Diário Coimbrão 13

E as janelas permaneceram mais um dia cerradas, com raríssimas e honrosíssimas exceções. E o dia, mais uma vez, foi claro, com sol ardente, numa temperatura que rondou os 8 graus Celsius, durante todo o dia, emoldurado por céu azul pálido, quase desmaiado, riscado ali e acolá pela fumaça dos pilotos que estavam a velocidade Mach… Isso na minha imaginação que não se cansa de imaginar o que acontece dentro das casas com janelas fechadas e as ruas vazias, quase desertas, também com sua áreas de exceção. Quando se está longe da própria terra tudo é diferente. Tudo ganha um colorido especial. Mais diferente e mais colorido quanto menor é o tempo de permanência no “estrangeiro”. O elemento surpresa e a imaginação contribuem para isso. Quanto mais tempo se permanece nos lugares em que se percebe o colorido e a diferença, mais reflexiva fica a percepção. Daí as dúvidas acerca de detalhes aparentemente sem importância ou interesse…

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Lembrei-me que logo depois que cheguei, Ana Paula agendou um encontro meu com um escritor do Porto, o Mário Cláudio. Foi ele quem disse, sem meias palavras que é praticamente impossível que eu encontre alguma carta e Alberto de Oliveira para António Nobre. No entanto, foi também ele que me indicou uma senhora chamada Mafalda, casada com um poeta português, o Manuel Alegre, que é parente – sobrinha neta ao que parece – de Alberto de Oliveira. Dr. António Arnaut me deu o endereço dela em Lisboa e eu para ela escrevi, solicitando um encontro. Agora é esperar. Mas falei isso tudo para chegar numas linhas que escrevi no Porto, quando voltava, enquanto esperava a hora de partida do trem, sentado num café, tomando uma cerveja, comendo uma tosta de frango, observando a noite chuvosa do Porto Campanhã (o nome da estação) que tanta surpresa me causou. Ainda não sei se o colocarei na tese que vou escrever ao final do estágio, mas a escrita se deu por esta intenção…

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Da ancestralidade de meu nome, na verdade, sobrenome, um deles, Souza, que aqui em terras do norte da península que encara o “grande lago” – a frateria vai se fazendo, cada vez mais profunda, mais sólida – se escreve com “s” (Sousa), descubro que posso ter um pouco de sangue lusitano nas veias. Ao acaso, numa conversa amena e rápida com Mário Cláudio, escritor mais que bissexto, é que o descubro. Informam-me o escritor teatrólogo, poeta, ensaísta e professor. Repetindo e copiando prática de outro escrevente, o Gonçalo Tavares, sentado num café, às portas da Campanhã, num início de noite chuvoso no/do Porto, preencho linhas a começar este texto que pretende, no mínimo, descrever os caminhos e descaminhos da busca de cartas (a cada passo, pra deixar de dizer inexistentes) escritas por outro poeta da terra, o Alberto de Oliveira. Já vai longe o tempo em que aqui nasceu e viveu este poeta que partilhou amizade com António Nobre e com ele estabeleceu longa e profícua correspondência, de acordo com trechos de cartas do segundo. Este tipo de acaso, parece-me, reforça a tese de que o que se faz em e pela literatura sempre ganha contornos de surpresa e intuição, por mais que as teorizações, correntes e constantes, tentem convencer o leitor desavisado do contrário. E não é bem assim que praticamente tudo desagua na ficção?

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2 comentários sobre “Diário Coimbrão 13

  1. Não há porquê se preocupar. Se não encontrar cartas – ao que parece, tudo foi queimado a pedido de António Nobre -, o estágio sempre renderá bons artigos, ou mesmo uma boa história, um novo livro…
    Boa colheita. Beijinhos, Angel Face

    1. Uau… comentário em cima da lata! Você sabe que, com exceção de alguns alunos (mesmo sendo obrigado, apenas alguns o fazem) você é a ÚNICA pessoa que cometa as postagens? Zezito, um amigo e Teófilo Otôni costumava escrever algumas vezes… Um frio do cão, a sombra da inexistência das cartas, uma preguiça proverbial, a garrafa de vinho já aberta e a contagem regressiva de quatro meses já em andamento… Deve ser por conta de estar escutando a Rádio Alvorada… O sotaque conhecido… o calundu… bom domingo! beijinho

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