Diário Coimbrão 14

Mais um domingo de céu azul desmaiado, temperatura um pouco mais alta e a mesma e mais intensa sensação térmica de  frio. Mistura letal. Ao almoço, a Paulita estava de bom humor e repetiu minha dose de vinho tinto. Comi uma feijoada alentejana, que não chega perto da brasileira, mas tem o seu lugar, o seu sabor, a sua delícia…

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Caminhando em direção à baixa, passei de novo pelas mesmas janelas cerradas. Para minha surpresa, de uma delas, escutei barulho de talheres e som de vozes… uma surpresa agradável. Passei também por uma cabine telefônica – como muitas outras espalhadas pela cidade – que tem, em uma de suas paredes um painel publicitário móvel. As propagandas passam como se fossem páginas de um rolo que vai mostrando imagens dos produtos. A cabine e seu outdoor é movida a energia solar. Há um pequeno painel fotoelétrico de captação de energia no teto da cabine. E eu fiquei pensando: tanta coisa já é movida a energia solar e a gente ainda tem que ficar recarregando bateria de celular e de laptop em tomadas comuns. Será que é tão difícil assim alguém estudar a possibilidade de um modelo de aparelho telefônico celular e/ou um laptop que tenha a sua própria célula fotoelétrica e cuja bateria sempre constantemente recarregada com a simples luz do sol? Vai ver, isso diminuiria o famigerado lucro das empresas que produzem as tais baterias…

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Comecei hoje um périplo por lugares que me interessam conhecer nesta melancólica e linda cidade. O primeiro passo foi um lugar chamado Penedo da saudade. Sempre que passava por lá, de autocarro (=ônibus) ficava intrigado com o nome já visto em um livro que tinha lido a propósito de minha investigação aqui. Hoje resolvi tirar a prova dos nove. O penedo da saudade é uma espécie de belvedere, de onde se vê a parte mais nova da cidade, a expansão moderna da velha senhora conimbrense que se espraia entre colinas no vale do Mondego.

O penedo da saudade

É da saudade por que, nos jardins que compõem a praça onde está o penedo (=pedra), espalham-se lápides comemorativas de aniversário de formatura de turmas do Curso de Medicina da Universidade de Coimbra. Poemas, textos curtos, trovas ou simples mensagens de agradecimento e celebração. É aí que se encontra o busto de António Nobre, seguido do de Eça de Queirós. Do outro lado da praça, uma estátua de João de Deus, importante personalidade social e literária da cidade e de Portugal. Um lugar que leva a gente a experimentar esta que é uma das chaves mestras a abrir a caixa de Pandora que é a identidade cultural portuguesa: a saudade. Um lugar bonito que, como eu disse, proporciona uma visão deslumbrante da parte mais jovem da cidade. Como primeiro passo, foi mais que gratificante…

A praça do penedoBusto de António NobreBusto de EçaCoimbra moderna 1Coimbra moderna 2João de Deus

O penedo da saudade fica numa freguesia (=bairro) que, se não estou enganado é Santo António dos Olivais. Ou simplesmente Olivais, como é popularmente identificado aqui. Se não me engano, em Os mais, Eça de Queirós descreve uma ou duas cenas do romance que têm como cenário essa região. Se não me falha a memória, é bem no começo do romance, quando Carlos da Maia volta para Portugal e vai se estabelecer em Lisboa. Mas tem uma casa em Coimbra. Mas posso estar a fazer confusão. De um modo ou de outro, esse toponímico – Olivais – aparece no romance. De qualquer forma, o motivo da referência é apenas chamar a atenção para uma curiosidade literária. Seguindo a avenida principal da região, passa-se por várias ruas que toponimizaram alguns poetas portugueses: Bernardim Ribeiro, Luis de Camões, António Nobre e Fernando Pessoa. Nesta, há uma pracinha homônima e, ao seu final, a Casa Museu Miguel Torga. Fui visita-la: estava fechada…

Praça Fernando PessoaRua 1Rua 2Rua 3Rua 4

2 respostas para “Diário Coimbrão 14”.

  1. Feijoada alentejana? De que consiste? Não consigo sequer imaginar… Um bom passeio você fez e muito me chamou a atenção o busto de António Nobre. Deu-me a impressão de ter sido um tipo “vanguardista” ao seu tempo, pelo corte e penteado dos cabelos e o jeitão empinado de posar, ou para uma foto ou em pessoa para o tal busto. Ao ver as fotos penso no nordeste brasileiro, tão lusitano em sua arquitetura e nos azulejos portugueses… Gostei do documentário. Beijinho, Angel Face

  2. Pois é… Feita com feijão comum e uma abundância de pele, orelha e pé de porco. As outras carnes não comparecem, com exceção de uns pedaços do que eles chamam aqui de morcela (uma variante do nosso chouriço) – na verdade, já havia comido em Santa Maria (o Rio Grande do Sul contou também com uma intensa influência da colonização açoriana). Há uma variação doce dela, mas não me agradou muito. No mais, tudo igual. Muito molho e servida com arroz, claro. A aparência é mais ou menos a que aparece na foto. Depende do restaurante e da cozinheira… Mas é uma delícia, de fato!
    António Nobre foi um homem bonito que ficou devastado pela tuberculose. Há uma foto dele morto que, mesmo assi, guarda traços de beleza. Não era assim uma Brastemp, mas era bonito. Tinha cara de danado.
    Pois é, os azulejos… tão bonitos, tão variados (e avariados) aqui, não tanto quanto em Lisboa ou no Porto, eles abundam e decoram com sobriedade os casarões que se mantêm em pé, apesar de todos os pesares. Portugal está se transformando num país de velhos, para além da gente… e pobres, em alguns sentidos variados…
    beijinho

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