Decepção–segunda parte

Segue a segunda parte do texto que comecei a publicar ontem…

Bom final de semana para quem ler!

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Momento 2

António Nobre escreve a Alberto d’Oliveira, em 24 de Outubro de 1890. Ele está a caminho de Paris a bordo do navio Britannia. Vale lembrar que o estado de espírito de Nobre não era dos melhores. Por um lado, havia sido reprovado por duas vezes seguidas nos exames em Coimbra, não podendo conseguir aí o diploma de Bacharel em leis. Por outro, a separação do “amigo mais querido”[1], que ficou em terras portuguesas, o que criou o horizonte de expectativas das cartas que trocaram. Desta carta, destaco a seguinte passagem:

(…) sois, talvez, gêmeos, mas não sois com certeza patrícios, por que o teu corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite, foi batizado na concha de pedra da Igreja de Santo Ildefonso, o desse monstro do Britannia, sólido e negro, tem o seu nascimento arquivado, nalguma babilónica oficina de Liverpool. Contudo, há esta coincidência mas eu não consinto que a tua pilinha-morango, toque nem de leve o vergalho deste paquete. (CASTILHO, G., 1982: 116)

O poeta faz, neste passo da carta, uma comparação entre o navio em que viaja e o corpo de Alberto de Oliveira. Uma comparação reveladora. Para além disso, muito além aliás, a carta apresenta uma série de três pares comparativos constituídos pelo poeta “da torre”, envolvendo seu amigo e o navio em que viajava. O primeiro par aponta para a coincidência entre o ano de nascimento de Alberto de Oliveira e o de inauguração do Britannia, 1873[2]. São “gêmeos”, como diz Nobre, apesar de nacionalidades diferentes. Dada a particular oscilação de António Nobre em relação a seus sentimentos quando se trata dos ingleses, de cara, evidencia-se a preferência pela própria identidade cultural, o que vai ficar cada vez mais evidente nos pares comparativos seguintes.

Na primeira assertiva do segundo par comparativo, António Nobre opõe “o corpo de Purinho, desengonçado e cor de leite” a “monstro do Britannia, sólido e negro”. Os adjetivos em contraposição explícita revelam dobras semânticas insuspeitadas, quando observados/lidos sob a o enfoque da lente do homoerotismo: “desengonçado” opõe-se a “sólido”, deixando entrever a delicadeza do afeto que aproxima e une os dois poetas, não sem deixar entrever a intimidade física entre eles. O sentido dicionarizado de “desengonçado”, aqui, é abandonado para ceder espaço a uma acepção envolvida por afeto, carinho, que ressalta, ainda uma vez, a delicadeza da relação já referida. Na sequência, “cor de leite” opõe-se a “negro”. O cromatismo, em primeira instância, apela para a dicotomia totalidade/nulidade se se considerar o pressuposto da Física, que apresenta o branco como a presença de todas as cores e o negro como a sua ausência. Daí para a simbologia que as duas cores ensejam e sustentam é um passo: a pureza e a sujidade, a inocência e o vício, o dia e a noite, o permitido e o condenado.

Num breve excurso a esta argumentação, cabe destacar a brancura referida pelo poeta sem sua comparação. Isto porque, em outras alturas da correspondência, há referência ao leite como líquido de celebração da amizade afetuosa partilhada por António Nobre e Alberto de Oliveira: torna-se quase um ícone. Ora, se o caráter simbólico for aqui (também) viável, seria aceitável associar a substância do leite como elo que traz à tona o sêmen, muitas vezes identificado terminologicamente à mesma substância. Esta inferência coloca-se a anos luz de distância de qualquer insinuação de sodomia/pederastia, como variante (ainda que possível) do pacto homossocial estabelecido, mesmo que inconscientemente. No diapasão desta nota, a Psicanálise dá o tom, fazendo com que a plausibilidade da associação seja respaldada pelo axioma lacaniano que toma a linguagem como modus operandi do inconsciente.

A segunda assertiva da mesma comparação aponta para outra dicotomia: sagrado/profano. A “concha de pedra de Santo Ildefonso” é o par opositivo de “nalguma babilónica oficina de Liverpool”. Ora, a “concha de pedra” opõe-se à “babilónica oficina”. A primeira recebe, aconchega, acolhe; a segunda produz, apresenta, lança. O adjetivo “babilónica” é o significante que dispara o discurso comparativo de oposição entre o sagrado e o profano. De mais a mais, a mesma oposição serve para reforçar o caráter afirmativo da valorização do relacionamento entre os dois poetas, conforme atestado nesta correspondência. Uma vez mais, por vias transversas, o pacto homossocial é celebrado.

Por fim, o terceiro par comparativo. António Nobre renega a identificação completa entre o navio e seu amigo: a “pilinha-morango” é oposta ao “vergalho”. Pila é substantivo comum que pode ser sinônimo de pênis, sobretudo coloquialmente. Este significado coloquial se aplica também a “vergalho”. O diminutivo do primeiro aprofunda o sentimento carinhoso e delicado devotado pelo autor da carta a seu amigo. A força fonética do segundo termo confirma a ideia representada pelo navio nas comparações feitas por António Nobre.

O “sabor” da comparação – no sentido barthesiano deste substantivo – não deixa de ser sugestivo: assim, “morango” funciona como índice identificador, uma espécie de predicativo do sujeito. Por um lado, a delicadeza da fruta que se revela no adocicado e no líquido associados ao paladar e, por outro, a cor que identifica, indiretamente, a “adolescência” de Alberto de Oliveira; ratificando, uma vez mais e definitivamente, a delicadeza percebida, devotada e celebrada na/pela relação entre os dois poetas.

Ponto quase final

Uma pergunta caberia aqui: como associar estas linhas ao que representou a revista Orpheu em seu tempo de aparecimento e seu legado? Acredito que a resposta pode ser simples. O primeiro número da revista traz uma “introdução”, de autoria de Luis de Montalvor que pode servir de ponte para a(s) outra(s) possível(is) resposta(s) à questão final que coloco. No sentido de ser veículo de mudança, diz o autor do texto da “Introdução” que a revista “propondo-se, vincula o direito de em primeiro lugar se desassemelhar de outros meios, maneiras e formas de realisar arte, tendo por notavel nosso volume de Beleza não ser incaracteristico ou fragmentado, como literarias que são essas duas formas de fazer revista ou jornal.” Já aqui a nota da diferença na manifestação de certo espírito iconoclasta é perceptível.

Mais adiante, diz Montalvôr que “Puras e raras suas intenções como seu destino de Beleza é o do:—Exilio! Bem propriamente, ORPHEU, é um exilio de temperamentos de arte que a querem como a um segrêdo ou tormento…”. Nas reticências que fecham este período e em seu conteúdo, percebe-se uma das notas que marcam os comentários acerca dos trechos de carta aqui feitos – sobretudo ligadas aos termos “segredo” e “tormento”. “Isto explica nossa ansiedade e nossa essencia!”, continua Montalvôr, reafirmando o que eu já afirmei aqui.

De mais a mais, a julgar pelo que Fernando Pessoa diz acerca dos poemas que desejou publicar no número 3 da revista e o que António Nobre exara nas linhas de uma carta, já saudosa ainda que em princípio de viagem, o espírito de Orpheu, a revista, remete ao incurável sofrimento de Orfeu, o mito, deixando os sujeitos alienados de seu desejo, mas ansiosos por sua satisfação. A expressão artística pode ser considerada um dos instrumentos de concretização desta mesma satisfação.

De uma forma ou de outra, o que resulta como elemento estrutural para a resposta à pergunta acima mencionada é o fato de que o caráter homoerótico que atormenta, tanto a voz heterônima de Fernando Pessoa, quanto a agonia em êxtase da saudade de António Nobre, no contexto da virada de século em Portugal, só se faz possível, acredito eu, com o auxílio mais que luxuoso da publicação de Orpheu. As cartas, ao fim e ao cabo, funcionam como uma das “pontes”, como prenunciado no título desta comunicação.

Sintomaticamente, a revista não enseja realizar todos os seus desejos, enquanto expressão da busca de solução para impasses e dificuldades no âmbito da produção artístico-cultural lusitana. O mito, de certa forma, sobrepõe-se à publicação. Esta falece… números depois de publicada por primeira vez. O encontro de Orfeu e Eurídice deu-se, segundo um dos relatos do mito, após a morte do poeta. Em certa medida, a liberdade e a efetividade da discussão dos temas aqui expostos são o sinal do falecimento da publicação em sua materialidade, mas da permanência em seu ideário e na herança cultural – no sentido mais amplo deste termo – de suas proposições eternizadas, por exemplo, nos trechos aqui apresentados, ainda que de maneira sumária.


[1] Coloco a expressão entre aspas, não porque alguém a tenha citado – e creio que tenha sido – mas porque é usada aqui e ali, e por mim mesmo, para identificar Alberto de Oliveira.

[2] Na verdade, trata-se do ano de naufrágio do navio que foi inaugurado dez anos antes. Pode ter sido uma gralha na edição das cartas. Como não tive acesso ao original – dado que não constitui objeto primordial de minha investigação – levo a cabo a informação obtida na internete: http://en.wikipedia.org/wiki/SS_Britannia, acesso em 10/02/2015.

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Decepção

Era 25 de Março. Não a famigerada rua da cidade de São Paulo. A equivalente da “Saara” carioca… Não. Era a data mesmo um mês antes do dia de comemoração da Revolução dos cravos. Era 25 de Março, em Lisboa, nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian (lindas!). Tudo parecia correr bem. Eu tinha escrito o texto com prazer, Escrevi de forma a criar situações de ambiguidade, como a querer provocar a audiência. Eu ainda acreditava que haveria uma… O garoto que coordenava a mesa atrasou seu início. A desculpa foi a espera de um “figurão”. Não veio o dito cujo. Ao invés e começar e dar mais tempos para nós dois, os outros componentes da mesa… Não… O “garoto” resolveu restringir-se aos protocolares vinte minutos de apresentação como se a distinta “plateia” fosse se animar a perguntar alguma coisa. Ó decepção. Ninguém perguntou nada e ficou tudo por isso mesmo. Mas não me dou por vencido e vou publicar o texto. Não sei quando, mas vou. Enquanto isso, deixo aqui a primeira parte. A segunda vem amanhã…

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Alberto, Orpheu, Álvaro: pontes

José Luiz Foureaux de Souza Júnior

(Universidade Federal de Ouro Preto / Universidade de Coimbra / Capes)

Este trabalho tem como objetivo construir pontes para ligar as relações de amizade de dois poetas portugueses do final do século XIX: António Nobre e Alberto de Oliveira. O ponto de partida é a leitura da correspondência de António Nobre (totalmente publicada). Nessa correspondência, aparecem indícios de que em cartas escritas por seu amigo, Alberto de Oliveira, laços estreitos até de amizade íntima que vai além do intercâmbio intelectual e literária entre ambos. A leitura é amparada pela perspectiva de “pacto homossocial”, como apresentado por Eve Sedgwick Kosofski em seu livro Between men. O trabalho se encaixa no âmbito alargado dos estudos de Literatura Comparada, sobretudo os circunscritos à Estética da Recepção, o que corresponde a análise e renovação de exercício crítico de releitura a partir de gêneros literários diversos como a epistolografia de escritores representativos.

Palavras-chave: Recepção; Leitura; Poesia; Homoerotismo; Literatura Portuguesa

A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.

Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra

Considerei subscrever esta comunicação ao tema “O legado de Orpheu” por acreditar que, de fato, a epistolografia exigiria um recorte muito estreito para as possibilidades que vislumbro a partir do processo de investigação que venho desenvolvendo e que envolve a correspondência de António Nobre e Alberto de Oliveira. Na visada retrospectiva que proponho aqui, esta correspondência é o ponto de chegada de minhas elucubrações. O ponto de partida é o conjunto de considerações que faço a partir de um trecho de carta escrita por Fernando Pessoa, passando por considerações acerca de abordagem panorâmica do conjunto de propostas da Revista Orpheu, em seu primeiro número.

Orfeu, filho da musa Calíope e Apolo ou Eagro, rei da Trácia, poeta talentoso. Quando tocava sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens perdiam o medo, as árvores se curvavam para pegar os sons no vento. Um dos argonautas, salvou os demais tripulantes quando seu canto silenciou as sereias. Apaixonou-se por Eurídice. Casou-se com ela. Mas Eurídice era tão bonita que, pouco tempo depois do casamento, atraiu um apicultor chamado Aristeu. Quando ela recusou suas atenções, ele a perseguiu. Tentando escapar, ela caiu, pisou numa serpente que a mordeu e morreu. Orfeu ficou transtornado de tristeza. Levando sua lira, foi até o mundo inferior, para tentar trazê-la de volta. A canção pungente e emocionada de sua lira convenceu o barqueiro Caronte a leva-lo vivo pelo rio Estige. A canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Seu tom carinhoso aliviou os tormentos dos condenados. Encontrou muitos monstros durante sua jornada e os encantou com seu canto. Finalmente, Orfeu chegou ao trono de Hades. O rei dos mortos ficou irritado ao ver que um ser vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Perséfone, implorou-lhe que atendesse o pedido de Orfeu. Assim, Hades atendeu seu desejo. Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos, sob uma única condição: que ele não olhasse para ela até que estivessem sob a luz do sol. Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração enquanto caminhava, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele então quase no final do tenebroso túnel olhou para se certificar de que Eurídice o acompanhava e não a viu. Hades e Perséfone os seguiam e, como ficou estabelecido que ele não poderia olhar para Eurídice até chegar ao fim do túnel, Hades a tomou novamente. Em desespero, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo lembrar-se da perda de sua amada. O Orfismo, comportamento ambíguo de aconselhar sem poder usufruir do próprio conselho, vem daí, ao que parece. Orfeu morre sob a fúria das Mênades que o mataram a golpes de dardo, jogando seu corpo no Hebro, aos pedaços e, ainda assim, cantando. As nove musas reuniram os pedaços de Orfeu e o enterraram no monte Olimpo. Na morte, Orfeu se uniu a Eurídice.

Uma lição, dentre outras, que fica do enredo do mito pode ser a da ideia de desejo que persiste, mesmo em condições nada viáveis, o que reforça sua própria natureza. De índole instintual, o desejo não escolhe data e local, cor ou textura, preferência ou circunstância. Ele está ali e, se a mão de Lacan não conduz a erro, é pela linguagem que ele se manifesta de maneira mais contundente. Para além disso, é talvez na e pela linguagem poética que essa contundência atinge foro de intransponibilidade. Há que ressaltar que, de maneira genérica, estou considerando a carta como texto poético, em seu sentido mais largo – o que é discutido por Sophia Angelides e Marie-Claire Grassi, por exemplo. Tópico este que vou tomar como pressuposto, por questão de tempo.

Outra lição é a da sedução. Fenômeno ou processo – dependendo do direcionamento que a utilização desse conceito segue – fica claro que o canto de Eurídice seduz pela beleza, quebrando todas as resistências. Esta sedução, acaba por fazer com que o poeta, por ansioso que estava, deixe de cumprir o que mandou a divindade e se vire para, ele também seduzido pelo desejo, tentar ver sua amada. O vaticínio se cumpre. Ele perde de vez a chance de voltar a viver com Eurídice. O encontro só acontece na morte, o que pode causar certas diferenças interpretativas muito instigantes que também serei obrigado a deixar de lado aqui.

Num e noutro caso, o relato do mito me leva a pensar no destino da revista Orpheu como proposta estética de revolução, mudança, renovação. Para tanto, farei uma pequena digressão sobre dois trechos de cartas que, a meu ver, ilustram o espírito anunciado pela letra de Orpheu, em seu nascedouro. Atente-se para o fato de que se trata aqui de apresentação sumária e introdutória, um projeto, que vem sendo desenvolvido e que deseja encontrar satisfação em sua demanda.

Merecem ainda destaque duas expressões presentes no relato do mito. A primeira, “trilha íngreme que levava para fora do escuro”, é expressão que pode remeter a uma leitura do perímetro afetivo que circunda a correspondência entre António Nobre e Alberto d’Oliveira – uma das consequências da abordagem aqui apresentada. Esse perímetro só pode ser desenhado por conta da “abertura” que a revista propunha ensejar no cenário cultural português, quando de seu aparecimento. A segunda expressão, “comportamento ambíguo de aconselhar sem poder usufruir do próprio conselho” pode remeter a uma análise do fim da revista, por todos os motivos que se lhe possam atribuir, sem destaque para nenhum. O caráter “ambíguo” marca de novo o direcionamento do olhar homoerótico que é utilizado para ler os trechos de cartas aqui arrolados.

Momento 1

Mário de Sá-Carneiro se mata, em Paris, no dia 26 de Abril de 1916. Fernando Pessoa, apesar disso, não desistiu do terceiro número de Orpheu. Em 4 de Setembro desse ano, escreveu a Côrtes-Rodrigues que a revista deveria sair ainda nesse mês:

Vai sair Orpheu 3. É aí que, no fim do número, publico dois poemas ingleses meus, muito indecentes, e, portanto, impublicáveis em Inglaterra. Outra colaboração do número: Versos do Camilo Pessanha (a propósito não cite isto a ninguém), versos inéditos do Sá-Carneiro, A Cena do Ódio do Almada-Negreiros (que está actualmente homem de génio em absoluto, uma das grandes sensibilidades da literatura moderna), prosa do Albino de Meneses (não sei se v. conhece) e, talvez, do Carlos Parreira, e uma colaboração variada do meu velho e infeliz amigo Álvaro de Campos.

Orpheu 3 trará, também quatro hors-texte do mais célebre pintor avançado português – Amadeu de Sousa Cardoso.

A revista deve sair por fins do mês presente. Para a mala que vem já lhe poderei dar notícias mais detalhadas. (PESSOA, F., 1999: 220-221)

Neste trecho, desejo destacar a informação de que Fernando Pessoa tenciona publicar o que ele chama de “dois poemas ingleses meus, muito indecentes”. Sabe-se que acabaram por aparecer publicados alhures. Mas Álvaro de Campos, um de seus heterônimos, afirma ser, ele mesmo um caso de “temperamento feminino” que conta “com uma inteligência masculina”, em uma de suas páginas íntimas. Isto quer dizer alguma coisa. A frase implícita, de sabor poético, não pode ser lida como simples retórica. Já em algumas Odes, o engenheiro naval se considera “uma inversão sexual frustre”.

Interessante a afirmação de Pessoa. Por que os poemas são impublicáveis em Inglaterra mas o podem ser em Portugal? Guardadas as devidas proporções, pensar o contrário pareceria muito mais plausível. Pareceria, não fosse a afirmativa feita sob a égide da revista Orpheu que, entre outras coisas, a seu modo, propunha a quebra de grilhões estéticos, sociais e (até) morais, vindo a ensejar novos horizontes de expectativa para a Literatura Portuguesa no início do século 20. A referência a Almada Negreiros aqui é, a meu ver, mais uma confirmação inconteste do espírito que animou a publicação. De qualquer maneira, salta aos olhos a referência ao heterônimo: “meu velho e infeliz amigo”!

Álvaro de Campos revela certa avidez recalcada por evadir-se em seu desejo não satisfeito como nos versos “Eu podia morrer triturado por um motor / Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída”. Na “Saudação a Walt Whitman”, em lugar do acento social que Garcia Lorca teria empregado, o heterônimo atesta uma semelhança entre seu desejo ainda indizível e o do “grande pederasta” saudado, revelando uma “vontade (…) / De ser a cadela de todos os cães e eles não me bastam”. O requinte de Campos é mais uma vez a chancela do recalcamento que o sufoca, e a outros sujeitos de então.

Na voz poética de Álvaro de Campos, particularmente na “Ode Triunfal” e na “Ode Marítima”, vemos encenada a emergência desse novo modelo de masculinidade, estabelecida sobre a crise dos valores sociais e estéticos portugueses e europeus – haveria melhor argumento para a “realização” do projeto órfico (em dois dos sentidos do termo) que a revista protagoniza e leva à concretização nos números publicados? Nesses poemas, se concentra um novo sujeito homoeroticamente manifesto: ele não quer ser mulher, como em “Manicure”, de Sá-Carneiro, mas quer ver-se tomado, possuído pela força da masculinidade, não representada por si mesmo, mas pelo mundo moderno. Mais uma vez, o espírito vanguardista e revolucionário, para não dizer transgressivo da revista, se explicita.

Capa da revista orpheu n. 2

Amizade e talento

Uma amiga muito querida, Andreia, pediu-me um texto. Ela vai fazer uma exposição (mais uma!) com seus últimos trabalhos de “intervenção”. Peças de roupa usadas por pessoas conhecidas dela, por ela, são matéria prima para ela criar objetos, no mínimo, inusitados. Ela escreve contos e crônicas. Tem um romance inédito que pode abalar certas estruturas. É poeta e artista plástica. Fundou, com mais três amigos – eu os chamo de os quatro cavaleiros do meu apocalipse – um movimento artístico-cultural ao qual deram o nome de Aldravismo. Têm uma editora. Criaram uma academia – a ALACIB – Academia de Letras, Artes e Ciências do Brasil, considerada de utilidade pública, pela Prefeitura Municipal de Mariana, sua cidade sede. Criou o projeto “Poesia viva – a poesia bate à sua porta”, premiadíssimo, que provoca a curiosidade pela leitura, distribuindo livros – sobretudo de poesia – pelas casas de Mariana-MG e arredores. Mariana, as minas de ouro, inconfidentes… está explicitado o “espírito da coisa”: liberdade. Escrevi o texto e ela autorizou-me a publicar aqui. Lá vai…

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Tarefa difícil a de falar algo de que se gosta. Talvez seja mais difícil ainda falar de algo de que não se gosta. Por outro lado, falar de alguma coisa ou de alguma pessoa que não seja eu mesmo ou que não seja de minha lavra pode ser tarefa generosamente fácil. Pelo sim, pelo não, proponho aqui um jogo. Um jogo que conta com quatro passos antes de chegar a seu ponto final: a observação. Mais interessante que o jogo é o que se observa ao seu final: uma exposição de arte. Expressão genérica. Pode abarcar uma infinidade de possibilidades. Aqui, ela se reduz a uma. E isso não é pejorativo. Uma exposição de peças produzidas a partir de outras. Modificação operada por uma artista num mundo contíguo ao seu: o das roupas. Contíguo porque ela se veste. Mais contíguo porque ela não vestiu as peças de roupa que usa em sua produção. Ainda um grau mais denso de contiguidade: são peças de vestuário usadas por pessoas com quem ela teve contato. Ela quem? Andreia Aparecida Silva Donadon Leal. Este o nome da artista aldravista que agora expõe mais uma faceta de seu já consagrado trabalho. O jogo que proponho, então, consta do seguinte: a leitura de quatro passos que seguem para chegar à exposição. A leitura, tanto quanto possível, deve ser feita antes da observação, da visita à exposição. Isso tem um motivo que declino do direito de exarar. Saber que objetivo é este é também parte do jogo que proponho. Aos passos então.

Passo 1

Todas as criações humanas possuem o “dedo”, um pouco da genialidade de outras pessoas das quais talvez nem se saiba o nome, o que dizer da existência. A criatividade, por mais louca e ilógica que possa parecer, necessita obrigatoriamente de conhecimento e repertório seja ele visual, olfativo, auditivo ou de qualquer outra forma para que possa realizar sua função principal, criar. Logo, na maioria das vezes, passa a agir apenas como uma reorganização de memórias, inspirações, repertório e bagagem cultural. A que ponto dessa reorganização de ideias a criação passa a ser autoral/original? Como chegar ao ponto de ser totalmente original? É possível criar algo sem nenhuma referência?

Passo 2

Roupa é peça ou conjunto de peças de vestir: traje. Pode significar também qualquer tecido que sirva para adorno, cobertura etc. Ou ainda, qualquer peça de tecido de uso doméstico.

Passo 3

Intervenção: ato de intervir. Em um debate, equivale a emitir opinião, contribuir com ideias (próprias ou alheias). Na rubrica “direito constitucional” é o instituto legal que autoriza o governo central de uma federação a intervir em uma de suas unidades para evitar ou repelir grave perturbação da ordem. Na rubrica “direito internacional público” significa a violação da soberania de um Estado independente. No âmbito do direito comercial é o ato pelo qual uma pessoa aceita ou paga um título cambial de outrem levado a protesto. Se a criação implica atitude, ação, um ato qualquer, logo, é uma espécie de intervenção.

Passo 4

Uma doença romântica, a originalidade. Em todo canto a gente vê a originalidade de idiotas incompetentes, eles não conseguem desenhar nada, pintar nada, só para que seja original a porcaria que muita gente faz… A originalidade é requisito essencial na demarcação do objeto protegido pelos direitos de autor. José Régio, poeta português, diz que “Em Arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos demais, (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como é falsa toda a originalidade calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas – mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre outras qualidades, o produto desses temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afectadas, semelhantes qualidades não passarão dum truque literário.” Jorge Steiner, influente intelectual francês, escreve que “Arte, música e literatura significativas não são novas, como são, como se esforçam por ser, as notícias dadas pelo jornalismo. A originalidade é antitética à novidade. A etimologia da palavra alerta-nos. Fala de ‘início’ e de ‘instauração’ de um regresso, em substância e em forma, ao início. Diretamente relacionadas com a sua originalidade e com a sua força de inovação espiritual-formal, as invenções estéticas são ‘arcaicas’. Trazem em si o pulsar de uma fonte distante.” A determinação da originalidade tenta se revestir de caráter objetivo: considera-se novo o bem imaterial que difere dos que já fazem parte do fundo comum da cultura, ciência ou técnica, dependente, na maior parte dos casos, de comprovação de anterioridade mediante certificado de registro na instituição apropriada. A “marca da personalidade do autor”, e diversos recursos estilísticos comuns a movimentos artísticos, portanto empregados por diferentes indivíduos em diferentes obras, tornar-se-iam subitamente muito perigosos para o artista, que se veria obrigado a lançar mão de inovações despropositadas a fim de expressar sua personalidade e assim garantir seus direitos em relação à própria obra. Segundo o exemplo clássico de Desbois, dois pintores que escolham representar o mesmo local, na mesma perspectiva e com as mesmas cores terão como resultado final duas obras originais. Evidentemente, exclui-se a possibilidade, na esteira dessa teoria, de qualquer análise de mérito artístico da obra: a criação (termo intercambiável, aqui, por “execução”) torna-se critério suficiente para a verificação da existência de originalidade.

Observação

Dito isto, podemos então passar à conclusão do jogo: saborear a exposição. Antes, ainda me demoro em algumas elucubrações. Diz a própria artista: “A transformação das vestimentas: representam os corpos que as vestem. A peça de roupa não serve mais para vestir (na sua concepção natural de manufatura) e sim para representar o homem e a mulher numa concepção virtual, transformada, metonímica e deliberadamente artística.Peças de roupas (a maioria das peças é de pessoas falecidas): vestido de Ephigênia– senhora que faleceu aos 99 anos de idade, levou uma vida dedicada à criação de filhos dos outros, e louvor à Nossa Senhora, solteira, morreu em janeiro de 2015, para mim deveria ser proposto um título de beata à senhora. Paletó de Maurício Baptista (meu tio) – falecido há três anos, vítima de demência (mal de Alzheimer), paletó usado em seu casamento, há cerca de quarenta anos. O mecânico foi abandonado, o irmão mais velho e sobrinhos cuidaram dele. Os braços fechados do paletó representam uma camisa-de-força. Boné de Zé Rosa – pedreiro, famoso pela humildade, foi grande homem no crescimento de Mariana, tem obras que hoje estão restauradas. Talvez ninguém saiba que foi ele quem construiu o cemitério dos Bispado e outras obras. Participou de muitas romarias que fazia para Aparecida do Norte.  Blusa de Efigênia Cândida da Silva – minha vó falecida aos 80 anos de idade, natural de Santa Bárbara, dedicou sua vida à criação dos filhos e à igreja, ficou viúva aos 40 anos; personalidade forte.  Jaqueta de J.B.Donadon-Leal – primeira jaqueta usada no Curso de Letras em Maringá, no inverno de 1979. Representa a marca de um período de formação.

“Intervi” no texto de Andreia. Creio que ela, conhecendo a mim como conhece, não vai ficar ofendida. Fui original? Não ouso dizer. Sou suspeito. Fica um tanto presunçoso de minha parte dizer isso a respeito de mim mesmo. Mas interferi. E aqui, esse verbo flexionado é tudo. Tudo o que pode levar o observador a perceber, no trabalho de Andreia com roupas alheias, o exercício de flexionar seu talento, flexionar seu material, flexionar suas ideias e sentimentos: flexionar. Outro verbo importante. Verbo é palavra que explicita “ação”. Ação, qualquer que seja, causa sempre uma interferência. Ao interferir no universo das pessoalidades que carregam as peças de vestuário utilizadas – porque alheias – levam o observador a penetrar no universo íntimo da artista, guiado pela mão da metonímia. Esse modo de proceder da linguagem serve-se, sempre e mais, da aproximação, da contiguidade, da similaridade, jamais da comparação substitutiva. O que Andreia faz não é substituir o uso das peças de roupa por outro que ela, intimamente convenciona como, por exemplo, adequado, ou mesmo, necessários. Qualquer que seja sua justificativa. Não. Andreia propõe, no âmbito do Aldravismo, mais uma inventiva aventura que faz escorregar pelo tobogã das possibilidades que o exercício metonímico da linguagem plástica proporciona como possibilidade. Sim, possibilidade, outra palavra-chave nesse jogo – o que propus e o que Andreia joga com o observador, ainda que não tenha pensado nisso. Mas não é exatamente isso o que o artista busca, de infinitas maneiras, por infinitas possibilidades, fazer? Cada pincelada ou toque de cor, cada arranjo no espaço que ocupa a peça de vestuário, cada sequenciação que a artista propõe. Tudo faz parte desse jogo que encanta, seduz e intriga. Sim, intriga, e muito. Pois onde já se viu usar peças de roupa alheias – e mais, de gente que já morreu – para fazer o que se chama “arte”. Muito nariz torcido, muita cara virada, mas muita surpresa, muito sorriso ladino, muita sobrancelha arqueada como a dizer “Hélas”. O rearranjo semiótico que Andreia produz diz muito de sua arte, fruto de seu talento. Hábil com palavras, como é hábil com tela, pincéis, tinta, objetos. Ao fim e ao cabo – não resisto a essa blague referencial lusitana! A artista sabe porquê! – viagem interior, guiada pelas cores e pelos arranjos de peças tão inusitadas quanto peças de roupa de pessoas já falecidas. Talvez nisso esteja a originalidade de Andreia. Sou esquivo à ideia de originalidade ainda que, por dever de ofício, tenha que lidar com ela e, até, operar com ela em elucubrações outras menos charmosas e interessantes como estas que as peças de Andreia me causam. A jouissance[*] é muita. Talvez por isso afirme que o trabalho é original. Ainda que outros artistas sobre a face do planeta já tenham feito coisa igual ou parecida. Isso, de fato, não importa. Aqui, no jogo que propus e que já vai findando, o trabalho de reconstrução de corpos e seres através da interferência alheia é dinâmico demais para ser paralisado por firulas terminológicas. S um princípio básico do Aldravismo está calcado na “liberdade” – herança soterrada por séculos de protocolos canônicos empoeirados pela pátina do tempo – as roupas ganham outro significado. O seu uso, transcende a herança existencial que “virtualmente” carregam. A transformação da História e cada uma – peça e pessoa – dá-se por meio de uma intervenção de outra ordem, talvez mais real que a própria existência porque não deseja recupera-la. Não há traço de saudosismo ou melancolia. A força das cores, das formas, do discurso que se constrói a partir das intervenções de Andreia são sobejamente lúcidos, ao par de sua imaginação, sua volatilidade, sua liberdade. O que significa mesmo intervir? Interferir? O primeiro passo desse jogo já diz tudo.

Acabou. O jogo. O prazer da observação apenas está em seu início, provocante. As ideias devem estar pululando no cérebro em revolução de quem olha para cada uma das peças desta exposição. Mais que um exercício de organização, o conjunto dessas peças diz de outra ordem de discurso: o da aproximação, da liberdade, da inferência. A observação que se pode fazer desse conjunto proposto por Andreia estimula a imaginação, o sonho, a memória. É como se alguém estivesse a tentar escrever uma biografia, sua autobiografia, com papel absorvente e caneta de ponta grossa. O traço é forte. A contundência inegável. O talento celebrado e a imaginação solta. Quase como alguém que chega à porta do quarto de hotel da cidade que por tanto desejou conhecer. É como o convite que Drummond faz, quando fala da arte de escrever poesia: “Trouxeste a chave?”.

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[*] Jouissance, palavra francesa que pode significar prazer, satisfação, gozo, não apenas em termos sexuais.

Reler

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Faz muito tempo. Foi durante um aula de Dona Aglaeda Facó Ventura, no Mestrado em Teoria da Literatura, na UnB, nos idos de 1986. A disciplina se chamava Estética Literária e Dona Aglaeda, com aqueles olhos esbugalhados discorria sobre a sua satisfação em poder ter adquirido um exemplar em papel bíblia da coleção Plêiade francesa. Era A la recherche du temps perdu, de Marcel Proust. Não sei quanto tempo depois, comprei a edição brasileira, da Editora Globo em sete volumes. Tentei ler a obra por três vezes. Em todas as três só consegui chegar ao quarto volume, sem acabar de lê-lo. Os anos se passaram… Aproveitando a onda de leitura e releitura que teve início em Coimbra, assim que voltei, resolvi retomar os calhamaços para ler, com o firme propósito de ler os sete volumes até o fim… Não me importa se levar muitos meses. Vou ler. depois, pouco a pouco, vou soltando aqui algumas passagens marcadas, daquelas que me chamaram a atenção, seja pelo conteúdo, seja pela beleza da linguagem…

Daqui e dali, tenho retomado alguns livros já lidos e/ou estudados, enquanto tento concluir a redação de mais uma tese. As vicissitudes da “carreira” universitária me levam à necessidade premente de progredir para a classe de professor titular. A nomenclatura oficial não é bem esta. As firulas acadêmicas ainda grassam por aí… Mas escrevo a tese por não ter coragem, nem paciência, nem saco, nem vontade de remexer em um monte de papéis velhos para colocar vinte anos de carreira em ordem cronológica, para depois escrever o famigerado memorial. Uma tese é quase tão trabalhosa quanto um memorial. Mas há uma diferença a favor dela: aproveito o material que acumulei durante os seis meses que passei em território português, mais três artigos e mais algumas anotações esparsas. O assunto ´o mesmo do projeto de pós-doutoramento, as cartas trocadas entre Alberto de Oliveira e António Nobre na passagem do século 19 para o século 20. Bem mais moderado, o esforço. Como tem aumentado a minha resistência ao desejo de vencer a síndrome e Macunaíma, pareceu-me mais apetecível escrever a tese…

O adagiário popular diz que pedreiro quando está cansado, carrega pedra. Bem… Enquanto falo, escrevo e leio sobre Literatura, para descansar, deparei-me – graças à Cida, amiga e ex-aluna em sua página do Facebook – com mais uns versos de Fernando Pessoa, ele mesmo, retirados de seu Cancioneiro:

Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou uma mar de sargaço –

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além…
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.
(13/09/1933)

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Ler

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São quinze capítulos, incluindo Prólogo e Epílogo. Alguma similaridade com o caminho que leva ao Gólgota, não terá sido mera coincidência? Ou terá sido. diga quem ler o romance e quiser sobre ele comentar alguma coisa. Trata-se de A cura, do Pedro Eiras. O autor é professor na/da Universidade de Porto, se não me falha a memória. Sabia que ele era poeta. Li dele,por indicação de Gerson Luiz Roani, amigo dileto, outro romance Bach, sobre o qual já escrevi alguma coisa. Aqui mesmo no blogue, se é que minha memória não esteja dando outra rasteira. Ambos, interessantíssimos. A cura é romance que caminha de braço dado, amigavelmente, com a Psicanálise. Um extrato fino da arte de narrar, associado a chistes e ilações as mais curiosas e fruto de acuidade e delicadeza insuperáveis. Trata-se de uma série de consultas a um psicanalista – o narrador – que atende em dia e hora inusitados – quem determina isso é o paciente. Minha língua está coçando de vontade de dizer quem é este “paciente”. Mas não o faço. Deixo no ar… Quem sabe assim instigo mais alguém a comprar o livro e lê-lo. Depois disso, pode troca-lo num sebo ou deixa-lo numa dessas praças que começam a pipocar aqui e ali sob a égide de programas de intercâmbio de leitura: públicos e gratuitos. Este livro de Pedro Eiras junta-se a ouros tanto que i em Coimbra, durante os seis meses em que lá vivi, fazendo meu segundo estágio pós-doutoral. Li autores que já conhecia como Walter Hugo Mãe. Li outros de quem tinha notícia e nutria intensa curiosidade como Mário Cláudio. Reli o Eça. Matei minha curiosidade com relação a Agustina Bessa-Luís, de quem me tronei fã de carteirinha, com direito a alugar cativo em seu seleto clube de admiradores. O romance de Pedro Eiras prende o leitor. não apenas por sua trama que vai se tornando cada vez mais sedutora e envolvente – sim, há quem seduza e não envolva, há quem faça o contrário, há ainda quem faça cada coisa a seu tempo. Enquanto isso, boa parte da população do planeta não faz nem uma nem outra coisas… Apenas sobrevive… de leitura, para sorte de quem assim age! O romance de Pedro Eiras seduz e envolve. A cada capítulo, uma faceta da extraordinária obra e Freud comparece sutilmente como um elefante caindo num poço de lama, mas com elegância. Como diz uma destrambelhada personagem de telenovela brasileira: um “chiquê”! Perdoe-me, Pedro. O drama do narrador hipocondríaco, atravessando um relacionamento em crise porque percebe que está sobrevivendo a/com uma existência igualmente em crise, chega às raias do patético, sem melodrama, mais uma vez, com elegância. Vale a pena ler. Valeu a pena ler. Valeu a pena lembrar  de que o l i Quem sabe assim realizo o que pensei em fazer nesta retomada do blogue: escrever sobre literatura, mais que outra coisa…

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Final

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Os jogos pan-americanos chegam a seu final. O Brasil está em terceiro lugar, como vem acontecendo há alguns anos já!… E o que é que fica disso como lição? Penso que a mesma coisa de ontem: o tempo passa, as coisas mudam. Por falar em mudança… dá-lhe Camões:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões Camões, L. V. de. 200 Sonetos. Porto Alegre: L&PM. 1998. (Peguei esse texto no seguinte endereço: http://pensador.uol.com.br/frase/Mjk0MTUx/

É certo que nem todos os sonetos ditos de Camões sejam, de fato, de sua autoria. No fundo, no fundo, a cada dia que passa, acredito mais e mais na ideia de que este é um detalhe apenas. Detalhe daqueles que não acrescentam grande coisa para quem GOSTA de poesia. Se foi ele mesmo ou não o autor, a tradição assim o diz.
Ponto final. Pra que ficar inventando “especula de rodinha” – como dizia meu pai – e inventando moda e criando coisa pra justificar “erudição”. No fundo, a tal de erudição é outra coisa muito diferente, muito além e acima do que hoje se diz ser… Mas há ainda quem acredite nisso… Vá lá… A minha ideia aqui foi a de citar Camões e falar, uma vez mais, com a minha chatice acumulada, que o tempo passa, que as coisas mudam, que TUDO é absolutamente relativo. Nada de novo… Mais uma semana que acaba e outra que começa…

Muda mesmo alguma coisa?

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Segundo

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25 de Julho, por seleção minha é dia …

– do nascimento do primeiro bebê de proveta Louise Joy Brown, em 1978, na Inglaterra;
– da explosão de uma bomba no aeroporto de Recife, onde pousaria o avião do marechal Costa e Silva, candidato à sucessão do presidente Castello Branco, em 1966;
– da vitória da seleção argentina no Campeonato Mundial de Futebol, 1978;
– da morte de José Mauro de Vasconcelos, escritor brasileiro, em 1978.

Tantas outras coisas aconteceram sobre as quais não se tem e  menor ideia ou informação… Aqui e acolá, em cima e embaixo, de noite e de dia. Cronos reina absoluto e não se importa nem mesmo com a situação que beira o caos no rincão nacional… Já ouvi esta história. Já fi esse filme. O tempo passa… Com ele, aprende-se um monte de coisas. Outro monte é esquecido, deixado de lado, considerado sem importância. Tudo depende de alguém, de circunstâncias, de condições que não podem ser absolutamente determinados por quem que seja…

E os taxistas na capital mineira, para não correr o risco de falar sobre o que não sei, se esquecem d e protestar sobre as péssimas condições de SEU trabalho, para depredar, atacar e gritar contra o tal de UBER. Será que eles não se dão conta de que as suas condições melhorando, e eles respeitando os princípios do bem servir, o protesto contra o URBE pode cair no esquecimento e a tal de empresa pode até vir a desaparecer… Tem alguma coisa no ar…

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