Memórias e desencontros

A bem da verdade, devo dizer que essa história começou bem antes de sua materialização. Já tinha ouvido falar de António Nobre. Foi em 1996, quando me inscrevi para o concurso de provas e títulos para o provimento de uma vaga de professor (então) adjunto da universidade federal de outro planeta, popularmente conhecida como UFOP. Para a prova didática, caiu-me um ponto (um dos híbridos que compunham o programa) sobre ele: Dois aspectos da poética da dor: Alphonsus de Guimarães e António Nobre. Do primeiro, sabia que era simbolista, que havia vivido em Mariana e que era autor de um soneto muito lido no primeiro e segundo graus: “A catedral”. Do segundo, sabia que era poeta português, e mais nada! Foi um parto. Mas a presidente da banca confidenciou-me que me deu dez na prova didática – junto com os outros quatro membros – porque, disse-me ela, que eu dei provas de que sabia me sair muito bem de situações difíceis. Tomei isso como elogio. Depois veio o período de aulas de Literatura Portuguesa até que me encafifei com um artigo publicado lá longe, nos rincões peninsulares que falava da amizade de António Nobre e Alberto de Oliveira. Atenção, este último não é o mesmo de Saquarema, contemporâneo de Olavo Bilac e Raimundo Correia. É outro, bem outro… Mesmo tendo lido que suas cartas tinham sido queimadas – as de Alberto para António – encasquetei e me mandei para Coimbra onde fiquei seis meses. Lá chegando constatei que havia me equivocado na leitura do livro em que se publicaram todas as cartas de António Nobre. Mas a gente sabe que tudo que se afirma sobre qualquer coisa é absolutamente relativo… Contradição em termos?

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Isso é coisa bem parecida com a minha escolha para Leitor de Português na Universidade de Zagreb, na Croácia. Já havia estado naquele país em 2004, perto do final de um périplo marítimo de 12 dias, feito com um casal de amigos. O penúltimo porto, Dubrovnik, deslumbrante cidade, ficou indelevelmente marcado em minha memória afetiva. Antes disso, em 1998, quando estive em Portugal pela primeira vez, especificamente em Lisboa – quando aproveitei as delícias de passear pelas ruas e avenidas da “cidade da EXPO” que lá se construiu – ao visitar o pavilhão da Croácia, chorei como criança, chamando a atenção de duas freiras que, muito comovidas, me acompanhavam nas lágrimas. Estar no meio da sala de projeção instalada no pavilhão, vendo um filme em tela de 260 graus na qual se exibiam em sequência as imagens dos pescadores croatas no meio de um rio, cantando à capela – naquela língua incompreensível – as melancolias dos homens de pescaria… foi demais. Tenho quase a certeza absoluta que foi por conta disso que fui parar em Zagreb, lá ficando por dois anos e meio a praticar a Língua Portuguesa falada no Brasil, com aqueles estudantes divertidos e ávidos de informação e divertimento.

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Voltando à vaca fria, Alberto e António se escreveram durante um período de mais ou menos três anos. As cartas de António já estão publicadas, até prova em contrário, como já disse. Das de Alberto, encontrei mais três, para além daquelas mencionadas no livro de Guilherme de Castilho, editor responsável pela publicação em volume das cartas de António Nobre (este volume é considerado o mais completo, mas há três cartas analisadas por Vera Vouga, em artigo publicado na Revista Colóquio Letras, que não constam da edição de Guilherme de Castilho). Estas três cartas estão no acervo da Biblioteca Municipal Florbela espanca, em Matosinhos, cidade agradabilíssima, bem vizinha ao Porto. Mais uma vez, até prova em contrário, as cartas de Alberto de Oliveira foram queimadas. Sei não…

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