Decepção

Era 25 de Março. Não a famigerada rua da cidade de São Paulo. A equivalente da “Saara” carioca… Não. Era a data mesmo um mês antes do dia de comemoração da Revolução dos cravos. Era 25 de Março, em Lisboa, nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian (lindas!). Tudo parecia correr bem. Eu tinha escrito o texto com prazer, Escrevi de forma a criar situações de ambiguidade, como a querer provocar a audiência. Eu ainda acreditava que haveria uma… O garoto que coordenava a mesa atrasou seu início. A desculpa foi a espera de um “figurão”. Não veio o dito cujo. Ao invés e começar e dar mais tempos para nós dois, os outros componentes da mesa… Não… O “garoto” resolveu restringir-se aos protocolares vinte minutos de apresentação como se a distinta “plateia” fosse se animar a perguntar alguma coisa. Ó decepção. Ninguém perguntou nada e ficou tudo por isso mesmo. Mas não me dou por vencido e vou publicar o texto. Não sei quando, mas vou. Enquanto isso, deixo aqui a primeira parte. A segunda vem amanhã…

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Alberto, Orpheu, Álvaro: pontes

José Luiz Foureaux de Souza Júnior

(Universidade Federal de Ouro Preto / Universidade de Coimbra / Capes)

Este trabalho tem como objetivo construir pontes para ligar as relações de amizade de dois poetas portugueses do final do século XIX: António Nobre e Alberto de Oliveira. O ponto de partida é a leitura da correspondência de António Nobre (totalmente publicada). Nessa correspondência, aparecem indícios de que em cartas escritas por seu amigo, Alberto de Oliveira, laços estreitos até de amizade íntima que vai além do intercâmbio intelectual e literária entre ambos. A leitura é amparada pela perspectiva de “pacto homossocial”, como apresentado por Eve Sedgwick Kosofski em seu livro Between men. O trabalho se encaixa no âmbito alargado dos estudos de Literatura Comparada, sobretudo os circunscritos à Estética da Recepção, o que corresponde a análise e renovação de exercício crítico de releitura a partir de gêneros literários diversos como a epistolografia de escritores representativos.

Palavras-chave: Recepção; Leitura; Poesia; Homoerotismo; Literatura Portuguesa

A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.

Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra

Considerei subscrever esta comunicação ao tema “O legado de Orpheu” por acreditar que, de fato, a epistolografia exigiria um recorte muito estreito para as possibilidades que vislumbro a partir do processo de investigação que venho desenvolvendo e que envolve a correspondência de António Nobre e Alberto de Oliveira. Na visada retrospectiva que proponho aqui, esta correspondência é o ponto de chegada de minhas elucubrações. O ponto de partida é o conjunto de considerações que faço a partir de um trecho de carta escrita por Fernando Pessoa, passando por considerações acerca de abordagem panorâmica do conjunto de propostas da Revista Orpheu, em seu primeiro número.

Orfeu, filho da musa Calíope e Apolo ou Eagro, rei da Trácia, poeta talentoso. Quando tocava sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens perdiam o medo, as árvores se curvavam para pegar os sons no vento. Um dos argonautas, salvou os demais tripulantes quando seu canto silenciou as sereias. Apaixonou-se por Eurídice. Casou-se com ela. Mas Eurídice era tão bonita que, pouco tempo depois do casamento, atraiu um apicultor chamado Aristeu. Quando ela recusou suas atenções, ele a perseguiu. Tentando escapar, ela caiu, pisou numa serpente que a mordeu e morreu. Orfeu ficou transtornado de tristeza. Levando sua lira, foi até o mundo inferior, para tentar trazê-la de volta. A canção pungente e emocionada de sua lira convenceu o barqueiro Caronte a leva-lo vivo pelo rio Estige. A canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Seu tom carinhoso aliviou os tormentos dos condenados. Encontrou muitos monstros durante sua jornada e os encantou com seu canto. Finalmente, Orfeu chegou ao trono de Hades. O rei dos mortos ficou irritado ao ver que um ser vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Perséfone, implorou-lhe que atendesse o pedido de Orfeu. Assim, Hades atendeu seu desejo. Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos, sob uma única condição: que ele não olhasse para ela até que estivessem sob a luz do sol. Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração enquanto caminhava, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele então quase no final do tenebroso túnel olhou para se certificar de que Eurídice o acompanhava e não a viu. Hades e Perséfone os seguiam e, como ficou estabelecido que ele não poderia olhar para Eurídice até chegar ao fim do túnel, Hades a tomou novamente. Em desespero, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo lembrar-se da perda de sua amada. O Orfismo, comportamento ambíguo de aconselhar sem poder usufruir do próprio conselho, vem daí, ao que parece. Orfeu morre sob a fúria das Mênades que o mataram a golpes de dardo, jogando seu corpo no Hebro, aos pedaços e, ainda assim, cantando. As nove musas reuniram os pedaços de Orfeu e o enterraram no monte Olimpo. Na morte, Orfeu se uniu a Eurídice.

Uma lição, dentre outras, que fica do enredo do mito pode ser a da ideia de desejo que persiste, mesmo em condições nada viáveis, o que reforça sua própria natureza. De índole instintual, o desejo não escolhe data e local, cor ou textura, preferência ou circunstância. Ele está ali e, se a mão de Lacan não conduz a erro, é pela linguagem que ele se manifesta de maneira mais contundente. Para além disso, é talvez na e pela linguagem poética que essa contundência atinge foro de intransponibilidade. Há que ressaltar que, de maneira genérica, estou considerando a carta como texto poético, em seu sentido mais largo – o que é discutido por Sophia Angelides e Marie-Claire Grassi, por exemplo. Tópico este que vou tomar como pressuposto, por questão de tempo.

Outra lição é a da sedução. Fenômeno ou processo – dependendo do direcionamento que a utilização desse conceito segue – fica claro que o canto de Eurídice seduz pela beleza, quebrando todas as resistências. Esta sedução, acaba por fazer com que o poeta, por ansioso que estava, deixe de cumprir o que mandou a divindade e se vire para, ele também seduzido pelo desejo, tentar ver sua amada. O vaticínio se cumpre. Ele perde de vez a chance de voltar a viver com Eurídice. O encontro só acontece na morte, o que pode causar certas diferenças interpretativas muito instigantes que também serei obrigado a deixar de lado aqui.

Num e noutro caso, o relato do mito me leva a pensar no destino da revista Orpheu como proposta estética de revolução, mudança, renovação. Para tanto, farei uma pequena digressão sobre dois trechos de cartas que, a meu ver, ilustram o espírito anunciado pela letra de Orpheu, em seu nascedouro. Atente-se para o fato de que se trata aqui de apresentação sumária e introdutória, um projeto, que vem sendo desenvolvido e que deseja encontrar satisfação em sua demanda.

Merecem ainda destaque duas expressões presentes no relato do mito. A primeira, “trilha íngreme que levava para fora do escuro”, é expressão que pode remeter a uma leitura do perímetro afetivo que circunda a correspondência entre António Nobre e Alberto d’Oliveira – uma das consequências da abordagem aqui apresentada. Esse perímetro só pode ser desenhado por conta da “abertura” que a revista propunha ensejar no cenário cultural português, quando de seu aparecimento. A segunda expressão, “comportamento ambíguo de aconselhar sem poder usufruir do próprio conselho” pode remeter a uma análise do fim da revista, por todos os motivos que se lhe possam atribuir, sem destaque para nenhum. O caráter “ambíguo” marca de novo o direcionamento do olhar homoerótico que é utilizado para ler os trechos de cartas aqui arrolados.

Momento 1

Mário de Sá-Carneiro se mata, em Paris, no dia 26 de Abril de 1916. Fernando Pessoa, apesar disso, não desistiu do terceiro número de Orpheu. Em 4 de Setembro desse ano, escreveu a Côrtes-Rodrigues que a revista deveria sair ainda nesse mês:

Vai sair Orpheu 3. É aí que, no fim do número, publico dois poemas ingleses meus, muito indecentes, e, portanto, impublicáveis em Inglaterra. Outra colaboração do número: Versos do Camilo Pessanha (a propósito não cite isto a ninguém), versos inéditos do Sá-Carneiro, A Cena do Ódio do Almada-Negreiros (que está actualmente homem de génio em absoluto, uma das grandes sensibilidades da literatura moderna), prosa do Albino de Meneses (não sei se v. conhece) e, talvez, do Carlos Parreira, e uma colaboração variada do meu velho e infeliz amigo Álvaro de Campos.

Orpheu 3 trará, também quatro hors-texte do mais célebre pintor avançado português – Amadeu de Sousa Cardoso.

A revista deve sair por fins do mês presente. Para a mala que vem já lhe poderei dar notícias mais detalhadas. (PESSOA, F., 1999: 220-221)

Neste trecho, desejo destacar a informação de que Fernando Pessoa tenciona publicar o que ele chama de “dois poemas ingleses meus, muito indecentes”. Sabe-se que acabaram por aparecer publicados alhures. Mas Álvaro de Campos, um de seus heterônimos, afirma ser, ele mesmo um caso de “temperamento feminino” que conta “com uma inteligência masculina”, em uma de suas páginas íntimas. Isto quer dizer alguma coisa. A frase implícita, de sabor poético, não pode ser lida como simples retórica. Já em algumas Odes, o engenheiro naval se considera “uma inversão sexual frustre”.

Interessante a afirmação de Pessoa. Por que os poemas são impublicáveis em Inglaterra mas o podem ser em Portugal? Guardadas as devidas proporções, pensar o contrário pareceria muito mais plausível. Pareceria, não fosse a afirmativa feita sob a égide da revista Orpheu que, entre outras coisas, a seu modo, propunha a quebra de grilhões estéticos, sociais e (até) morais, vindo a ensejar novos horizontes de expectativa para a Literatura Portuguesa no início do século 20. A referência a Almada Negreiros aqui é, a meu ver, mais uma confirmação inconteste do espírito que animou a publicação. De qualquer maneira, salta aos olhos a referência ao heterônimo: “meu velho e infeliz amigo”!

Álvaro de Campos revela certa avidez recalcada por evadir-se em seu desejo não satisfeito como nos versos “Eu podia morrer triturado por um motor / Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída”. Na “Saudação a Walt Whitman”, em lugar do acento social que Garcia Lorca teria empregado, o heterônimo atesta uma semelhança entre seu desejo ainda indizível e o do “grande pederasta” saudado, revelando uma “vontade (…) / De ser a cadela de todos os cães e eles não me bastam”. O requinte de Campos é mais uma vez a chancela do recalcamento que o sufoca, e a outros sujeitos de então.

Na voz poética de Álvaro de Campos, particularmente na “Ode Triunfal” e na “Ode Marítima”, vemos encenada a emergência desse novo modelo de masculinidade, estabelecida sobre a crise dos valores sociais e estéticos portugueses e europeus – haveria melhor argumento para a “realização” do projeto órfico (em dois dos sentidos do termo) que a revista protagoniza e leva à concretização nos números publicados? Nesses poemas, se concentra um novo sujeito homoeroticamente manifesto: ele não quer ser mulher, como em “Manicure”, de Sá-Carneiro, mas quer ver-se tomado, possuído pela força da masculinidade, não representada por si mesmo, mas pelo mundo moderno. Mais uma vez, o espírito vanguardista e revolucionário, para não dizer transgressivo da revista, se explicita.

Capa da revista orpheu n. 2

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2 comentários sobre “Decepção

    1. Bom dia (aqui) Boa tarde (aí)!
      Mais uma vez, obrigado pela visita ao blogue e pelo comentário. Você e mais duas ou três pessoas são fieis… isso diz muito! Por aqui tudo coninua caminhando… A licença expirou, as férias começaram e a greve na universidade continua. Luto demais contra a preguiça por que sei da inutilidade disso tudo… Escrevi dois capítulos da tese: faltam três agora. Vamos ver… Hei de vencer! Saudades de você também! Fique bem! beijinho

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