Diário Coimbrão 9

sem nome

Éramos ela e eu. Somente eu e ela naquele autocarro amarelo, quentinho, vazio. Ela devia ser vendedora ou balconista, ou trabalhar internamente no Pingo Doce (rede de supermercados daqui, não sei de Portugal inteiro). Ela carregava uma sacola e o pacote com o bolo rei. Pode ser que ela trabalhasse numa das duas confeitarias (Pastelaria é como são chamadas deste lado do grande lago) que existem aqui no bairro (Freguesia é o nome lusitano para esse aglomerado urbano), a Vênus e a Vasco da Gama. Pois ela carregava o bolo rei com todo cuidado. E eu observava, no autocarro, na noite de véspera de Natal, quase sete da noite, a cidade deserta, o frio, o autocarro vazio. Pelo caminho, alguns outros passageiros entraram e eu desci no ponto errado. O ponto foi errado, mas o endereço era certo. Como era certo! A casa de Dr. António Arnaut (chamo-o assim porque, de fato, ele é Doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra). Um homem simplesmente encantador. Casado cm Dona Ermelinda, ambos nascidos em aldeias portuguesas. Eles são os pais de Ana Paula Arnaut, a professora e amiga que supervisiona meu pós-doutoramento aqui. Um jantar tipicamente português. Toda a família junta. Os filhos – Tonecas (apelido carinhoso para António Manoel), Ana Paula e Manoelito (assim, carinhosamente tratado o Manoel António) – o primeiro casado com a Çãozinha e pai de um casal. Manoelito, divorciado, com mais duas filhas. E Ana Paula. O degas aqui foi adotado, como em Zagreb, pela família da Marta. O cardápio: bacalhau, cabrito e salada. Muito azeite de oliva, muita batata, muita couve (aqui há uma variação de couve branca, o repolho que a gente conhece) e pão e vinho. O capítulo “sobremesa” é um caso à parte: baba de camelo, mousse de chocolate, bolo rei, ovos moles, rabanadas, sonhos… Ai que pecado! A adoção deu-me direito ao almoço no dia seguinte, chez Tonecas. A Çãozinha esmerou-se. Uma mesa de encher os olhos de lágrimas de alegria e colorido. Uma simpatia de família. E, uma vez mais, o capítulo à parte do cardápio: uma canja de agradar ao Rei, leitão assado com arroz e abacaxi, fatias de laranja e salada. As sobremesas se repetiram, para prazer dos glutões que se locupletaram com mais umas pipas de vinho. Ai, meu Deus, que delícia… Foi assim o Natal coimbrão, o primeiro de minha vida. É impossível dizer que haverá ouros, negá-lo vai na mesma direção, com o mesmo peso de fado… Mas que foi uma delícia, ah, isso foi!

  

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