Diário coimbrão 25

Subtítulo: o que nos espera

Uma feliz coincidência: acabei de ler um livro de Walter Hugo Mãe que, sem a menor chance de o autor ter se dado conta, dialoga com o filme que vi hoje. O livro de chama A desumanização. O filme, no original, Still Alice. Traduzido aqui na terra de Garrett, Meu nome é Alice. Vou chover no molhado: Julianne Moore está, simplesmente, soberba. O livro é narrado por uma menina que perde a irmã gêmea. Já escrevi algumas linhas sobre ele aqui. No fundo, retomo o tópico porque incomodou-me a extensão da obra. Penso que o autor esticou um pouco demais a corda. Mas quem sou eu para dizer isso… Eu tenho mais é que calar a boca, ler o livro e ficar quieto, recolhido à minha insignificância. O pior é quem gente que pensa assim mesmo… Gostei do livro, sim, mas penso que se fosse um pouco menos “esticada”, a história”, eu não teria terminado a última página com certa sensação de estar um pouco perdido no enredo. Ninguém é perfeito, nem o mais competente escritor, muito menos o mais competente dos críticos. Costumo dizer, em sala de aula, que quem escreve tem um parafuso a menos, deve ser alguém desequilibrado ou com algum “defeito” de fábrica, pois me parece pouco razoável alguém gastar o tempo de sua existência… escrevendo. Por outro lado, todas estas “qualidades” de quem escreve podem ser elevadas à enésima potência quando se pensa em quem lê. Menos “razoável” ainda é pensar que alguém gaste boa parte do tempo de sua passagem sobre o planeta terra… lendo. Mas isso é pra fazer raça para os alunos e tentar despertar-lhes da letargia que os acomete quando o assunto é LITERATURA (a interpretação do porquê das maiúsculas fica por conta de cada um…). Não resisto, e coloco aqui mais um trechinho do livro do Walter Hugo Mãe – escritor que me chamou a atenção, primeiro por conta do nome, depois, por conta de uma peculiaridade de sua escrita: o uso indiscriminado e constante de letras minúsculas, apenas minúsculas. Ele já não escreve mais assim.

“Num certo sentido, todos os homens começaram por ser uma mulher. A mulher grávida não difere do seu filho senão já tarde. E o filho apenas muito depois se apercebe de algum desajuste entre o seu corpo e o que o circunda.

Num certo sentido, elas são verdadeiramente o único género que existe, porque os homens são mulheres que desempenham um papel específico que a estratégia das próprias mulheres inventou.

Os homens são mulheres funcionalizadas, instrumentalizadas para um objetivo muito claro que apenas elas podiam traçar. Deixássemos a decisão do lado deles e talvez se multiplicassem de modo diferente, jocoso ou desrespeitoso. Um modo suicida. A preferirem usar a multiplicação para efeitos mais egoístas ou inconsequente. Os homens talvez não preservassem a espécie. Ou, de qualquer maneira, se o fizessem, seriam mulheres. Um homem grávido poderia parir um arrevesado de peixe ou de arbusto, um arrevesado de pedra ou de pedaço de pau. Chegaria a uma felicidade aparente, infantil, uma felicidade da ignorância. Que é  felicidade nenhuma. As mulheres, por seu lado, têm juízo. Elas sabem o que estão a fazer.”

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Agora… o filme. Quem já viu Iris, filme sobre poeta homônima, interpretada cronologicamente por Kate Winslet e Judi Densh, vai voltar a um tema conhecido: Alzheimer. Não quero tirar o prazer de ninguém dizendo isso. Não li nenhuma resenha ou sinopse ou crítica antes de ver o filme. Apenas vi a “chamada” na televisão e hoje, na porta do cinema – ops… da sala de projeção… porque era num shopping e nesses lugares não há cinemas, mas salas de projeção. Já não existe mais o edifício chamado “cinema”, mas sou um chato… –, fiquei na dúvida entre Meu nome é Alice e O jogo da imitação (tradução literal do original: The imitaton game). Penso que saí ganhando, ainda que mantenha o desejo de ver este segundo. Estupenda é pouco para falar da atuação da atriz principal. A menina que faz a filha mais nova, não fica muito atrás. O Alec Baldwin continua fazendo biquinho e os demais atores são, bem… secundários. A estrela fala por si e a história com ela ganha em espessura, profundidade, largueza, amplidão. Um retrato doloroso da decadência causada pela doença, menos “dramático” que o contado no filme sobre Iris Murdoch, mas igualmente poético e profundo. Um tanto mais científico e intelectualizado. Iris é mais visceral. Mas Julianne Moore vale pelo filme que não é pouco… Vale muito a pena ver. Mais não digo…

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