Diário Coimbrão 5

A primeira decepção a gente não se esquece… Depois da verdadeira e angustiante brincadeira de gato e rato – foi a isso mesmo que se pareceu a busca pela tasca no domingo passado – a alegria do excelente atendimento acendeu em mim o desejo de me tornar um habitué! Pois é… Hoje eu acertei o caminho, de primeira. Oh, decepção! A porta da Tasquinha da Paulita estava cerrada. O aviso dizia que sentiam muito pelo imprevisto. Tomara que não tenha sido nada de muito sério, grave e que no domingo que vem eles estejam certos para saciar meu apetite pela culinária portuguesa, sobremaneira se servida com a simpatia da Paulita e seu marido, na Tasquinha. Com o vinho da casa, o pão preto, as uvas, a sobremesa e o carinho da dona do lugar… Uma delícia. E baratíssimo: 6 euros. Imagina… Hoje, na “Cova do Cone”, lugarzinho que não inspira assim tanto fulgor, mas onde comi, deliciado um “Arroz com míscaras”. Já sei, já sei… Míscara é uma espécie de cogumelo selvagem comestível daqui da península. Uma delícia. Imagina um risotto de cogumelos, com pedacinhos minúsculos de costeleta de porco e “enchidos” – sim, é assim mesmo que eles chamam a nossa linguiça, ainda que eles tenham a linguiça aqui, por sinal, saborosíssima (como a de ontem). O vinho era de caixa – só se salvando porque servido em canecos de barro, algo que transportou minha imaginação para a Idade Média – clima imaginário de quase toda a “Baixa” de Coimbra. Vai ficar para a semana que vem…

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Nesta temporada de dias cinzentos, úmidos, tocados, às vezes, por ventos fortes e cortantes, em que toda a gente anda de cabeça baixa – lembrança de Zagreb –, mas tudo envolvido no clima charmosamente melancólico e Coimbra, a leitura tem sido mais intensa, como sempre desejei manter em outras cercanias… Dos autores locais, mais “mudernos” já li três e estou a terminar o quarto livro. Dos canônicos, comecei a reler Os mais, do Eça, por conta de uma única fala de Carlos da Maia sobre seu amigo João da Ega. Ainda chego lá. Já estão na fila os três romances do Mário Cláudio que compõem o que é conhecido como a trilogia da mão. Depois explico o porque! Dos já lidos, um me chamou particularmente a atenção: Jesus Cristo bebia cerveja, de Afonso Cruz.

(Olho de relance pela janela e a visão me causa surpresa: névoa, densa, parecendo papel de seda atravessado pela chama de vela. Clima londrino. Dizem que em Coimbra não neva há muitas décadas. Não vai chegar lá, suponho. A névoa. A névoa. O espírito finissecular do dezanove desperta, uma vez mais. deve ser António Nobre gritando para eu retomar a leitura de suas cartas… reveladoras. A névoa…)

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Jesus Cristo bebia cerveja. Podia levar apensar em blasfêmia, heresia e quejandos. Qual nada. Lá pelas tantas, o narrador faz alocução de elogio à cerveja como sendo bebida “superior” e que teria sido bebida por Cristo, por conta e sua pureza e dos benefícios que traria à alma. Quase hilário, se não fosse liricamente bem escrito em meio a uma história rocambolesca de uma filha que, com amigos, ao final da narrativa, monta cenário imitando Jerusalém, para onde desejou ir, por toda via, sua avó surda. Eles armam o cenário num bar chamado “Avião”. Nada mais apropriado. Uma das dançarinas e putas do lugar se apresenta vestida de comissária de bordo  (hospedeira na terminologia local) para o delírio dos bebuns de plantão: ada mais conveniente. Um remédio de fazer “cavalo dormir”, como diz outra personagem é o instrumento para a fazer a “papudinha” surda escapar da percepção da “peça” que nela estão a aplicar. A vizinhança ao Bar Avião é toda decorada com motivos da cidade santa e por aí. Uma delícia. Uma coisa chamam a atenção, de cara. Na orelha desse livro, como em todos os outros (já li outro e estou de olho no terceiro que tem forma de enciclopédia e leva essa palavra como parte de seu título):

“Além de escritor, é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Em Julho e 1971, na Figueira da Foz, era completamente recém-nascido. Haveria, anos mais tarde, de frequentar lugares como a António Arroio, Belas Artes de Lisboa, Instituto Superior de Artes Plásticas d Madeira e mais de meia centena e países. Recebeu vários prêmios e distinções nas várias áreas em que trabalha, vive no campo e gosta de cerveja.” Mutatis mutandis é sempre isso que se lê nas “orelhas”. Delicie-se!

(A névoa. Mais densa. Quase não se veem mais as lâmpadas vizinhas. O frio. A névoa…)

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