Diário Coimbrão 12

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Foi assim, de repente. O dia esteve lindo, com céu limpo, sol brilhante. A temperatura chegou a 15 graus.Na verdade, não sei onde na cidade, mas a internete informou isso. Eu acreditei e saí de casa pra ir para a pracinha perto de casa para ler. A impressão de isolamento era enorme. Não sei o que passa com as pessoas aqui. Pode ser por conta do clima, da estação do ano. Não sei. Não vou estar aqui na Primavera e no Verão para comprovar qualquer que seja a teoria da explicação desse fenômeno: a sensação de isolamento.  Os carros estacionados são a certeza de que há pessoas nos apartamentos, nas casas, mas as janelas continuam hermeticamente fechadas. Mesmo naquelas em que a luz do sol bate diretamente. Até chegar à praça, essa sensação aumentou pois não havia movimento de carros. Feriado. Um dia depois das festas de passagem de ano. Em todo lugar, proporcionalmente, o movimento diminui… Cheguei. Assentei-me e comecei a ler. Daí começaram a aparecer as pessoas, os carros, os cachorros e seus donos, as formigas andando pela perna de minha calça, pássaros que eu ainda não tinha visto. Como num passe de mágica! E da mesma maneira passei quase duas horas lendo. Voltei pra casa, com a mesma impressão, mais uma vez. Daí vi o pano vermelho com uma figura de Jesus menino pintada em dourado. É o símbolo de Natal: herança cultural das famílias que vieram das aldeias e se fixaram na cidade. Os parentes mais velhos colocam o estandarte. Tradição. Quem me contou isso foi Dr. António Arnaut. Comentando sobre o caráter mercantilista que as festas de final de ano tomaram para si como marca, ele lembrou-se disso. Disse-me que as casas traziam sempre esse estandarte estendido numa janela. Era a forma de dizer que as pessoas ali estavam no “espírito” da festa. “Não havia isso de Pai Natal, era o Menino Jesus, Isso era o Natal”, disse ele. Pensando nisso, voltando pra casa, lembrei-me de outro detalhe cultural. Algumas pessoas gostam de se gabar da situação de seus filhos que estão na Alemanha, em Londres, nos Estados Unidos, no Oriente, no Brasil. Em qualquer lugar do mundo, menos em Portugal. Para estas pessoas isto parece ser sinal de sucesso, de boa posição social, de realização. Eu já sabia que essa prática de sair de casa, sobretudo das cidades pequenas e/ou das aldeias, é prática antropológica comum na península. Parece haver certa rejeição às aldeias, como se esta origem fosse uma espécie de ponto perdido (ou ganho) na carteira de habilitação, espécie de segredo. Mas o orgulho com que estas pessoas falam de seus filhos que estão fora, que quase não vêm a Portugal e, quando vêm, parece ser sempre para mostrar os novos hábitos, deixar claro e público que “se deram bem”. Infelizmente, isso se conhece muito bem no Brasil. Fiquei pensando: que vantagem há nisso? Por que as coisas são assim? Por que falar de seus cavalos, das diárias caras em hotéis de luxo, em bebedeiras homéricas com os amigos quarentões em idades do interior… Onde fica o senso disso tudo?

Resquícios de passagem…

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2 comentários sobre “Diário Coimbrão 12

  1. O mundo é, de fato, nonsense. O mundo não, nós! Vive-se mais da aparência das coisas do que das coisas, elas mesmas. Seria baixa auto-estima? Ou mera ilusão de poder? Provavelmente nunca saberemos…
    Enquanto por aí o tempo é bom para se ler na praça, por aqui derrete-se até com o esforço de segurar um livro. Um horror! Have a good time.. and may life be generous to you. Beijinho, Angel Face

    1. Poish.. A falta de sentido também, às vezes, tem sua lógica. Há que procura-la…O fato é que fiquei observando, antes da subida dos vapores do álcool… como as pessoas se compraziam nisso. Tão diferente da Paulita (a da Tasquinha, onde almoço aos domingos), tão diferente da Armanda, a faxineira da FLUC, tão diferente de nós que nos comprazemos e falamos, mas há uma diferença e não conseguir identifica-la para dela se livrar é que incomoda… Bom domingo! beijinho

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