Inesperado

No finalzinho da redação de uma postagem, as linhas vermelhas apareceram embaixo de algumas palavras mal digitadas (Houve um tempo em que dir-se-ia “mal traçadas”, mas esse tempo parece ter passado). Fui corrigindo aqui e ali e noto, estupefato que há um “er” solto. Vou lá, aciono (o onomatopaico verbo me irrita, mais hoje que em outros dias…) a tecla direita do rato (ai, ai, saudades de Portugal) e, mais estupefato ainda, percebo que, na lista de possibilidades corretivas, não aparece o verbo “ler”. Será um sinal dos tempos? Um termômetro da atualidade? Um aviso? Sei não… Depois de ler, por mais uma vez, as palavras mais que lúcidas de um ex-aluno e, agora, vizinho, fiquei pensando em algumas possibilidades hermenêuticas para esse acaso…

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Índice

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Aula de Literatura Portuguesa. Gil Vicente. Estava eu lá a tentar explicar de maneira o mais clara possível a agudeza da contribuição do autor humanista/renascentista em/de terras lusas. Melhor seria dizer terras ibéricas (?). Há sempre uma controvérsia implícita em cada afirmação,sobretudo em certas “áreas do conhecimento” (Sempre que uso esta expressão me vem ao pensamento a imagem de um condomínio fechado com os seus lotes separados por cercas vivas, baixinhas, bem aparadas, verdinhas… Pois bem, Gil Vicente. De repente, diante do olhar baço dos estudantes – sim, baço, sem brilho, desinteressado, acomodado, neutro, sem vida… uma espécie de necrotério do pensamento – afirmo com todas as letras que o teatro profano de Gil Vicente causou verdadeira revolução na cultura ibérica. seus efeitos podem ser sentidos ainda hoje e que, devido a ele, o teatro no Ocidente não foi mesmo. Para completar, mandei uma alegoria: Gil Vicente foi o Sílvio Santos do final da Idade Média, como no programas”Portas da Esperança”. Guardadas as devidas proporções foi isso mesmo. Não no sentido de dar prêmios e/ou realizar sonhos,mas no sentido de desamarrar a arte dramática, de dar vazão a releituras e críticas à sociedade de seu tempo e de oferecer à população “extra muros” daquela época, a oportunidade de fruir de sua arte. Sua linguagem era simplificada, harmônica, musical – os textos de seus Autos e Farsas são rimados! – numa mistura galego-portuguesa que atingia os ouvidos e corações portugueses, fazendo, rir, chorar, pensar, refletir. Teatro “profano”. Não pela temática abusiva e/ou debochada – o que não deixa de estar presente em seus textos – mas pela localização: fora dos palácios, das igrejas; em praça pública, largos e ruas medievais das cidades, já em crise… Uma festa. Uma espécie de FIT – como aconteceu recentemente em belo Horizonte. Um festival. A diferença é que “lá” o espetáculo era constante e não fazia penas parte de um calendário “cultural” com finalidades um tantos esdrúxulas, se vistas sob certa perspectiva… Sei que alguns (não poucos) narizes estarão tortos por conta dessa minha “atitude”. Sei que um risinho sardônico – sempre gostei desta palavra – deve estar sendo esboçado abaixo desses mesmo narizes torcidos, numa sequência gozosa (Alô Lacan!) de desdém: “me importa me lá”. Diria vovó Esther. E eu repito.

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No Rio de Janeiro, sexta-feira pela manhã, num táxi a caminho do hotel, ouvindo a Rádio Tupi (a versão carioca da Rádio Itatiaia – ou vice-versa, dependendo do grau de bairrismo de quem usa a expressão!). Escuto um douto senhor, com aquele sotaque “característico” – a vontade era de usar outro qualificativo, mas a boa educação me impede – a dizer cousas e lousas a respeito da criminalidade na “cidade maravilhosa” (hoje apenas pela geografia, ainda que um tanto degradada), sobretudo aquele que utiliza a motocicleta como seu veículo. A reclamação era de que há pouco espaço para guardar as ditas cujas apreendidas em cenas de crime, segundo a polícia. A douta voz dizia que o crime “recrudesceu” no Rio de Janeiro, sobretudo o que utiliza a motocicleta. Fiquei na dúvida. Recrudesceu? Quer dizer, diminuiu? Comentei com minha mão que opinou o contrário. Fiquei na dúvida. Só hoje recorro ao “pai dos burros” – de onde terá saído esta expressão? – e vejo que o significado é o que minha mãe opusera à minha dúvida. Como verbo intransitivo tem dois significados, tornar-se mais intenso; exacerbar-se, aumentar e reaparecer com sintomas mais fortes e preocupantes (sintoma, doença, epidemia); agravar-se. Nada como um dia depois do outro. Ou seria “após”…

 

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Um comentário sobre “Inesperado

  1. “De perto, ninguém é normal” mesmo… Os supracitados heróis devem ter tido seus próprios heróis i tako dalje. Só podia dar em neurose generalizada. Gostei muito. Ri um tanto. Volte a postar algo seu, sim. Você escreve tão bem… nós merecemos. Beijinhos. Angel Face

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