Domingo inteligente

Fui pego de surpresa e me agradou muitíssimo ver este vídeo até o fim! Vale a pena! Acresce a admiração e a saudade de Rogério Miranda de Almeida, a pessoa responsável por muito do que aprendi a gostar em literatura, sobretudo Graciliano Ramos. Um homem inteligente, perspicaz, sarcástico e divertido. Dele já li dois livros. Há um outro que está na lista e, pela entrevista, fiquei a saber de um quarto que está para sair. Foi uma delícia ouvi-lo. Bateu uma saudade… fomos colegas no noviciado da Companhia de Jesus entre 1977 e 1978, quando lá estive.  Sinto-me honrado em ser amigo dele.

Aproveite!

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Ainda não vi engarrafamento de trânsito em Coimbra. Claro está que a certa hora do dia – mais ou menos entre as quatro e meia e as seis da tarde, o tráfego fica mais carregado. No bairro em que moro e por conta de uma escola infantil que manda pra casa as crianças depois das quatro da tarde. Elas chegam de manhã cedo. Ao contrário da universidade, onde, ao que parece, as aulas não começam antes das nove, até onde eu sei…

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Hoje, na volta pra casa, assando pelo mesmo lugar, na mesma hora – uma avenida que passa pela porta do hotel em que me hospedei quando aqui fiquei por oito dias em 2000, senti um cheiro conhecido. Era o cheiro de uma árvore que, segundo minha memória, era usada para formar uma cerca verde em torno de uma piscina. Em dois lugares de minha infância/adolescência havia esta árvore, logo, eu sentia esse cheio: no DI, no Prado, hoje conhecido como Clube dos Sargentos e no América, a casa de uns estrangeiros para onde com a família Andreazzi toda, em alguns finais de semana. A lembrança foi tão forte que cheguei a parar de andar para não deixa escapar a sensação de volta no tempo… Para completar o quadro, o céu se limpou um pouco. Livrou-se dos enevoados nimbos cinzentos que teimavam em cobrir o brilho do sol que insistiu, mas não venceu a força das nuvens. O dia estava um tantinho mais quente e continuei andando até em casa, pensando no que escrevi na universidade, enquanto relia algumas páginas de Os mais, exercício que tem feito eu voltar mais rápido para o gabinete depois do almoço…

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“Foi assim, de repente, sem querer, que pensei em Eduardo, como ele achava charmoso o sino tocando no instituto. Aqui, o badalar dos sinos a cada quarto de hora. Nas horas cheias outros toques, cada um marcando as horas. Todos ecoando os séculos. No seu rastro, do eco, as almas atormentadas pela neblina noturna do Outono coimbrão murmuram. A umidade e o vento. A escadaria monumental. A porta férrea e, do outro lado, os dois globos de concreto, ponteando as grossas colunas, bem debaixo das barbas de D. Dinis. Ah… a melancolia desta cidade que fica mais acesa quando o céu se descobre em azul. O azul sempre lavado. As colinas que envolvem o vale em que se deita e rola o Mondego. Ou, por outra, o rasgado vale que o rio banha, levando sempre e constantemente o badalar dos sinos, a neblina, a melancolia.”

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A primeira decepção a gente não se esquece… Depois da verdadeira e angustiante brincadeira de gato e rato – foi a isso mesmo que se pareceu a busca pela tasca no domingo passado – a alegria do excelente atendimento acendeu em mim o desejo de me tornar um habitué! Pois é… Hoje eu acertei o caminho, de primeira. Oh, decepção! A porta da Tasquinha da Paulita estava cerrada. O aviso dizia que sentiam muito pelo imprevisto. Tomara que não tenha sido nada de muito sério, grave e que no domingo que vem eles estejam certos para saciar meu apetite pela culinária portuguesa, sobremaneira se servida com a simpatia da Paulita e seu marido, na Tasquinha. Com o vinho da casa, o pão preto, as uvas, a sobremesa e o carinho da dona do lugar… Uma delícia. E baratíssimo: 6 euros. Imagina… Hoje, na “Cova do Cone”, lugarzinho que não inspira assim tanto fulgor, mas onde comi, deliciado um “Arroz com míscaras”. Já sei, já sei… Míscara é uma espécie de cogumelo selvagem comestível daqui da península. Uma delícia. Imagina um risotto de cogumelos, com pedacinhos minúsculos de costeleta de porco e “enchidos” – sim, é assim mesmo que eles chamam a nossa linguiça, ainda que eles tenham a linguiça aqui, por sinal, saborosíssima (como a de ontem). O vinho era de caixa – só se salvando porque servido em canecos de barro, algo que transportou minha imaginação para a Idade Média – clima imaginário de quase toda a “Baixa” de Coimbra. Vai ficar para a semana que vem…

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Nesta temporada de dias cinzentos, úmidos, tocados, às vezes, por ventos fortes e cortantes, em que toda a gente anda de cabeça baixa – lembrança de Zagreb –, mas tudo envolvido no clima charmosamente melancólico e Coimbra, a leitura tem sido mais intensa, como sempre desejei manter em outras cercanias… Dos autores locais, mais “mudernos” já li três e estou a terminar o quarto livro. Dos canônicos, comecei a reler Os mais, do Eça, por conta de uma única fala de Carlos da Maia sobre seu amigo João da Ega. Ainda chego lá. Já estão na fila os três romances do Mário Cláudio que compõem o que é conhecido como a trilogia da mão. Depois explico o porque! Dos já lidos, um me chamou particularmente a atenção: Jesus Cristo bebia cerveja, de Afonso Cruz.

(Olho de relance pela janela e a visão me causa surpresa: névoa, densa, parecendo papel de seda atravessado pela chama de vela. Clima londrino. Dizem que em Coimbra não neva há muitas décadas. Não vai chegar lá, suponho. A névoa. A névoa. O espírito finissecular do dezanove desperta, uma vez mais. deve ser António Nobre gritando para eu retomar a leitura de suas cartas… reveladoras. A névoa…)

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Jesus Cristo bebia cerveja. Podia levar apensar em blasfêmia, heresia e quejandos. Qual nada. Lá pelas tantas, o narrador faz alocução de elogio à cerveja como sendo bebida “superior” e que teria sido bebida por Cristo, por conta e sua pureza e dos benefícios que traria à alma. Quase hilário, se não fosse liricamente bem escrito em meio a uma história rocambolesca de uma filha que, com amigos, ao final da narrativa, monta cenário imitando Jerusalém, para onde desejou ir, por toda via, sua avó surda. Eles armam o cenário num bar chamado “Avião”. Nada mais apropriado. Uma das dançarinas e putas do lugar se apresenta vestida de comissária de bordo  (hospedeira na terminologia local) para o delírio dos bebuns de plantão: ada mais conveniente. Um remédio de fazer “cavalo dormir”, como diz outra personagem é o instrumento para a fazer a “papudinha” surda escapar da percepção da “peça” que nela estão a aplicar. A vizinhança ao Bar Avião é toda decorada com motivos da cidade santa e por aí. Uma delícia. Uma coisa chamam a atenção, de cara. Na orelha desse livro, como em todos os outros (já li outro e estou de olho no terceiro que tem forma de enciclopédia e leva essa palavra como parte de seu título):

“Além de escritor, é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Em Julho e 1971, na Figueira da Foz, era completamente recém-nascido. Haveria, anos mais tarde, de frequentar lugares como a António Arroio, Belas Artes de Lisboa, Instituto Superior de Artes Plásticas d Madeira e mais de meia centena e países. Recebeu vários prêmios e distinções nas várias áreas em que trabalha, vive no campo e gosta de cerveja.” Mutatis mutandis é sempre isso que se lê nas “orelhas”. Delicie-se!

(A névoa. Mais densa. Quase não se veem mais as lâmpadas vizinhas. O frio. A névoa…)

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Outro intervalo

Neste dia que já amanheceu molhado e cinza, quase branco, com as copas das árvores tomadas pelo vento, recebo mensagem de Denise prima querida, com trecho de um livro que deu vontade de ler. Segue o trecho como recebido!

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Fernando Henrique Cardoso
OS QUE ESTÃO VIVOS E OS MORTOS

No fundo estamos condenados ao mistério. As pessoas dizem, eu gostaria de sobreviver além da minha materialidade… Eu não acredito que vá sobreviver, mas , pelo menos na memória dos outros, você sobrevive.
Vivi intensamente isso com a perda da Ruth. Olhando para trás, é claro que ela estava com um problema grave de saúde. Apesar disso fizemos uma viagem longa e fascinante à China. É como se o problema não existisse. A gente sabe que um dia vai morrer e no entanto vive como se fosse eterno.
Depois da morte de Ruth e, mais recentemente, de outros amigos, como Juarez Brandão Lopes e Paulo Renato, eu me habituei a conversar com os que morreram. Não estou delirando. Os mortos queridos estão vivos dentro da gente. A memória que temos deles é real.
À medida que vamos ficando mais velhos, convivemos cada vez mais com a memória. Conversamos com os mortos. Por intermédio da Ruth, passei a lembrar mais dos outros que morreram, dos meus pais, meus avós. Os que morreram e nos foram queridos continuam a nos influenciar. O que não há mais é o contrário. Não podemos mais influenciá-los.
Eu não penso na morte. Sei que ela vem. Já senti a morte de perto. Não em mim. Senti a morte de perto nos meus. E procuro conviver com ela através da memória
Os que se foram continuam na minha memória e eu converso com eles. Minha mãe, meu pai, minha avó, minha mulher, meu irmão, meus amigos que se foram são meus referentes íntimos. Tudo isso constitui uma comunidade – posso usar a palavra – espiritual, que transcende o dia a dia.
Então, a morte existe, ela é parte da vida, é angustiante, não se sabe nunca quando ela vai ocorrer. Eu só peço que ela seja indolor. Não sei se será.
Ninguém sabe como e quando vai morrer. Pessoalmente, tenho mais medo do sofrimento que leva à morte do que da morte propriamente dita.
Se não é possível ter a pretensão utópica de sobreviver como pessoa física, é possível ter a aspiração de viver na memória, começando por conviver com a memória dos que se foram. Isso tem alguma materialidade? Nenhuma. Isso é científico? Não é. Mas é uma maneira de você acalmar sua angústia existencial.

“Os mortos queridos vivem dentro de nós. Os que morreram continuam a
nos influenciar. Nós é que não podemos
mais influenciá-los.”

SENTIDO DA VIDA

Aos 80 anos creio que cada um cria o sentido de sua vida. Não há um único sentido. Isso é muito dramático. Cada um tem que tentar criar o seu sentido.
Nesse ponto os existencialistas têm razão. É muito angustiante. Tem uma dimensão da existência que é inexplicável. Ou você consegue conviver com isso no dia a dia sem apelar para a transcendência – digo no dia a dia porque, de vez em quando, todo mundo apela… – ou você tem que criar algum sentido para justificar, se não explicar, o sentido das coisas.
Eu criei, imagino que sim. Achei que devia ter uma ação intelectual para entender e para mudar o Brasil.
Na verdade é isso que eu queria, mudar as condições de vida no Brasil. A literatura me influenciou muito, sobretudo a nordestina, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado. Depois as Vinhas da Ira, de John Steinbeck, sobre a revolta social na América da Grande Depressão. Ou mesmo Roger Martin Du Gard com Os Thibault e, já noutra direção, André Gide e, também, a metafísica de A montanha mágica, de Thomas Mann. Esse caminho da literatura me contagiou e me levou à política.
Passei a vida inteira tentando entender melhor a sociedade, os mecanismos que podem levar a uma sociedade mais decente, como digo hoje, não apenas mais rica, e sim mais decente.
Tem que haver, é claro, algum grau de riqueza, senão a miséria, a escassez, predomina e então não se tem nem liberdade nem igualdade. A escassez é a luta, a guerra pela sobrevivência. Tem que haver um certo bem-estar material. Além disso, porém, é preciso criar uma condição humana de dignidade, de decência, de aceitação e respeito pelo outro.
Tentei entender isso do ponto de vista intelectual e fazer a mesma coisa do ponto de vista político. Então acho que dei um certo sentido à minha vida. Esse sentido tem que ser dado por cada um. Não está dado que todos tenham que ter o mesmo sentido e haverá quem nunca encontre sentido na vida e fique batendo cabeça.

“Quando se vai ficando velho e, portanto,
mais maduro, você tem que valorizar
mais a felicidade, a amizade,
essas coisas que, no começo da vida,
parecem secundárias.”

Essa angústia vai ser permanente. Não tem solução. É parte da condição humana. Não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde vamos. Tampouco sabemos por que e para que estamos aqui. O que não podemos é deixar que essa angústia da morte e da ausência de um destino claro nos paralise.
Cada um tem que inventar sua resposta. Cada um tem que dar sentido à sua vida. Ela não tem sentido em si. Esse sentido não está dado. Cada um tem que construir o seu sentido. E vai sofrer para encontrar.
Uma resposta está no próprio convívio com os outros. Inclusive com os mortos. Talvez isso arrefeça um pouco a angústia. Não se vive sem amizade, sem amor, sem adversidade.
Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, você tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no começo da vida, parecem secundárias. Você continua querendo mudar o mundo, mas sabe que as pessoas contam.
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Fonte: CARDOSO, Fernando Henrique Cardoso – A soma e o resto: um olhar sobre a vida aos 80 anos.

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E imaginar que em 1998, desci do trem na estação São Bento, no Porto e passeei a pé pela cidade, indo até Vila Nova de Gaia, fazer o tour do vinho do Porto… a pé!!! Depois de ontem esta lembrança chegar a beirar as raias do impossível.

Fui ao Porto, encontrar-me com Mário Cláudio, escritor bissexto daquela cidade quase tão fleumática quanto as cidades inglesas que ainda não conheço. Mas dizem que é assim mesmo! Fui. Desci Em Campanhã, a estação que não conheci há 16 anos.  A ruazinha em que o escritor mora é uma bucólica travessa que dá direto na estação do “metro” (aqui diz-se metro mesmo e não metrô!). Bucólica, estreita, silenciosa. Um achado para quem quer sossego como parece bem ser o caso. O escritório, aconchegante, revela a organização do escrevinhador, homem de talento e raça, com informações na ponta da língua, o sotaque do norte carregadíssimo e uma invejável verve… Adorei…

Dele ganhei dois livros: Fotobriografia de António Nobre e Estudos nobrianos. Devidamente autografados, ambos, com caneta tinteiro e direito a meu nome completo na dedicatória. Idiossincrasias da delicadeza humana. Mitologias… Como aquelas que se criam a partir de fantasias construídas pelo imaginário de cada um, quando se ouve falar um nome, quando se lê uma página, quando se sabe de um fato ou curiosidade… Foi assim, ontem. Uma surpresa agradável, temperada pela memória de mais de uma década que se dissolveu na bruma que caía constante e rala do céu portuense. Memórias… De que mais é feita a existência humana?

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E imaginar que aquela senhora da Loja do cidadão (já explico o que é) ia conhecer um casal de brasileiro que tem um café, bem na “baixa” coimbrã, vendendo pão de queijo, com queijo! Uma delícia. Loja do cidadão é o nome que leva a repartição publica que cuida de tudo o que se refere à vida cidadão. Como estrangeiro, tenho que me reportar a ela para conseguir o famigerado “número de contribuinte” (o nosso velho conhecido: CPF). Sem ele não posso assinar o contrato de arrendamento do apErtamento em que vivo… A mulher. Dona Ana, com uma pachorra de dar sono em bêbado, me contou do casal brasileiro. Fui ao café (de nome Belo Horizonte) apaziguar meu espírito sobressaltado (as confusões com a internete ainda não acaram… só pagando para poder escrever e publicar isso aqui!) com dois deliciosos pães de queijo, com um café quentinho (de máquina, mas gostoso) e um sorriso esfuziante da Angelinha (como ela mesma se apresentou), a que é casada com o Geraldo – os donos do Café Belo Horizonte. Eles são de Contagem, na verdade, do Bairro Changrilá (ou será Xangrilá?). Uma simpatia. Pelo que disseram, conheceram papai, por conta de um parente deles que foi vereador… Vai vendo. Mundo pequeno esse.

O sobressalto veio por conta da burocracia. Sim! Eça existe. E, de fato, não tenho mais dúvida(!), nasceu aqui, na terrinha. Para ter o tal de número de contribuinte tenho que pegar uma senha. A palavra chave é “Município de Coimbra”. A moça, muito simpática, me atende, solícita e me diz que terei que pegar outra senha. desta feita, a palavra chave era “Finanças”. Foi neste guichê que conheci a tal de Dona Ana que me falou do Café Belo Horizonte. No meio da conversa, ela me adiante que terei que pegar uma terceira senha. Palavra chave: “Tesouraria”. Esta era pagar a emissão do cartão que só Deus sabe quando vai chegar em meu endereço residencial aqui (“morada”, é como eles dizem isso). O sisudo cavalheiro que atende no balcão da “Tesouraria” quase não levanta os olhos e é o t´pico português, com muitos “fazfavoire” e “desculpe-me” e “com licença” e mais “desculpe-me”. Ai, ai…

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E não é que, do nada, eu descubro que, há exatos 14 anos, estive pela primeira vez aqui neste lugar! Sim. Foi em 2000. Eu ainda ficava cismando se o mundo ia mesmo se acabar. O Hotel Meliá é perto de onde estou morando, voltei a alguns lugares que conheci então. Foi para um congresso acerca de Eça de Queiroz. Apresentei um a comunicação. Saí pra tomar vinho do Porto com a Mônica Figueiredo à beira do Mondego. Hoje, o local em que estivemos está mudando. É um parque do tipo desses que andam grassando por aí, estiloso, modernete, mas muito agradável. Da primeira ez, era apenas um conjunto de mesas, ao longo da margem de cá do Mondego. Na margem de lá, o Solar das Lágrimas. Ou a Quinta das Lágrimas. Sempre fico na dúvida. O local é mítico: cenário da execução de Inês de Castro. Sim, ela foi executada pelo então sogro… Coisas de tragédia. Camões eternizou na epopeia, Mário Cláudio reescreveu brilhante, impecável, sublimemente o entrecho. Influência estelar na Literatura Portuguesa. Estava lá, está lá, do outro lado do Mondego. E ainda me emociono.

O Café Briosa, a Livraria Bertrand, o arco de Al Medina (entrada para a “cidade monumental” – tenho que subir aquelas ladeiras a procurar o restaurante em que comi sardinhas com batatas ao murro, mas tenho que me cuidar por conta dos triglicerídeos…). O largo de Santa Cruz, a Câmara Municipal, a igreja e São Tiago de um lado e a de São Bartolomeu do outro. As ruas da “baixa”. Na Rua da Sofia, encontrei o restaurantezinho simpático, de comida deliciosa em que jantei com Ana Paula – não a de agora, a que vai supervisionar meu estágio, mas a outra, a que se foi para a terra de Tio Sam. Quem duvida da cozinha portuguesa não sabe o que é pecar pela gula… e não se sentir culpado, mas feliz, realizado, quase saciado… uma delícia! O restaurante está lá, fechado, por conta das “obras do metro”, diz o cartaz. As vielas medievais da baixa. Ai meu Deus, como não gostar desse lugar de gente simples e acolhedora… e no inverno.

Os dias passam. Já se foram quatro desde que cheguei. A intensidade das recordações vai à enésima potência. A cada curva dos ônibus, a renovação da surpresa de entrever um ângulo conhecido, que ficou na sombra da memória. Mas não é a isto mesmo que se pode chamar e viver?

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