“Descoberta”

Vi numa página do Facebook, outro dia, um videoclipe de Maria Bethânia declamando partes do poema que segue abaixo. Uma epifania. Uma revelação. Uma descoberta. Já conhecia José Régio de um texto narrativo – Jogo da cabra cega. Ainda alimento o desejo de relê-lo, pois o fiz para arguir uma dissertação de Mestrado orientada por José Carlos Barcellos. Ai que saudade… Lembro-me de ter gostado, apesar de ter ficado um tanto confuso. Talvez tenha sido a circunstância – a dissertação não se consolidara, como gênero, como esperado. O processo foi um tanto tumultuado. A impressão que ficou foi similar à que me causou a leitura de outro livro da Literatura Portuguesa A noite e o riso, de Nuno Bragança. Também lido pela primeira vez à custa de uma arguição – desta vez de uma tese de doutorado – este livro está na minha “lista de desejos”. Uma hora dessas corro os olhos por suas páginas.

Voltando ao poema, a interpretação de Maria Bethânia, claro, ressalvado o seu já mítico exagero, faz impressão. Corri para o computador a procurar o texto integral. Que achado! À parte o fato de ter simpatia pelo(s) tema(s) poéticos de José Régio, este poema, em particular, cala fundo pelo senso e pela explicitação de inconformismo e, até, revolta. Numa mistura refinada de ironia e melancolia, apontando para uma espécie de libelo a favor da liberdade, em tempos “negros” como então eram vividos lá, do outro lado do grande lago (maneira de identificar o Atlântico, aprendida de um amigo recente, Vitor Escudero, de rara simpatia e erudição!) Nascido que foi no início do século 20, o poeta experimentou anos difíceis, os do Salazarismo. Seu poema é consoante a este período e suas idiossincrasias. Aí vai ele:

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Cântico negro

José Régio

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

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Retorno, ainda uma vez…

Na tentativa, abafada pela canícula que grassa por aí, fazendo acreditar que existe ser humano sensato e equilibrado que “goste” dela…, acabo de ler uma postagem de um aluno, o Iury. Brilhante, como sempre, de uma sensatez cortante e de um equilíbrio de ideias invejável, o texto dele diz tudo, absolutamente tudo o que eu penso sobre o assunto (leia o texto para saber que assunto é este). Impecável. Parabéns Iury!

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O capítulo final de Amor à Vida foi quase um capítulo final de novela. Ainda bem que quase. Houve como sempre muito açúcar, casamentos e partos (eu adoro cenas de partos, desde criança, não sei a razão). Durante a novela, o autor perdeu o fio do raciocínio, isso é evidente. Algo que pode ter contribuído para isso, além de fatores externos, provavelmente envolvendo a emissora, é a quantidade de temas que ele tentou abordar. Ele tentou fazer uma novela épica e fracassou, ainda bem. Ainda bem porque uma novela que se chama Amor à Vida não poderia ser épica jamais. Porque a vida não é épica, não é apenas a representação dos grandes temas, encerrados na sua forma fechada e absoluta, ecoando como um passado retumbante e surdo. A vida é expressão da contingência, de uma autonomia do presente, que sempre nos escapa, como uma borboleta azul. A efemeridade é que coroa a vida; justamente porque ela é finita, e passageira, que temos de dar valor em cada segundo. Quando menos esperamos, ela já passou… Dessa forma, a vida se fez presente na complexidade psicológica da Edite, na sabedoria sedenta por aprendizado da Dona Bernarda, na percepção da Linda, nos erros sucessivos do Ninho. Mas principalmente, a vida se fez presente não só no personagem Félix, e na brilhante atuação de Mateus Solano, mas na centralização da relação amorosa entre dois homens e no beijo que eles deram no capítulo final. Embora taxativo, o rótulo beijo gay denuncia a grandeza da questão. Ainda que a sociedade clamasse por essa ruptura, esse adjetivo gay só demonstra que precisamos ainda pensar o limite da nossa humanidade, tal como as noções de respeito e tolerância. A ficção, seja como novela, cinema, literatura, tem esse poder de permear na alma das pessoas e fazê-las refletir sobre quem são, como vivem em sociedade, como se relacionam, qual o sentido da vida, etc. Antes de terminar, vale ressaltar que a cena final entre o Félix e seu pai foi – além de uma invocação bíblica e nuclear em matéria de memória cultural do ocidente – o complemento ideal para dizer tudo que eu gostaria de dizer ao mundo, à sociedade brasileira e principalmente, à minha família. Em resumo, apesar de ter escorregado no tomate em matéria de técnicas narrativas, Amor à Vida foi absolutamente uma novela bonita, divertida e militante; arte engajada tem uma tendência a essas falhas, mas nem por isso deixa de ter o seu valor, diante de nós, e diante da Vida, o nosso bem mais precioso.
Iury Belchior

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