Cartas

Entre as muitas agruras que podem ser lidas diariamente, é possível encontrar um oásis de poesia, sinceridade e delicadeza nas palavras de um ser humano. Nesses dias recheados de tragédias, incidentes vergonhosos, superficialidade, escrever passou a ser uma espécie de terapia. Neste rol, inclui-se a carta, a esquecida carta. Houve uma vez que, em casa de uma amiga em Santa Cruz-RS, perguntei à minha anfitriã se poderia me emprestar seu bloco de papel de carta e me dar um envelope para eu escrever uma carta. espantada, ela disse que não tinha, nem o bloco, nem o envelope. mais espantado ainda, eu perguntei como isso era possível na casa de uma professora de literatura!

Estereótipos à parte, fiquei sinceramente estupefato. Mas o tempo passou. Hoje, você digita (Houve um tempo em que o verbo era datilografar… E num tempo mais remoto ainda, escrever – à mão! Imagina!) umas letras e segundos depois ela atravessa três oceanos e duas cordilheiras e deixa feliz ou triste, apreensivo ou relaxado, irritado ou resignado, o outro lado, alguém que, talvez você nunca venha a ver face a face. Milagre? Progresso? Ficção? Vai saber…

Recebi a mensagem que segue de uma amiga-irmã, muito querida. Ela fala desse assunto…

 

“aki naum paramos d escrever
o q eh d+ (Angela Cristina Fonseca)

Tenho saudade de escrever cartas. De ir à papelaria atrás de bloco pautado e envelope. Aqui um parêntese: visitar papelaria sempre foi, para mim, uma aventura sensorial. Gosto de papel, acaricio para sentir a textura; encanto-me com os mais variados tipos de cadernos, blocos, pastas organizadoras, em cores e formatos diferentes; adoro as novas engenhocas usadas para apontar lápis, grampear e clipar, a cada dia mais atrativas; as caixas, de todos os tamanhos e padrões, lindas, de encher os olhos: os lápis – sempre os B’s! -, de maciez variável, respondendo ao toque das mãos, firme ou suave. E os cheiros… ah, os cheiros!… Na verdade, aromas, quase feromônios para minhas narinas irremediavelmente seduzidas… Fecho parêntese.
A última carta pessoal que escrevi data de 2009. O destino, inusitado. Um amigo-irmão, professor de literatura portuguesa, fora passar dois anos na Croácia. Leitorado na Universidade de Zagreb. Muitos de vocês sabem de quem se trata. Conversávamos quase semanalmente no skype, pelo prazer de podermos nos ver. Trocávamos e-mails também, quando havia material didático interessante para compartilhar. Mas, as cartas, não muitas, faziam parte expressiva de nosso repertório de comunicação. É interessante: esse mesmo amigo já viveu umas tantas vezes fora de Belo Horizonte, depois que nos conhecemos. Ausências sempre ligadas à carreira acadêmica. E sempre trocamos cartas. Poucas, a bem da verdade, porém extraordinárias. A primeira parte era constituída de pequenos contos ou crônicas a respeito do que nos acontecia no cotidiano, entretanto, narrados na terceira pessoa, como se outras fossem as personae. Só depois vinha a parte, digamos, mais social e prosaica. Eu adorava.
Outro amigo, artista plástico, ilustrava suas cartas com seus desenhos, que, de tão primorosos, inspiraram-me a ideia de realizar uma exposição, intitulada CARTAS, com aquelas obras de arte. A qual acabou não acontecendo, infelizmente.
Já escrevi muitas cartas nestes meus quase sessenta e seis anos de vida. A maioria à mão. Foi um longo tempo sem computador (não havia, ainda!) e outro tanto, anteriormente, sem máquina de escrever (que só pude comprar já adulta, com o fruto do meu trabalho).
Fico pensando nos jovens de hoje e suas máquinas touch screen. A sensibilidade ao toque não substitui a sensibilidade amorosa de trocar cartas: o prazer de fechá-las como se fossem um cofre cheio de segredos; de colar os selos, que já foram verdadeiros objets d’art miniaturizados; de ir aos Correios, postá-las; e, depois, conferir diariamente a caixa postal, na expectativa de uma resposta.
Vivemos um tempo acelerado, de msgs curtas e cheias de códigos, abreviaturas e ícones. Como no título que dei a esta crônica.
Estou viva e – normal! – vou envelhecendo. Vejo abreviar-se o meu tempo de permanência no planetinha azul, embora não arrefeça o meu desejo de escrever. Venho, então, buscando as referências do meu passado. Lembro-me do dia em que fui enviar a tal carta para a Croácia, com um endereço cheio de palavras estranhas, e o funcionário da agência comentou: “Nossa, nunca tive nas mãos, até hoje, qualquer correspondência para o leste europeu!…”
É por causa destes pequenos eventos que volta, sempre, a saudade de escrever cartas…”

 

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