Diário Coimbrão 11

 

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Bomba! Bomba! Bomba!

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Não foi um acidente aéreo. Não foi um barco afundado. Não foi um atentado terrorista. Foi apenas e somente uma mordida em um pedaço de pão integral com a casca um pouco mais seca e BUM… Dois dentes quebrados! A dentista, coitada, não sabia o que fazer para tentar disfarçar o dissabor de ter de me dizer que os dois não têm mais salvação. Extração já!!! Implante já!!! Vou me arriscar com a odontologia lusitana. Penso que é falta de bom senso ir de paliativo em paliativo até Maio chegar e eu voltar pra terrinha e fazer o implante. De mais a mais, não posso morder nada “de frente”. Uma chatice… Gostei imenso do tratamento. Tenho até medo de pensar quanto isso tudo vai custar. O seguro saúde paga apenas 145 euros. O medo vem do fato de, por exemplo, logo que entrei na clínica, fui convidado a adentrar uma saleta, onde foi feita uma tomografia de face. Assim do nada. Antes mesmo da “doutora” me examinar. Deu remos nas pernas! Isso bem que podia ser apenas mais um comentário de Facebook, mas quis colocar aqui pra ver se me acostumo com a ideia de escrever um pouquinho de cada vez, todo dia um pouquinho. Na verdade, não é bem uma questão de “costume”, mas, de fato, o esforço pra vencer a preguiça e ver se, também nisso, 2015 venha a ser um ano realmente NOVO!

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Diário Coimbrão 10

Vai dando um calundu, assim, mágico, pintado a azul e dourado Um azul que eu só vi até hoje nos céus portugueses. será efeito da luz solar sore o oceano e o Tejo? Mas hoje foi assim, com um ventinho ais forte que o habitua nos dias que correm e a luz do dia morrendo em tons de azul que vão desmaiando em dourados, carmins e pratas… até ficar escuro de vez. É a noite. Chegando em casa, leio um poema que está no último livro de António Arnaut, oferecido a mim, por ele, na noite de Natal: mais um dos presentinhos adoráveis que vou levar comigo pra sempre, mesmo em memória, mais que afetiva. Vai o poema:

Ofício do poeta

 

Demanda da palavra

decifração da esperança

 

o poeta redime

o erro de Deus

por ter criado o Homem

à sua semelhança

            *

Tanto depurei

o poema

que dele restou

a sangrar

a palavra

por achar

Gostei, tanto que o reproduzo aqui, mesmo sem pedir autorização do autor. Penso que ele não vai se chatear. O livro se chama Cavalos de vento. A capa reproduz um quadro de Bual, que o Dr. Arnaut na única parede livre de seu escritório, em seu apartamento, em Santa Clara. Estantes de livros, mais quadros e a janela dividem espaço nas/das outras paredes. Um aconchego que só podia ser dele, como ele, delicado, inteligente…

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Diário Coimbrão 9

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Éramos ela e eu. Somente eu e ela naquele autocarro amarelo, quentinho, vazio. Ela devia ser vendedora ou balconista, ou trabalhar internamente no Pingo Doce (rede de supermercados daqui, não sei de Portugal inteiro). Ela carregava uma sacola e o pacote com o bolo rei. Pode ser que ela trabalhasse numa das duas confeitarias (Pastelaria é como são chamadas deste lado do grande lago) que existem aqui no bairro (Freguesia é o nome lusitano para esse aglomerado urbano), a Vênus e a Vasco da Gama. Pois ela carregava o bolo rei com todo cuidado. E eu observava, no autocarro, na noite de véspera de Natal, quase sete da noite, a cidade deserta, o frio, o autocarro vazio. Pelo caminho, alguns outros passageiros entraram e eu desci no ponto errado. O ponto foi errado, mas o endereço era certo. Como era certo! A casa de Dr. António Arnaut (chamo-o assim porque, de fato, ele é Doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra). Um homem simplesmente encantador. Casado cm Dona Ermelinda, ambos nascidos em aldeias portuguesas. Eles são os pais de Ana Paula Arnaut, a professora e amiga que supervisiona meu pós-doutoramento aqui. Um jantar tipicamente português. Toda a família junta. Os filhos – Tonecas (apelido carinhoso para António Manoel), Ana Paula e Manoelito (assim, carinhosamente tratado o Manoel António) – o primeiro casado com a Çãozinha e pai de um casal. Manoelito, divorciado, com mais duas filhas. E Ana Paula. O degas aqui foi adotado, como em Zagreb, pela família da Marta. O cardápio: bacalhau, cabrito e salada. Muito azeite de oliva, muita batata, muita couve (aqui há uma variação de couve branca, o repolho que a gente conhece) e pão e vinho. O capítulo “sobremesa” é um caso à parte: baba de camelo, mousse de chocolate, bolo rei, ovos moles, rabanadas, sonhos… Ai que pecado! A adoção deu-me direito ao almoço no dia seguinte, chez Tonecas. A Çãozinha esmerou-se. Uma mesa de encher os olhos de lágrimas de alegria e colorido. Uma simpatia de família. E, uma vez mais, o capítulo à parte do cardápio: uma canja de agradar ao Rei, leitão assado com arroz e abacaxi, fatias de laranja e salada. As sobremesas se repetiram, para prazer dos glutões que se locupletaram com mais umas pipas de vinho. Ai, meu Deus, que delícia… Foi assim o Natal coimbrão, o primeiro de minha vida. É impossível dizer que haverá ouros, negá-lo vai na mesma direção, com o mesmo peso de fado… Mas que foi uma delícia, ah, isso foi!

  

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Diário Coimbrão 8

Faltam oito dias para o final de 2014.

Faltam oito dias para se completar meu segundo mês aqui, em terra portuguesa. Dois meses! Um terço de minha estada por aqui já se foi. Pode ser uma boa ocasião para um balanço.

De fato, os portugueses são lentos. Muito de nossa indolência, de nossa preguiça, de nossa tendência a pensar que pra tudo pode-se dar um jeitinho, penso, vem daqui. Dessa gente que anda encurvada. Uma terra ocupada, em sua maior parte, por idosos. Eles estão em toda a parte. Andam de ônibus como se fossem criança. E também aqui os assentos prioritários nem sempre são respeitados. Mitos velhos. E, muitas vezes, principalmente as senhoras, fazem uma cara de mater dolorosa que vou te contar!

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Coimbra não está assim tão enfeitada para o Natal. Mas a “baixa”, downtown para quem gosta de língua de Norman Mayler, centro para nós, está iluminada. Há uma programação que começou no começo de Dezembro e vai até o dia 6 e Janeiro. Dia de Reis. Dia de comer uma das delícias da culinária portuguesa o Bolo rei! Hum… Fiquei sabendo disso somente esta semana, quando ainda consolido minha recuperação do resfriado que me pegou desprevenido… Na foto, a árvore de Natal em frente ao Mercado Municipal D. Pedro V. Toda feita de garrafas pet. Fica mais bonita de dia. À noite, a iluminação é fraquinha…

Os corredores da FLUC estão vazios. O piso vermelho do sétimo andar (um verdadeiro freezer) está lá, liso e ontem e hoje só foi pisado por mim e pela senhora que faz a limpeza. Vazio. Como no Brasil. Penso que como em qualquer parte do mundo, guardadas as devidas proporções. A “férias grandes” como eles chamam por aqui, se bem que depois do Dia de Reis, há uns exames e os professores têm que atender aos estudantes de pós-graduação. Em tempos de corte de orçamento, de contingenciamento, de denúncias sobre corrupção e desvios (sim, aqui também acontece…). Um silêncio gelado, meio escuro (hoje, depois de quase uma nana seguida) o dia amanheceu e durou nublado, feio, bem na antevéspera da chegada do Pai Natal – versão lusitana do Papai Noel. A cidade continua linda!

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Diário Coimbrão 7

Hoje é o primeiro dia do último mês do ano de 2014. Que rápido! Já um mês da minha chegada. E eu que pensei que ia passar rápido. Está voando, o tempo…

Curiosidade: Nicolau Chanterrene (o nome da rua em que estou a morar) identifica um escultor francês do século XVI, conforme explica o pedestal de alvenaria recoberto de azulejos portugueses, a indicar a rua, como soe acontecer por aqui.

Se for perguntar por um “ponto” de ônibus, peça pela “paragem do autocarro”. “marcar” serve para clicar. Cafetaria… bem… tá na cara… Rua pode ser estrada e carão postal é bilhete postal.

Hoje, por acaso, e involuntário equívoco, peguei um ônibus (Ops… um autocarro) que sempre me pode trazer a casa (Sim… esse “a” é uma preposição, vai sem crase mesmo, como se faz por aqui. Ele substitui o osso “para”, vulgo “pra”!) e acabei dando uma volta do peru. Foi interessante. Conheci a colina na posição diametralmente posta àquela em que está a Universidade que encima a melancólica Coimbra dos fados e da umidade que vem do Mondego… muita! Como não planejei o erro, estava sem a máquina fotográfica, por isso não há fotos, mas há cantinhos pitorescos por lá, pelos lados de Covões. Sim é este o nome do bairro (Aqui é “Freguesia”) que encima a tal de colina diametralmente oposta. Há um hospital enorme lá, que leva o nome do bairro. Um passeio a mais a colecionar na memória que se vai fazendo grande (a inversão do pronome também é “marca” da língua que se fala por aqui).

Algumas fotos ficam aqui, outra vão para o Facebook. Um mês! Puxa vida!

De cima para baixo, da esquerda para a direita…

– a primeira refeição no domingo depois da chegada: cozido à portuguesa. Delícia, apesar de “pesado”

– a decoração de Natal de um dos centros de compra da cidade

– a cafetaria de um casal de Contagem, que conheceu papai

– a claraboia do gabinete em que trabalho na universidade

– à direita da rua em moro

– a fachada do prédio em que moro

– esperando a supervisora na primeira segunda-feira

– primeiro dia de sol, quase três semanas depois da chegada

– eu já voando as tranças (?) para Lisboa, na primeira semana aqui

– D. Dinis recebendo os visitantes e acadêmicos numa das entradas de sua universidade

– não é o que se pode pensar: é apenas a indicação de um “largo” bem no meio da “Baixa” (=centro da cidade… downtown pra quem gosta dessa língua)

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