Amizade e talento

Uma amiga muito querida, Andreia, pediu-me um texto. Ela vai fazer uma exposição (mais uma!) com seus últimos trabalhos de “intervenção”. Peças de roupa usadas por pessoas conhecidas dela, por ela, são matéria prima para ela criar objetos, no mínimo, inusitados. Ela escreve contos e crônicas. Tem um romance inédito que pode abalar certas estruturas. É poeta e artista plástica. Fundou, com mais três amigos – eu os chamo de os quatro cavaleiros do meu apocalipse – um movimento artístico-cultural ao qual deram o nome de Aldravismo. Têm uma editora. Criaram uma academia – a ALACIB – Academia de Letras, Artes e Ciências do Brasil, considerada de utilidade pública, pela Prefeitura Municipal de Mariana, sua cidade sede. Criou o projeto “Poesia viva – a poesia bate à sua porta”, premiadíssimo, que provoca a curiosidade pela leitura, distribuindo livros – sobretudo de poesia – pelas casas de Mariana-MG e arredores. Mariana, as minas de ouro, inconfidentes… está explicitado o “espírito da coisa”: liberdade. Escrevi o texto e ela autorizou-me a publicar aqui. Lá vai…

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Tarefa difícil a de falar algo de que se gosta. Talvez seja mais difícil ainda falar de algo de que não se gosta. Por outro lado, falar de alguma coisa ou de alguma pessoa que não seja eu mesmo ou que não seja de minha lavra pode ser tarefa generosamente fácil. Pelo sim, pelo não, proponho aqui um jogo. Um jogo que conta com quatro passos antes de chegar a seu ponto final: a observação. Mais interessante que o jogo é o que se observa ao seu final: uma exposição de arte. Expressão genérica. Pode abarcar uma infinidade de possibilidades. Aqui, ela se reduz a uma. E isso não é pejorativo. Uma exposição de peças produzidas a partir de outras. Modificação operada por uma artista num mundo contíguo ao seu: o das roupas. Contíguo porque ela se veste. Mais contíguo porque ela não vestiu as peças de roupa que usa em sua produção. Ainda um grau mais denso de contiguidade: são peças de vestuário usadas por pessoas com quem ela teve contato. Ela quem? Andreia Aparecida Silva Donadon Leal. Este o nome da artista aldravista que agora expõe mais uma faceta de seu já consagrado trabalho. O jogo que proponho, então, consta do seguinte: a leitura de quatro passos que seguem para chegar à exposição. A leitura, tanto quanto possível, deve ser feita antes da observação, da visita à exposição. Isso tem um motivo que declino do direito de exarar. Saber que objetivo é este é também parte do jogo que proponho. Aos passos então.

Passo 1

Todas as criações humanas possuem o “dedo”, um pouco da genialidade de outras pessoas das quais talvez nem se saiba o nome, o que dizer da existência. A criatividade, por mais louca e ilógica que possa parecer, necessita obrigatoriamente de conhecimento e repertório seja ele visual, olfativo, auditivo ou de qualquer outra forma para que possa realizar sua função principal, criar. Logo, na maioria das vezes, passa a agir apenas como uma reorganização de memórias, inspirações, repertório e bagagem cultural. A que ponto dessa reorganização de ideias a criação passa a ser autoral/original? Como chegar ao ponto de ser totalmente original? É possível criar algo sem nenhuma referência?

Passo 2

Roupa é peça ou conjunto de peças de vestir: traje. Pode significar também qualquer tecido que sirva para adorno, cobertura etc. Ou ainda, qualquer peça de tecido de uso doméstico.

Passo 3

Intervenção: ato de intervir. Em um debate, equivale a emitir opinião, contribuir com ideias (próprias ou alheias). Na rubrica “direito constitucional” é o instituto legal que autoriza o governo central de uma federação a intervir em uma de suas unidades para evitar ou repelir grave perturbação da ordem. Na rubrica “direito internacional público” significa a violação da soberania de um Estado independente. No âmbito do direito comercial é o ato pelo qual uma pessoa aceita ou paga um título cambial de outrem levado a protesto. Se a criação implica atitude, ação, um ato qualquer, logo, é uma espécie de intervenção.

Passo 4

Uma doença romântica, a originalidade. Em todo canto a gente vê a originalidade de idiotas incompetentes, eles não conseguem desenhar nada, pintar nada, só para que seja original a porcaria que muita gente faz… A originalidade é requisito essencial na demarcação do objeto protegido pelos direitos de autor. José Régio, poeta português, diz que “Em Arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos demais, (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como é falsa toda a originalidade calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas – mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre outras qualidades, o produto desses temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afectadas, semelhantes qualidades não passarão dum truque literário.” Jorge Steiner, influente intelectual francês, escreve que “Arte, música e literatura significativas não são novas, como são, como se esforçam por ser, as notícias dadas pelo jornalismo. A originalidade é antitética à novidade. A etimologia da palavra alerta-nos. Fala de ‘início’ e de ‘instauração’ de um regresso, em substância e em forma, ao início. Diretamente relacionadas com a sua originalidade e com a sua força de inovação espiritual-formal, as invenções estéticas são ‘arcaicas’. Trazem em si o pulsar de uma fonte distante.” A determinação da originalidade tenta se revestir de caráter objetivo: considera-se novo o bem imaterial que difere dos que já fazem parte do fundo comum da cultura, ciência ou técnica, dependente, na maior parte dos casos, de comprovação de anterioridade mediante certificado de registro na instituição apropriada. A “marca da personalidade do autor”, e diversos recursos estilísticos comuns a movimentos artísticos, portanto empregados por diferentes indivíduos em diferentes obras, tornar-se-iam subitamente muito perigosos para o artista, que se veria obrigado a lançar mão de inovações despropositadas a fim de expressar sua personalidade e assim garantir seus direitos em relação à própria obra. Segundo o exemplo clássico de Desbois, dois pintores que escolham representar o mesmo local, na mesma perspectiva e com as mesmas cores terão como resultado final duas obras originais. Evidentemente, exclui-se a possibilidade, na esteira dessa teoria, de qualquer análise de mérito artístico da obra: a criação (termo intercambiável, aqui, por “execução”) torna-se critério suficiente para a verificação da existência de originalidade.

Observação

Dito isto, podemos então passar à conclusão do jogo: saborear a exposição. Antes, ainda me demoro em algumas elucubrações. Diz a própria artista: “A transformação das vestimentas: representam os corpos que as vestem. A peça de roupa não serve mais para vestir (na sua concepção natural de manufatura) e sim para representar o homem e a mulher numa concepção virtual, transformada, metonímica e deliberadamente artística.Peças de roupas (a maioria das peças é de pessoas falecidas): vestido de Ephigênia– senhora que faleceu aos 99 anos de idade, levou uma vida dedicada à criação de filhos dos outros, e louvor à Nossa Senhora, solteira, morreu em janeiro de 2015, para mim deveria ser proposto um título de beata à senhora. Paletó de Maurício Baptista (meu tio) – falecido há três anos, vítima de demência (mal de Alzheimer), paletó usado em seu casamento, há cerca de quarenta anos. O mecânico foi abandonado, o irmão mais velho e sobrinhos cuidaram dele. Os braços fechados do paletó representam uma camisa-de-força. Boné de Zé Rosa – pedreiro, famoso pela humildade, foi grande homem no crescimento de Mariana, tem obras que hoje estão restauradas. Talvez ninguém saiba que foi ele quem construiu o cemitério dos Bispado e outras obras. Participou de muitas romarias que fazia para Aparecida do Norte.  Blusa de Efigênia Cândida da Silva – minha vó falecida aos 80 anos de idade, natural de Santa Bárbara, dedicou sua vida à criação dos filhos e à igreja, ficou viúva aos 40 anos; personalidade forte.  Jaqueta de J.B.Donadon-Leal – primeira jaqueta usada no Curso de Letras em Maringá, no inverno de 1979. Representa a marca de um período de formação.

“Intervi” no texto de Andreia. Creio que ela, conhecendo a mim como conhece, não vai ficar ofendida. Fui original? Não ouso dizer. Sou suspeito. Fica um tanto presunçoso de minha parte dizer isso a respeito de mim mesmo. Mas interferi. E aqui, esse verbo flexionado é tudo. Tudo o que pode levar o observador a perceber, no trabalho de Andreia com roupas alheias, o exercício de flexionar seu talento, flexionar seu material, flexionar suas ideias e sentimentos: flexionar. Outro verbo importante. Verbo é palavra que explicita “ação”. Ação, qualquer que seja, causa sempre uma interferência. Ao interferir no universo das pessoalidades que carregam as peças de vestuário utilizadas – porque alheias – levam o observador a penetrar no universo íntimo da artista, guiado pela mão da metonímia. Esse modo de proceder da linguagem serve-se, sempre e mais, da aproximação, da contiguidade, da similaridade, jamais da comparação substitutiva. O que Andreia faz não é substituir o uso das peças de roupa por outro que ela, intimamente convenciona como, por exemplo, adequado, ou mesmo, necessários. Qualquer que seja sua justificativa. Não. Andreia propõe, no âmbito do Aldravismo, mais uma inventiva aventura que faz escorregar pelo tobogã das possibilidades que o exercício metonímico da linguagem plástica proporciona como possibilidade. Sim, possibilidade, outra palavra-chave nesse jogo – o que propus e o que Andreia joga com o observador, ainda que não tenha pensado nisso. Mas não é exatamente isso o que o artista busca, de infinitas maneiras, por infinitas possibilidades, fazer? Cada pincelada ou toque de cor, cada arranjo no espaço que ocupa a peça de vestuário, cada sequenciação que a artista propõe. Tudo faz parte desse jogo que encanta, seduz e intriga. Sim, intriga, e muito. Pois onde já se viu usar peças de roupa alheias – e mais, de gente que já morreu – para fazer o que se chama “arte”. Muito nariz torcido, muita cara virada, mas muita surpresa, muito sorriso ladino, muita sobrancelha arqueada como a dizer “Hélas”. O rearranjo semiótico que Andreia produz diz muito de sua arte, fruto de seu talento. Hábil com palavras, como é hábil com tela, pincéis, tinta, objetos. Ao fim e ao cabo – não resisto a essa blague referencial lusitana! A artista sabe porquê! – viagem interior, guiada pelas cores e pelos arranjos de peças tão inusitadas quanto peças de roupa de pessoas já falecidas. Talvez nisso esteja a originalidade de Andreia. Sou esquivo à ideia de originalidade ainda que, por dever de ofício, tenha que lidar com ela e, até, operar com ela em elucubrações outras menos charmosas e interessantes como estas que as peças de Andreia me causam. A jouissance[*] é muita. Talvez por isso afirme que o trabalho é original. Ainda que outros artistas sobre a face do planeta já tenham feito coisa igual ou parecida. Isso, de fato, não importa. Aqui, no jogo que propus e que já vai findando, o trabalho de reconstrução de corpos e seres através da interferência alheia é dinâmico demais para ser paralisado por firulas terminológicas. S um princípio básico do Aldravismo está calcado na “liberdade” – herança soterrada por séculos de protocolos canônicos empoeirados pela pátina do tempo – as roupas ganham outro significado. O seu uso, transcende a herança existencial que “virtualmente” carregam. A transformação da História e cada uma – peça e pessoa – dá-se por meio de uma intervenção de outra ordem, talvez mais real que a própria existência porque não deseja recupera-la. Não há traço de saudosismo ou melancolia. A força das cores, das formas, do discurso que se constrói a partir das intervenções de Andreia são sobejamente lúcidos, ao par de sua imaginação, sua volatilidade, sua liberdade. O que significa mesmo intervir? Interferir? O primeiro passo desse jogo já diz tudo.

Acabou. O jogo. O prazer da observação apenas está em seu início, provocante. As ideias devem estar pululando no cérebro em revolução de quem olha para cada uma das peças desta exposição. Mais que um exercício de organização, o conjunto dessas peças diz de outra ordem de discurso: o da aproximação, da liberdade, da inferência. A observação que se pode fazer desse conjunto proposto por Andreia estimula a imaginação, o sonho, a memória. É como se alguém estivesse a tentar escrever uma biografia, sua autobiografia, com papel absorvente e caneta de ponta grossa. O traço é forte. A contundência inegável. O talento celebrado e a imaginação solta. Quase como alguém que chega à porta do quarto de hotel da cidade que por tanto desejou conhecer. É como o convite que Drummond faz, quando fala da arte de escrever poesia: “Trouxeste a chave?”.

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[*] Jouissance, palavra francesa que pode significar prazer, satisfação, gozo, não apenas em termos sexuais.

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