Diário coimbrão 31

As duas são belgas. Uma é produzida por trapistas. Outra, por beneditinos. Engraçado… A igreja está visceralmente ligada ao alcoolismo: champagne e cerveja. Pode?! Afonso Cruz acertou na mosca quando cunhou o título de seu livro: Jesus Cristo bebia cerveja. Eita… Pode ter ido coincidência, mas, na volta pra casa, depois de uma breve parada num estabelecimento chamado “O mirandez”, na galeria Mayflower ou será na Primavera?… Ah… deixa pra lá… Tenho a impressão de ter visto luz do fim do mundo. Não que o fim do mundo deva ser um espetáculo com iluminação assinada, digamos, por Ney Matogrosso. Mas a luz… Aquela luz… Na hora, só pensei no fim do mundo. E não há nada de trágico ou de depressivo nisso. Era um rasgão no céu chumbado de água, um clarão, uma rasura… a luz do sol esbatia-se e brilhava como que lutando contra as garras das nuvens que insistiam em mantê-lo ali, preso. O raio… Saiu a luz… A luz do fim do mundo. Há que dizer que, a parada n’O mirandez serviu para experimentar as duas cervejas belgas a que me referi, ainda que implicitamente, no iniciozinho desta postagem… Ai que preguiça de quem usa post… Poish… As cervejas se chamam Maredsous e Trapistes Rochefort, respectivamente: amarga e doce. Encorpada e elegante. Espevitada e senhora de si. Uma experiência a se fazer de joelhos, rezando… Claro, foram monges a fabricá-las, as duas!!!Uma delícia… Pra rebater, um chazinho de limão, com mel e gengibre. Ajuda a fortalecer o sistema imunológico…

sem nome (3)sem nome (4)

Ontem foi da de show. Show de música brasileira, cantora brasileira: Adriana Calcanhoto. Uma delícia. Ela rateou no começo (nervosismo?) cantando em dissonância com seu violão boa parte do primeiro número. Um standard, depois, três inéditas. E a catarata de sucessos ganhou o espaço e a deixou solta, linda, senhora de si, com direito a comentários e facécias… afinal, como ela mesma disse, era a primeira vez de um convite para uma festa de aniversário de 725 anos… Evoé, Universidade de Coimbra!

sem nome (2)

De quebra, três parágrafos de um autora de que já tinha ouvido falar, obviamente, mas que só vim a ler, de fato, aqui: Agustina Bessa-Luis. As pessoas felizes. Lisboa: Guimarães, 1975.

A guerra. Abriu uma negra flor no coração dos portugueses, e eles aguardaram que ela crescesse e murchasse. As lágrimas com que a regavam não se viam, mas cavaram sulcos nas terras, e elas secaram. Não a força das coisas, mas uma perseverança como um castigo, chamou à guerra um dever pátrio, um socorro às linhas mestras da História, um vagalume de expiação sobre a paz vivida.  (p. 161)

O Porto é rude como a rocha onde tem alicerce. Não se esqueça de que o Porto é  estação terminal do Douro, a região mais violenta de Portugal. Violenta porque carrega a miséria com o desprezo. Lá, a pobreza vexa mais do que fere o corpo. O homem e a mulher do Douro têm uma qualidade, que é não serem caninos, não se inclinarem às côdeas que vêem o patrão comer. Nos seus olhos e na sua carne, há a imunização à carreira do que sobe na vida e é promovido. Ainda há pouco tempo, o homem do Douro nascia na vinha e morria no saibramento.

No Porto, grande parte da sua gente, se não fosse o sangue inglês que lhe dá às vezes um perfil marítimo, era feita como trovões. O mesmo acontece no Douro. Miguel Torga localizou na estação do caminho de ferro da Régua a pátria resumida da fealdade. Pois será. A beleza é uma questão de densidade atmosférica e de equilíbrio entre a razão e o gesto. A máscara responde ao rito. Pois será. (p. 178-179)

O que aconteceu ao Porto foi que teve demasiados escritores inscritos no quotidiano, e poucos com correspondência na eternidade. Estes são os humilhados, os que são atraídos entre a lisonja e a verdade, entre o riso do bufão e a ciência do mago, entre a simples balada do mensageiro e a via do isolado social. (p. 182)

sem nome (2)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s