranja da lua. Viu os pavilhões na trama dos buxos, as estufas dos laboratórios em que chiava o medo das cobaias e a casa mortuária repleta de múmias quitinosas, idênticas aos caimões dos museus. Nos quartos dos médicos deslizavam de quando em quando os pavios de navegação da insónia dos doutores, que desciam seminus ao armário dos remédios à cata da garrafa rolhada dos hipnóticos. O colégio dos dalai-lamas era uma nave de cujo sótão surdiam sem rumor cardumes de morcegos, de caninos cruéis como mestres de francês. Carrocéis de cavalinhos e outras ferramentas de tortura giravam numa espécie de redil destinado a esmagar rótulas e a abrir cabeças, que o farmacêutico do quarteirão suturava amorosamente num aparato de agrafes. O homem de nome Luís acomodou-se nos estofos, fechou o; olhos e sonhava já com as vielas tortas do Cazenga e os jipes da polícia militar derrapando nas traições do lodo, quando o flautista berrou lá da frente, com o pífaro numa das mãos e a proveta dos cuspos na outra, S. Jorge e Portugal. O hospício dos pneumotórax desapareceu nas suas costas, sombras de prédios escorregaram para trás de mim nas janelas fumadas, os lampiões dos palacetes do Lumiar -, cobertos de buganvílias até às vigias do sótão, afastaram-se de nós com as suas salvas de prata e os seus leitos de dossel e quedou-se apenas a telefonia do autocarro que repetia, aos uivos, marchas militares e versos comunistas.

Tomaram a estrada de Sintra atrás do escape de uma furgoneta de legumes que silvava gases de guerra por todos os poros da panela desfeita, enquanto vários pijamas revolucionários se desmoronavam em intermináveis acessos de tosse e o senhor transparente, de termómetro na boca, vacilava de febre à minha esquerda naufragado em limos de transpiração.

Pinheiros afiados ameaçavam-nos das bermas perto do arco de trevas do desvio de Queluz devorado pela gula da hera. Um tapume que corria paralelamente ao alcatrão, desvaneceu-se de súbito abandonando-nos numa mata de abetos. Polícias de trânsito de bastões luminosos, emboscados nas encruzilhadas, multavam caleches desprevenidas. Os restaurantes e os monumentos de Sintra, diluídos numa neblina perpétua e desenhados por holofotes de estádio, achatavam-se no fundo da humidade com robalos entrando e saindo pelas janelas abertas a despedirem reflexos azulados. A estação dos comboios enchia-se na noite de malmequeres de ausentes, e nas vivendas de telhados como cornos de bois minhotos, marujos vogavam de perfil na preguiça das algas. O homem de nome Luís recordou-se dos crepúsculos concretos de Loanda onde tudo parecia exactamente o que era, sem mistérios náuticos nem pegadas de sereias ausentes, que se limitavam a conversar nos bares dos hotéis, de cigarro nas escamas das unhas, com belgas idosos a quem o quarto cálice de porto transtornava.

O trajecto de Sintra à Ericeira compunha-se de um desespero de curvas e contracurvas com aglomerados de aldeolas no percurso, casas de campo, vivendas de emigrantes e cães estremunhados, de palatos negros, a ladrarem com ódio das portas das tabernas.

Ultrapassaram o convento de Mafra repleto de centopeias e soldados, e chegaram à Ericeira pouco antes das três e vinte da manhã, chocalhando os ossos de frio no interior do pijama hospitalar, cada qual com o seu gargalo expectorante debaixo da boca e os comprimidos do pequeno almoço na algibeira, sob as ordens do tísico do pífaro cuja asma assobiava como um fole empenado. Vaguearam por becos e pracinhas reconhecendo-se mutuamente pela tonalidade dos pigarros, a farejar, com o nariz cor de amêijoa dos doentes, a direcção do mar e a localização da praia, e esbarrando em cadeiras de esplanada, bancos públicos a que faltavam pranchas, taipais que lhes vedavam a água, muralhas de granito de cinquenta metros a pique, canoas de pescadores, redes enroladas, cintilações de bóias e os paus de toldo do verão acabado, com os seus desperdícios atolados nas dunas.

Foi um velhote de pupilas pisadas pelo avanço dos bacilos, de cachecol em torno do talo de couve do pescoço, que encontrou a escada que descia para a areia em patamares precários, e chamou o músico que decifrava nas trevas o mercúrio do termómetro a fim de se inteirar dos centígrados da sua desdita. O patriota transparente e mais dois ou três heróis de bacia no queixo convocaram os tuberculosos que se aventuravam, em roupão, num parque de automóveis deserto palpando o possível sentido do oceano que os espreitava ao mesmo tempo de todas as esquinas com o seu cheiro de alforrecas e narcisos, e acabaram por tropeçar em rebanho, numa manada incerta de esqueletos, nos degraus que levavam à praia e aos cesto de sardinha desprezada, junto a um café com um gato cinzento a dormir no gume desigual do parapeito.

Amparados uns aos outros para partilharem em conjunto do aparecimento do rei a cavalo, com cicatrizes de cutiladas nos ombros e no ventre, sentaram-se nos barcos de casco ao léu, no convés de varanda das traineiras, nos flutuadores de cortiça e nos caixotes esquecidos, de que se desprendiam odores de suicida dado às dunas pela chibata das correntes. Esperámos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos, de mistura com os restos de feira acabada das vagas e os guinchos de borrego da água no sifão das rochas, um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tânger ao pescoço, e tudo o que pudemos observar, enquanto apertávamos os termómetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital, foi o oceano vazio até à linha do horizonte coberta a espaços de uma crosta de vinagreiras, famílias de veraneantes tardios acampados na praia, e os mestres de pesca, de calças enroladas, que olhavam sem entender o nosso bando de gaivotas em roupão, empoleiradas a tossir nos lemes e nas hélices, aguardando, ao som de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível.

(ANTUNES, António Lobo. As naus. Lisboa: D. Quixote: Círculo de Leitores, Lisboa, 1988.)

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Uma alegoria (do grego αλλος, allos, “outro”, e αγορευειν, agoreuein, “falar em público”) é uma figura de linguagem, mais especificamente de uso retórico, que produz a virtualização do significado, ou seja, sua expressão transmite um ou mais sentidos que o da simples compreensão ao literal. Diz b para significar a. Uma alegoria não precisa ser expressa no texto escrito: pode dirigir-se aos olhos e, com frequência, encontra-se na pintura, escultura ou noutras formas de linguagem. Embora opere de maneira semelhante a outras figuras retóricas, a alegoria vai além da simples comparação da metáfora. A fábula e a parábola são exemplos genéricos (isto é, de gêneros textuais) de aplicação da alegoria, às vezes acompanhados de uma moral que deixa claro a relação entre o sentido literal e o sentido figurado.

João Adolfo Hansen estudou a alegoria e publicou seu estudo em Alegoria: construção e interpretação da metáfora, distinguindo a alegoria greco-romana (de natureza essencialmente linguística, não obstante o anacronismo) da alegoria cristã, também chamada de exegese religiosa (na qual eventos, personagens e fatos históricos passam também a ser interpretados alegoricamente). Northrop Frye discutiu o espectro da alegoria desde o que ele designou de “alegoria ingênua” da The Faerie Queene, de Edmund Spenser as alegorias mais privadas da literatura de paradoxos moderna. Os personagens numa alegoria “ingênua” não são inteiramente tridimensionais, para cada aspecto de suas personalidades individuais e eventos que se abatem sobre eles personificam alguma qualidade moral ou outra abstração. A alegoria foi selecionada primeiro: os detalhes meramente a preenchem. Já que histórias expressivas são sempre aplicáveis a questões maiores, as alegorias podem ser lidas em muitas dessas histórias, algumas vezes distorcendo o significado explícito expresso pelo autor.

A alegoria tem sido uma forma favorita na literatura de praticamente todas as nações. As escrituras dos hebreus apresentam instâncias frequentes dela, uma das mais belas sendo a comparação da história de Israel ao crescimento de uma vinha no Salmo 80. Na tradição rabínica, leituras alegóricas tem sido aplicadas em todos os textos, uma tradição que foi herdada pelos cristãos, para os quais as semelhanças alegóricas são a base da exegese.

Na literatura clássica duas das alegorias mais conhecidas são o mito da caverna na República de Platão (Livro VII) e a história do estômago e seus membros no discurso de Menenius Agrippa (Tito Lívio ii. 32); e várias ocorrem nas Metamorfoses de Ovídio.

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Um comentário sobre “LET 973 – 7

  1. A mim me parece que este texto remete às guerras pela tentativa de manutenção das colônias restantes, acredito que em África. O autor parece remeter ao retorno após as batalhas de libertação, já que os países africanos deixaram de ser colônias europeias por volta de 1960. Pude construir este contexto a partir de duas passagens de outros textos já lidos em outras oportunidades. O primeiro deles é o 1808, de Laurentino Gomes. Neste livro há uma referência à invasão de Portugal pelos espanhóis em 1807, um ano antes da fuga da família real portuguesa para o Brasil. Vejamos:
    “(…) a duquesa de Abrantes, mulher do general Junot, diz que o marido entrou em Portugal ‘mais como fugitivo do que como enviado para anunciar ao povo a missão de tomar-lhe o país’.(…)
    ‘Sem cavalaria, artilharia, cartuchos, sapatos ou comida, cambaleando de fadiga, a tropa parecia mais a evacuação de um hospital do que um exército marchando triunfalmente para a conquista de um reino’, escreveu o historiados inglês Alan K. Manchester, ao descrever a invasão de Portugal.” (p. 53)
    Nesta passagem Gomes se refere ao exército espanhol que anunciou a invasão de Portugal caso o rei D. João VI não se rendesse às suas condições. Diante disso, a coroa portuguesa embalou tudo o que fosse necessário para o funcionamento do império e fugiu para o Brasil.
    A outra referência que utilizei para notar isto é a construção dos cenários na obra do português José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, em que o autor demonstra a devastação promovida pela cegueira coletiva dos habitantes.
    Este contexto de guerra sempre foi familiar aos portugueses, no entanto, desde a soberania de Napoleão Bonaparte com as tropas espanholas e a ascensão do império inglês que os portugueses se veem forçados a “enfiar a viola no saco” e aceitar condições impostas de todos os lados. A descrição de Lobo Antunes demonstra, creio eu, o constrangimento a que os exércitos portugueses se viram após a independência dos países africanos. Além disso, me atrevo a dizer que Lobo Antunes tenta reconstruir os anos de glória de Portugal aludindo o guia Luís ao monarca absolutista “Rei Sol” D. João V. Dom João V era chamado de Rei Sol, por ser a lei absoluta e deter todo o poderio sobre Portugal. Durante seu reinado, o país já decadente mantinha os ares de glória e prestígio por toda Europa. Foi esta a leitura que fiz desta passagem e da construção cenográfica feita pelo autor.

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