Diário coimbrão 22

Subtítulo: intervalo

Nada como ler um texto engraçado e “edificante”, no melhor dos sentidos… Senti-me realizado. Recebi o texto que segue de um amigo, por e-mail e não resisti à tentação. Coloco aqui, pra tentar quebrar uma nova diretiva inconsciente e subliminar: escrever somente aos domingos.  Amanhã escrevo, claro, como e costume. Sobra mais um domingo de andanças. Vamos ver. Por enquanto, repasso o texto sobre a “melhor idade”. A julgar pelas estatísticas e padrões vigentes, estou quase lá… Entro para o clube 5.9 ainda este ano, logo…

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Prazeres da Melhor Idade
A voz em Congonhas anunciou :
“Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.”.
Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo,  gestante ou portador do dito cartão,  só me restava a “melhor idade”,  algo entre os 60 anos e a proximidade da morte.
Para os que ainda não chegaram a ela, “melhor idade” é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.
Privilégios da “melhor idade” são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da “melhor idade”, estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.
Outra característica da “melhor idade” é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.
Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: “Voltando da farra, Ruy?”. Respondi, eufórico: “Que nada!Estou voltando da farmácia!”. E esta, de fato, é uma grande vantagem da “melhor idade”: você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.
Primeiro, a aposentadoria é pouca, quase uma esmola, e você tem que continuar a trabalhar para melhorar as coisas. Depois vem a condução.. Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te veja e por caridade pare o veículo e espere pacientemente você subir antes de arrancar com rapidez como costumam fazer.
No outro dia entrei no ônibus e fui dizendo:
– “Sou deficiente”.
O motorista me olhou de cima em baixo e perguntou:
– “Que deficiência você tem?”
– “Sou broxa!”
Ele deu uma gargalhada e eu entrei.
Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo…
Eu disse bem baixinho para uma delas:
– “Uma mentirinha que me economizou R$ 3,00, não fica triste não”, foi só para viajar de graça.
Bem… fui até a pedra do Arpoador ver o por do sol.
Subi na pedra e pensei em cumprir o ritual que costuma ser feito pelos mais jovens no local. Logicamente velho tem mais dificuldade. Querem saber?Primeiro, tem sempre alguém que quer te ajudar a subir: “Dá a mão aqui, senhor!!!”Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça.
Sentar na pedra e olhar a paisagem era tudo o que eu queria naquele momento.É, mas a pedra é dura e velho já perdeu a bunda e quando senta sente os ossos em cima da pedra, o que me faz ter que trocar de posição a toda hora.Para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos se não, nada vê.
Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz:
– “O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair.”
Resmungo entre dentes: … “só se cair em cima da sua mãe”.. mas, dou um risinho e digo que está tudo bem.
Esta titica deste sol esta demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e nada do por do sol.
Vou pensando – enquanto desço e o sol não – “Volto de metrô é mais rápido…” Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá esta um puto de um guarda que fez curso, sei eu em que faculdade, que tem um olho crítico de consegue saber a idade de todo mundo.
Olha sério para mim, segura a roleta e diz:
– “O senhor não tem 65 anos, tem que pagar a passagem.”
A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso.
Com os pés doendo fico em pé, já nem lembro do sol, se baixou ou não, dane- se. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos…
Lá estou eu mergulhado em meus profundos pensamentos, uma ligeira dor de barriga se aconchega… Durante o trajeto não fui suficientemente rápido para sentar nos lugares que esvaziavam…
Desisti… lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dei de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava… Me senti o máximo.
Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem. 
Quando já contente, pelo menos com o flerte, ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou. É agora!… Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho) ela pegou na minha mão e disse:
– “O senhor não quer sentar ? Me parece tão cansado”
Penso eu: Melhor idade é a puta que te pariu!
(perdoe os palavrões… mas fazem parte do texto)
Obs: A letra grande é em respeito àqueles que já estão na porra da melhor idade e não sabem onde deixaram os óculos.

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Diário coimbrão 21

Subtítulo: honoris causa

A expressão significa literalmente, honorário. É uma locução latina (em português: “por causa de honra”) usada em títulos honoríficos concedidos por universidades a pessoas eminentes, que não necessariamente sejam portadoras de um diploma universitário mas que se tenham destacado em determinada área (artes, ciências, filosofia, letras, promoção da paz, de causas humanitárias etc.), por sua boa reputação, virtude, mérito ou ações de serviço que transcendam famílias, pessoas ou instituições.

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O cortejo é mais que pomposo. Abre-o uma orquestra de metais (dois trompetes, um trombone, uma trompa e uma tuba) tocando música solene, caminhando a passo marcado, seguida pelo professorado em ordem hierárquica. Como não conheço a “turma” não sei dizer quem é quem. De mais, a mais, há a hierarquia das cores que se sobrepõem ao preto comum de todos: o roxo, os azuis – claro e escuro – o amarelo, o laranja, o bordô e o branco. Cada uma delas, acredito, referente a uma área do conhecimento abrangida pela universidade. Claro está que a ordem representa um grau diferenciado no complicadíssimo protocolo desta universidade mais que secular… Por fim, o candidato. Sim. É um candidato, pelo menos, no discurso do apresentador. Depois fala um outro professor, agraciando o “padrinho” que, em seguida, fala do agraciado. Este é o primeiro a falar e, emocionadíssimo, quase não dá conta de terminar de ler as três ou quatro páginas que trazia preparadas. Um homem tranquilo, emocionadíssimo, repito. Notava-se pelo tremor embargado da voz. A plateia, em silencio reverencial, assistindo. Entre uma fala e oura, a orquestra de metais “atacava” uma peça curta – se não me engano música inglesa e italiana de séculos passados – comme il faut. O clima solene não se perdia nem por um segundo, na gelada Sala dos capelos.

Diário Coimbrão 20

Sem subtítulo, mas com um comentário que gostaria de ter feito logo que aqui cheguei. É sobre as paragens de autocarro (=ponto de ônibus)

Vejam no alto da coberta ma plaquinha amarela. Pois é… Nela estão gravados os números das linhas de ônibus que param ali. O interesse disso pra mim, e penso que somente pra mim, é ter percebido na entrada da UC uma plaquinha desta, numa rua em que ônibus algum circula e, em lugar dos números das linhas, há uma palavra: Hogwarts… Dá a impressão de que Harry Potter esteve por aqui ou que, obrigatoriamente , passou aqui a caminho da famosa escola…

De quebra, vi um trecho de um livro que estou a ler de um escritor português, o Walter Hugo Mãe. O livro se chama A desumanização. É narrado em primeira pessoa por uma menina que acabou de perder a irmã gêmea, no meio dos fiordes do norte da Europa gelada. Uma experiência narrativa reveladora, interessante:

“Estar morto deve ser inteligente. A more deve ser pura inteligência. Não acredito que existam mortos burros. Deus não ia guardar paciência para ter com ele almas burras. O corpo é um traste. A alma deve ser incrível. Quando nos virmos ao espelho e só ali estiver a alma vamos pasmar de maravilha. Maravilhadas com o que somos ou sabemos ser. Viveremos apenas nas costas dos olhos. Entendes. Seremos apenas as costas dos olhos. O lado de dentro.” (p. 39)

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Diário coimbrão 19

Subtítulo: tríduos afetivos

“Não vou mais me ater a atenções fluidas que se perdem com o tempo, no próprio tempo, no momento mesmo em que se cometem. Não vou mais atentar em cores desmaiadas ou em obscurescências que nada acrescentam. Vou prestar atenção no som das palavras, no ciciar das letras que escorregam entre frases, preenchendo linhas e esvaziando minha alma de tédios, alegrias, desejos e sonhos. Não. Não vou mais.”

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Uma vez mais, Lisboa. Colorida. Sob um céu azul luminoso e lavado. Gente na rua. Barulho. Gente nervosa no trânsito (a crise não está brincadeira por aqui e os ânimos se alteram muito facilmente). O clima de frateria foi renovado. Vitor e Ana Cristina me recebem de braços mais que abertos, de alma mais que generosa, de sorriso mais que sincero. Uma delícia, o tríduo.

Vitor abre os trabalhos   Falando 2   Falando 1   A mesa   Ana Aurora e Zé Colaço   Plateia 2

A conferência correu bem, sorrisos distraídos e incontroláveis e apreensões um tanto desescondidas: quase reveladas. A inumerável plateia parece ter gostado. Ninguém saiu antes de eu terminar. Uma tarde agradavelmente fria, coroada com jantarzinho austríaco comme il faut: salsicha apimentada, mostarda, batatas e cerveja de trigo. Erdinger, natürlich!

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No domingo, uma revelação Fundação Calouste Gulbenkian. O prédio é um estupor de bem pensado. Os jardins, luxuriantes, as coleções em exposição, mais que instigantes. A comida simples, mas correta, assim como o vinho. Uma parte do dia pra também guardar na memória, enquanto o cérebro nada nos eflúvios de uma meia garrafa de tinto à espera do comboio a Santa Apolónia: pra tentar copiar o sotaque que tanto me encanta… Ó alfacinha!

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Escultura no jardim CG No Jardim CG Patos no jardim CG

“De tudo resta um sonho: o de repetir, sempre, o mesmo sonho de satisfazer o desejo: sonhar!”

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Ah… uma curiosidade: passeando entre as estantes da Fnac, no Chiado, sábado à noite, com a Ana Cristina, encontrei um livro cujo título é 50 sombras de Grey. Comecei a rir porque a tradução no Brasil, do mesmo livro, tem como título 50 tons de cinza. O título original é Fifty shades of Grey. Parei de rir quando a minha amiga chamou minha atenção para o fato de que “Grey” é, ao que parece, o nome de uma personagem do romance – o homem com quem a protagonista se envolve. Se li corretamente a sinopse… Logo, traduzir nome próprio não parece boa cisa… Além disso o sentido do título muda completamente. Pare. Olhe para o título. Leia-o. Pense em sua tradução…

 

 

 

 

Diário coimbrão 18

Subtítulo: “pequenos nadas quotidianos”

Esta expressão não é minha. está num livro de Mário Cláudio (escritor que ando a descobrir em terras portuguesas, bem perto de sua cidade de residência (Porto): Coimbra. Ana Paula Arnaut, que supervisiona meu estágio pós-doutoral (a expressão tem um ar de glamour e de chic…) conseguiu que eu, mal chegado a Coimbra fosse ter com ele e reproduz esta frase num artigo que sobre a obra dele escreveu. Copio a frase, porque me diz muito. Muito mais ainda quando penso nos dias que correm em meio à chuva, ao vento, ao frio, ao cinzento charme dessa cidade que envolve em colinas suaves… cortadas pelo Mondego, sim, o do Solar das Lágrimas… Inês de Castro que o diga…

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Estou mais aliviado. Enviei o relatório parcial para o departamento em que trabalho. É quase certo que ninguém vai ler aquilo. Se alguém o lesse, sem falsa modéstia, penso que poderia até se divertir. Eu me diverti muito, sobretudo escrevendo as notas de rodapé, imensas, numerosíssimas, contrariando alguns princípios meus de escrita. Neste caso, valeu a pena. Nelas está o meu jeito de pensar, certa dose de sarcasmo e um pouco de veneno misturado à pretensa acuidade. Eu, se fosse leito, iria me divertir com as notas. Confesso: é mesmo o que vale a pena, para além do artigo que me deu prazer escrever…Estou tão aliviado que faz três dias que saio de casa sem relógio e só me dou conta disso no fim do dia. Nada como um bom afastamento para colaborar no restabelecimento de certa paz de espírito. Ela leu o artigo que escrevi e… gostou. Disse para eu expandi-lo e fazer com que seja parte do livro que tenciono escrever. Também gostou da outra ideia que tive, mas esta… bem… vai ficar guardadinha na gaveta… Depois que sair, ela será revelada.

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Estou a ler um livro interessantíssimo: A desumanização, do Valter Hugo Mãe, escritor português… claro! Deslocado cronológica e geograficamente, ele escreve uma história em primeira pessoa, dando voz a um narrador infantil, uma menina, gêmea, que perde sua irmã logo na primeira linha do romance. Daí segue “alucinando” esta morte pelos fiordes noruegueses, onde se passa a “ação”. Ultimamente tenho lido (tenho a impressão de já ter dito isso antes, alhures) livros que são escritos sem “ação” alguma. A impressão que me dá é de certo cansaço. Mas é só impressão. Basta escutar uma hora e meia de alguém falando sobre Garrett, em minúcia, com uma segurança invejável, que essa impressão fica assim… acinzentada. estou a falar de Dra. Ofélia Paiva Monteiro, professora Jubilada da FLUC. Uma delícia…

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Agora, só domingo. Vou a Lisboa amanhã e fico por lá, com amigos queridos.

Diário coimbrão 17

Pode haver algo mais melancólico que andar por uma cidade ainda molhada, com céu cinza, algumas pessoas vagando aqui e ali, subindo ladeiras medievais ao som de um fado que mais parece uma balada romântica, daquelas que fazem chorar? Pois é… Depois de dois dias de chuvas intermitentes, de vento, e uma pequena queda na temperatura (aqui, já se sabe, os termômetros sobem dois ou três graus… é chuva!). No inverno, é batata. Salve Nelson Rodrigues.

Subindo a ladeira monumetal

A camponesa no meio do caminho da Sé velha é minha velha conhecida. Em 1998, quando cá estive por primeira vez, foi bem atrás dela que comi um peixe com batatas ao murro que só encontraria igual em Lisboa. Num restaurante que não mais está na Avenida Liberdade. Subindo esta ladeira, chega-se à Sé Velha. Um prédio localizado bem no meio da cidade monumental, medieval, lavada pelas chuvas invernais, o que faz com a temperatura do claustro fosse quase a “original” e a aparência amarelada de suas paredes deixasse escorrer todas as fantasmagorias que aquelas paredes ancestrais já presenciaram. Como no adagiário popular, se aquelas paredes falassem… Séculos incrustados no mofo, no cimento, na cantaria…

A entradaA fachadaA personalidade do lugarAltar do SantíssimoA camponesa e euAltar morClaustro da Sé velha 1Claustro da Sé velha 2Túmulo de D. Sesnando

A cidade monumental tem cheiro de fado. E logo depois do arco de Almedina, vê-se uma escultura interessante. Uma viola (instrumento genético do fado), transformada em mulher. Alguns versos, a placa indicando a homenagem da Comunidade de Coimbra e o som do fado ao fundo… Como eu disse, numa cidade medieval, lavada pela chuva, varrida pela brisa fria do inverno, debaixo de um céu acinzentado, pálido, quase morto – não fosse a certeza do azul acima, brilhando de sol – é o retrato da melancolia. Do tipo que faz a gente andar sem rumo, pensando, lembrando, sorvendo adocicadamente cada segundo, como se fosse água quente no chuveiro antes de se jogar nos braços de Morfeu.

EsculturaPlacaVersos 1Versos 2

Por fim, uma correção. Faz dias coloquei aqui uma postagem reclamando do funcionário da SMTUC, por conta de não me deixar saltar no meio da subida do elevador para visitar a Torre do Anto. Eu estava enganado. Aquela não era “a” torre. Hoje visite-a. Por fora, bem entendido. Está fechada para restauração e instalação do Museu da viola do fado. Mas fui lá. Desfeito o equívoco, ficou a experiência de passar a mão pelas paredes de um lugar em que viveram os dois “amigos”, António Nobre e Alberto de Oliveira. Repito as aspas que já vi alhures, quando de referência aos dois. Mera repetição. Um lugar mágico… para mim. A vista é deslumbrante, claro, imaginando o cenário sem o casario “muderno” e a geringonça a que dão o nome de Forum Coimbra, um centro de compras… para ser nacionalista e não deixar de ser chato…

A torre do AntoSobre a Torre do AntoVista

Diário Coimbrão 16

Um Diário que não é diário…. Um monte de palavras escritas que guardam algum sentido, ou significado, para quem as lê. Mas quem as lê? Com uma ou duas exceções, jamais saberei… também não sei se é isso mesmo o que interessa…

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Semaninha diferente esta, pelo menos, em seu final. Na quinta, parte da noite, eu passei no hospital. A aguardar notícias do estado de saúde de  uma aluna (não minha) de Viçosa, que aqui está e que passou mal. Comprou a passagem e não comprou o seguro-saúde… Ingenuidade… Bronquite aguda. Uma chatice. Quase duas da manhã quando fui dormir. Mas senti-me na obrigação (moral?) de ajudar a moça. Sozinha, morando numa república em que as pessoas, dois dias depois, não sabiam que ela estava doente e que fora ao hospital…

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Na sexta de manhã, uma experiência inolvidável. Fico imaginando o que aquelas paredes já ouviram em tantos séculos. O teto forrado de “grotescos barrocos” (bem como diz o cartaz explicativo à entrada do edifício. Fica na entrada de um dos pórticos do Paço das Escolas, na Universidade de Coimbra, bem ao lado da Porta férrea. Chama-se a Sala dos capelos. Espaço onde são realizados atos institucionais importantes (Só de imaginar que o molusco recebeu título de doutor honoris causa nesse lugar…). Exames de doutoramento (é o nome que dão aqui, equivalente à “defesa`, utilizado nos trópicos) são realizados ali. Com pompa e circunstância. Os lentes (=professores), todos de preto, com a capa tradicional da universidade, entram em procissão, hierarquicamente ordenados: os dois arguidores “de fora”, o “orientador” os três membros “da casa” estes podem ou não arguir. Este é um detalhe que é combinado numa rápida reunião realizada minutos antes dos “exames” (mania que essa gente tem de falar muitas coisas no plural). Até a metade da altura das paredes, um barrado (alisares, conforme informa o mesmo cartaz) de azulejos. Lindo! Acima dessa barra, os retratos de todos os reis portugueses. Uma aula de História em imagens, sem palavras, nem de feitos, nem heróis, nem batalhas grandiosas, só os retratos. Confesso que não ouvi quase nada. O ritual é basicamente o mesmo, mas a pompa… ui!

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Lacuna

Recebi de um amigo, pelo Facebook. Li. Chorei. É pra ler, rir, chorar, pensar e agir! Não há quem escape…

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TODO FILHO É PAI DA MORTE DE SEU PAI
Não pude deixar de compartilhar… Me emocionei pela verdade no texto, não deixem de ler!
” Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai….
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandona-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:e
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. “
(Autor desconhecido)

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Diário Coimbrão 15

Subtítulo: um domingo pra não esquecer!

Começa com o já tradicional (pra mim!) almoço na Tasquinha da Paulita. Comi finalmente, a tal de Chanfana (Prato de origem popular tradicional de Portugal. É um prato à base de carne de cabra velha, que pode levar também carne de porco, cozida dentro de caçoilas – recipientes de barro preto – em fornos a lenha, mergulhada em vinho tinto, alho, folhas de louro, pimenta, coloral e sal). Desmancha na boca. Um acepipe pra comer ajoelhado e chorando de felicidade. O casal é uma simpatia: Paula e Manuel. Duas doces criaturas, jovens e, já, avós. Dois netinhos e um terceiro a caminho. Tive o prazer de ser apresentado a um estudante brasileiro, o Murilo, de Ribeirão Preto. Um sujeito que parece legal. Diz o casal que ele também é um dos clientes costumeiros aos sábados e domingos na Tasca. Se me encontrar com ele de novo, penso que pode render uma amizade legal.

images   A tasquinhaCom a Paulita e o Manuel

Na sequência, meu segundo périplo cultural pela cidade. Cismei com a Torre do Anto. Tem este nome, em homenagem ao poeta António Nobre que, em sua passagem por Coimbra – ele estudou Direito aqui e chumbou (=rodou, foi reprovado) por duas vezes e, irado, se mandou para Paris. Não pude nem chegar perto da tal Torre, por conta da “sagacidade” lusitana manifestada pelo funcionário do SMTUC (Serviço Municipal de Transportes Urbanos de Coimbra). A empresa mantém um funcionário num elevador (como o de Santa Justa, em Lisboa; ou o Lacerda, em Salvador) que leva o transeunte de um nível a outro da cidade. A torre fica no meio da subida. Mas a anta disse que o elevador não pode parar ali… Tem nada não… Valeu pela Rua da Matemática, mais um logradouro que chama a atenção pelo nome. Fica na área da Universidade e abriga uma quantidade enorme de repúblicas… Sim, essa praga existe por aqui também, só que não mantidas pelo erário público. Nisso, os “tuga” superaram os “brasuca”.

À frente da torreNo caminho da torreOutra ruaParte da cidade vista da torre

A chave de ouro foi a visita ao Museu Nacional de Machado de Castro. Um museu instalado num edifício antigo da cidade (data do século IV antes de Cristo) acrescido de uma edificação ultramoderna em torno, em baixo e em cima… Uma verdadeira aula de História da Cultura e da Arte. Desavisadamente, não tirei fotos do exterior. É pena, ainda que a entrada quase se “perca” no meio das edificações da Universidade. Descendo a ladeira por detrás do museu, chega-se à baixa, passando pelas ruelas melancólicas de Coimbra, regadas ao cheiro de vinho e ao som constante do fado coimbrão… Uma viagem! A foto da Pietá, definitivamente, não ficou boa (tentei quatro vezes e todas ficaram tremidas… tenho que aprender como usar o controle que a máquina oferece para isso…). O altar que se vê (branco) foi desmontado e remontado a pedido de um Tesoureiro do governo Português. Um deslumbramento. E não podia deixar de homenagear o meu anjo da guarda: São Miguel Arcanjo, em madeira policromada.

Era pra ser uma pietáO altar demontado e remontado no museuSão Miguel

Um toque final foi a rápida passagem pela Sé Nova. Uma igreja modesta, mas suntuosa. Circunspecta, mas impactante. Um templo sisudo, mas que enche os olhos. Só a foto de um dos altares laterais se salvou dos tremores da minha mão…

Altar lateral da Sé Nova

E assim, mais um domingo se foi. Agora é resistir às temperaturas glaciais do lugar em que vivo. Aquecer bem a cama antes de deitar, sonhar, talvez, e retomar a “normalidade” amanhã… Mais uma vez…