Diário coimbrão 40

Pois é… Éramos poucos naquela tarde e domingo, esperando a composição do metrô passar. Cada vez mais turistas usam os transportes públicos. Cada vez mais gente, cada vez mais confusão, cada vez mais… Cada vez mais feliz fiquei eu em Lisboa, cidade que me encanta. desta feita, breve retorno a Cascais. Conhecer Alcochete e Montijo, atravessando o Tejo. Descobrir detalhes interessantes em Caldas da Rainha e em Óbidos.

O congresso foi o que eu esperava que fosse. Não bastasse o conferencista da abertura “reetir” que a repetição é o que te tirado o interesse dos estudos de Literatura Portuguesa e, naquela ocasião, da Revista Orpheu… a gelada recepção da plateia na sessão de que participei e a falta de tato do coordenador da mesa foram determinantes para uma constatação (ainda que já conhecida): não dá mais. Estavam lá as figurinhas carimbadas, lá estavam também os “papagaios de pirata”. E havia novidade: queles que “performatizam” a leitura de trechos de poemas, como se isso fosse aumentar a dose de seriedade de sua “investigação”. Patético. Enquanto isso, a cidade continuava colorindo-se com o azul e o verde e o arco-íris vegetal que a Primavera começou a trazer uma vez mais ao solo do planeta… tão desolado, tão desrespeitado, tão negligenciado…

Houve surpresas, é claro: o reencontro com Eunice. Ser reconhecido por antigo membro de banca de concurso e não ser aborddo em Inglês ou Alemão pelo comércio do Freeort, um conuunto de lojas “pontas de estoque” que, de ontas, não tinha nada. Os preços nas alturas. deve ser efeito da crise que assola o país e parte da Europa, pra não dizer do mundo. Surpresa financeira também: um restaurante que reputava como bom e barato, simplesmente dobrou seus preços, assim… Até parece o Brasil que se mede o “valor” e a “qualidade” de qualquer coisa pelo preço. “Se é caro, é bom”. Santa ignorância…

O pelicano e o camaroeiro (espécie de rede para pegar camarão) são os símbolos da rainha Dona Leonor (ou Lianor, como no Trovadorismo e sua época). Rainha caridosa, intelectualizada e ativa. Foi na capela de um hospital por ela mandado construir (se não me engano) que foi representada pela primeira vez o Auto de São Martinho de Gil Vicente. Pisei no mesmo piso em que isto aconteceu. Isn’t it something? No piso da rua de pedestres, em Caldas da Rainha, os símbolos da rainha. estilizados, mas lá, presentes. No mesmo espaço em que se podem ver esculturas em cerâmica e em chocolate ou massa comestível (pastelaria) com símbolos fálicos. Uma delícia. Em Óbidos, a exposição sobre a Semana Santa, espetáculo que deve encher os olhos e o coração quando vivenciado de corpo presente. E, acima de tudo, a grande revelação lisboeta da temporada (só pra mim, claro…): o museu do azulejo. Uma COISA! Depois de circular por uma Lisboa absolutamente desconhecida para os “turistas” de plantão (aqueles que saem do navio e vão direto para o El corte inglés. Como se isso fosse sinal de status.

Dessa vez, a correria (chegada de Lisboa e partida para Sevilha) associou-se à minha proverbial preguiça. As fotos estão aí À disposição de quem quiser gastar empo vendo-as. A imaginação de cada um vai ser o guia!

A cúpula Admirando azulejos Altar lateral 1 Altar lateral 2 Altar Mor Altar visto do coro Detalhe escultura 1 Detalhe escultura 2 Entre azulejos Escultura 1 Escultura 2 Imaculada Inscrição Jardim interno do museu Lisboa panorâmica 1 Lisboa panorâmica 2 Lisboa panorâmica 3 Madre de Deus Materiais e técnicas 1 Materiais e técnicas 2 O claustro O fundo da capel O teto Presépio Retábulo 1 Retábulo 2 Retábulo... de ouro! Sala do capítulo Santo António

Doces 1 Nome de rua O início de tudo N.Sra do Carmo N.Sra do Carmo 1 Doces 2 Cmões no Gordão Cerâmica erótica A primeira casa

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Diário coimbrão 39

Subtítulo: curiosidades

Faz pouco tempo que comecei a seguir um blogueiro português (http://themorningwalk.com/). É do WordPress, não sei se é mesmo necessário colocar essa palavra antes. Comecei a segui-lo porque recebi mensagem de que o autor (Tiago Correia) entrou em meu blogue e marcou lá que tinha gostado. Respondi agradecendo e, desde então, comecei a receber informação de cada entrada dele. Frequento, na medida do possível. Tento comentar sempre (coisa que muita gente não faz…). Tenho gostado. Por conta disso, reproduzo aqui o que ele escreveu no dia 21 de Março, anteontem:

“Acordei. Tomo o pequeno almoço. Aula de body pump. Almoço. Café, redes sociais e artigo no blog. Duas horas a fazer o mesmo. Um filme. Jantar. Um bocado de conversa com um cigarro. Mais um episódio de Breaking Bad. Está a ser difícil. Amanhã o mesmo. Depois o mesmo. Gosto de férias. Mas estas não consigo gozar. Muitas mudanças, muitas incertezas. Dúvidas e lamentos. E regresso ao mesmo. Espero. E espero outra vez. Brevemente vai mudar. Nessa altura vou suspirar pelo passado.”

Fiz meu comentário, é claro, dizendo que, mesmo nas férias, as pessoas costumam repetir rotinas. Não as mesmas do “dia a dia”, mas aquelas que se fazem necessárias no período das férias. Disse eu que, acredito, o ser humano é um animal movido a rotinas… Bem… Falando sobre isso em resposta a uma mensagem que recebi, dei de cara com outra mensagem que me remeteu a um assunto inusitado: o conto do vigário. Pasmem… Parece que o autor da “história” é o Fernando Pessoa. Consultei o “Dr. Google” e ele me levou ao texto que reproduzo abaixo, na íntegra. Acredite… se quiser! O sítio de onde reproduzo o texto fica no seguinte endereço: http://armacaodepera.blogspot.pt/2011/09/origem-do-conto-do-vigario-por-fernando.html.

A ORIGEM DO CONTO DO VIGÁRIO, por FERNANDO PESSOA, o próprio.

Publicado pela primeira vez no diário Sol, Lisboa, ano I, de 30 de Outubro de 1926, com o titulo de “Um Grande Português”. Foi publicado depois n’O “Noticias” Ilustrado (edição semanal do Diário de Noticias), Lisboa, ano II, série II, nº 62, de 18 de Agosto de 1929, com o titulo de “A Origem do Conto do Vigário”.


Vivia, há já bastantes anos, algures num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador e negociante de gado chamado Manuel Peres Vigário.
Chegou uma vez ao pé dele um fabricante de notas falsas e disse-lhe:” Sr. Vigário, ainda tenho aqui uma notazinhas falsas de cem mil reis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil reis cada uma”.
“Deixe ver”, disse o Vigário; e depois reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as. “Para que quero eu isso?”, disse; “isso nem a cegos se passa”.
O outro, porém, insistiu; Vigário, regateando, cedeu um pouco.
Por fim fez-se negocio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a dois irmãos, negociantes de gado como ele, o saldo de uma conta, no valor certo de um conto [milhão] de réis. No primeiro dia da feira, em que se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna obscura da localidade, quando surgiu à porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de alguma conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha um pagamento a fazer-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil reis. Os irmãos disseram que não se importavam; mas, como nesse momento a carteira se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem mil réis. Houve então uma troca de olhares entre os dois irmãos.



O Manuel Peres contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem perdeu tempo em olhar para elas. O Vigário continuou a conversar, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria um recibo. Não era costume mas nenhum dos irmãos fez questão.
O Manuel Peres disse que queria ditar o recibo, para as coisas ficarem todas certas.
Os outros anuíram a este capricho de bêbado. Então o Manuel Peres ditou como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, “estando nós a jantar” ( e por ali fora com toda a prolixidade estúpida de bêbado), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, a quantia de um conto de réis, em notas de cinquenta mil réis.
O recibo foi datado, selado e assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e por fim foi-se embora.
Quando, no dia seguinte, houve oportunidade de se trocar a primeira nota de cem mil réis, o individuo que ia a recebê-la, rejeitou-a logo por falsíssima. Rejeitou do mesmo modo a segunda e a terceira. E os dois irmãos, olhando então bem para as notas, verificaram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se à policia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira que o havia colhido providencialmente no dia do pagamento e o havia feito exigir um recibo estúpido.
Lá o dizia o recibo:” um conto de réis “em notas de cinquenta mil réis””. Se os dois irmãos tinham notas de cem, não era dele, Vigário, que as tinha recebido. Ele lembrava-se bem, apesar de bêbado, de ter pago vinte notas, e os irmãos não eram (dizia o Manuel Peres) homens que lhe fossem aceitar notas de cem por notas de cinquenta, porque eram homens honrados e de bom nome em todo o concelho.
E, como era de justiça, o Manuel Peres Vigário foi mandado em paz.
O caso, porém, não podia ficar secreto. Por um lado ou por outro, começou a contar-se, e espalhou-se. E a história do “conto de réis do Manuel Peres Vigário”, abreviado o seu titulo para “o conto do Vigário” passou a ser uma expressão corrente na língua portuguesa.
Fernando Pessoa

Diário coimbrão 38

O brasileiro detido em Timor Leste vai passar por exames para despistar o resultado de doença contagiosa. O texto da notícia era quase literalmente este. O que me chamou a atenção foi o verbo “despistar”. Usamos este verbo no sentido de tirar a atenção, confundir.  iludir, atrapalhar. Aqui ele é usado no sentido de “eliminar”. Num grande círculo semântico, não faz muita diferença, mas…

Já na pensão em que me hospedei em Évora, o aviso na casa de banho (=banheiro, reservado, wc) dizia: “Não deite pensos higiénicos ou outros objectos na sanita”. “Pensos” por papel higiênico é mais que bom.

Foi nessa terra cheia de detalhes mesmerizantes, pela beleza e pela História que guardam, que experimentei dois pratos alentejanos de encher os olhos, a barriga, o coração e a alma: bochechas e cachaço de porco. Pelo nome, pode não parecer bom, mas cada um deveria passar por esta experiência para avaliar. É de comer ajoelhado e até passa mal, como quase passei… Quem mandou eu ter o olho um pouco maior que a barriga, de vezem quando, pelo menos… Uma delícia!

Pois é… Depois de muitos dias sem aparecer por aqui, não quero deixar acumular mais tempo e perder mais detalhes pela fraqueza mnemônica que me acomete, now and than… O périplo dessa vez começou na quarta-feira, assim que pus os pés em Évora. Que cidade encantadora! Conservada em suas muralhas. As que guardam a importância de sua História e a beleza de sua existência: com a comida e o vinho alentejanos incluídos, por suposto. Na sexta-feira, sem fazer nada, passeei pela cidade de Coimbra, uma vez mais, e “descobri” o Palácio de Justiça, com seus painéis de azulejos que contam um pouco da História e, uma vez mais, homenageiam Camões, sobretudo no capítulo excelso do amor proibido de Pedro e Inês. Sim, a de Castro!

As fotos são muitas, falam por si. Vou coloca-las aqui com uma legenda. Os comentários, bem… desta vez, deixo por conta da imaginação de cada um…

Então vamos lá…

A cama verdeNa porta da pensãoVista direita da janela da pensãoVista esquerda da janela da pensãoNa janela da pensão

De cima pra baixo, da esquerda para a direita: a cama verde, eu na porta da Pensão Policarpo (recomendo, apesar de a água quente acabar muito rápido), vista da cidade desde a janela do quarto e euzinho… antes de começar a caminhada do segundo dia.

Altar or da Sé de ÉvoraAs torres da SéClaustro da Sé de Évora 1Claustro da Sé de Évora 2Cúpula da SéDiante das ruínas do temploNo claustro da SéRuínas do templo de Diana à noiteRuínas do templo de DianaRuínas do templo vistas dos LoiosSé de ÉvoraTemplo visto dos LoiosVista à direita da torre da SéVista à esquerda da torre da SéVista ao fundo da torre da SéVista desde o terraço dos LoiosVista do terraço dos Loios

As torres da Sé não são iguais e são três (se se considerar a “cúpula”, que mais se parece uma torre – claro, o estilo “gótico” assim o pedia…) A vista da cidade e linda e “Loios” é o nome pelo qual é conhecida a Pousada e o Palácio que estão no mesmo espaço das ruínas do Templo de Diana (à noite, ele fica, ao mesmo tempo, lúgubre e lindo!). Na verdade, o Palácio é o dos Duques de Cadaval.

Altar mor igreja do SalvadorCâmara Municipal e Igreja do SalvadorCapela Santo CristoIgreja de  Pobre Sr. JesusIgreja de Santo AntãoIgreja dos LoiosLateral da igreja do SalvadorN.Sra. do Rosário na igreja dos LoiosTermas 1Termas 2Termas 3Sobre a igreja do Salvador

De cima pra baixo, da esquerda para a direita: o altar mor da igreja do Salvador e os balcões da Câmara Municipal (onde se encontram as ruínas das termas romanas). Destes balcões foi anunciada a primeira República Portuguesa. O espaço é o “coração” da História e da cidade. Os altares: N.Sra. do Rosário, de Pobre Sr. Jesus e Santo Antão estão cobertos de ouro… de onde mesmo?

ArcoEntrada Colégio do Espírito SantoFaisão no Jradim do ParqueFim de tarde no GiraldoInterior da capela dos ossosPátio do Colégio do Espírito SantoPórtico da capela dos ossosPorto da RaimundoRuínas  Parque da cidadeSobre a capela dos ossosUma viela com ruínas de ÉvoraZé Dias e eu Detalhe do pórtico da capela dos ossos

Há ruínas por todo lado, como o arco bem ao lado da porta do Raimundo, uma das muitas que são parte da muralha da cidade e a do Parque da Cidade, onde vi um faisão, assim… bem à vontade… Do mesmo modo, à vontade, me senti caminhando pelas vielas antiquíssimas da cidade, mesmo quando entrei no majestoso Colégio do Espírito Santo (dos jesuítas) que hoje abriga alguns cursos da Universidade de Évora. “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”, é o que se lê no pórtico da capela dos ossos, que faz parte da Igreja de São Francisco (majestosa, em reforma). Colunas e teto recobertos de ossos para mostrar a quem entra a fugacidade da vida e o destino de toda a humanidade: o pó. Bem haja, São Francisco e sua humildade absoluta! Por fim, uma experiência que todo mundo deve fazer, comer no “Quarta feira”, restaurante de comida regional típica do Alentejo, sob a batuta do José Dias (não é o do Machado de Assis… nem de longe!). Uma revelação por preço mais que módico. O restaurante não tem ementa (=cardápio). O cozinheiro/dono, José Dias, é quem decide o que o cliente vai comer. Isso depende, única e exclusivamente do humor dele. Uma delícia! Divertidíssimo! Vou colocar mais comentários no TripAdvisor.

Cantiga sob um painelInscrição painel 1Inscrição painel 3Jardim interno Palácio de JustiçaPainel 1Painel 2Painel 3Painel camonianoPainel do Palácio de Justiça 1Painel Rainha SantaVitral Palácio de Justiça

Por fim, sem seguir ordem alguma, os instantâneos do Palácio da Justiça de Coimbra (Domus iusticiae). Uma construção portentosa, quase esquecida no trecho final da Rua da Sofia, que está entre as construções que constituem o portfólio da cidade, candidata ao título de patrimônio da Humanidade. Penso que merece. A austeridade arquitetônica propicia a plena realização de sua similar jurídica, enfeitada que é pelos painéis de azulejos com cenas Históricas, curiosidades da cidade, o capítulo  de Inês de Castro (como já referi) e cantigas medievais. Vale a visita, e muito!

E assim se foi mais uma semana. Agora faltam apenas 38 dias! E Sevilha vem aí!

Diário coimbrão 37

Era pra ter sido na sexta-feira. Será que foi porque foi 13? Sexta-feira 13? Dizem que é dia de má sorte. Que não se deve passar embaixo de escada. Trocar de caminho se cruzar com um gato preto. Essas coisas de crendice popular… Vai saber… A minha sexta-feira treze foi muito boa, reveladora, um encanto. Viagem de retorno no tempo. Andei num piso submerso por mais de três séculos e que há quase cinco foi construído… Ui! Antes do tour começar, descendo pela Coimbra medieval, ou “cidade monumental” como chamam aqui, parei para visitar a torre de Almedina. A única sobrevivente dos mais de 700 anos de idade da cidade. O prédio foi restaurado e conta com uma maquete que vai se iluminando ao sabor da narrativa dos fatos da História da cidade. Não fiz nenhuma foto desta porta, porque basta estar on line para acessar o Google e pronto, já está!

Coimbra vista da torreComo era CoimbraDentro da torreVista da torre de Almedina 1Vista da torre de Almedina 2No alto da torre

Pois foi assim… Depois de ter tentado comer o bacalhau com natas n’O casarão, saí a andar pela cidade, aproveitando o dia luminoso, a temperatura mais que agradável e o céu azul, de um azul que eu ainda não vi igual… O Sr. Carlos, dono do restaurante se negou a fazer o tal bacalhau e ofereceu-me outro: Bacalhau a Brás (é feito com ovo e batas fritas. É gostoso, mas fiquei com gosto de quero mais na boca e na alma! Fui ao mosteiro de Santa Clara, conhecido como Santa Clara-nova. Isso porque a história começa no outro mosteiro que ainda está aqui, também chamado Santa Clara, mas desta feita, Santa Clara-velha. Uma coisa mais que esplendorosa. Dona Mor, uma dama da corte em priscas eras, mandou construir Santa Clara-velha, pois ficara viúva e recolhera-se à vida religiosa. Mais tarde, por conta das constantes inundações, já entre os séculos 15 e 17, manda construir Santa Clara-nova. O antigo mosteiro fica então submerso por mais ou menos três séculos, período após o qual é (re)descoberto por escavações já no/do século 20. Hoje o sítio arqueológico é conservado, explorado e cuidado pela Câmara Municipal de Coimbra e uma espécie de ong que leva o nome do Mosteiro. Paga-se uma ninharia (penso que deveria ser mais!) para entrar e usufruir dos espaços: museu, sala de projeção com um documentário sobre a História do sítio, visita às ruínas e um café mais que charmoso em que trabalha a Imê, uma brasileira de Belo Horizonte, já com acentuado sotaque lusitano…. Uma aula de cultura que os atuais “turistas” nem sonham em fazer… Não sabem eles o que perdem, gastando seu dinheiro nos centros de compras ou quejandos… A Rainha Santa fez um milagre destacado: transformou pães em rosas e foi uma mulher de notável caridade e senso comunitário. Diz a “lenda” que ela acordava suas aias no meio da noite e as mandava iluminar o caminho de entrada no palácio para que o rei, seu marido, voltando das “noitadas” (inclusive com outras mulheres), não se perdesse… Vai vendo… Uma santa!

Atar de Santa Clara-novaCaminho para as ruínas de Santa Clara-velhaClaustro Santa Clara-nova 1Claustro Santa Clara-nova 2Fundo a IgrejaIgreja Santa Clara-velhaMaraviçhado com o tempoMuseu de Santa Clara-velhaO caustroRainha Santa IsabelSanta Clara-velha

Em tempo: li hoje no banheiro da Tasquinha da Paulita: “Não jogue papéis ou outros objectos na sanita (leia-se vaso sanitário, privada). Use os devidos recipientes para o efeito (?). Carregue o autoclismo (dê a descarga)”. Delícia!

Diário Coimbrão 36

Acabei de chegar do cinema. Tirei o dia de folga. Pela manhã, fui tentar comprar um laptop num lugar indicado pela supervisora. Eles me olharam como se eu fosse um ET, mesmo eu dando o nome do Dr. António Arnaut (esse nome, aqui, tem peso!), e desconversaram…Claro… Os dois estavam ao telefone e mexendo em computadores, que é o que as pessoas fazem quando não querem atender alguém que abre a porta e atrapalha o equilíbrio ecológico do ócio remunerado… A justificativa foi de que eles só vendem para empresas… Dei meia volta e fiz uma bela caminhada por uma região, ainda nova pra mim, da cidade. Cheguei ao “Dolce Vita”, considerado o shopping mais “in” da cidade… Almocei em um lugar legal, chamado “Ponto Brasil”. Um auto serviço muito bom. Foi nesse restaurante que conheci o vinho Monte Velho… delícia!

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Depois de bem alimentado… filme! As salas de projeção neste centro de compras são muito confortáveis. O som é muito bom. Mas a mania da coca-cola e da pipoca, praga universal, acompanha, infelizmente. Hoje fui ver Teoria de tudo. Uma comovente, em nada piegas, narração da biografia de Stephen Hawking. Até hoje, não havia lido o livro dele. Confesso que é uma das primeiras coisas que vou fazer assim que chegar ao Brasil. Meu acervo de leituras aqui em Coimbra já está completo e vou deixar de ler alguns livros, por decurso de prazo. Gostei do filme. Não vi os demais cujos atores concorreram ao Oscar de melhor ator – como se isso importasse alguma coisa em termos de preferência e gosto –, mas penso que o rapaz que faz o protagonista é um baita ator e consegue captar, do pouco que conheço, o physique du role do físico biografado. Produção austera. Atores de desempenho contido, necessariamente. Música acertada. Uma história emocionante. Vale muito a pena ver…

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Infelizmente, já na hora do almoço, deparei-me, mais uma vez, com essa atitude execrável de deixar comida no prato. Se o restaurante é de auto serviço… pior ainda. Sinal de que a pessoa tem o olho maior do que a barriga, como diz o ditado. De qualquer maneira, há quem acredite que tal “atitude” é sinal de finesse ou elegância à mesa. Ledo engano… pelo menos, pra mim, que sou chato. De qualquer maneira, nos tempos bicudos que correm, deixar comida no prato, seja lá o que isso venha a representar, é, no mínimo, falta de caridade e de consciência cívica…

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Outra dissonância: as pessoas que andam mexendo no famigerado telemóvel (= celular). Ai que coisa mais chata, mais desagradável, mais deselegante, mais estúpida, mais incômoda, mais irritante. Ai. Quando vejo alguém caminhando em minha direção fazendo isso… faço questão de não me desviar. Às vezes, chego mesmo a provocar o encontrão e não peço desculpa. Pra completar, levanto a sobrancelha direita e olho a “pessoa” de alto a baixo, com o máximo de desprezo no olhar… Se e que esse “alguém” vai perceber… Mas sinto-me mais aliviado. Como eu disse… sou um chato…

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Diário coimbrão 35

Voltei à velha Coimbra. Dia lindo. Tarde luminosa. A porcaria da mala já quebrou. Nem inaugurou a primeira viagem de avião. Ai que raiva. Não adianta comprar mala muito cara: os funcionários dos aeroportos a tratam como se fosse pacote de carga… Vou ter que segurar a onda…

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Dias mais que bons em Matosinhos Volta hoje para Coimbra. Temperatura mais que agradável. A mesma carinhosa e divertida recepção de Paulita e Manuel, na tasquinha… Mas o jantar de ontem vai deixar saudades. Não dava quase nada pelo restaurante. Uma casa de comida italiana. Estava com vontade de sair da culinária portuguesa por um dia. Entrei. Fui o primeiro. Fui recebido com um sorriso de orelha a orelha do gajo que lá trabalhava como garçon. Fiz o pedido de uma massa “a la mediterrânea”… Que surpresa! As folhas minúsculas, frescas e delicadas da rúcula, o molho de frutos do mar, os camarões (aqui são gambas) e a massa feita pelo próprio dono do restaurante que estava na cozinha a preparar os pratos: Sergio Crivelli. Uma simpatia. Uma graça. Veio à minha mesa e batemos um papo. Ele é casado com uma brasileira, paulista. Está em Portugal há mais de 35 anos. Uma delícia de pessoa. O vinho da casa era mais que correto. O segundo prato, escalopes… era de comer ajoelhado, rasgar as faces e jogar pimenta. Uma viagem aos céus. Deus… E o tiramisu??? O que é que é aquilo??? Com calda de frutas silvestres… Quase mordi o cotovelo de tão gostoso.

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Depois de um passeio pela praia na tarde ensolarada e quente do sábado em Matosinhos, a noite fria convidava para uma experiência assim… inolvidável…

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Pra completar, a descoberta de duas lendas locais, uma delas narrando a origem do nome da cidade. Perto da praia, uma construção que mais parece um altar, por detrás de uma fonte. O Zimbório. Diz o texto explicativo que esta construção ficava bem no meio do areal, imponente, causando impacto e que ali aconteceu um milagre… Coisa linda de se ver, o cuidado que essa gente tem com seus “marcos”. Não são perfeitos, mas são bem mais cuidadosos…

Continuo na contagem regressiva… 52.

Diário coimbrão 34

O périplo pelas “origens” está chegando à sua conclusão. As origens não são minhas, mas da história de amor entre António Nobre e Alberto de Oliveira. Por que é tão difícil a aceitação desse fato: os dois viveram uma história de amor? A cidade de Leça da Palmeira, onde eu estive hoje pela manhã, é testemunha disso. Não apenas testemunha, mas cúmplice, deu aos dois o nome de uma de suas ruas: Rua dos dois amigos. Em todas as placas, abaixo do nome da rua, segue o nome dos dois: António Nobre e Alberto de Oliveira. Nesta ordem. O mais velho e o mais novo. O sedutor e o seduzido. O mestre/exemplo, o discípulo/seguidor. O espevitado e o tímido. O que morreu cedo e o que morreu mais velho… Os dois… Têm uma rua. Amaram-se, com um afeto de amizade ao qual não se ousava dar nome, mas a cidade reconheceu. E ainda há quem torça o nariz…

Rua dos dois amigos de frenteRua dos dois amigos direitaRua dos dois amigos esquerdaRua dos dois amigos

A matriz da cidade lembra a de Matosinhos. Não tem as capelas com as cenas da Via Crucis por fora, mas está no meio de uma bela esplanada, arborizada e fresca, como o nome de outra ruazinha perdida no centro da cidade mítica… pra mim! Não a fotografei por dentro por puro constrangimento: celebrava-se missa de corpo presente. Muito ouro aqui também, mas só no altar mor…

Rua fresca     Igreja de Leça, antiga Igreja de S. Miguel de Moroça

A antiga casa de veraneio dos dois poetas não existe mais. Segundo informações, hoje está edificada em seu lugar a sede do “Clube Stella Maris” que foi inaugurado a 25 de Novembro de 1961 e  é uma criação do “APOSTOLADO DO MAR” – Obra Internacional Pontifícia da Igreja Católica, com o objetivo de dar assistência social, moral e espiritual aos tripulantes e suas famílias pertencentes às marinhas de comércio e de guerra que demandam o porto de Leixões. Depende hierarquicamente do Bispo da Diocese do Porto e da “Comissão Pontifícia para a Pastoral das Migrações e Turismo” da Santa Sé. Pelas indicações que segui a pé, metro por metro, toda aquela área foi aterrada para a expansão da cidade, plana, aberta, arborizada, e à beira mar. Um convite a todo sonho de fantasia, sonho e paixão…

Busto de Augusto NobreCasarão antigoTravessa dos dois amigosUma casinha antiga

A cidade tem como Corpo Santo, o nome de seu cemitério. É bem próxima de porto de Leixões, um dos mais movimentados em carga da Europa. O maior da “terrinha”. Uma gente simples e, pra variar, majoritariamente mais velha… Há uma travessa com o mesmo nome da rua mítica. Possivelmente, o caminho que levava os dois amigos aos “banhos” e aos passeios de barco, no verão. Casarões antigos e casinhas perdidas no tempo. E, claro, um busto de António Nobre!