Retorno, ainda uma vez…

Na tentativa, abafada pela canícula que grassa por aí, fazendo acreditar que existe ser humano sensato e equilibrado que “goste” dela…, acabo de ler uma postagem de um aluno, o Iury. Brilhante, como sempre, de uma sensatez cortante e de um equilíbrio de ideias invejável, o texto dele diz tudo, absolutamente tudo o que eu penso sobre o assunto (leia o texto para saber que assunto é este). Impecável. Parabéns Iury!

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O capítulo final de Amor à Vida foi quase um capítulo final de novela. Ainda bem que quase. Houve como sempre muito açúcar, casamentos e partos (eu adoro cenas de partos, desde criança, não sei a razão). Durante a novela, o autor perdeu o fio do raciocínio, isso é evidente. Algo que pode ter contribuído para isso, além de fatores externos, provavelmente envolvendo a emissora, é a quantidade de temas que ele tentou abordar. Ele tentou fazer uma novela épica e fracassou, ainda bem. Ainda bem porque uma novela que se chama Amor à Vida não poderia ser épica jamais. Porque a vida não é épica, não é apenas a representação dos grandes temas, encerrados na sua forma fechada e absoluta, ecoando como um passado retumbante e surdo. A vida é expressão da contingência, de uma autonomia do presente, que sempre nos escapa, como uma borboleta azul. A efemeridade é que coroa a vida; justamente porque ela é finita, e passageira, que temos de dar valor em cada segundo. Quando menos esperamos, ela já passou… Dessa forma, a vida se fez presente na complexidade psicológica da Edite, na sabedoria sedenta por aprendizado da Dona Bernarda, na percepção da Linda, nos erros sucessivos do Ninho. Mas principalmente, a vida se fez presente não só no personagem Félix, e na brilhante atuação de Mateus Solano, mas na centralização da relação amorosa entre dois homens e no beijo que eles deram no capítulo final. Embora taxativo, o rótulo beijo gay denuncia a grandeza da questão. Ainda que a sociedade clamasse por essa ruptura, esse adjetivo gay só demonstra que precisamos ainda pensar o limite da nossa humanidade, tal como as noções de respeito e tolerância. A ficção, seja como novela, cinema, literatura, tem esse poder de permear na alma das pessoas e fazê-las refletir sobre quem são, como vivem em sociedade, como se relacionam, qual o sentido da vida, etc. Antes de terminar, vale ressaltar que a cena final entre o Félix e seu pai foi – além de uma invocação bíblica e nuclear em matéria de memória cultural do ocidente – o complemento ideal para dizer tudo que eu gostaria de dizer ao mundo, à sociedade brasileira e principalmente, à minha família. Em resumo, apesar de ter escorregado no tomate em matéria de técnicas narrativas, Amor à Vida foi absolutamente uma novela bonita, divertida e militante; arte engajada tem uma tendência a essas falhas, mas nem por isso deixa de ter o seu valor, diante de nós, e diante da Vida, o nosso bem mais precioso.
Iury Belchior

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3 respostas para “Retorno, ainda uma vez…”.

  1. Já fiz meu comentário no facebook, Este menino fez uma análise muito oportuna sobre o final de uma novela que não vi, mas da qual tive notícia. A discussão continua! Beijos, Angel Face.

    1. Ângela, você pode imaginar o prazer que foi interagir com ele em duas disciplinas… Ô saudade…

  2. Eu só posso dizer que amei o texto. Parabéns!

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