Chatices…

“Hum… Se não… Que preguiça… Dá assim um calundu, um quebranto, um banzo… Uma vontade de não sei o quê… Daí volta da memória os cabelos curtamente cacheados e negros do Rodolfo. Seu sorriso sedutor, dizendo pra pegar o o caramelo no bolso da calça. Ó surpresa. Ou então o Rosemberg e seu aviso de que nunca tinha feito com outro homem. Era o segredo. E dá-lhe beijo molhado, sugado, lambido, a boca grande, a língua carnuda e forte – como suas pernas – e a boca redonda a devorar lábios outros, igualmente sedentos… E mais…

Não tenho paciência para a academia. Ver aquela gente se exibindo, como se o vestir-se daquele jeito – na prática, um uniforme – fosse o passe de entrada para a fama, a celebridade, a juventude, a alegria, a energia. O sucesso. Sei… Não que as veias saltadas em braços, pernas e peitos não fosse excitante. Mas a exibição. As pernas grossas, os pés bonitos, as mãos grandes… excitantes… mas a exibição… ai que preguiça…

Quatro séries e dez voltas caminhando pelo perímetro da casa. Suficiente. Não andam dizendo a toda hora que “atividade física” é remédio para qualquer doença. Quem acreditar piamente e tentar levar ao pé da letra, logo, logo, vai deparar-se com senões. Come-se aquilo mas não isso; não é compatível… Tudo convenção recoberta de pesquisa” científica”… sei não…

Sei não… o Inverno nem bem deu suas caras e as temperaturas já estão altas de novo. Ai que preguiça. A proverbial síndrome de Macunaíma. Como é mesmo o seu dito? A saúde e a saúva os males do Brasil são. Ou seria A saúva e a saúde. Sei não… Não vou procurar no Dr. Google. Preguiça… Fico apenas com um poema de Cesário Verde:

download

Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
       Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
       E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
       E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
       Mal ganha para sopas…

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
       Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
       Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
       Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
       Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
       Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
       Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
       Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
       Os meus alexandrinos…

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
       E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
       Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
       Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
       Todas as minhas obras…

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia…
       Que mundo! Coitadinha!

images

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s