Reler

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Faz muito tempo. Foi durante um aula de Dona Aglaeda Facó Ventura, no Mestrado em Teoria da Literatura, na UnB, nos idos de 1986. A disciplina se chamava Estética Literária e Dona Aglaeda, com aqueles olhos esbugalhados discorria sobre a sua satisfação em poder ter adquirido um exemplar em papel bíblia da coleção Plêiade francesa. Era A la recherche du temps perdu, de Marcel Proust. Não sei quanto tempo depois, comprei a edição brasileira, da Editora Globo em sete volumes. Tentei ler a obra por três vezes. Em todas as três só consegui chegar ao quarto volume, sem acabar de lê-lo. Os anos se passaram… Aproveitando a onda de leitura e releitura que teve início em Coimbra, assim que voltei, resolvi retomar os calhamaços para ler, com o firme propósito de ler os sete volumes até o fim… Não me importa se levar muitos meses. Vou ler. depois, pouco a pouco, vou soltando aqui algumas passagens marcadas, daquelas que me chamaram a atenção, seja pelo conteúdo, seja pela beleza da linguagem…

Daqui e dali, tenho retomado alguns livros já lidos e/ou estudados, enquanto tento concluir a redação de mais uma tese. As vicissitudes da “carreira” universitária me levam à necessidade premente de progredir para a classe de professor titular. A nomenclatura oficial não é bem esta. As firulas acadêmicas ainda grassam por aí… Mas escrevo a tese por não ter coragem, nem paciência, nem saco, nem vontade de remexer em um monte de papéis velhos para colocar vinte anos de carreira em ordem cronológica, para depois escrever o famigerado memorial. Uma tese é quase tão trabalhosa quanto um memorial. Mas há uma diferença a favor dela: aproveito o material que acumulei durante os seis meses que passei em território português, mais três artigos e mais algumas anotações esparsas. O assunto ´o mesmo do projeto de pós-doutoramento, as cartas trocadas entre Alberto de Oliveira e António Nobre na passagem do século 19 para o século 20. Bem mais moderado, o esforço. Como tem aumentado a minha resistência ao desejo de vencer a síndrome e Macunaíma, pareceu-me mais apetecível escrever a tese…

O adagiário popular diz que pedreiro quando está cansado, carrega pedra. Bem… Enquanto falo, escrevo e leio sobre Literatura, para descansar, deparei-me – graças à Cida, amiga e ex-aluna em sua página do Facebook – com mais uns versos de Fernando Pessoa, ele mesmo, retirados de seu Cancioneiro:

Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou uma mar de sargaço –

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além…
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.
(13/09/1933)

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