Quebra

Não vou seguir o protocolo por mim mesmo determinado. Não vou fazer o comentário das cartas que havia previsto. Não vou dar (hoje) continuidade… Recebi mensagem de uma prima com um texto que responde a suposto comentário feito por Luiz Fernando Verissimo acerca das manifestações do último ia 16. Eu queria ir até Belo Horizonte. Não fui. Depois dos acontecimento da quarta-feira imediatamente anterior fiquei temeroso. Arrependi-me. As manifestações foram tranquilas. Conheci o Verissimo em Santa Maria. Estive com ele por duas vezes. Por duas vezes confirmei a primeira impressão: um sujeito caladão, chato, cheio de manias, para não dizer sem graça e mal humorado. Em nada e por nada parecido om seu alter ego que se vislumbra em seus textos. Guardadas as devidas proporções, assino embaixo do manifesto que a ex-professora das filhas do Verissimo escreveu e, ao que parece, publicou. Um desabafo que eu também faria e, ao final, como ela, diria: au, au au…

Segue o texto.

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Postado por Polibio Braga on 8/24/2015 02:27:00 PM
Uma das ex-professoras das filhas do escritor gaúcho Luiz Fernando Veríssimo não gostou de ser comparada a vira-latas por protestar contra a corrupção do governo Dilma. Ela encaminhou esta carta ao editor, que vai publicada na íntegra:
 
Prezado LF Verissimo:
 
Na crônica com o título ‘O Vácuo’, comparaste os manifestantes contra o governo aos cachorros vira-latas que, no passado, corriam atrás dos carros, latindo indignados. Dizes que nunca ficou claro o que os cães fariam quando alcançassem um carro, por ser uma raiva sem planejamento. E que os cães de hoje se modernizaram, convenceram-se de seu próprio ridículo, renderam-se ao domínio do automóvel.
 
Na tua infeliz e triste comparação, os manifestantes de hoje são vira-latas obsoletos sitiando um governo que mais se parece com um Fusca indefeso, que sabem o que NÃO querem – Dilma, Lula, PT – mas não pensaram bem NO QUE querem no seu lugar. Como um velho e obsoleto cachorro vira-lata, quero te latir (não sei se entendes a linguagem de cachorros) algumas coisas:
 
1. Independentemente das motivações de cada um, tenho certeza de que todos os cachorros na rua correm em busca dos sonhos perdidos, que, em 13 anos, foram sendo atropelados não por um Fusca indefeso, mas por um Land Rover de corrupção, imoralidades, mentiras, alianças políticas espúrias, compras de pessoas, impunidade, incitação à luta de classes, compra de votos com o Bolsa Família , desrespeito e banalização da vida pela falta de segurança e de atendimento digno à saúde, justiça falha, etc, etc.
 
2. Se os cachorros se modernizaram e pararam de correr atrás do carro, não foi por se convencerem do próprio ridículo. Foi porque não conseguiram nunca alcançar os carros e isso os desmotivou. Falta de planejamento, concordo. Mas os cachorros de agora aprenderam que se correrem juntos, unidos, latindo bastante atrás do carro, cada vez mais e mais, de novo e de novo, chegará uma hora em que o motor vai fundir. Eles vão alcançar o carro. O motorista vai ter que descer do carro e outro assumirá. Pior do que está não vai ficar, embora o conserto vá demorar muito. Não vai ser fácil, mas os vira-latas vão conseguir se organizar, pelo voto. Não pela ditadura.
 
3. Não é verdade que o latido mais alto entre os cachorros foi o de um chamado Bolsonaro. Acho que estavas na França gozando das delícias de um croissant na beira do Sena (enquanto os vira-latas daqui corriam atrás do osso perdido) e não viste os vídeos das manifestações. Se bem que a TV Globo e o Datafolha também não enxergaram nada. O que mais cresceu na manifestação foi uma certeza, a certeza que vai fazer esse país mudar: com essa Land Rover desgovernada não dá mais. Os cachorros com seus latidos unidos jamais serão vencidos. E sabem que mais dia, menos dia, esse carro vai parar. É assim que começa, pena que eles não acreditem. Não vai ter mais dinheiro pra comprar brioches para o povo. E o número de vira-latas vai aumentar muito. Quem comandará a corrida? Não sei, só sei que prefiro ser um vira-lata à moda antiga do que um vira-lata moderninho que se rende a uma Land Rover.
 
4. Te enganas quando dizes que os cachorros de antes corriam atrás dos carros porque a luta era outra. Não, a luta é a mesma, o contexto é diferente. Os cachorros não querem um passaporte bolivariano. O vácuo vai ser preenchido, não te preocupes. Por quem for necessário e aceito, desde que não seja pelo exército do Stédile.
 
5. Em tempo: essa vira-lata que te fala foi professora das tuas filhas no antigo e admirável Instituto de Educação. Lá aprendi que é importante latir não por latir, mas para defender os sonhos possíveis. E tuas filhas devem ter aprendido muita coisa com os meus latidos. Continuo latindo, agora na rua, para derrubar o que acredito ser um mal nesta nação arrasada: a corrupção e, mais do que isso, um governo corrupto, que perdeu totalmente a vergonha. Eles criaram um “vácuo” de imoralidade e de incompetência que vai ser difícil de recuperar. Mas, vamos conseguir!
 
Atenciosamente, auauau.
 
ROSÁLIA SARAIVA
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Outra carta

Agora, a carta resposta de Aberto de Oliveira. Sem a leitura da totalidade das cartas de António Nobre, fica um tanto difícil perceber, de fato, a diferença de tom a que me referi ontem. Mas vale a intenção…

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António Nobre

                                                                                              Matosinhos

                                                                                              [?] Julho 1893

 À sua carta devo responder que a correspondência uma vez expedida pertence ao seu destinatário e não a quem a escreveu.

A sua amizade morreu, é certo; mas eu desejo trata-la como os grandes cadáveres e conservar dela todas as relíquias e lembranças que me foram caras. Quero dizer com isto que me julgo com direito a ser seu amigo até quando eu quiser, embora haja resolvido nunca mais na minha vida atas as minhas relações consigo (e como bem sabe, as minhas resoluções neste assunto nunca seguiram pelas suas).

Guardo o seu diário pelo mesmo motivo por que conservo o seu retrato nas minhas paredes, e conservarei sempre certa dedicatória no meu livro. Se tem empenho em suicidar-se na parte de sua vida em que me conheceu, eu por mim tenho o empenho contrário. Não é que tencione tão cedo ler as suas cartas antigas; mas a vida tem fases muito diversas e pode vir ainda a trazer-me doces impressões uma leitura que hoje só me entristeceria.

Do meu Diário faça o que o seu sentimento lhe mandar. Não posso, pelas razões que acabo de expor, aceder ao seu pedido. Acerca dos restantes pontos da sua carta, pode estar certo de que não serão esquecidas as suas recomendações. Aproveito a ocasião para lhe fazer chegar às mãos um livro que o Manuel Gaio lhe envia por meu intermédio.

                                                                                                                       Alberto

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Cartas

António e Alberto se conheceram em Coimbra, no finalzinho do século 19. Eram ambos nascidos no Porto, mas foram se conhecer na cidade sede da universidade mais antiga de Portugal. Mero acaso (?). Estudaram Direito. Alberto acabou por se formar em Coimbra António, foi duas vezes reprovado e, desgostoso, mudou-se para Paris onde veio a concluir seu curso. Neste período de separação, com direito a um encontro ou dois na cidade luz, António e Alberto trocaram cartas e bilhetes postais. Estes últimos constituíram o que chamaram de “Diário”. Para além de impressões e poemas e notícias, partilharam afetos postais com intensidade O mesmo se pode dizer das cartas que escreveram um o outro. Bem… Cabe uma explicação. Alberto escreveu, sim, para António. No entanto de suas cartas, restam quatro. Três que tratam de assuntos diversos e não foram endereçadas exatamente a António. E uma, a “joia do Nilo” – no contexto da correspondência, bem entendido – que faz par a outra, escrita por António e a que chamei de as cartas do rompimento. Não fui original, tenho certeza, já não alimento esse tipo de vaidade… Voltando à vaca fria…  A carta que António escreve a Alberto cobrando deste a devolução de seus papeis tem tom radicalmente oposto às demais endereçadas a seu “amigo mais querido”, o “Betinho”. Já a de Alberto para António, parece manter o senso de afeto e amizade profunda que uniu esses dois homens numa relação que até hoje causa estranheza… inexplicavelmente. Alberto, antes e morrer, pediu que seus papeis fossem queimados. Até prova em contrário – passei seis meses tentando encontrar uma pista que fosse para satisfação de minha ilusão de encontrar algumas dessas cartas perdidas num recanto qualquer da península – foram mesmo queimadas, mas restou a “do rompimento”. Um único cartão postal também escapou do “incêndio” e foi analisado por Mário Cláudio num ensaio publicado pela Revista Colóquio Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma joia rara! Pois bem. Hoje trago aqui a carta de António. Amanhã, se minha preguiça deixar, trago a de Alberto. Depois de amanhã, seguindo a mesma toada, talvez teça mais alguns comentários.

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Terça-feira                                                                 26— Rua de Carreiros

25-8-1893                                                                   S. João da Foz

Meu caro Sr. Alberto de Oliveira:

Quando eu, há dias, lhe enviei polidamente uma se­rena carta, convidando-o a restituir-me o meu «Diário», cri fazê-lo ao grande amigo do meu passado, não ao delegado da 2.a vara. Este senhor, porém, foi quem me respondeu e de código na mão: «a correspondência, uma vez expedida, pertence ao destinatário.» Ora eu já sabia deste pormenor legislativo. Há, contudo, nos usos sociais certas fórmulas de cortesia que em algumas circuns­tâncias se aplicam, tal a correspondência que se troca entre homem e menina. Ora o Sr. Alberto de Oliveira foi a menina de nossa correspondência. Confiado na dignidade de cada qual, enceta-se uma palestra postal que, às vezes, pelos mais inexplicados [?] da sorte acaba, um dia, e, nesse dia, se troca. Que seria ao con­trário da reputação dos amorosos correspondentes? O nosso «Diário» está nesses casos. Seria a minha morte moral o seu conhecimento, na publicidade: posso eu ir-me breve, podemos ambos irmo-nos, moços, e assim ficaria nossa intimidade à mercê do primeiro curioso que, ao ver essa diária correspondência europeia dum homem conhecido, a tornaria pública, a princípio no círculo das suas relações e, mais tarde, ele ou outro, iria dá-la a Guttenberg. Não quero tal. Quero antes a incineração. Quando, há alguns meses, em Lisboa, moti­vos seus me levaram a cortar com o senhor as minhas melhores relações, não eram aqueles os meus desígnios: era ainda muito seu amigo e sabia-o meu a valer, para lhe dar um golpe desses que a mim próprio me feriria. Pensava que havia morte e temia os seus remorsos. — «Não era urgente pedi-lo, um dia será.» Quando se extinguem minhas relações com amigos queridos, respeito-os como aos mortos. Nem uma palavra de ultraje, quanto mais uma acção! Vi, porém, que da sua parte, contra todas as suas tradicionais regras de fidelidade e leal­dade e bondade, se portou para comigo de maneira tal, por palavras que surpreendi e factos que vi com estes olhos tristes (que ainda o ficaram mais) que para a qualificar teria de quebrar a linha perdendo a minha serenidade. Começou naturalmente a extinguir-se a mi­nha estima pelo senhor e a amarelecer essa flor «Não sei quê» que em si brotara e me dominava — a nobreza da sua alma: aí tem a acusação que eu lhe faço, dele­gado de outra vara, — e diga-me agora: não é humano, justo (justo delegado) que eu reclame um objecto que é uma honra possuir, não pelo espírito que o ditou, mas pela alma rude de carpinteiro (mas amiga) por essas três mil páginas esborrachadas a tinta? Os grandes cadáveres pertencem ao Pantheon, não às gavetas da sua secretária. Há dias enviei a sua casa a minha «bonne» para receber o meu «Diário» e entregar-lhe um pacote das suas cartas que tenho em Portugal. Esse pacote foi-me devolvido e esse ultraje fez-mo o senhor a mim, fazendo-se representar pela sua criada de meio. Assim fez a [?], Ontem procurava encontrá-lo no Porto para lhe pedir uma explicação deste facto. Não o encon­trei. Devolvo-lhe, pois, dentro desta a eloquente carta que me escreveu, como um desforço à sua afronta. Quanto ao cumprimento da minha vontade, adio este incidente até ao meu regresso de Paris: no campo em que me coloco, necessito já agora da sua correspon­dência. Eu, abaixo assinado, quero o meu «Diário». E isto basta.

Antônio Nobre

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Poemas

Hoje estou com preguiça de escrever. Dizem que a preguiça é o menos grave dos pecados… Por que ela não deixa que você cometa os outros… Pelo sim, pelo não, só não para não ficar sem escrever nada, reproduzo alguns poemas de que gosto…

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

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Soneto da separação

Vinícius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente

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Longe

Kavafis

Quisera referir essa lembrança…

Mas já se apagou tanto… visto que nada se mantém –

pois longe, nos primeiros anos de minha adolescência, ela jaz.

Uma pele como feita de jasmim…

Aquela noite de agosto – era agosto? – aquela noite…

Mal me lembro agora dos olhos – eram, creio, azuis…

Ah! sim, azuis: um azul de safira.

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O Último Poema

Manoel Bandeira

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

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Brejo da cruz

Chico Buarque

A novidade

Que tem no Brejo da Cruz

É a criançada

Se alimentar de luz

Alucinados

Meninos ficando azuis

E desencarnando

Lá no Brejo da Cruz

Eletrizados

Cruzam os céus do Brasil

Na rodoviária

Assumem formas mil

Uns vendem fumo

Tem uns que viram Jesus

Muito sanfoneiro

Cego tocando blues

Uns têm saudade

E dançam maracatus

Uns atiram pedra

Outros passeiam nus

Mas há milhões desses seres

Que se disfarçam tão bem

Que ninguém pergunta

De onde essa gente vem

São jardineiros

Guardas-noturnos, casais

São passageiros

Bombeiros e babás

Já nem se lembram

Que existe um Brejo da Cruz

Que eram crianças

E que comiam luz

São faxineiros

Balançam nas construções

São bilheteiras

Baleiros e garçons

Já nem se lembram

Que existe um Brejo da Cruz

Que eram crianças

E que comiam luz

Cartapácios…

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São três volumes. São três volumes encorpados. São três volumes bem encorpados. Encorpados como aqueles volumes que as professoras e professoras indicavam para a temida leitura, seguida da mais temida ainda prova de leitura. A partir do quarto ano primário esse purgatório começava. Era mesmo um purgatório, mas fazia com que ao final do período de formação, a gente já tinha lido basicamente os clássicos da Literatura Brasileira e, com um pouco de sorte, alguma coisa de Vieira, Camões e Eça. Sim, já houve este tempo. A gente entrava para o jardim de infância e ficava por um ano. Depois fazia quatro anos de curso primário. Daí havia a “admissão” que podia ser feita através de provas ao fim de um mês, seis meses ou um ano de curso. Minha ,mãe optou pelo curso anual, que fiz no Colégio Salesiano – àquela altura só admitia meninos – onde também fiz os dois primeiros anos do curso ginasial. os dois últimos foram feitos no grupo escola Odilon Behrens (neste eu fiz os dois primeiros anos do curso primário, os dois últimos cursei no Grupo escolar Maurício Murgel). Daí a gente entrava para o segundo grau: científico, técnico ou clássico. Fiz dois anos do científico na Escola estadual Milton Campos – o famoso Colégio estadual, dirigido com mão de ferro pelo saudoso Elias Murad. os dois primeiros. Fui reprovado no segundo ano e ingressei na Escola Técnica, hoje Instituto federal de Educação Técnica (ou será tecnológica?). Completei o Curso de Edificações e ingressei na Universidade aos 23 anos de idade. Isto parece ser uma coisa inimaginável para a “galera”… Mas já tínhamos lido muito mais que toda essa geração…

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Vou deixar a conversa mole de lado e vou voltar ao que me interessa hoje: os três volumes encorpados. São três volumes encorpados, reunidos numa caixa de papelão. Foram publicados pela Editora Vozes. São mesmo grandes os volumes. Em média, 600 páginas cada um. Não é livro de um autor só. É uma tradução de obra publicada em Francês originalmente. A primeira edição é de 2006. A obra tem três “diretores”: Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello. História do corpo é o título. Trata-se de trabalho coletivo de historiadores que vasculham acervos e alfarrábios e bibliotecas e… e… e… com o intuito de esboçar uma História do corpo desde a antiguidade até a atualidade. Interessantíssimo. Não são tratados sobre o corpo, mas estudos – leves, concisos, claros e fluidos – sobre os diversos matizes desse conceito encarnado que parece ser ainda tão desconhecido apesar dos avanços da “ciência”. Passando pela sacralização do corpo eucarístico e suas variantes, desde a Idade Média, chegando aos esterótipos de beleza, celebridade e sexualização do mesmo corpo. Um painel rico, variado, multifacetado, organizado com mãos de maestro pelos três diretores. Uma leitura mais que agradável.

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Aviso: não é leitura para quem acredita que escrever número reduzidíssimo de palavras no micro espaço do Tweeter seja exercício de criatividade, talento e modernidade…

Domingo

Está a terminar mais um dia bobo. Domingo é o dia mais bobo da semana. Isso não quer dizer que seja o pior ou o melhor dia. Não. É apenas, para mim (e minha chatice) o dia mais bobo. Não gosto de domingos. Fico olhando para minha mãe, como controle remoto da televisão na mão… “zapeando”. As aspas se justificam… Tenho preguiça dessas palavras criadas em Língua Portuguesa a partir de outras (sem muito sentido explícito em Português) em língua estrangeira. Não gosto. Uso. Porque estou vivo e porque a Língua é alguma coisa viva. Acaba-se mais um domingo. Pois olho para minha mãe com o controle remoto da televisão, zapeando, matando o tempo. Tempo que, para ela, em certa lógica de pensamento, é mais curto, menor, mais célere. Estou vinte anos atrás, mas já sinto a velocidade do encurtamento do efeito de Cronos… Assim, pensei num poeta português de quem já ouvi falar bastante, mas ainda não conheço muito: Miguel Torga. Na modorra de final do dia mais bobo da semana, termino com um poema dele.

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Quase um poema de amor (Miguel Torga, Diário V)

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

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