Diário coimbrão 45

Subtítulo: a hora que chega

Pois é… Os cento e oitenta dias estão se esvaindo. Faltam apenas 8 deles. Ontem, jantando com Ana Paula em sua casa (a gente morre de rir quando eu a chamo de minha supervisora), comentei isso. Como passou rápido. Quantas coisas eu vi, senti, pensei, fiz, deixei de fazer… Quantas pessoas e lugares conheci. Uma experiência como tantas outras que vão ficar marcadas indelevelmente ainda que um dia (esse dia chega e a gente não pode evitar) eu não me lembre de muita dessas coisas…

Fazendo um pouco de hora, percorri as páginas mais inusitadas da internete e me deparei com uma série de videoclipes de Maria Bethânia. Dentre eles, um me chamou particularmente a atenção. Ela declama um poema, com todas as suas idiossincrasias de atriz (quase mais atriz que cantatriz) e, no final, diz: “Carlos Drummond de Andrade, 1977”. Fui à busca e aí está ele. Falar de atualidade, nesse caso, é chover no molhado. Ensopem-se!

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Águas e Mágoas do Rio São Francisco

Está secando o velho Chico.
Está mirrando, está morrendo.
Já não quer saber de lanchas-ônibus
nem de chatas e seus empurradores.
Cansou-se de gaiolas e literatura encomiástica e mostra o leito pobre,
as pedras, as areias desoladas
onde nenhum minhocão
ou cachorrinha-d’água,
cativados a nacos de fumo forte,
restam para semente
de contos fabulosos e assustados.

Ei, velho Chico, deixas teus barqueiros
e barranqueiros na pior?
Recusas frete em Pirapora
e ir levando pro Norte as alegrias?
Negas teus surubins,
teus mitos e dourados,
teus postais alucinantes de crepúsculo
à gula dos turistas?
Ou é apenas seca de junho-julho
para descanso
e volta mais barrenta na explosão
da chuva gorda?

Já te estranham, meu Chico. Desta vez,
encolheste demais. O cemitério
de barcos encalhados se desdobra
na lama que deixaste. O fio d’água
(ou lágrimas?) escorre
entre carcaças novas: é brinquedo
de curumins, os únicos navios
que aceitas transportar com desenfado.
Mulheres quebram pedra
no pátio ressequido
que foi teu leito e esboça teu fantasma.

Não escutas, ó Chico, as rezas músicas
dos fiéis que em procissão
imploram chuva?
São amigos que te querem,
companheiros que carecem
de teu deslizar sem pressa
(tão suave que corrias, embora tão artioso
que muitas vezes tiravas
a terra de um lado e a punhas
mais adiante, de moleque).
É gente que vai murchando
em frente à lavoura morta
e ao esqueleto do gado,
por entre portos de lenha
e comercinhos decrépitos;
a dura gente sofrida
que carregas (carregavas)
no teu lombo de água turva
mas afinal água santa,
meu rio, amigo roteiro
de Pirapora a Juazeiro.
Responde, Chico, responde!

Não vem resposta de Chico,
e vai sumindo seu rastro
como rastro da viola
se esgarça no vão do vento.
E na secura da terra
e no barro que ele deixa
onde Martius viu seu reino,
na carranca dos remeiros
(memória de outras carrancas,
há muito peças de living),
nas tortas margens que o homem
não soube retificar
(não soube ou não quis? paciência),
de pontes sobre o vazio,
na negra ausência de verde,
no sacrifício das árvores
cortadas, carbonizadas,
no azul, que virou fumaça,
nas araras capturadas
que não mandam mais seus guinchos
à paisagem de seca
(onde o tapete de finas gramíneas,
dos viajantes antigos?),
no chão deserto, na fome
dos subnutridos nus,
não colho qualquer resposta,
nada fala, nada conta
das tristuras e renúncias,
dos desencantos, dos males,
das ofensas, das rapinas
que no giro de três séculos
fazem secar e morrer
a flor de água de um rio.

Carlos Drummond de Andrade, “Discurso de Primavera e Algumas Sombras” – 1978

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2 respostas para “Diário coimbrão 45”.

  1. Drummond! Sempre fui fã desse poeta/cronista, embora ele tenha morrido no ano em que nasci.

  2. Drummond é um sucesso. Alguns poemas dele não posso comentar. Em sala de aula já paguei mico chorando por conta deles…

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