Diário coimbrão 29

Estranho, muito estranho, estranho mesmo. Faltam pouco mais de dois meses para eu retornar ao Brasil e este diário só chegou à sua vigésima nona anotação. Que coisa mais esquisita: um diário que não é escrito todos os dias. Não sei se é esta a ideia… Se for, não sou obrigado…

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Depois que dei sequência a uma brincadeira a que fui convidado no Facebook, tenho experimentado, repetidas vezes, a surpresa de ver observações de ex-alunos dizendo que têm saudades de minhas aulas, elogiando a minha pessoa e minhas aulas. Fico lisonjeado. Não, mais que isso, gratificado. Não, mais ainda, orgulhoso de mim mesmo. Nestes momentos, sinto uma tranquilidade tão grande, tão grande. Maior que a vaidade… Lembro-me de, certa feita, ainda na graduação (este ano a minha graduação completa 30 anos… estou mesmo ficando velho), ouvir uma professora dizer que ouvir esse tipo de coisa era muito gratificante e fazia ter valido a pena tudo o mais. Naquela altura, não liguei, não dei importância, cheguei mesmo a fazer ironia com a observação dela, a Vera Felício… Que saudade dela! Na verdade, não era muito importante saber isso naquele momento. Os colegas e eu chegamos a rir, apesar de sentir sinceridade profunda e verdadeira no que a Vera falava. Bom… Trinta anos depois – e esta experiência começou a ser intermitente na minha vida depois que vivi dois anos e meio na Croácia, trabalhando como Leitor de Português. Nesta brincadeira, ficou mais forte. Senti mais sinceridade nas observações. Quase a mesma sinceridade que percebi nas palavras da Vera, se a minha memória não falha. Não sei se tudo o mais valeu a pena, depois de ler essas mensagens. Quanto a isso, ainda tenho dúvidas. Meu ceticismo não me deixa ser levado assim de roldão, pela emoção. Ooops… uma rima!

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Mudando completamente de assunto, deixo aqui três verbetes do livro do Afonso cruz, Enciclopédia da estória universal, sobre o qual já fiz alguns comentários aqui mesmo…

«Bergson dizia que o homem é o único animal que ri. Para ser preciso, o homem é o único animal que ri apesar da elevada taxa de desemprego.» (Samuel Lieber, Imagiologia do estadista)

«Todos nós temos dois passados, mas a um deles chamamos futuro.» (Malgorzata Zajac)

«Não existe nada mais lento do que o tempo. Demora uma eternidade a passar.» (Séneca)

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Diário coimbrão 28

Subtítulo: tertúlias dominicais

Mais uma semana… Mais um domingo… sem pé de cachimbo… Os eflúvios do álcool passam, lentamente, sem deixar rastros… A torporformização da melancolia de mais um dia cinzento e molhado vai tomando conta do ambiente que ainda insiste em se alimentar das risadas, das palavras, dos pensamentos e do afeto partilhado entre quatro, entre seis, entre inumeráveis, ao redor de uma mesa, planeta afora. Não foi um dia de prélios culturais ou fotográficos, mas de comer junto, rir junto e passar horas encantadoramente doces e divertidas. Coisa pouca para muitos… Tesouro para poucos, escolhidos, porque sabem a espessura de cada sorriso no fundo da alma, que persiste mesmo com a depauperação física, implacável fado que a natureza impões à experiência do existir… A voz de Jorge Vercilo cantando “Ela une todas as coisas” ecoa os mesmos sentimentos que a doce canção de Vander Lee, “Esperando aviões” . Ambas ajudam a compor o clima desse final de tarde. O eco é forte, retumba fundo e largo, tanto que vale reproduzir a letra da canção por inteiro:

Esperando Aviões

Vander Lee

Meus olhos te viram triste
Olhando pro infinito
Tentando ouvir o som do próprio grito

E o louco que ainda me resta
Só quis te levar pra festa
Você me amou de um jeito tão aflito

Que eu queria poder te dizer sem palavras
Eu queria poder te cantar sem canções
Eu queria viver morrendo em sua teia
Seu sangue correndo em minha veia
Seu cheiro morando em meus pulmões

Cada dia que passo sem sua presença
Sou um presidiário cumprindo sentença
Sou um velho diário perdido na areia
Esperando que você me leia
Sou pista vazia esperando aviões

Sou o lamento no canto da sereia
Esperando o naufrágio das embarcações

Pra completar, alguns instantâneos da alegre e divertida tertúlia de hoje, com as queridas Natália e Regina, acompanhadas do filho da Natália, o Ricardo! Bem haja!

A trinca 1A trinca 2Ao pé da Magnólia 1Ao pé da Magnólia 2Natália e euNatália e ReginaNatália, Ricardo, Regina e euRegina e euUm, dois e...

Diário coimbrão 27

Subtítulo: paralelos

Por aqui é paragem; no Brasil, parada. Faz sentido. Parada é o ato, a ação de parar. Paragem é o lugar.

Aqui é autoclismo. No Brasil, descarga. Sem comentários.

No Brasil, eu saco dinheiro do caixa eletrônico. Aqui, eu levanto dinheiro do multibanco.

Rapariga, aqui. Mulher, moça, menina, no Brasil.  O folclore está cheio de piadas com esta palavra…

No Brasil, o estudante roda, toma bomba, é reprovado. Aqui, ele chumba.

Aqui é gabinete de prova. Lá, provador (de roupas..).

Autocarro para ônibus, comboio para trem, metro para metrô, bica para café, rato para mouse rebuçado para bala (de comer, não de matar…), broa de milho para pão de milho, camisola para camiseta, relvado para gramado (no futebol), redonda para bola (idem), guarda redes para goleiro (idem), golo para gol (idem), estrada para rua, hospedeira para comissária de bordo, urgências para pronto socorro e por aí vai…

Clique aqui, diz o brasileiro (que imita quase tudo dos norte-americanos…). Carrega aqui, diz o português.

Muitas diferenças, muita graça, mas muita coisa igual sem muita graça: gente com menos de vinte anos de idade sentada nas cadeiras preferenciais olhando com desdém para os velhotes (como esses velhotes andam de ônibus por aqui! Deve ser por conta da debandada da juventude. Eles ficam sozinhos, daí têm que usar o transporte público que é muito razoável!); muita gente andando sem olhar por onde anda por conta do maldito celular (ah… aqui é telemóvel). Rapazes usando aquelas calças cinco números maior, com cós bem baixo, os bolsos traseiros batendo na parte de trás do joelho, os cabelos despenteados, a barba por fazer, falando alto, fumando, em bandos e olhando para o resto da humanidade como se nada pudesse ser melhor que aquilo… Moças usando sapatos com saltos altíssimos ou botinas mais parecidas com coturnos, sem ter noção do que é ANDAR. Mais parecem potrancas no cio… batendo as patas no chão…

De quebra, algumas imagens do início do reinado de Momo em Coimbra. Só com crianças… e poucas… Imagina… Vou dar aulas na terça-feira gorda. Já imaginaram uma coisa dessas no Brasil?

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Diário coimbrão 26

Hoje não houve prélio cultural. Hoje não houve foto. Hoje houve só fantasia. “Se fosse conto ou romance, seu nome seria Murilo. Do sorriso claro e luminoso. Do cabelo rente e brilhante. Do semblante clamo, doce e sorridente. Fantasia. Murilo na beira do rio, do inusitado coincidente passo. Das coincidências que não aconteceram. Uma tarde mais. Sol radioso, céu azul claro. Vento cortante, na tarde do mingo que nada tem de casual ” (De romance inacabado de escritor português desconhecido)

A postagem de hoje é reprodução de mensagem recebida da prima, queridíssima, Denise. Não sei a fonte, Também não sei da veracidade. Mas gostei porque fala de Francisco. Quem ler até o final pode pensar o mesmo que eu.

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Ele tem ideias firmes e nunca foge (e nunca fugiu) de uma resposta polêmica. O mundo se acostumou à hipocrisia da política que diz o que o povo quer ouvir e faz o que eles bem entendem. Com este papa não é assim, como podemos ver nesta entrevista com um repórter COMUNISTA, antes de ser papa. A entrevista começou quando o jornalista, tentando embaraçar o Cardeal, perguntou-lhe o que ele pensava sobre a pobreza no mundo. O cardeal respondeu:

” – Primeiro na Europa e agora nas Américas, alguns políticos têm se dedicado a endividar as pessoas, fazendo com que fiquem dependentes.

– E para quê? Para aumentar o seu poder. Eles são grandes especialistas em criação de pobreza e isso ninguém questiona. Eu me esforço para lutar contra esta pobreza.

– A pobreza tornou-se algo natural e isso é ruim. Minha tarefa é evitar o agravamento de tal condição. As ideologias que produzem a pobreza devem ser denunciadas. A educação é a grande solução para o problema.

– Devemos ensinar as pessoas como salvar sua alma, mas ensinar-lhes também a evitar a pobreza e a não permitir que o governo os conduza a esse estado lastimável”

Mathews ofendido pergunta: – O senhor culpa o governo?

” – Eu culpo os políticos que buscam seus próprios interesses. Você e seus amigos são socialistas. Vocês (socialistas) e suas políticas, são a causa de 70 anos de miséria, e são culpados de levar muitos países à beira do colapso. Vocês acreditam na redistribuição, que é uma das razões para a pobreza. Vocês querem nacionalizar o universo para poder controlar todas as atividades humanas. Vocês destroem o incentivo do homem, até mesmo para cuidar de sua família, o que é um crime contra a natureza e contra Deus. Esta vossa ideologia cria mais pobres do que todas as empresas que vocês classificam de diabólicas”.

Replica Mathews: – Eu nunca tinha ouvido nada parecido de um cardeal.

” – As pessoas dominadas pelos socialistas precisam saber não têm que ser pobres”

Ataca Mathews: – E a América Latina? O senhor quer negar o progresso conseguido?

“O império da dependência foi criado na Venezuela por Hugo Chávez, com falsas promessas e mentindo para que se ajoelhem diante de seu governo. Dando peixe ao povo, sem lhes permitir pescar. Se na América Latina alguém aprende a pescar é punido e seus peixes são confiscados pelos socialistas. A liberdade é castigada. – Você fala de progresso e eu falo de pobreza. Temo pela América Latina. Toda a região está controlada por um bloco de regimes socialistas, como Cuba, Argentina, Equador, Bolívia, Venezuela, Nicarágua. Quem vai salvá-los (a América Latina) dessa tirania?”

Acusa Mathews: – O senhor é um capitalista.

” – Se pensarmos que o capital é necessário para construir fábricas, escolas, hospitais, igrejas, talvez eu seja capitalista. Você se opõe a este raciocínio?”

– Claro que não, mas o senhor não acha que o capital é retirado do povo pelas corporações abusivas?

– “Não, eu acho que as pessoas, através de suas escolhas econômicas, devem decidir que parte do seu capital vai para esses projetos. O uso do capital deve ser voluntário. Só quando os políticos se apropriam (confiscam) esse capital para construir obras públicas e para alimentar a burocracia é que surge um problema grave. O capital investido voluntariamente é legítimo, mas o que é investido com base na coerção é ilegítimo “.

– “Suas ideias são radicais”, diz o jornalista.

– “Não. Há anos Khrushchev advertiu: “Não devemos esperar que os americanos abracem o comunismo, mas podemos ajudar os seus líderes com injeções de socialismo, até que, ao acordar, eles percebam que abraçaram o comunismo”. Isto está acontecendo agora mesmo no antigo bastião da liberdade. Como os EUA poderão salvar a América Latina, se eles próprios se tornarem escravos de seu governo? ”

Mathews diz: – “Eu não consigo digerir (aceitar) tal pensamento”.

O cardeal respondeu: – “Você está muito irritado porque a verdade pode ser dolorosa. Vocês (os socialistas) criaram o estado de bem-estar que consiste apenas em atender às necessidades dos pobres, pobres esses que foram criados por vocês mesmos, com a vossa política. O estado interventor retira da sociedade, a sua responsabilidade. Graças ao estado assistencialista, as famílias deixam de cumprir seus deveres para obterem o seu bem-estar, incluindo as igrejas. As pessoas já não praticam mais a caridade e vêem os pobres como um problema de governo.Para a igreja já não há pobres a ajudar, porque foram empobrecidos permanentemente e agora são propriedade dos políticos. E algo que me irrita profundamente, é o fato dos meios de comunicação observarem o problema sem conseguir analisar o que o causa. O povo empobrece e logo em seguida, vota em quem os afundou na pobreza “.

“O socialismo dura até terminar o dinheiro dos outros” Margareth Thatcher

Diário coimbrão 25

Subtítulo: o que nos espera

Uma feliz coincidência: acabei de ler um livro de Walter Hugo Mãe que, sem a menor chance de o autor ter se dado conta, dialoga com o filme que vi hoje. O livro de chama A desumanização. O filme, no original, Still Alice. Traduzido aqui na terra de Garrett, Meu nome é Alice. Vou chover no molhado: Julianne Moore está, simplesmente, soberba. O livro é narrado por uma menina que perde a irmã gêmea. Já escrevi algumas linhas sobre ele aqui. No fundo, retomo o tópico porque incomodou-me a extensão da obra. Penso que o autor esticou um pouco demais a corda. Mas quem sou eu para dizer isso… Eu tenho mais é que calar a boca, ler o livro e ficar quieto, recolhido à minha insignificância. O pior é quem gente que pensa assim mesmo… Gostei do livro, sim, mas penso que se fosse um pouco menos “esticada”, a história”, eu não teria terminado a última página com certa sensação de estar um pouco perdido no enredo. Ninguém é perfeito, nem o mais competente escritor, muito menos o mais competente dos críticos. Costumo dizer, em sala de aula, que quem escreve tem um parafuso a menos, deve ser alguém desequilibrado ou com algum “defeito” de fábrica, pois me parece pouco razoável alguém gastar o tempo de sua existência… escrevendo. Por outro lado, todas estas “qualidades” de quem escreve podem ser elevadas à enésima potência quando se pensa em quem lê. Menos “razoável” ainda é pensar que alguém gaste boa parte do tempo de sua passagem sobre o planeta terra… lendo. Mas isso é pra fazer raça para os alunos e tentar despertar-lhes da letargia que os acomete quando o assunto é LITERATURA (a interpretação do porquê das maiúsculas fica por conta de cada um…). Não resisto, e coloco aqui mais um trechinho do livro do Walter Hugo Mãe – escritor que me chamou a atenção, primeiro por conta do nome, depois, por conta de uma peculiaridade de sua escrita: o uso indiscriminado e constante de letras minúsculas, apenas minúsculas. Ele já não escreve mais assim.

“Num certo sentido, todos os homens começaram por ser uma mulher. A mulher grávida não difere do seu filho senão já tarde. E o filho apenas muito depois se apercebe de algum desajuste entre o seu corpo e o que o circunda.

Num certo sentido, elas são verdadeiramente o único género que existe, porque os homens são mulheres que desempenham um papel específico que a estratégia das próprias mulheres inventou.

Os homens são mulheres funcionalizadas, instrumentalizadas para um objetivo muito claro que apenas elas podiam traçar. Deixássemos a decisão do lado deles e talvez se multiplicassem de modo diferente, jocoso ou desrespeitoso. Um modo suicida. A preferirem usar a multiplicação para efeitos mais egoístas ou inconsequente. Os homens talvez não preservassem a espécie. Ou, de qualquer maneira, se o fizessem, seriam mulheres. Um homem grávido poderia parir um arrevesado de peixe ou de arbusto, um arrevesado de pedra ou de pedaço de pau. Chegaria a uma felicidade aparente, infantil, uma felicidade da ignorância. Que é  felicidade nenhuma. As mulheres, por seu lado, têm juízo. Elas sabem o que estão a fazer.”

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Agora… o filme. Quem já viu Iris, filme sobre poeta homônima, interpretada cronologicamente por Kate Winslet e Judi Densh, vai voltar a um tema conhecido: Alzheimer. Não quero tirar o prazer de ninguém dizendo isso. Não li nenhuma resenha ou sinopse ou crítica antes de ver o filme. Apenas vi a “chamada” na televisão e hoje, na porta do cinema – ops… da sala de projeção… porque era num shopping e nesses lugares não há cinemas, mas salas de projeção. Já não existe mais o edifício chamado “cinema”, mas sou um chato… –, fiquei na dúvida entre Meu nome é Alice e O jogo da imitação (tradução literal do original: The imitaton game). Penso que saí ganhando, ainda que mantenha o desejo de ver este segundo. Estupenda é pouco para falar da atuação da atriz principal. A menina que faz a filha mais nova, não fica muito atrás. O Alec Baldwin continua fazendo biquinho e os demais atores são, bem… secundários. A estrela fala por si e a história com ela ganha em espessura, profundidade, largueza, amplidão. Um retrato doloroso da decadência causada pela doença, menos “dramático” que o contado no filme sobre Iris Murdoch, mas igualmente poético e profundo. Um tanto mais científico e intelectualizado. Iris é mais visceral. Mas Julianne Moore vale pelo filme que não é pouco… Vale muito a pena ver. Mais não digo…

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Diário coimbrão 24

Subtítulo: banais prazeres Parece coisa combinada. Depois de um agradável almoço com Carlos Reis numa churrascaria local – chama-se Gauchão, mas os atendentes vieram de todas as partes do Brasil e o conceito de rodízio é um tanto peculiar…  – algo aconteceu, inesperadamente. Mas o almoço foi agradável. Carlos Reis é um conversador nato, tem bagagem, é viajado, lido, charmoso e muito educado. É sempre um prazer estar com ele. Pois depois desse almoço, sentei-me à mesa do gabinete na FLUC e comecei a escrever. Terminei, sem dar por mim, a comunicação a ler no Congresso 100 anos Orpheu, em Lisboa no mês que vem. Cinco dias na capital portuguesa de novo… uma delícia, mais uma vez! Não sei o que deu em mim. Escrevi, escrevi, escrevi e não dei pela passagem das horas… Eram seis da tarde quando me dei conta… Texto pronto. Esse é um dos banais prazeres que gosto de gozar… Ainda mais quando acontecem assim, intempestivamente, sem aviso prévio, quase magicamente…! sem nome Há certa tendência entre os homens da cidade, principalmente os que estão na faixa entre os 30 e os 40, que é a mesmo que notei em Zagreb, há alguns anos. Raspar a cabeça. Não só isso, mas raspar a cabeça e ter atitude de bad boy. Parece um ícone de masculinidade afirmada ou por afirmar. Assim como fazer cara feia, andar com as mãos dentro do bolso, ficar em pé com as pernas bem plantadas no chão e bem abertas. Todo um conjunto de signos corporais que conformam uma linguagem a meu ver, ridículo, pra não dizer lamentável. Que o charme de uma cabeça raspada tem seu lugar, não se pode negar (ops… uma rima!). Mas daí a utilizar este elemento como cifra de uma linguagem atonitamente ansiosa, pra não dizer obsessiva… Mas sou um chato. imagesRV7Z46FI Enquanto isso, desde quinta-feira, chove e venta e faz frio nesta cidade que já úmida por natureza. Os miasmas e as bazófias do Mondego, os mesmos elementos que devem ter atormentado o espírito de António Nobre, continuam aqui. A natureza não nega seu ciclo. Se não me engano neste final de semana a lua passou de crescente para cheia. E é sempre assim. Ou será mera coincidência de que me dou conta à borda de minha chatice? images6ITCVYDI

Diário coimbrão 23

Voltando aos prélios culturais pelas sendas coimbrãs, aproveitei o intervalo entre nuvens pesadas, acompanhei o sol, brilhante, lavado, exuberante e dei umas voltas depois do almoço, comme d’abitude aos domingos por aqui. Muito frio, muito vento, mas o sol impôs-se, caminhei mais um tanto e descobri um rochedo que me fez pensar em histórias e mais histórias ainda não contadas. É desse tipo de logradouro que “turista” – sobretudo em tempos pós “mudernos” – algum jamais vai por os pezinhos calçados por Lacoste e roçar seu jeans Ralph Laurent pela sebe nativa… Mas o rochedo é lindo…

Rochedo não visitado

Disse, em alguma linha desse diário, bem ao seu início, que havia três ou quatro igrejas pela Rua da Sofia que gostaria de visitar. Numa delas, creio eu, jamais vou pousar minhas “retinas fatigadas” (não é mesmo do Drummond esta expressão?); a Igreja do Carmo está fechada para reforma.

Igreja do Carmo

O outro prédio, que eu julgava ser uma igreja, ao que parece, é um colégio. Pode até ser que a portada e o portão de entrada vão dar numa igreja, a capela do tal colégio. Hoje não pude desfazer esta dúvida. Como nos demais domingos, também hoje – como se deu com as outras duas Igrejas (Santa Justa e uma outra que, creio, seja dedicada a N. Sra. da Conceição) – estavam fechadas. Terei que passar por lá em dia útil. Pode ser que seja abençoado com as portas abertas.

Igreja 1 na Rua da SofiaIgreja 2 na Rua da SofiaSanta Justa

O sol tornou a ser encoberto pelas plúmbeas nuvens carregadas de água e frio. O vento aumentou de novo enquanto eu esperava o 29, que me traria de volta pra casa. Antes disso, aproveitei para gravar outro ângulo desta cidade que me causa surpresas agradáveis a cada momento. Uma visão da UC do ângulo de uma das saídas rodoviárias da cidade, ao fim da avenida Fernão de Magalhães. Mais uma vez, é coisa que “turista” – como os mencionados aí acima – jamais pensarão em conferir. Mas vale a pena o registro. Minha memória afetiva se fortalece…

A torre da UC ao longe

Isso tudo aconteceu depois de uma manhã de sexta-feira inusitada. O dia já anunciava o que ia ser todo o final de semana – e hoje à tardinha, parece, isso se confirma: teremos mais água caindo do céu. Marquei um café com a Nathália Ferraz. Esperava eu por ela, na porta do tal café quando, de repente, me aparece uma moça sorrindo. Cumprimentei-a, “Bom dia, Nathália”. Nos beijamos na face e entramos no café. Ela já começou a procurar por alguma coisa na vitrine interna e eu a procurar uma mesinha para o nosso café. Cheguei a comentar sobre meus dentes quebrados, a prótese, a dificuldade (ainda) de morder com os dentes da frente. E ela a procurar. Finalmente, comprou o que desejava e se despediu de mim. Repeti seu nome: !Que pena Nathália. Então eu telefono para marcarmos outro dia”. Ela correspondeu. Despedimo-nos, de novo, com dois beijinhos. Sentei-me, pedi um galão (=xícara grande) de café com leite e um croissant de alfajor (uma das especialidades da casa…). Começava a tomar o café e o telefone toca. Era a Natháia. Ferraz, de fato, desta vez. Contei-lhe o ocorrido entre irônico e assustado. Ela, muda. Logo, logo, ela chegou e contei mais detalhes. Até agora não sei o que se passou. No entanto, conhecer a Nathália… Ferraz foi uma delícia!

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